Europa-1999: Minardi chora com Badoer e vibra com Gené

Badoer (na imagem) estava em 4º quando abandonou;  a saída de Luca ajudou Gené a pontuar

Badoer (na imagem) estava em 4º quando abandonou; sua saída ajudou Gené a pontuar em Nurburgring

A Minardi foi uma escuderia que ficou estigmatizada por fechar os grids da Fórmula 1. Criada em 1985, viveu seu auge entre 1989 e 1994, quando teve, entre outros nomes, Pierluigi Martini e Christian Fittipaldi. Nesse período, parecia ser um time afim de chegar ao pelotão médio. Parecia. A partir do GP da Austrália de 1995, em Adelaide, quando o português Pedro Lamy herdou um sexto lugar, a equipe caiu em desgraça. Carros horrorosos e má organização não possibilitavam aos seus pilotos saírem das duas últimas posições do pelotão. 

Com esse cenário caótico, Luca Badoer e Marc Gené desembarcaram em Nurburgring, na Alemanha, para a disputa do GP da Europa de 1999. Pretensões da dupla: chegar ao fim da corrida. Até aquele 26 de setembro, a melhor posição da escuderia na temporada havia sido o oitavo lugar, conquistados nos GPs de San Marino, com Badoer, e do Canadá, com Gené (uma ressalva: diferentemente do que acontece hoje em dia, à época, só os seis primeiros pontuavam).

Gené (à dir.) e De la Rosa eram os representantes espanhóis na temporada de 1999

Gené (à dir.) e De la Rosa eram os representantes espanhóis na temporada de 1999

Mas, naquele domingo, uma revolução aconteceu na categoria máxima do automobilismo. Tudo estava fora da ordem. A começar pelo grid: Heinz-Harald Frentzen anotou a segunda (e última) pole da história da Jordan – a primeira foi com Rubens Barrichello em Spa-1994 -, com o tempo de 1m19s910. Enquanto isso, lá atrás, uma outra rebelião – um pouco menor, diga-se de passagem. Na penúltima fila, estavam Badoer, o 19º, com 1m22s631, e Gené, o 20º, com 1m22s760. Um bom treino, afinal, superaram os pilotos da Arrows – Tora Takagi e Pedro de la Rosa -, que sairiam nas duas últimas posições.

Com um grid “democrático” graças a um raro equilíbrio de forças, foi dada a largada. E logo no início, na Curva 2 de Nurburgring, um incidente provocou a entrada do safety car: Alexander Wurz (Benetton) desviou de Damon Hill (Jordan) e abalroou Pedro Paulo Diniz (Sauber). O brasileiro capotou. O santantônio do carro de Pedro Paulo foi destruído. Apesar da gravidade do acidente, Diniz nada sofreu.

Após a largada, Pedro Paulo Diniz (Sauber) sofreu um pavoroso acidente: brasileiro escapou ileso

Após a largada, Pedro Paulo Diniz (Sauber) sofreu um pavoroso acidente: brasileiro escapou ileso

O acidente que envolveu Pedro Paulo, Alexander e Damon atrapalhou a dupla da Minardi. Apesar do abandono do trio, nem Luca, tampouco Marc, avançaram na classificação. Enquanto o italiano figurava na tímida 17ª colocação, o espanhol era o 18º. Atrás dos dois, apenas Alessandro Zanardi (Williams), que escapou ileso da confusão da Curva 2. Na relargada, na volta 7, Zanardi ultrapassou Gené. Duas voltas depois, foi a vez do italiano da Williams superar o compatriota Badoer.

Na volta 9, os pilotos da Minardi fechavam o pelotão do GP da Europa. Esse quadro seria mudado na volta 11, quando De la Rosa foi para a última posição. Na mesma passagem, Zanardi sofreu um acidente e deixou a etapa. Dessa forma, Badoer subiu para 16º, e Gené, 17º. Ali permaneceriam até a volta 18, quando começou a chover sobre o autódromo alemão. A partir daquele instante, a corrida começou de fato para Luca e Marc.

Badoer e Gené andaram no mesmo ritmo, mas só se destacaram após o início da chuva

Badoer e Gené andaram no mesmo ritmo no início, mas só se destacaram após o começo da chuva

Na volta 19, Badoer superou Takagi e foi para o 14º lugar. Na volta 20, foi a vez de Gené ultrapassar o japonês da Arrows na volta 20. Apesar da pista molhada, a chuva não era intensa. Isso confundiu muitos pilotos, fazendo com que a classificação desse uma guinada. Badoer e Gené não foram aos boxes, o que acabou sendo fundamental para o destino deles na prova. Com as paradas equivocadas de Mika Hakkinen (McLaren), Eddie Irvine (Ferrari) e Olivier Panis (Prost), o italiano e o espanhol alcançaram o 10º e o 11º lugares, respectivamente, na volta 22.

Na volta 29, Jean Alesi (Sauber) fez seu pit stop e retornou à pista atrás de Badoer e à frente de Gené. Na volta 31, Marc foi ultrapassado por um insandecido Irvine, desesperado por se recuperar na etapa. Na passagem seguinte, Frentzen, que liderava a prova, abandonou com problemas elétricos em seu Jordan. Sem o alemão, e com o pit stop de Jacques Villeneuve (BAR), Badoer figurava numa incrível sétima posição na volta 34. Gené, por sua vez, permanecia na 11ª posição.

