Bélgica-1991: prisão de Gachot faz surgir a lenda Schumacher

Schumacher estava no lugar certo, na hora certa: estreia em Spa-1991 foi fundamental para a carreira na F1

Schumacher estava no lugar certo, na hora certa: estreia em Spa-1991 foi fundamental para sua carreira

Bastou um treino e alguns metros no GP da Bélgica de 1991 para Michael Schumacher consolidar-se na Fórmula 1. Dono da carreira mais vitoriosa da categoria máxima do automobilismo, o alemão, nascido em 3 de janeiro de 1969, em Hurth-Hermulheim, ganhou a oportunidade da vida em Spa-Francorchamps graças ao infortúnio de Bertrand Gachot. O belga, que defendia a Jordan naquela temporada, perdeu a chance de guiar em casa após ser preso na Inglaterra. Sem ele, Eddie Jordan partiu atrás de um novato com suporte financeiro. Então com 22 anos, Schumacher teve sua estreia custeada pela Mercedes. E, melhor do que qualquer piloto, não desperdiçou o que o destino lhe reservou.

Em Spa, Michael causou frisson. No primeiro dos seus 307 GPs, largou numa improvável sétima colocação. Contornou a primeira curva do GP da Bélgica sem se intimidar com pilotos da estirpe de Ayrton Senna, Alain Prost, Nelson Piquet e Nigel Mansell. Uma quebra de embreagem ainda na volta 1, porém, impediu que o germânico fizesse uma estreia ainda mais impressionante. Mas foi o suficiente para encantar Flavio Briatore, que o levou, já na corrida seguinte, em Monza, na Itália, para a Benetton.

Schumacher estreou na Fórmula 1 no lugar de Gachot: torcida local protestou contra a prisão do belga

Schumacher estreou na Fórmula 1 no lugar de Gachot: torcida local protestou contra a prisão do belga

Para entender como Schumacher ingressou na Fórmula 1 em 25 de agosto de 1991, é necessário voltar para dezembro de 1990. Na ocasião, Bertrand Gachot se envolveu num acidente de trânsito em Londres. O belga acabou se chocando com o táxi de Eric Court. Enfurecido com o ocorrido, o taxista partiu para cima de Gachot. Para se defender da ira de Court, o piloto sacou uma lata de gás de pimenta e atirou a substância nos olhos do ‘adversário’. Eric ficou momentaneamente sem enxergar. A confusão no tráfego londrino foi parar na Justiça britânica.

Naquele instante, Gachot vivia um momento especial na carreira. Depois de fazer 5 GPs na temporada de 1989 pela Onyx e de fracassar a bordo do fraco Rial em 1990, o belga estava em vias de iniciar, pela primeira vez, um campeonato na Fórmula 1 num time promissor. Ao lado do experiente Andrea de Cesaris, Bertrand defenderia a estreante Jordan.

Campanhas foram feitas para libertar Bertrand Gachot da prisão

Campanhas foram feitas para libertar Bertrand Gachot da prisão

A bordo do carro verde de Eddie Jordan, obteve bons resultados, como um quinto lugar no GP do Canadá e dois sextos lugares, na Inglaterra e na Alemanha. Após 10 etapas da temporada, os quatro pontos do belga, somados aos nove do italiano De Cesaris, colocavam a novata escuderia num surpreendente quinto lugar no Mundial, atrás apenas de McLaren, Williams, Ferrari e Benetton.

Porém, logo após o GP da Hungria, saiu o veredicto do duelo Gachot x Court: Bertrand foi considerado culpado, sobretudo por utilizar a substância de pimenta – proibida no Reino Unido. A decisão levou o piloto para a cadeia, onde ficaria por 60 dias, e revoltou Thierry Boutsen e Eric van de Poele, os pilotos belgas do ‘circo’: a dupla protestou em frente ao consulado britânico em Bruxelas. Apesar da comoção, nada adiantou. Gachot ficou preso, e viu sua carreira ser manchada e marginalizada.

Suporte financeiro da Mercedes levou Eddie Jordan a optar por Michael Schumacher

Suporte financeiro da Mercedes levou Eddie Jordan a optar por Michael Schumacher

A Jordan, por sua vez, passou a correr atrás de um substituto para Bertrand. Eddie Jordan pensou em Stefan Johansson e até no aposentado Keke Rosberg, mas o dinheiro falou mais alto. A Mercedes, que tinha montado um grande time de talentos alemães para a disputa de campeonatos de protótipos, ofereceu algo em torno de US$ 300 mil para a equipe irlandesa, a fim de colocar um talentoso pupilo da marca. Seu nome? Michael Schumacher.

