Brasil-1976: Shadow, da sombra ao brilho do pódio com Pryce

Tom Pryce (à dir.), terceiro em Interlagos-1976: pódio coroou fim de semana incerto da Shadow

Tom Pryce (à dir.), terceiro em Interlagos-1976: pódio inesperado da Shadow, que encarava crise financeira

Em 25 de janeiro de 1976, a ensolarada São Paulo viu uma sombra pairar no pódio de Interlagos, palco do GP do Brasil daquele ano. A Shadow surpreendeu e fez bonito na etapa que abriu a temporada, alcançando o terceiro lugar com Tom Pryce. É bem verdade que o britânico contou com azares dos adversários para chegar no top 3. Entre os rivais combalidos, estava seu companheiro de equipe, Jean-Pierre Jarier. O francês dava um show à parte em Interlagos. Depois de assumir o segundo lugar, Jarier anotou a volta mais rápida da corrida e se aproximava de Niki Lauda (Ferrari) para tomar a ponta. Entretanto, na volta 33, um acidente arruinou com os planos do francês. Com o abandono de Jean-Pierre, Pryce herdou a segunda posição. Todavia, com pneus desgastados, não resistiu à investida de Patrick Depailler (Tyrrell), caindo para terceiro. Apesar de todos os percalços, Tom manteve seu DN5B em bom ritmo para obter seu segundo pódio na carreira, levando Don Nichols, chefe de sua equipe, ao delírio. Porém, aquele seria o único pódio da escuderia norte-americana no ano, e o último da trajetória do galês na Fórmula 1.

O resultado de Pryce ocorreu em momento crucial para a Shadow, que desembarcou em solo brasileiro mergulhada numa grave crise financeira. A equipe havia perdido seu principal patrocinador no fim da temporada de 1975 – a Universal Oil Products (UOP), uma empresa petrolífera, retirou seu investimento no time. Quando começaram a ser montados nos boxes de Interlagos, os bólidos da escuderia estavam totalmente negros, sem nenhuma inscrição na carenagem. Os carros eram lindos para quem os via, mas horríveis sob o ponto de vista administrativo – sem dinheiro, não haveria desenvolvimento no DN5B. Tanto Pryce quanto Jarier estavam preocupados com a situação econômica da equipe. Apesar disso, confiavam no poder de superação dos mecânicos da Shadow. Além disso, contavam com o retrospecto do time no ano anterior para almejar um bom resultado – em 1975, Jarier quebrou o recorde da pista e ficou com a pole do GP do Brasil.

Jean Pierre Jarier no cockpit do DN5B: Shadow estava belíssima (e quebrada financeiramente)

Jean-Pierre Jarier, no cockpit do DN5B, de 1976: a Shadow estava belíssima (e quebrada financeiramente)

Quando a pista foi liberada para a primeira sessão de treinos, na sexta-feira, a apreensão tomou conta da Shadow. Jean-Pierre completou uma volta e retornou aos boxes. Segundo a edição de 24 de janeiro de 1976, da Folha de S. Paulo, o francês teve uma quebra no diferencial de seu carro, ficando todo o período de 1h30 parado para conserto. Por sua vez, Tom deu 23 voltas no primeiro treino do dia, o que trouxe um alento para os mecânicos. Na segunda sessão da sexta, Jarier atacou as curvas do seletivo circuito brasileiro. Em 18 voltas, o francês anotou 2m33s74, a sexta melhor marca do dia, a 1s10 de Niki Lauda (Ferrari), o mais rápido com 2m32s64. Pryce ficou em 12º, com 2m34s84 – a 2s20 de Lauda e a 1s10 de seu parceiro de time.