Quando a chuva começou em Nurburgring, Badoer decidiu não ir aos boxes: estratégia bem-sucedida

Quando a chuva começou em Nurburgring, Badoer decidiu não ir aos boxes: estratégia bem-sucedida

Neste instante, a chuva caiu mais intensamente sobre Nurburgring. Isso agitou os boxes das equipes. Na Minardi, a decisão foi de trazer seus carros e colocar pneus lisos. Foi a opção acertada, pois a pista não molhou suficientemente para pneus biscoito e, com o tempo, seria formado o trilho. Luca fez sua parada na volta 36, e retornou à pista em 10º, logo atrás de Marc. Na volta seguinte, o então líder, David Coulthard (McLaren), escapou da pista, bateu e abandonou a prova. Sem o escocês, Gené subiu para oitavo, e Badoer, para nono.

Na volta 41, Badoer superou Gené. Com a nova parada de Irvine – que, novamente, foi prejudicado pela estratégia errada da Ferrari -, o italiano apareceu em sétimo, seguido pelo espanhol. Marc parou nos boxes na volta 43, retornando à pista em nono, atrás de Eddie. Na passagem seguinte, o milagre aconteceu: com o novo pit stop de Villeneuve, Luca assumiu a sexta posição. Sim, a Minardi estava na zona de pontuação!

Com a Minardi, pior carro do grid, Badoer figurava em quarto lugar, quando o equipamento lhe traiu

Com a Minardi, pior carro do grid, Badoer figurava em quarto lugar, quando o equipamento lhe traiu

As coisas melhorariam ainda mais para Badoer. Na volta 48, Giancarlo Fisichella (Benetton), então líder da prova, vacilou e perdeu o controle do carro, saindo da pista e abandonando a corrida. Sem o italiano, Luca foi para quinto! A liderança caiu no colo de Ralf Schumacher (Williams). Porém, a alegria durou pouco para o alemão: ainda na volta 49, o pneu traseiro direito do seu carro estourou, e Ralf caiu para o quinto lugar.

E quem era o quarto colocado na volta 51? Luca Badoer. À frente dele, um trio bem-sucedido que costumava ficar no meio do pelotão: Johnny Herbert (Stewart), que largou em 14º, herdou uma confortável liderança; Jarno Trulli (Prost), que saiu em 10º e se viu em segundo; e Rubens Barrichello (Stewart), 15º no grid, estava em terceiro e colado em Trulli. Luca não tinha como alcançá-los, mas estava com uma boa vantagem sobre Ralf.

Badoer chorou copiosamente após abandonar em Nurburgring: única chance desperdiçada

Badoer chorou copiosamente após abandonar: única chance desperdiçada

Faltava pouco para o fim do GP da Europa. Badoer estava consolidado na quarta posição. Garantia de pontos? Jamais, afinal, o italiano guiava uma Minardi. Eis que veio a volta 54. Restavam 12 para a bandeirada. Numa troca de marcha, tudo acabou. Uma fumaça saiu do carro de Luca. Era fim de papo para ele. O italiano não acreditou. Ao parar o carro, a ficha caiu: Badoer desabou aos prantos. O fiscal de pista tentou consolá-lo. Em vão. Foi a melhor corrida das 51 disputadas por Luca na F1, e a única chance dele de conquistar pontos escapou de suas mãos.

Decepção na Minardi? Em parte. Sem Badoer, a escuderia apostava suas fichas em Gené. Com o abandono do italiano, o espanhol figurou pela primeira vez no top 6. Na volta 62, Marc assumiu o quinto lugar, graças ao abandono de Villeneuve. Todavia, sua posição não era nada confortável. Atrás de Marc, estavam Hakkinen e Irvine. Receber a bandeirada e não pontuar seria trágico. Na volta 64 – a penúltima em Nurburgring -, Gené não resistiu a Mika. O próximo foi Eddie.

Gené não resistiu ao ataque final de Hakkinen, mas segurou Irvine: ponto precioso

Gené não resistiu ao ataque final de Hakkinen, mas segurou Irvine: ponto precioso

Irvine bem que tentou, mas… não conseguiu. Gené ficou 1s5 à frente do ferrarista, assegurando o sexto lugar. Festa nos boxes da Minardi: foi o primeiro ponto após 63 GPs. Era o fim de um jejum que vinha desde o pontinho de Lamy em Adelaide-1995. E as celebrações seguiram pelo paddock: no box da Stewart, festa pela vitória de Herbert e terceiro lugar de Barrichello – foi a primeira e única vitória do time de Jackie Stewart, e o último pódio da escuderia britânica, que em 2000 se tornaria a Jaguar. Já na Prost, celebração por Trulli – também seria o último pódio do time de Alain Prost.

Apesar dos festejos e das surpresas de Nurburgring-1999, a imagem marcante foi a do copioso choro de Badoer. Lágrimas que, acima da decepção, demonstram a paixão pelo automobilismo. Veja a cena a seguir:

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
Esta entrada foi publicada em Alessandro Zanardi, Christian Fittipaldi, Europa, Jarno Trulli, Jean Alesi, Johnny Herbert, Luca Badoer, Marc Gené, Minardi, Nurburgring, Olivier Panis, Pedro de la Rosa, Pedro Lamy, Pedro Paulo Diniz, Pierluigi Martini, Prost, Rubens Barrichello, Sauber, Stewart, Tora Takagi. ligação permanente.

Uma resposta a Europa-1999: Minardi chora com Badoer e vibra com Gené

  1. Fantástica análise do GP. Relembrei todos estes momentos dessa corrida épica. Realmente deu muita dó do Badoer.

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