Austrália-1999: De la Rosa estreia e faz história com top 6

Pedro de la Rosa sobreviveu à prova conturbada em Melbourne e obteve improvável sexto lugar

Pedro obteve improvável 6º lugar em Melbourne, que o colocou na história do automobilismo espanhol

A história dos pilotos espanhóis na Fórmula 1 pode ser dividida em duas fases: pré-Fernando Alonso e pós-Fernando Alonso. Graças ao asturiano, a categoria máxima do automobilismo passou a ser mais apreciada no país ibérico. Sobretudo a partir de 2001 – ano de estreia de Alonso no ‘circo’. Antes de Fernando, porém, foram raras as tentativas de representantes da Espanha nas pistas mundo afora. De 1951, quando Francisco Godia-Sales se tornou o primeiro espanhol a correr na F1, até 1998, apenas sete pilotos haviam defendido as cores rubro-amarelas nos Mundiais. Além de Godia-Sales, Alfonso de Portago, Antonio Creus, Alex Soler-Roig, Emilio de Villota, Adrian Campos e Luis Perez-Sala se arriscaram na categoria. O melhor resultado neste período foi o segundo lugar de De Portago, com Ferrari, no GP da Inglaterra de 1956, em Silverstone. E só.

O panorama começou a mudar no fim de 1998. Graças a pujança econômica da Espanha, que contrastava com a crise financeira mundial, os pilotos revelados pelo país passaram a ter um trunfo na manga: patrocinadores interessados em bancar talentos locais na F1. Duas empresas espanholas, a petrolífera Repsol e a gigante das telecomunicações Telefónica, apadrinhavam Pedro de la Rosa e Marc Gené, respectivamente. As equipes nanicas, ávidas por investimentos, foram seduzidas pelo dinheiro. Enquanto a Repsol acertou apoio à Arrows, a Telefónica entrou em acordo com a Minardi. Com isso, De la Rosa e Gené se tornaram os dois primeiros espanhóis na Fórmula 1 em 10 anos – o último havia sido Luis Perez-Sala, que defendeu a Minardi, em 1989.

Antes de correr na F1, De la Rosa correu no automobilismo japonês

Antes da F1, De la Rosa correu no automobilismo japonês

Logo na reestreia espanhola na categoria máxima do automobilismo, um resultado surpreendente: Pedro levou a Arrows ao sexto lugar no GP da Austrália de 1999, em Melbourne. É bem verdade que o catalão, nascido em Barcelona, em 24 de fevereiro de 1971, contou com um expressivo número de abandonos para obter alcançar essa posição – dos 22 pilotos que alinharam no grid, apenas oito viram a bandeira quadriculada. Ainda assim, a regularidade do novato foi premiada com um ponto histórico – o primeiro de um piloto espanhol desde o GP da Inglaterra de 1989, quando Perez-Sala foi sexto em Silverstone, e o único da Arrows em toda a temporada de 1999.

O feito de De la Rosa em Melbourne foi um prêmio para um piloto que sempre lutou por um lugar ao sol. Nascido em Barcelona em 24 de fevereiro de 1971, Pedro ingressou nos monopostos aos 19 anos, na Fórmula Ford Espanhola, sagrando-se campeão já na temporada de estreia, em 1990. Em 1991, foi para a Fórmula Renault Espanhola, assegurando o título da categoria no ano seguinte. Em 1993 e 1994, disputou a Fórmula 3 Inglesa, mas não obteve resultados significativos. A falta de vitórias levou De la Rosa para o Japão em 1995. Na Ásia, disputou a Fórmula 3 Japonesa, e foi campeão logo em seu primeiro ano. No ano seguinte, se transferiu para a Fórmula Nippon, categoria na qual obteve o título em 1997.

