Argentina-1997: com polêmica, Ralf obtém primeiro pódio

Da esq. para a dir.: Irvine, Villeneuve e Ralf Schumacher: 1º pódio do alemão na F1

Irvine, Villeneuve e Ralf Schumacher: 1º pódio do alemão na F1 rendeu polêmica na Jordan

Estrear na Fórmula 1 nunca foi tarefa das mais fáceis. Então, imagine dar os primeiros passos na categoria máxima do automobilismo sendo constantemente comparado ao principal piloto do ‘circo’ – ninguém menos do que seu irmão? Essa foi a missão inglória de Ralf Schumacher (Jordan) em 1997. Desvencilhar-se de Michael Schumacher (Ferrari) acabou sendo o principal desafio da primeira temporada do alemão. Apesar da pressão, Ralf até conseguiu brilhar em algumas ocasiões. A primeira vez em que os holofotes miraram o germânico da Jordan veio logo em sua terceira corrida. No GP da Argentina de 1997, em Buenos Aires, o calouro surpreendeu ao conquistar o terceiro lugar. É bem verdade que Michael saiu de cena bem no início da etapa. Irmão mais velho à parte, o top 3 em solo portenho fez com que o piloto da Jordan inscrevesse seu nome na história: com seu primeiro pódio, Ralf se tornou o mais jovem a figurar num top 3. Com 21 anos, 9 meses e 14 dias, bateu em 17 dias o recorde de precocidade de Elio de Angelis, segundo no GP do Brasil de 1980, em Interlagos.

A marca de Ralf Schumacher perdurou por seis anos – ela acabou sendo batida por Fernando Alonso, terceiro no GP da Malásia de 2003, em Sepang. Ainda assim, o terceiro lugar em Buenos Aires-1997 rendeu elogios e polêmicas em torno do novato. Nascido em 30 de junho de 1975, em Kerpen, Ralf foi o segundo filho de Rolf e de Elisabeth Schumacher (o primeiro, vocês sabem quem é…). Assim como Michael, acabou sendo influenciado pelo pai a andar de kart. Por incentivo de Rolf, zelador do kartódromo de sua cidade natal, Ralf aprendia a pilotar na pista, que se tornou o quintal de sua casa. A partir daí, a semente do automobilismo se enraizou. Ralf decidiu seguir a trajetória do irmão, que já disputava competições em categorias menores do automobilismo.

Quando ingressou na F1, em 1997, Ralf vivia o dilema de ser comparado ao irmão Michael, o melhor piloto do 'circo'

Quando ingressou na F1, em 1997, Ralf vivia o dilema de ser comparado ao irmão Michael

Em 1991, Michael Schumacher estreava na Fórmula 1 no cockpit da Jordan, no GP da Bélgica, em Spa-Francorchamps. Naquele ano, Ralf conquistou a NRW Cup, a Gold Cup e o Campeonato Nacional de Kart (categoria júnior), todos na Alemanha. Em 1992, Michael obteve sua primeira vitória na F1 – no GP da Bélgica, em Spa. Ralf, por sua vez, alcançou o vice-campeonato alemão sênior de kart. Em 1993, Michael venceu pela segunda vez na F1 – no GP de Portugal, no Estoril. Por outro lado, Ralf estreou nos monopostos, sagrando-se vice-campeão da Fórmula BMW Junior. O bom desempenho fez com que o mais jovem da família Schumacher ganhasse um convite para testes na Fórmula 3 Alemã. Em 1994, Michael assegurou seu primeiro título mundial da F1. Já Ralf terminou em terceiro na F3 Alemã.  Em 1995, Michael era bicampeão mundial da F1. Por sua vez, Ralf obtinha o vice-campeonato da F3 Alemã e triunfava no tradicional GP de Macau.

Apesar da gradual ascensão no automobilismo, Ralf encarou uma drástica mudança em sua carreira. Em 1996, o empresário Willi Webber (que também assessorava Michael) colocou o alemão em categorias no Japão. Logo em sua estreia na Fórmula Nippon, Ralf conquistou o título – foi o primeiro estrangeiro a levantar o campeonato. Já no Campeonato Japonês de Turismo, obteve o vice-campeonato. Os bons resultados do germânico em solo nipônico refletiram diretamente na Fórmula 1. Weber conseguiu que Ralf testasse pela McLaren, em agosto, em Silverstone. Em setembro, o sonho da F1 se tornava realidade para o jovem Schumacher: a Jordan, equipe que cinco anos antes promovia a estreia de Michael na categoria, anunciava que Ralf assinava por três temporadas com o time.

