Austrália-1995: Morbidelli põe Footwork na rota do pódio

Morbidelli carregou a Footwork a um inacreditável pódio em Adelaide-1995

Gianni Morbidelli carregou a Footwork a um inacreditável terceiro lugar em Adelaide-1995

Em 12 de novembro de 1995, a Fórmula 1 presenciou uma cena única em sua história: viu um piloto da Footwork no pódio. O autor da façanha foi Gianni Morbidelli, terceiro colocado no GP da Austrália, em Adelaide. Foi o ápice da carreira do italiano, que até aquele momento tinha tido apenas um ponto naquela temporada. O top 3 coroou a eficiência e a regularidade de Morbidelli, que viu seus rivais não resistindo ao forte calor da primavera australiana. À frente dele, apenas Damon Hill (Williams), que venceu a 11ª e última edição disputada nas ruas de Adelaide, e Olivier Panis (Ligier), que recebeu a bandeirada com problemas de vazamento de óleo, quase cedendo o segundo lugar a Gianni.

O pódio em Adelaide marcou a vida de Morbidelli, um italiano nascido em 13 de janeiro de 1968, na cidade de Pesaro. Filho de Giancarlo Morbidelli, dono de uma fábrica de motos que levava o sobrenome da família, Gianni preferiu a vida sobre quatro rodas. Aos 12 anos, ingressou no kart. Em 1987, passou a competir na Fórmula 3 Italiana. Dois anos depois, conquistou o título nacional e europeu da F3.


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O pódio em Adelaide-1995 foi o único da carreira de Gianni Morbidelli

O pódio em Adelaide-1995 foi o único da carreira de Morbidelli

Com o cartel recheado de vitórias, o pulo para a Fórmula 1 passou a ser o objetivo do italiano. Em 1990, foi contratado para ser piloto de testes da Ferrari. Na ocasião, a Scuderia contava com Alain Prost e Nigel Mansell como pilotos oficiais. Sem chance de atuar pela Rossa, Gianni queria aprender com Alain e Nigel. Mas ganharia uma inesperada oportunidade de correr ainda naquele ano: sem Emanuelle Pirro, que se recuperava de hepatite, a Dallara estava com um cockpit vago. Prontamente, a Rossa aceitou emprestar Morbidelli para o início da disputa daquele Mundial.

Aos 22 anos, o italiano embarcou para o GP dos Estados Unidos, em Phoenix. Porém, não conseguiu classificação. Já no GP do Brasil, em Interlagos, aconteceu a estreia oficial. Gianni não só se classificou como completou a etapa, em 14º. Com a retorno de Pirro à Dallara, Morbidelli focou seus esforços na disputa da Fórmula 3000 Internacional. Obteve uma vitória, em Enna-Pergusa, e ficou em quinto no campeonato, à frente de Damon Hill e Heinz-Harald Frentzen. O bom momento foi coroado com novo convite para a F1 em 1990: pela Minardi, atuou nos GPs do Japão e da Austrália, mas abandonou em ambos.

Gianni em ação pela Ferrari em Adelaide-1991: primeiro top 6 da carreira

Gianni em ação pela Ferrari em Adelaide-1991: primeiro top 6 da carreira

Em 1991, Morbidelli fez sua primeira temporada completa na F1 como “moeda de troca”. A Minardi queria os motores Ferrari para seus carros. Como parte da negociação, a Ferrari colocou Gianni, ainda piloto da Scuderia, no cockpit do time de Faenza. A concretização do acordo parecia ótima para o italiano. Todavia, o carro era péssimo: nos 15 GPs na Minardi, abandonou oito. Seu melhor resultado foi um sétimo lugar no GP do México.