O espanhol dividiu a Arrows com o japonês Toranosuke Takagi, que havia atuado na Tyrrell em 1998

O espanhol dividiu a Arrows com o japonês Toranosuke Takagi, que havia atuado na Tyrrell em 1998

Prestigiado em solo japonês, Pedro ganhou apoio da Honda para dar um passo definitivo rumo à Fórmula 1. Em 1998, se tornou terceiro piloto da Jordan, que tinha Damon Hill e Ralf Schumacher como pilotos oficiais. Pelo time de Eddie Jordan, o espanhol realizou mais de 4,5 mil km de testes naquele ano, dentro do programa de desenvolvimento dos motores japoneses. Com o know-how adquirido, somado ao apoio irrestrito da Repsol, De la Rosa passou a ser um nome cogitado para ingressar no grid em 1999. E, graças ao pacote “dinheiro e conhecimento”, Pedro ingressou na Arrows como primeiro piloto do time – seu companheiro na escuderia seria o japonês Toranosuke Takagi.

De la Rosa e Takagi embarcaram para Melbourne, palco do GP da Austrália, etapa de abertura do Mundial, conscientes de que não teriam vida fácil em 1999. A Arrows, com seu motor próprio, não tinha potência em reta. A escuderia só era superior à Minardi. Com a superioridade dos adversários, Pedro e Tora passaram a travar um duelo particular no circuito de Albert Park. No qualifying, o japonês soube aproveitar a experiência adquirida em seu primeiro ano na F1, em 1998, na Tyrrell, e superou o espanhol por exímios 62 milésimos – Takagi anotou 1m34s182, contra 1m34s244 de De la Rosa.

Nos treinos em Melbourne, Pedro foi superado por Tora:  modesto 19º lugar no grid

Nos treinos em Melbourne, Pedro foi superado por Tora: modesto 19º lugar no grid

A disputa equilibrada não ajudou a Arrows: Tora ficou com o 18º lugar no grid, e Pedro, com o 19º. Para se ter uma ideia, a dupla do time britânico ficou a 3s7 de Mika Hakkinen (McLaren), o pole em Melbourne. A enorme distância para os demais carros destruiu qualquer perspectiva para o GP da Austrália. Só uma hecatombe seria capaz de colocar De la Rosa e Takagi na zona de pontos. Apenas uma incrível combinação de situações tornaria os patinhos feios do sábado em destacados personagens no domingo. Nem o espanhol, tampouco o japonês, sabiam que aquele 7 de março de 1999, dia do GP da Austrália, seria especial…

Na largada, De la Rosa passou ileso pelos acidentes e completou a volta 1 em 12º

Na largada, De la Rosa passou ileso pelos acidentes e completou a volta 1 em 12º

A corrida

Antes do apagar das luzes vermelhas, o azar pairou sobre alguns carros do grid. Logo de cara, a dupla da Stewart, Rubens Barrichello e Johnny Herbert, viu os motores Ford de seus carros explodirem ao mesmo tempo. O procedimento de largada foi paralisado. Barrichello teve que largar nos boxes, e Herbert sequer correu. Na volta de apresentação, Michael Schumacher (Ferrari) e Takagi ficaram parados no grid. O alemão foi obrigado a sair da última fila, ao lado do japonês. A ausência de Tora trouxe mais tranquilidade a De La Rosa, que partiu com cautela na largada.

Porém, o espanhol viu Damon Hill (Jordan) e Jean Alesi (Sauber) se enroscarem. O acidente atrapalhou Alessandro Zanardi (Williams) e Alexander Wurz (Benetton), e Pedro se aproveitou disso para assumir o 12º lugar já na volta 1. Um início promissor, mas nada espetacular – até porque à frente do ibérico da Arrows estava Luca Badoer (Minardi). Na volta 3, De La Rosa fez valer seu melhor equipamento e ultrapassou o italiano, assumindo o 11º posto. A partir dali, Pedro nada mais podia fazer. Aos poucos, quem fazia prova de recuperação alcançou o espanhol. Na volta 9, Schumacher superou De La Rosa. Três voltas depois, foi a vez de Barrichello ultrapassar Pedro.