Ralf chegou à F1 com o aval de Eddie Jordan: irlandês abriu as portas de Michael Schumacher em Spa-1991

Ralf tinha o aval de Eddie Jordan: irlandês fez o mesmo com Michael Schumacher em Spa-1991

O alemão ocuparia o cockpit de Rubens Barrichello – que se transferiu para a Stewart. Como companheiro de time, teria Giancarlo Fisichella – o italiano deixou a Minardi e passou a ocupar a vaga de Martin Brundle. Com a jovem dupla, Eddie Jordan esperava surpreender a todos em 1997. Porém, a impetuosidade de Schumacher e Fisichella deixaria o chefão irlandês em apuros. Na estreia de Ralf na F1, no GP da Austrália, em Melbourne, a caixa de câmbio do Jordan 197 do alemão resistiu a apenas uma volta. Já a participação de Giancarlo na prova australiana durou 14 voltas – o italiano abandonou após sofrer acidente. No GP do Brasil, em Interlagos, Ralf abandonou com problemas elétricos, enquanto Fisichella terminou num modesto oitavo lugar, fora da zona de pontos.

A terceira etapa do Mundial de 1997 seria um divisor de águas para Ralf e Fisichella. Havia muita expectativa da dupla da Jordan em torno do GP da Argentina, em Buenos Aires. Um circuito seletivo, onde o chassis e a boa potência do motor Peugeot poderiam fazer diferença. Além disso, a prova marcaria o 100º GP do time de Eddie Jordan. A fim de celebrar com um bom resultado, os pupilos do irlandês trataram de acelerar. Desde a sexta-feira, dia em que ocorreram os primeiros treinos no Autódromo Oscar y Juan Galvéz, o alemão e o italiano mostraram serviço. No sábado, Ralf mostrou arrojo e colocou seu Jordan 197 num incrível sexto lugar, com 1m26s218. Giancarlo ficou em nono, com 1m26s619 – a 0s401 de seu parceiro. O tempo do jovem Schumacher foi 1s745 inferior ao anotado por Jacques Villeneuve (Williams), pole com 1m24s473.

Largada do GP da Argentina de 1997, em Buenos Aires: confusão na largada quase vitimou Ralf

Largada do GP da Argentina de 1997, em Buenos Aires: confusão na largada quase vitimou Ralf

A corrida

O sol brilhava em Buenos Aires naquele domingo, 13 de abril de 1997. Cenário mais do que perfeito para a disputa da 600ª corrida da história da Fórmula 1. O grid do GP da Argentina contava com 22 pilotos, que tinham um único objetivo: completar as 72 voltas da prova portenha na melhor posição possível. Sexto colocado, Ralf Schumacher (Jordan) estava confiante de que poderia pontuar pela primeira vez na categoria máxima do automobilismo. Porém, o alemão não esperava que seu experiente irmão, então bicampeão mundial, pudesse protagonizar uma confusão logo nos primeiros metros da etapa: quarto no grid, Michael Schumacher (Ferrari) jogou seu bólido contra Olivier Panis (Prost). Na sequência, no contorno da primeira curva, tocou em Rubens Barrichello (Stewart), tirando o brasileiro da prova.

Atrás de Michael e Barrichello, veio o efeito-dominó: Ralf reduziu bruscamente para não bater no irmão mais velho, e atingiu David Coulthard (McLaren). O escocês também foi obrigado a abandonar. Apesar de todos os percalços, o alemão da Jordan ainda se manteve em oitavo – foi superado por Eddie Irvine (Ferrari), Giancarlo Fisichella (Jordan), Damon Hill (Arrows) e Johnny Herbert (Sauber). Para a retirada dos carros de Schumacher, Barrichello e Coulthard, a direção de prova determinou a entrada do safety car. A corrida ficou sob bandeira amarela por quatro voltas. Na volta 5, a relargada foi dada. Jacques Villeneuve (Williams) manteve a ponta, seguido por Heinz-Harald Frentzen (Williams), Panis, Irvine, Fisichella, Hill, Herbert e Ralf.

Ralf Schumacher supera Damon Hill por fora: bela manobra do alemão em Buenos Aires

Ralf supera Damon Hill por fora e assume 5º lugar: bela manobra do alemão em Buenos Aires

Na passagem seguinte, Frentzen encarou problemas na embreagem de seu Williams e foi obrigado a abandonar. Com isso, o alemão da Jordan subiu para sétimo. Na volta 7, Ralf ingressou na zona de pontos após ultrapassar Herbert. O ritmo do germânico impressionava. Logo após superar Johnny, o novato encostou em Hill. Campeão de 1996, o inglês sofria com a Arrows, mas mantinha um bom desempenho no início da prova argentina. Apesar disso, Ralf não se intimidou e partiu para cima de Damon. Na volta 8, numa manobra ousada, ultrapassou Hill por fora na freada para a curva 1 e subiu para quinto. Herbert acompanhou o alemão e assumiu o sexto lugar. Na volta 9, na ânsia de se aproximar de Fisichella para lutar pelo quarto posto, Ralf errou e acabou sendo superado por Herbert, caindo para sexto.

