Austrália-2000: 2 horas após a corrida, Zonta celebra 1º ponto

Zonta fez uma prova de recuperação e completou a prova em Melbourne no mesmo pelotão de Villeneuve

Zonta fez uma prova de recuperação e completou a prova em Melbourne no mesmo pelotão de Villeneuve

Melbourne, 12 de março de 2000. Um local e um dia que marcariam para sempre a vida de Ricardo Zonta. Ali, naquela data, o brasileiro obteve seu primeiro ponto na Fórmula 1, após ficar com o sexto lugar no GP da Austrália, etapa de abertura do Mundial daquele ano. Entretanto, a celebração não foi imediata. Ao receber a bandeirada com seu BAR, figurava na sétima posição, colado em Mika Salo (Sauber), o sexto, Giancarlo Fisichella (Benetton), o quinto, e Jacques Villeneuve (BAR), o quarto. Enquanto seu time festejava os primeiros pontos de sua trajetória com Villeneuve, Ricardo lamentava o fato de ter ficado tão perto de estrear na zona de pontuação. Contudo, 2 horas depois da corrida, a direção de prova desclassificou Salo – as medidas do aerofólio traseiro de seu Sauber estavam fora das regras da FIA. Após a confirmação da eliminação do finlandês, Zonta pôde, enfim, comemorar junto ao pessoal da escuderia.

O top 6 em Melbourne-2000 parecia ser a ratificação de uma carreira pra lá de promissora. Nascido em 23 de março de 1976, na cidade paranaense de Curitiba, Zonta ingressou no esporte a motor aos 11 anos. Sob a influência do pai, Pedro Joanir, um piloto que competia em disputas no Paraná, começou no kart, categoria na qual foi bicampeão paranaense (1990 e 1991) e 4º lugar paulista (1992). Em 1993, iniciou nos monopostos, competindo pela Fórmula Chevrolet. No ano seguinte, passou a competir na Fórmula 3. Mas seria em 1995 que alcançaria o status de revelação brasileira, ao ser campeão nacional e sul-americano da Fórmula 3.

Zonta (2º da dir. para a esq.), com Hakkinen e Coulthard (ao centro) e um certo Lewis Hamilton (agachado, à dir.): a McKaren e sua base, em 1997

Zonta (2º da dir para esq), Hakkinen e Coulthard (centro) e Hamilton (agachado, à dir): McLaren em 1998

As vitórias levaram Zonta para a Europa, fazendo sua carreira deslanchar. Em 1996, partiu para a Fórmula 3000 Internacional. Logo na temporada de estreia, obteve o quarto lugar. No ano seguinte, veio o título na categoria de acesso à Fórmula 1. Como consequência do triunfo no campeonato, assinou contrato com a McLaren. Como para 1998 a dupla de pilotos do time de Ron Dennis já estava definida – Mika Hakkinen e David Coulthard -, Ricardo competiu no Mundial de FIA GT. Na categoria de protótipos, obteve o título ao lado do alemão Klaus Ludwig.

Aos 22 anos, o brasileiro tinha conquistas suficientes para almejar um lugar na Fórmula 1. E a oportunidade veio em 1999. Apesar de ainda ter contrato com a McLaren, Zonta aceitou o convite da BAR, que estrearia na categoria máxima do automobilismo depois de assumir o espólio da Tyrrell, que havia encerrado suas atividades em 1998. Com suporte financeiro da British American Tobacco, o novo time era capitaneado por Craig Pollock, e tinha Jacques Villeneuve, o campeão de 1997, como principal estrela. Apesar das expectativas, a equipe não anotou nenhum ponto. Para piorar, o brasileiro sofreu um grave acidente nos treinos para o GP do Brasil, em Interlagos, ficando de fora de três etapas. Seu melhor resultado foi um oitavo lugar no GP da Europa, em Nurburgring.

Em 2000, a BAR substituiu os motores Supertec pelos propulsores Honda: ganho de performance já visto na Austrália

Em 2000, a BAR trocou o motor Supertec pelo Honda: ganho de performance já visto na Austrália

Em 2000, as coisas melhoraram na BAR. Os ultrapassados motores Supertec foram substituídos pelos propulsores Honda, que retornariam à Fórmula 1 depois de oito anos – em 1992, rompeu vitoriosa parceria com a McLaren. Além do novo motor, o modelo BAR 002 se mostrou eficiente na pré-temporada, em Kyalami, enchendo Zonta e Villeneuve de confiança. Todavia, o verdadeiro teste do novo carro só se daria em Melbourne, palco do GP da Austrália. Ao desembarcar no país da Oceania, o brasileiro demonstrava ansiedade, segundo material da Agência Estado, divulgado em 10 de março de 2000: “Tudo leva a crer que esse ano será bem melhor do que 1999, mas só amanhã (sexta) saberei quanto melhor”. No primeiro dia de treinos, Ricardo anotou 1m33s847, o nono melhor dos testes, a 1s717 de Michael Schumacher (Ferrari), o mais veloz com 1m32s130.

O tempo de sexta deixou Zonta confiante para a sessão que definiria o grid, no sábado. Todavia, nada deu certo para o brasileiro. “Tomamos um caminho errado no set up esta manhã, o que tornou impossível fazer uma comparação de comportamento entre os pneus novos e os usados. Isso teria nos ajudado na classificação”, lamentou Ricardo, de acordo com texto publicado no site Grand Prix. Resultado do equívoco: um tímido 16º lugar na sessão oficial em Melbourne, com 1m33s117, a 2s561 de Mika Hakkinen (McLaren), pole com 1m30s556, e a 1s149 de Villeneuve, seu companheiro de BAR e oitavo no grid, com 1m31s968. Diante da boa performance do campeão de 1997 e da possibilidade do canadense em marcar os primeiros pontos da história da escuderia, o paranaense foi relegado a segundo plano pela equipe.