Porém, uma surpresa foi reservada para Morbidelli no fim daquela temporada. Alain Prost foi demitido da Ferrari. Imediatamente, a Scuderia chamou Gianni para substituir o então tricampeão do mundo para a disputa do GP da Austrália, em Adelaide. Debaixo de muita chuva, o italiano se virava para manter a Rossa na pista de rua. Na volta 14, a prova foi interrompida. Morbidelli estava em sexto, conquistando, assim, seu primeiro top 6 da carreira. Entretanto, levou 0,5 ponto, uma vez que a etapa australiana foi encerrada antes de sua metade.

Após o fim de 1992, Morbidelli deixou a Fórmula 1, só voltando ao circo em 1994, na Footwork

Após o fim de 1992, Morbidelli deixou a Fórmula 1, só voltando ao circo em 1994, na Footwork

Em 1992, Gianni foi preterido pela Ferrari, que optou por Ivan Capelli para ser companheiro de Jean Alesi. Com isso, permaneceu por mais uma temporada na Minardi. Novamente, foi um fiasco: o italiano abandonou em 6 GPs, não se classificou para o GP da Hungria, e teve como melhor resultado um 7º lugar no GP do Brasil. Cansado de esperar por uma chance real da Ferrari e desgostoso pelo rumo que sua carreira tomava, Morbidelli se retirou da Fórmula 1 em 1993 para atuar no Campeonato Italiano de Turismo.

Com experiência adquirida no passado, apesar dos 26 anos, Morbidelli foi contratado pela Footwork em 1994. O time nada mais era do que a Arrows com o nome de seu principal investidor, uma empresa japonesa de logística. Gianni tinha Christian Fittipaldi como companheiro de equipe. Naquele ano, a Footwork anotou nove pontos, sendo seis do brasileiro e três do italiano. O melhor desempenho do italiano foi no GP da Alemanha, em Hockenheim, quando foi quinto lugar.

A crise financeira da Footwork impediu que Morbidelli corresse toda a temporada de 1995 pelo time

A crise financeira da Footwork impediu que Morbidelli corresse toda a temporada de 1995 pelo time

Para 1995, Fittipaldi decidiu embarcar para a Fórmula Indy. Morbidelli, então, assumiu a liderança da Footwork. O italiano teria a seu lado o folclórico japonês Taki Inoue. O carro, com motor Hart, era horrendo. Gianni conquistou um sexto lugar no GP do Canadá, em Montreal. Porém, o time passava por problemas financeiros, e ele acabou sendo substituído por Max Papis a partir do GP da Inglaterra, em Silverstone. Papis trouxe um substancioso patrocinador, mas só para as provas disputadas na Europa.

Dessa forma, Morbidelli retornou ao cockpit da Footwork para a perna nipo-australiana da temporada. No GP do Pacífico, em Aida, e no GP do Japão, em Suzuka, abandonou. E seria desta forma, sem a menor confiança no equipamento, que Gianni desembarcou na Austrália, palco da derradeira etapa da categoria em 1995. O Mundial já tinha um campeão, Michael Schumacher (Benetton), que assegurou o bicampeonato em Aida. Assim, havia um clima festivo e amistoso para a última corrida disputada em Adelaide – em 1996, o GP da Austrália seria transferido para Melbourne.

Morbidelli desembarcou na Austrália com 1 ponto, obtido no 6º lugar no GP do Canadá

Morbidelli desembarcou na Austrália com 1 ponto, obtido no 6º lugar no GP do Canadá

Na sexta-feira, Morbidelli anotou o 13º tempo, com 1m18s814, em um dia marcado pelo pavoroso acidente de Mika Hakkinen (McLaren) – o finlandês ficou em coma após traumatismo craniano causado pelo forte impacto. No sábado, melhorou sua marca, com 1m18s391, mas ficou com a mesma 13ª posição, a 2s886 de Damon Hill (Williams), o pole em Adelaide. Para a corrida, disputada embaixo de forte calor, havia a expectativa de muitos abandonos. Seria uma prova de resistência. Gianni tinha ciência disso, e com esse pensamento levou seu Footwork para o grid do GP da Austrália.

