Alemanha-2000: Zonta vive martírio em dia de Barrichello

Zonta abusou do arrojo em Hockenheim: após flertar com o pódio, parou na brita

Zonta abusou do arrojo em Hockenheim: após flertar com o pódio, parou na brita e encarou a fúria da BAR

30 de julho de 2000 é um dia especial para o automobilismo brasileiro. Afinal, marcou o retorno do pavilhão nacional ao topo da Fórmula 1 depois da morte de Ayrton Senna. Graças à primeira vitória de Rubens Barrichello (Ferrari), ocorrida no GP da Alemanha, em Hockenheim, o hino do Brasil voltou a ser entoado no ‘circo’. Se aquele domingo foi inesquecível para Rubens, o mesmo pode se dizer para um compatriota do vencedor. Entretanto, ao invés de celebração por um triunfo, Ricardo Zonta (BAR) vivenciou um verdadeiro inferno no autódromo alemão. Depois de se envolver em um acidente com seu companheiro de equipe, Jacques Villeneuve, Zonta abandonou a corrida a oito voltas do fim, quando estava prestes a ingressar no top 3. O sonho de dar o primeiro pódio à BAR se tornou pesadelo. Após o desastre na prova germânica, Zonta caiu em desgraça no time.

Ricardo vivia sua segunda temporada na categoria máxima do automobilismo. No primeiro ano, em 1999, nem Zonta, tampouco a BAR, pontuaram em suas estreias. Para piorar, o brasileiro sofreu um grave acidente nos treinos para o GP do Brasil, em Interlagos, ficando de fora de três etapas. Seu melhor resultado foi um oitavo lugar no GP da Europa, em Nurburgring. Em 2000, as coisas melhoraram na BAR. Os ultrapassados motores Supertec foram substituídos pelos propulsores Honda. Além disso, o modelo BAR 002 se mostrou mais eficiente. Logo na estreia do Mundial, no GP da Austrália, em Melbourne, os dois carros da escuderia figuraram no top 6. Jacques ficou em quarto, enquanto Ricardo obteve o sexto lugar – foi seu primeiro ponto na F1.

Antes de chegar ao GP da Alemanha, a BAR tinha 12 pontos, sendo 11 de Villeneuve e apenas 1 de Ricardo

Antes de chegar ao GP da Alemanha, a BAR tinha 12 pontos, sendo 11 de Villeneuve e apenas 1 de Ricardo

Apesar dos avanços da escuderia, Zonta enfrentava muitos problemas. Quando chegaram em Hockenheim, Villeneuve era sétimo na classificação, com 11 pontos. Ricardo, por sua vez, só tinha o pontinho de Melbourne. Diante do baixo desempenho e de uma série de acidentes, o curitibano passou a ser contestado pela equipe. Logo, era crucial um bom desempenho no circuito alemão. Quando os carros pretendiam partir para a pista, na sexta-feira, surgiu um outro obstáculo. Todavia, era um desafio em comum para todos do grid: a chuva despencou forte em Hockenheim. A previsão era de pista molhada para  o fim de semana. Logo, adaptar-se ao circuito molhado foi a principal missão de Zonta.

No sábado, porém, a sessão definitiva começou com o asfalto úmido. A fim de não sofrer com a pista encharcada, praticamente todos os carros foram para a tomada de tempos. Logo, Ricardo anotou 1m48s665, ficando com a 12ª posição do grid. A marca do brasileiro foi 0s544 inferior à obtida por Jacques, nono com 1m48s121, e 2s968 mais lenta que a de David Coulthard (McLaren), pole com 1m45s697.

Acidente na largada tirou Schumacher e Fisichella, fazendo com que Zonta alcançasse o nono lugar

Acidente na largada tirou Schumacher e Fisichella, fazendo com que Zonta alcançasse o nono lugar

A corrida

Tarde de domingo em Hockenheim. Com tempo nebuloso, os carros alinharam para a largada do GP da Alemanha. A chuva era esperada, mas não se sabia quando ela daria as caras. Quando as luzes vermelhas se apagaram, Michael Schumacher (Ferrari) e Giancarlo Fisichella (Benetton) se chocaram na freada da Curva 1. Ambos deixaram a corrida. Sem os dois, Zonta se aproveitou para superar Alexander Wurz (Benetton), fechando a volta 1 em nono, imediatamente atrás de Villeneuve. Na passagem seguinte, todavia, tanto Ricardo quanto Jacques perderiam uma posição para Rubens Barrichello (Ferrari). O ferrarista, que largou em 18º depois de enfrentar problemas na classificação, não tomava conhecimento dos adversários e abria caminho rumo às primeiras colocações.