Largada do GP da Austrália de 2000, em Melbourne: Zonta largou em 16º, e ganhou duas posições na volta 1

Largada do GP da Austrália de 2000, em Melbourne: Zonta largou em 16º, e ganhou duas posições na volta 1

A corrida

Apesar das desconfianças que pairavam sobre Zonta, o brasileiro da BAR estava determinado a fazer um bom papel no GP da Austrália. Quando a largada foi dada, Ricardo saltou para o 14º lugar, superando Alexander Wurz (Benetton) e Nick Heidfeld (Prost). O paranaense permaneceu ali até a volta 7. Na passagem seguinte, uma quebra na suspensão dianteira do bólido de Pedro de la Rosa (Arrows) fez com que o espanhol sofresse um acidente, levando consigo Eddie Irvine (Jaguar). Além disso, Jos Verstappen (Arrows) foi para o fim do pelotão, elevando Zonta para a 11ª posição. O incidente com De La Rosa – que havia sido sexto na etapa do ano anterior – fez com que o safety car fosse acionado e permanecesse na pista por três voltas.

A relargada ocorreu na volta 11, com uma surpresa: David Coulthard (McLaren), segundo na corrida, viu seu motor Mercedes entrar em letargia, e foi obrigado a abandonar. Sem o britânico, Zonta ingressou no top 10 em Melbourne. Ali prosseguiu até a volta 18, quando o companheiro de Coulthard, Mika Hakkinen (McLaren), líder da prova, também sofreu com a quebra do propulsor alemão. Assim, Ricardo assumiu a nona colocação. O ritmo do brasileiro da BAR era convincente, mas incapaz de ameaçar Ralf Schumacher (Williams), oitavo lugar. Dessa forma, a estratégia de parada nos boxes passou a ser fundamental para as pretensões de Zonta na Austrália. Como todos tinham a tática de um pit stop, a escolha do momento para trocar pneus e reabastecer seria imprescindível.

Com a quebra dos adversários, o brasileiro da BAR passou a flertar com os pontos

Com a quebra dos adversários, o brasileiro da BAR passou a flertar com os pontos em Melbourne

Na volta 30, Mika Salo (Sauber) se encaminhou para os boxes. Com isso, Zonta subiu para oitavo. Com a parada de Rubens Barrichello (Ferrari), na volta 34, Ricardo foi para sétimo. Todavia, na passagem seguinte, a BAR chamou o brasileiro para seu pit stop. Quando retornou à pista, o paranaense se viu na nona posição, colado em Salo. Com pneus novos, o brasileiro ultrapassou o finlandês da Sauber para retomar o oitavo lugar. Na volta 39, problemas hidráulicos tiraram Heinz-Harald Frentzen (Jordan) da corrida, fazendo com que Zonta alcançasse a sétima colocação. A partir dali, Ricardo sofria forte pressão de Salo, e a batalha para ingressar na zona de pontuação acabou sendo deixada de lado.

Contudo, a sorte parecia sorrir para o brasileiro. Na volta 46, o motor BMW deixaria o estreante Jenson Button (Williams) na mão. Sem o britânico, Zonta passou a ocupar o sexto lugar. Porém, Salo intensificava as investidas sobre o piloto da BAR. Na volta 50, Mika deu o troco em Ricardo, que caiu para sétimo. A partir daí, o finlandês da Sauber passou a imprimir um forte ritmo, trazendo consigo Zonta e Wurz, e colou em Giancarlo Fisichella (Benetton), que, por sua vez, era barrado por Jacques Villeneuve (BAR). Nas últimas voltas, Villeneuve, Fisichella, Salo, Zonta e Wurz travaram uma acirrada disputa. Todavia, o canadense levou a melhor, ficando em quarto, 0s718 à frente do italiano, o quinto. Giancarlo, por sua vez, recebeu a bandeirada com 0s459 de vantagem sobre o finlandês. À Ricardo, restou o sétimo lugar, a 0s844 do tão sonhado ponto.

Apesar dos esforços, Zonta não conseguiu segurar Salo e perdeu o sexto lugar na pista: 2h depois da corrida, recuperou a posição

Zonta não conseguiu segurar Salo e perdeu o sexto lugar na pista: 2h depois da corrida, recuperou a posição

Porém, aqueles oito décimos evaporariam 2 horas depois da bandeirada. Salo foi desclassificado, por irregularidades na asa traseira de seu Sauber. Dessa forma, Zonta conquistava seu primeiro ponto, recebendo a posição que havia perdido na pista. “É o meu primeiro pontinho, tenho que comemorar. Minha alegria é mais pelo ponto do que pelo desempenho do carro. O Salo me ultrapassou muito fácil”, afirmou Zonta, à edição de 13 de março de 2000, da Folha de S. Paulo. “Mas, começar o ano assim, já nos deixa com um bom astral”, analisou o brasileiro, destacando que a BAR havia sido a equipe que mais tinha evoluído após 1999 – depois de não marcar pontos em seu ano de estreia, o time já tinha quatro após Melbourne, sendo um de Ricardo e três de Villeneuve.

2000 seria promissor para Zonta? Nada disso. Após muitas dificuldades durante as primeiras provas do ano, o brasileiro viveu um verdadeiro martírio no GP da Alemanha, em Hockenheim, dando fim a qualquer possibilidade de consolidar sua carreira na Fórmula 1. Apesar do conturbado futuro que estava por vir, o ponto obtido em Melbourne teve um sabor especial para Ricardo.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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