Na largada, Morbidelli manteve-se na 13º colocação

Na largada, Gianni Morbidelli manteve-se na 13º colocação

A corrida

Na largada, Morbidelli saltou bem, mas não conseguiu superar Olivier Panis (Ligier), mantendo-se em 13º lugar. A partir daí, passou a imprimir um ritmo constante, pois sabia que as 81 voltas do GP da Austrália pregariam diversas quebras e desistências. A primeira foi a mais pitoresca: na volta 20, David Coulthard (Williams), então líder da prova, bateu sozinho na entrada dos boxes. Com o abandono do escocês, Gianni subiu para o 12º lugar. Na passagem seguinte, foi a vez de Rubens Barrichello (Jordan) se acidentar e deixar o GP, colocando o italiano da Footwork na 11ª posição.

Com os abandonos de Jean Alesi (Ferrari), na volta 23, e de Schumacher, na volta 25, e as paradas de boxes de Panis e Martin Brundle (Ligier), Morbidelli se viu em sétimo. Todavia, na volta 28, fez seu primeiro pit stop. No retorno à pista, estava em nono. Na volta 30, assumiu o oitavo lugar depois do abandono de Brundle. Com o pit stop de Mark Blundell (McLaren), na volta 33, Gianni passou a ocupar o sétimo posto.

Na metade da corrida, Morbidelli já estava em quinto: prova de resistência

Na metade da corrida, Morbidelli já estava em quinto: prova de resistência

Morbidelli ingressou no top 6 após a quebra de motor de Gerhard Berger (Ferrari), então segundo colocado, na volta 34. Cinco voltas depois, Heinz-Harald Frentzen (Sauber), que havia herdado o segundo lugar de Berger, deixou a prova com problemas no câmbio. Dessa forma, o italiano da Footwork atingia a metade do GP na quinta colocação. Gianni permaneceu ali até a volta 53, quando realizou seu segundo e definitivo pit stop. No retorno à pista, estava em sexto. Porém, Blundell foi aos boxes na volta 56, e Morbidelli reassumiu o quinto lugar.

Na volta 63, Eddie Irvine (Jordan), com problemas no motor Peugeot, deixou o GP, colocando Morbidelli na quarta colocação. O inacreditável aconteceria na volta 70: Johnny Herbert (Benetton), segundo colocado, abandonou com problemas de transmissão. Gianni era terceiro, atrás de Panis e Hill. A cinco voltas do final, Olivier viu seu Ligier espalhar fumaça para todos os lados. O francês se rastejava na pista, com problemas de vazamento de óleo. Morbidelli viu a chance de alcançar o adversário, mas em vão: levou a bandeirada a 10s de Panis.

O auge de um piloto e de um time: Morbidelli, da Footwork, ao lado de Hill e Panis

O auge de um piloto e de um time: Morbidelli, da Footwork, ao lado de Hill e Panis

Hill ficou com a vitória, com incríveis duas voltas de vantagem sobre Panis e Morbidelli. Blundell ficou em quarto, seguido por Mika Salo (Tyrrell), o quinto, e Pedro Lamy (Minardi), o sexto. Aliás, vale o registro do português: foi o primeiro ponto de um piloto de Portugal na Fórmula 1, e o solitário de Lamy na categoria. Além disso, foi o único ponto obtido pela Minardi em 1995. A escuderia, aliás, só voltaria a pontuar quase quatro anos depois, no GP da Europa de 1999, em Nurburgring.

Apesar da façanha de Lamy, o verdadeiro feito do dia foi de Gianni, que colocou a Footwork na rota do pódio. Foi a única vez que ele e a escuderia alcançaram o top 3. Depois de Adelaide-1995, o italiano fez sete provas na temporada de 1997 pela Sauber, mas sequer chegou a pontuar. Já a Footwork seria vendida em 1996 para Tom Walkinshaw, que retomaria o nome Arrows em 1997. Dessa forma, o emblemático desempenho na Austrália foi o ápice de uma parceria de um único sucesso.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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