O espanhol da Arrows foi regular e contou com o abandono dos adversários para chegar ao top 6

O espanhol da Arrows foi regular e contou com o abandono dos adversários para chegar ao top 6

A sorte começou a sorrir para o espanhol na volta 13, quando ele ocupava o 13º lugar. Naquele momento, David Coulthard (McLaren), segundo colocado, abandonou a etapa australiana com problemas hidráulicos em seu bólido. Além do escocês, Jacques Villeneuve (BAR) deixou a prova após sofrer impressionante acidente – o carro do canadense perdeu a asa traseira, fazendo-o bater forte. O choque de Jacques fez com que o safety car fosse acionado, e elevou Pedro para o nono lugar. A relargada foi dada na volta 17, e De la Rosa manteve sua posição. Na passagem seguinte, foi a vez de Hakkinen enfrentar problemas no acelerador de seu McLaren, o que fez o finlandês abandonar a prova.

Sem Mika, o espanhol da Arrows foi para oitavo. Todavia, pressionado por Wurz e Ricardo Zonta (BAR), caiu para 10º na volta 21. Naquele instante, Zanardi sofreu acidente, e pela segunda vez, a bandeira amarela foi agitada em Melbourne. De la Rosa aproveitou para entrar nos boxes, o que o fez despencar na classificação. Após a relargada, na volta 25, Pedro era o 11º. Pressionado, se livrou do acidente entre Marc Gené (Minardi) e Jarno Trulli (Prost) e manteve sua posição – a penúltima, uma vez que só haviam 12 carros na pista. Na volta 27, Schumacher sofreu com um furo no pneu traseiro de sua Ferrari, fazendo-o cair para o último lugar. Na mesma passagem, Pedro Paulo Diniz (Sauber) abandonou a corrida, o que colocou De la Rosa na nona posição.

De la Rosa alcançou a sexta posição na volta 31, e chegou a andar em quarto

De la Rosa alcançou a sexta posição na volta 31, e chegou a andar em quarto

Com as paradas nos boxes de Takagi e Zonta na volta 30, e com o stop and go de Barrichello na 31, o ibérico ascendeu à sexta posição. De repente, Pedro era alçado à zona de pontuação. Na passagem seguinte, Badoer fez novo pit stop, e De la Rosa subiu para o quinto lugar. Demais? Nada disso. Após a parada de Giancarlo Fisichella (Benetton), na volta 37, o espanhol da Arrows passou a ocupar uma espetacular quarta colocação. À frente dele, apenas Eddie Irvine (Ferrari), Heinz-Harald Frentzen (Jordan) e Ralf Schumacher (Williams). Em sua estreia, Pedro colocava um deplorável carro no top 4. Todavia, faltavam 20 voltas para o fim do GP.

De la Rosa fez de tudo para se manter na quarta posição. Entretanto, não tinha condições de medir forças com os adversários. O melhor seria manter uma toada regular para alcançar a zona de pontos em sua primeira prova na Fórmula 1. E assim o fez. Na volta 40, foi ultrapassado por Fisichella. Três voltas depois, perdeu o quinto lugar para Barrichello. A partir dali, passou a administrar a diferença para Takagi. O japonês se aproximou perigosamente do espanhol, mas ficou a 1s9 do espanhol. Foi a melhor colocação da carreira do nipônico, mas restou um gosto amargo. Já Pedro ficou a 1m24s316 de Irvine, vencedor em Melbourne – Frentzen foi o segundo, e Ralf Schumacher completou o pódio.

Feito de Pedro igualou façanhas de Irvine, em 1993, Alesi, em 1989, e Donohue, em 1971

Feito de Pedro igualou façanhas de Irvine, em 1993, Alesi, em 1989, e Donohue, em 1971

O improvável sexto lugar de De la Rosa fez o espanhol se juntar a pilotos como o próprio Eddie Irvine, no GP do Japão de 1993, em Suzuka; Jean Alesi, no GP da França de 1989, em Paul Ricard; e Mark Donohue, no GP do Canadá de 1971, em Mosport: todos pontuaram em suas estreias na Fórmula 1. Além disso, Pedro se tornou o único piloto da Espanha a marcar pontos em sua primeira corrida na categoria máxima do automobilismo – algo que nem o campeoníssimo Fernando Alonso foi capaz de conquistar…

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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