Na volta 7, o brasileiro da BAR perdeu posição para outro que havia encarado dificuldades na sessão de sábado – Heinz-Harald Frentzen (Jordan), 17º no grid, tomou o 11º lugar de Zonta. Quatro voltas depois, outro alemão, Ralf Schumacher (Williams), superou o curitibano. Na volta 13, Johnny Herbert (Jaguar) deixou a etapa com problemas de transmissão. O abandono do inglês recolocou Ricardo na 11ª posição, permanecendo ali até a volta 21. Com o pit stop de Ralf, Zonta recuperou o 10º lugar. Na volta 24, as paradas de Eddie Irvine (Jaguar) e Jos Verstappen (Arrows) fizeram com que o brasileiro alcançasse o oitavo posto.

Após a relargada, na volta 30, Villeneuve foi muito pressionado por Zonta

Após a segunda relargada, na volta 31, Villeneuve (1º do pelotão) passou a ser muito pressionado por Zonta

Duas voltas depois, algo surreal aconteceu: um ex-funcionário da Mercedes invadiu a pista. Ele protestava contra sua demissão. Para retirar o homem, foi acionado o safety car. Ricardo partiu para os boxes. No retorno, estava em nono. A relargada ocorreu na volta 28. Na passagem seguinte, Zonta foi para cima de Ralf, depois de o alemão ter sido ultrapassado por Villeneuve. Na ânsia de se manter na perseguição ao canadense, o curitibano colocou o piloto da Williams para fora da pista na freada da primeira chicane – o irmão mais novo de Schumacher despencou para o fim do pelotão. Na sequência, um acidente envolvendo Pedro Paulo Diniz (Sauber) e Jean Alesi (Prost) fez com que o safety car entrasse novamente no circuito.

A corrida ficou sob bandeira amarela por uma volta. Na 31, a bandeira verde foi agitada. Em oitavo, Ricardo voltou a perseguir Jacques. Foi exatamente naquele momento que a grande protagonista da prova decidiu dar o ar da graça. A chuva começou a cair na volta 34. Porém, a pista ficava molhada apenas em alguns trechos do extenso circuito de 6.823 metros. Diante da instabilidade climática, Zonta resolveu atacar Villeneuve na volta 35. Quando o brasileiro colocou por dentro, o canadense fechou a porta, pensando que o companheiro recuaria. Ledo engano. Pior para o campeão de 1997, que abandonou a prova.

Villeneuve e Zonta se chocaram na volta 35: era o início do fim da linha para o brasileiro na BAR

Villeneuve e Zonta se chocaram na volta 35: era o início do fim da linha para o brasileiro na BAR

Sem Jacques, e após avaliar que o melhor seria seguir na pista com pneus slick, Ricardo ganhou posições de Mika Hakkinen (McLaren), Jarno Trulli (Jordan) e Pedro de la Rosa (Arrows), que optaram por utilizar compostos próprios para chuva. Dessa forma, na volta 36, o brasileiro da BAR subiu para o quarto lugar. À frente dele, apenas Barrichello, Coulthard e Frentzen. Com um bom ritmo, parecia questão de tempo para Zonta alcançar David e Heinz-Harald. Todavia, a direção de prova decidiu puni-lo por fazer uma ultrapassagem durante o período sob bandeira amarela – o que é proibido.

Logo após o aviso, na volta 38, Ricardo entrou no trecho do Estádio – o mais molhado do circuito alemão – e perdeu o controle de seu BAR 002, parando na brita. Foi o fim do sonho do curitibano, e o começo de uma fase infernal para sua carreira na Fórmula 1. A vitória ficou com Barrichello, seguido por Hakkinen e Coulthard. Jenson Button (Williams), Mika Salo (Sauber) e De La Rosa completaram o top 6.

Explicações e paciência

À Zonta, restaram explicações e muita paciência para lidar com o turbilhão que se tornaria sua estadia na BAR. Segundo reportagem publicada na edição de 31 de julho de 2000, da Folha de S. Paulo, Villeneuve disparou diversas críticas contra o brasileiro. “A nossa estratégia estava dando certo até o Ricardo interferir. Não posso imaginar o que estava passando pela cabeça dele. Esse erro custou uma quinta e uma sexta posição. Seriam mais três pontos para a equipe no Mundial. Depois disso, não o respeito mais”, afirmou o canadense.

“Só bati em Jacques porque peguei uma zebra molhada”, defendeu-se Ricardo, na mesma edição da Folha. Sobre o acidente que o tirou da prova, no hairpin do Estádio, disse: “Fiquei desconcentrado porque a equipe me avisou, pelo rádio, que eu iria ser punido por ter ultrapassado em bandeira amarela. Sinto pelo ocorrido, porque poderíamos ter marcado alguns pontos”. Porém, quase nove anos depois, em entrevista dada ao Blog de Flavio Gomes, em janeiro de 2009, Ricardo deu uma outra versão sobre os acontecimentos em Hockenheim.