A sexta foi satisfatória na pista, mas teve um excelente desfecho para a Shadow nos bastidores. De acordo com a Folha, “Don Nichols recebeu a visita de um dos diretores da Rino Publicidade para reunião no Hilton Hotel. Os dois acertaram que os carros de Pryce e Jarier, que treinaram na sexta sem nenhuma publicidade pintada, surgiriam para os treinos de sábado e para a corrida com os anúncios da BIC – Canetas e Isqueiros. Ficou acertado ainda que, de acordo com os resultados alcançados (retorno publicitário), a BIC poderia patrocinar a Shadow por todo o resto da temporada”. Diante do desempenho em Interlagos e com a concretização de um novo patrocinador, a escuderia ianque passou a ter estímulo de sobra para conquistar um grande resultado no GP do Brasil.

No sábado, a Shadow já exibia o patrocínio da BIC: melhor tempo da sessão livre de sábado, Jarier teve que se conformar com o 3º no grid

No sábado, a Shadow já exibia o logo da BIC: melhor da sessão livre, Jarier ficou com o 3º lugar no grid

Logo nos treinos livres de sábado, Jarier pulverizou a marca obtida por Lauda na sexta, anotando 2m32s38 – 26 centésimos mais rápido que o austríaco. Assim, o francês da Shadow se credenciava para conquistar a segunda pole position consecutiva em Interlagos. Porém, quando foi para valer, Jean-Pierre ficou com 2m32s66, um tempo 0s28 mais lento do que o da manhã. A leve piora fez com que perdesse a disputa pela pole por míseros 0s16. James Hunt (McLaren) assegurou o primeiro lugar com 2m32s50, seguido por Niki Lauda, com 2m32s52. À Jarier, restou a terceiro posição. Já Pryce não conseguiu melhorar seu tempo, mantendo o 12º lugar no grid com a marca de sexta, a longínquos 2s34 de Hunt.

Apesar de não ter levado a pole, a Shadow celebrou a ótima performance de Jean-Pierre. Afinal, graças ao piloto do carro negro número 17, a marca da BIC ficou em evidência em Interlagos. E havia a esperança de mais – para o domingo, o time norte-americano depositava todas as suas fichas de um bom resultado no francês, que ficou próximo de desbancar McLaren e Ferrari. Se Jarier desencantasse na corrida, havia a certeza de mais patrocinadores para bancar o grupo de Don Nichols no decorrer da temporada. Entretanto, mal imaginava o staff da Shadow que a solução dos problemas financeiros do time sairiam do meio do pelotão…

Com arquibancadas lotadas e calor intenso, 22 carros largaram para o GP do Brasil de 1976

Diante de arquibancadas lotadas e sob calor intenso, 22 carros largaram para o GP do Brasil de 1976

A corrida

Debaixo de um sol que superava a casa dos 32ºC e diante de uma arquibancada abarrotada de torcedores de Emerson Fittipaldi (Copersucar Fittipaldi) e de José Carlos Pace (Brabham), 22 carros partiram para a largada do GP do Brasil de 1976. Desafiar os 8 km do circuito paulistano e encarar o calor veranil eram missões das mais ingratas para os pilotos. Mesmo com esse impiedoso cenário, as disputas na primeira volta foram das mais árduas. Jarier foi superado por Clay Regazzoni (Ferrari), que assumiu a liderança da etapa brasileira, e por Vittorio Brambilla (March), caindo para o quinto lugar. Já Pryce ultrapassou Pace, Patrick Depailler (Tyrrell) e Jacques Laffite (Ligier) e assumiu o nono posto. O britânico estava empolgado. Na volta 2, superou Fittipaldi e John Watson (Penske), e contou com o toque de Jean-Pierre em Jochen Mass (McLaren) – que foi obrigado a ir aos boxes, despencando para o fim do pelotão – para alcançar o sexto lugar.

Em duas voltas, a dupla da Shadow se colocava na zona de pontos, algo inimaginável quando o time chegou aos boxes de Interlagos. A partir dali, o que viesse era lucro. Na ponta, Regazzoni ditava o ritmo de Niki Lauda (Ferrari), James Hunt (McLaren), Brambilla, Jarier e Pryce. Na volta 5, Jean-Pierre ultrapassou Vittorio, assumindo o quarto lugar. Duas passagens depois, foi a vez de Tom superar o italiano da March. Porém, o tempo perdido pelo britânico fez com que perdesse contato com o francês, que havia ingressado no pelotão principal da corrida. Na volta 9, Regazzoni sofreu um furo de pneu, e perdeu a liderança para Lauda. Depois, o suíço foi para os boxes, fazendo com que Jarier herdasse o terceiro lugar, e Pryce, o quarto.