O inglês da Sauber mostrava boa forma em Buenos Aires, impedindo qualquer possibilidade de aproximação do alemão da Jordan. Porém, logo Ralf retornaria para o quinto lugar. Na volta 18, Panis, com problemas de motor, deixou a disputa. Na volta 22, os primeiros colocados começaram a se encaminhar para os boxes. Villeneuve fez seu pit stop e ainda retornou em primeiro, enquanto Herbert caiu para quinto. Assim, Ralf ascendeu para a quarta colocação. Com a parada de Irvine, na volta 24, o alemão subiu para terceiro. Na alça de mira do germânico, estava Fisichella. O ritmo do italiano caiu drasticamente, permitindo a aproximação de Ralf. O calouro queria o segundo lugar a todo custo. Porém, pagou pelo noviciado. Em um ponto totalmente improvável, Ralf tentou superar Giancarlo. O choque foi inevitável, e Fisichella parou na brita.

A Jordan ficou indignada com Ralf – que, apesar do acidente, assumiu o segundo lugar, perdendo 5s preciosos para o líder Villeneuve. A escuderia tinha razão: com seus dois carros com uma tática diferenciada, a possibilidade do pódio para a dupla era real. Ao estender a permanência na pista com pneus mais resistentes da Goodyear, o time de Eddie Jordan seria capaz de conquistar posições importantes. Para se ter uma ideia, na volta 25, a vantagem de Villeneuve sobre o alemão era de 9s5. Sete voltas depois, Ralf reduziu a diferença para 4s2. Com tanque vazio, o alemão foi obrigado a parar nos boxes na volta 35. No retorno à pista, se viu em sexto, atrás de Mika Hakkinen (McLaren) e Jean Alesi (Benetton), que ainda não haviam ido para os boxes. Na passagem seguinte, Alesi realizou seu pit stop, fazendo com que Ralf passasse para quinto. Com a segunda parada de Herbert, na volta 40, e a única de Hakkinen, na 41, o alemão retomou o terceiro lugar.

German Formula One pilot Ralf Schumacher drives his Jordan Peugeot to a third place in Argentine F1 Grand Prix at the Oscar Galvez speed track 13 April. AFP PHOTO/Daniel LUNA

Apesar do acidente com Fisichella, Ralf mostrou velocidade e bom ritmo em Buenos Aires-1997

Naquele instante, Ralf estava a 9s1 de Villeneuve, o segundo, e a 21s1 de Irvine, o líder, mas que precisaria fazer um segundo pit stop. Como Jacques não pararia mais, a disputa do alemão da Jordan era com o britânico da Ferrari. Na volta 45, Eddie realizou sua definitiva parada. No retorno, saiu exatamente à frente de Ralf. Com pneus novos, Irvine passou a ser inalcançável. A preocupação do germânico passou a ser manter a vantagem sobre Herbert, o quarto colocado. Na volta 50, a diferença era de 7s2. Dez voltas depois, a vantagem simplesmente dobrou (14s4). Além disso, Ralf passava a se aproximar de Villeneuve e Irvine – o canadense, líder da prova, segurava o britânico, segundo colocado.

A possibilidade de um acidente entre Jacques e Eddie existia, o que colocaria a vitória no GP da Argentina no colo de Ralf. Entretanto, Villeneuve controlou o ímpeto de Irvine, assegurando o triunfo em Buenos Aires. Eddie cruzou a linha de chegada a 0s9 de Jacques, enquanto o irmão mais novo de Michael Schumacher terminou a 12s do vencedor, celebrando o primeiro pódio de sua carreira, justamente na 100ª prova da Jordan. Porém, havia reclamações da escuderia. O choque com Fisichella e a perda de tempo com o acidente custaram uma posição ainda melhor para Ralf e para o time. Mesmo assim, a terceira posição foi um consolo importante para todos da escuderia irlandesa. Apesar de quase arruinar sua própria corrida pagando o preço do noviciado, Ralf Schumacher inscreveu seu nome na história ao pisar no pódio com pouco mais de 21 anos de idade.

Em Buenos Aires-1997, Ralf conquistou seus primeiros pontos na F1

Terceiro lugar em Buenos Aires-1997 foi o 1º dos 27 pódios da carreira de Ralf Schumacher

 

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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