Ricardo foi muito criticado por Villieneuve depois do choque em Hockenheim

Ricardo foi muito criticado por Villeneuve depois do choque em Hockenheim

“Jacques estava muito lento na chuva, com pneus slick. Ele cometeu um erro na entrada da reta, e eu tentei passá-lo, porque se eu não tentasse, o que vinha atrás iria me ultrapassar. E aí, quando nós estávamos lado a lado na primeira curva, ele jogou o carro para cima de mim, e como eu já estava do lado, não deu para evitar a batida. Ele, então, pegou e falou no rádio que eu tinha de ter pedido permissão para ultrapassá-lo. E aí nós brigamos depois da corrida, e ele veio falar para mim dessa história de que tinha de ter pedido permissão. Nunca na minha carreira vi algo assim. O cara erra, e eu tenho de ficar esperando, tenho de ser escudo dele? E foi nesse momento do ano que nós cortamos relações totalmente”, afirmou o piloto.

Ainda ao Blog de Flavio Gomes, o curitibano observou que faltou sorte em sua trajetória na BAR. “Acho que o que aconteceu era que eu estava sempre no lugar errado, na hora errada, ou na hora certa, mas no lugar errado. Parecia que o momento nunca era o ideal ou que a sorte não estava 100%. Sempre tinha alguma coisa errada. Por exemplo, em Hockenheim-2000, quando o Rubens ganhou. Restavam poucas voltas para o final da corrida, eu chegaria ao pódio, quando quebrou o carro. É uma coisa que ninguém lembra, mas se eu tivesse conquistado aquele pódio, talvez, as coisas teriam sido diferentes. As equipes estavam ali. O resultado atrai coisas boas”.

Segundo seu empresário à época, Zonta já tinha acertado sua renovação com a BAR para 2001

Segundo seu empresário à época, Zonta já tinha acertado sua renovação com a BAR para 2001 e 2002

Ao tomar conhecimento das declarações de Ricardo, o seu manager em 2000, Geraldo Rodrigues, respondeu ao Blog do Flavio Gomes, em janeiro de 2009. “O GP da Alemanha foi uma prova muito mais importante do que parece para a carreira de Zonta. Antes da corrida, tínhamos já pronta e aprovada uma minuta de contrato para renovação de mais dois anos com a BAR. A renovação poderia ter sido tranquila. Rápido, o Ricardo sempre era. Mas naquela altura estava adquirindo fama de batedor. Tinha tido uma série de acidentes, e isso era preocupante, por que uma batida na F-1 não apenas tira as chances de pontuar, mas também custa muito caro. As equipes não querem pilotos assim. E a BAR estava em uma situação difícil. Precisava pontuar para ganhar os subsídios de transporte da organização, que valem muito dinheiro”, afirmou.

O ex-empresário de Zonta revelou ainda um pedido que fez ao piloto. “Antes da prova, eu o procurei e disse: ‘Dessa vez, tenta só terminar a corrida. Não arrisca hoje, precisamos apenas terminar. Com o contrato assinado, aí você manda brasa de novo’. Mas Zonta bateu. E não foi uma batida qualquer: ele bateu justamente com o Villeneuve. Tirou Jacques da prova. Voltas depois, ao contrário do que ele afirmou, Zonta bateu sozinho. A chuva apertou e ele passou direto no hairpin do Estádio. A equipe inteira ficou revoltada. Dos mecânicos aos engenheiros. Quando eu saía do autódromo, o Pollock me chamou e disse: ‘Esquece, Geraldo. Aqui, ele não corre mais’. Ficamos sem moral para tentar negociar qualquer coisa. E eu fiquei 15 dias sem falar com o Ricardo”.

Foi o fim da linha para Zonta na BAR. Depois de 2000, nunca mais o brasileiro iniciou uma temporada

Foi o fim da linha para Zonta na BAR. Depois de 2000, nunca mais o brasileiro iniciou uma temporada

O ambiente ficou insustentável na BAR. “Depois do que ocorreu, Villeneuve, muito irritado, passou a acusar o Zonta de pilotagem irresponsável. Era ruim um campeão do mundo falando mal de um companheiro praticamente novato”, disse o agente de Zonta. Independentemente do que motivou o choque com o canadense, e como se deu o abandono de Ricardo em Hockenheim, a trajetória do brasileiro na BAR encerrou-se ao fim de 2000. Depois, nunca mais iniciou uma temporada como piloto titular de um time na Fórmula 1.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
Esta entrada foi publicada em Alemanha, Arrows, BAR, Eddie Irvine, Heinz-Harald Frentzen, Hockenheim, Jacques Villeneuve, Jaguar, Jarno Trulli, Jean Alesi, Johnny Herbert, Jordan, Jos Verstappen, Mika Salo, Pedro de la Rosa, Pedro Paulo Diniz, Prost, Ricardo Zonta, Sauber. ligação permanente.

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