Após bela largada, Pryce se colocou na zona de pontuação: duelo com Patrick Depailler (Tyrrell)

Após bela largada, Pryce se colocou na zona de pontuação: duelo com Patrick Depailler (Tyrrell)

Sem Clay à frente, Niki disparou na ponta. James, por sua vez, era pressionado por Jean-Pierre. Já Tom sofria com as investidas de Depailler. Com o passar das voltas, o calor se fazia cada vez mais presente. Hunt começou a perder o equilíbrio de seu McLaren. Na volta 27, Jarier partiu decidido e ultrapassou o inglês, assumindo o segundo lugar. Na 30, foi a vez de Pryce superar James. A Shadow ocupava a segunda e terceira posições em Interlagos. Não só isso: Jean-Pierre iniciava caça ao líder Lauda. A diferença do francês para o austríaco, que estava em 7s na volta 29, caiu para 1s9 na volta 33. Enfim, a vitória estaria batendo a porta da equipe de Don Nichols? Ledo engano: na volta 34, Jarier escapou na Curva do Sargento e bateu direto no guard-rail.

À edição de 26 de janeiro de 1976, da Folha de S. Paulo, o gaulês afirmou que seu bólido escapou em óleo deixado pelo McLaren de Hunt – que havia abandonado na volta anterior. “Eu não vi o óleo e quis frear mais em cima da curva, para me aproximar mais de Lauda. As duas rodas dianteiras ficaram bloqueadas, e o carro ficou sem direção, partindo direto para a proteção”, disse Jean-Pierre. Para o francês, todavia, restaria um consolo: ele fez a melhor volta da corrida, com 2m35s07, na volta 31.

Terceiro lugar de Pryce foi o melhor resultado da Shadow em 1976: último pódio do galês na F1

Terceiro lugar de Pryce foi o melhor resultado da Shadow em 1976: último pódio do galês na F1

Sem Jarier, Pryce assumiu o segundo lugar. Entretanto, o britânico sofria com o calor brasileiro e com a pressão de Depailler. Com os pneus desgastados, Tom não resistiu ao ataque de Patrick, e acabou caindo para o terceiro lugar, na volta 35 – a cinco do final. A partir daí, o piloto da Shadow passou a administrar a vantagem que tinha sobre Hans-Joachim Stuck (March) para assegurar um inesperado pódio. Ao lado de Lauda, o vencedor, e Depailler, o segundo, Pryce festejou bastante a façanha obtida em Interlagos. “Estive bem no começo, mas depois, quase no meio da prova, os pneus acusaram um gasto muito grande, e o carro começou a sair de traseira. Nas curvas de alta velocidade, quase nem conseguia me manter dentro do carro. Mesmo assim, foi sensacional para mim. As Shadow sempre andaram bem aqui, e prova disso é que fiquei a 24s de Lauda”, afirmou Pryce, à Folha.

Com o top 3 de Pryce, o retorno financeiro à Shadow foi garantido, certo? Não. Depois de Interlagos, a BIC desistiu de seguir com o apoio ao time norte-americano. Assim, Don Nichols precisou caçar apoiadores pontuais. Sem o desenvolvimento adequado, o desempenho minguaria com o decorrer da temporada. O terceiro lugar de Tom no Brasil foi o melhor resultado da equipe em 1976 – ao todo, a Shadow anotou 10 pontos no ano, todos com o britânico. Porém, uma coisa é certa: caso houvesse um investimento considerável, a escuderia alcunhada de Sombra tinha tudo para assombrar o ‘circo’ da Fórmula 1. Afinal, potencial e talentos no cockpit, ela tinha.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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