O alemão de 22 anos trazia na bagagem o título da Fórmula 3 Alemã e a vitória no tradicional GP de Macau de 1990, além de defender a Mercedes no Mundial de Endurance. Em 1991, porém, viu sua carreira em monopostos se estagnar. Nos protótipos, Michael defendeu a Mercedes no Mundial da categoria e a Zakspeed na DTM, mas sem grandes resultados. Com a prisão de Gachot, a Mercedes tratou de investir em sua promessa. Nem a marca, tampouco Eddie Jordan, se arrependeram da negociação, realizada pelo astuto empresário Willi Weber.

Michael nunca havia pilotado em Spa: reconhecimento da pista foi feito de bicicleta

Michael nunca havia pilotado em Spa: reconhecimento da pista foi feito de bicicleta

O agente de Schumacher assegurou para Eddie Jordan que Michael conhecia o tradicional e desafiador circuito de Spa-Francorchamps. Todavia, era um blefe: o alemão nunca havia corrido na pista belga. Para conhecer o traçado de quase 7 km, o novato tinha dado apenas umas voltinhas de bicicleta. Sim, foi no pedal que Schumacher reconheceu Spa. E não precisou de mais nada para assombrar o ‘circo’.

Em suas primeiras sessões oficiais, o germânico superou o veterano De Cesaris. Na sexta, Michael anotou o oitavo tempo do dia, com 1m53s290, contra 1m54s186 de Andrea, o 13º. No sábado, a comprovação do talento: Schumi ficou em sétimo, com 1m51s212, contra 1m51s986 de De Cesaris. Não havia explicação para tamanha superioridade. E o mais impressionante: sempre em condições normais de pista, sem chuva ou incidentes. O novato era talento puro.

Schumacher deu um show à parte nos treinos, não tomando conhecimento do experiente De Cesaris

Schumacher deu um show à parte nos treinos, não tomando conhecimento do experiente De Cesaris

Michael foi superado apenas pelas McLaren de Ayrton Senna e de Gerhard Berger, pelas Ferrari de Alain Prost e Jean Alesi, por Nigel Mansell (Williams) e por Nelson Piquet (Benetton). A expectativa era a melhor possível. Se nos treinos, Schumacher voou, todos queriam ver como o jovem alemão se comportaria em sua primeira largada na carreira. Quando a luz verde se apagou, Michael não se intimidou e partiu para cima dos adversários.

O germânico da Jordan saltou bem e superou Alesi e Piquet, que largavam na terceira fila. Schumi retardou ao máximo a freada na La Source e foi obrigado a travar rodas para evitar o choque em Mansell. Com isso perdeu tempo, e acabou sendo superado por Nelson.

Na largada do GP da Bélgica, Schumacher travou tudo para não se chocar em Mansell

Na largada do GP da Bélgica, Schumacher travou tudo para não se chocar em Mansell

Ainda assim, deixou a primeira curva na sexta posição. À sua frente, estavam Senna, Prost, Mansell, Berger e Piquet. Porém, na subida da Eau Rouge, a caixa de embreagem da Jordan deixou Schumacher na mão. O alemão não pôde completar uma volta sequer no GP da Bélgica – que teve vitória de Senna, seguido por Berger e Piquet. Teria sido mau olhado do público belga, ávido defensor de Gachot? Nada disso…

Michael cativou a Benetton, que sacou o brasileiro Roberto Moreno da equipe para dar lugar ao alemão já na etapa seguinte, o GP da Itália, em Monza. A partir daí, a mais bem-sucedida história da Fórmula 1 passou a ser escrita. E quem diria que, indiretamente, uma briga de trânsito em Londres, na Inglaterra, em 1990, seria peça-chave para o nascimento da lenda Schumacher – e para a derrocada de Gachot, que nunca mais conseguiu reerguer sua carreira…

Foi a única corrida em que Schumacher defendeu a Jordan. Logo depois, foi contratado pela Benetton

Foi a única corrida em que Schumacher defendeu a Jordan. Logo depois, foi contratado pela Benetton

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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