Hungria-1997: Damon Hill dá vitória moral à Arrows

Hill não se intimidou com Villeneuve e Schumacher: azar tirou a vitória, mas veio o 2º lugar

Hill não se intimidou com Villeneuve e Schumacher: azar tirou a vitória, mas veio o 2º lugar

A história da Fórmula 1 notabiliza-se por proporcionar momentos sublimes. Um deles ocorreu em 10 de agosto de 1997. Naquele dia, o Autódromo de Hungaroring foi palco de um espetáculo irrepreensível de Damon Hill. Em Budapeste, o inglês carregava o número 1, reflexo do título obtido no ano anterior. Todavia, guiava para uma equipe média, a Arrows. Por conta da fragilidade do seu equipamento, uma impressionante vitória não veio. Porém, o segundo lugar conquistado no circuito húngaro talvez tenha sido um feito mais grandioso do que todas as suas 22 vitórias. Foi o auge de Damon na categoria máxima do automobilismo.

Isso sem falar no primeiro pódio em oito anos da Arrows – desde o terceiro posto de Eddie Cheever, no GP dos Estados Unidos de 1989, a escuderia não sabia o que era um top 3. Além disso, foi o ápice do time na Fórmula 1. É bem verdade que poderia ter sido o maior feito da equipe. Todavia, uma falha no acelerador do A18 no fim da corrida tirou o primeiro lugar de Damon – o triunfo caiu no colo de Jacques Villeneuve (Williams) na última volta. Ainda assim, a epopeia de Hill e da Arrows em Hungaroring culminou em uma façanha histórica.

Após 10 etapas na temporada de 1997, Hill tinha apenas um ponto, obtido com o 6º lugar em Silverstone

Após 10 etapas na temporada de 1997, Hill tinha apenas um ponto, obtido com o 6º lugar em Silverstone

Após 10 provas em 1997, o campeão mundial e sua escuderia chegaram em Budapeste com apenas um ponto na temporada, obtido graças a um sexto lugar de Hill no GP da Inglaterra. Era muito pouco, diante do que Tom Walkinshaw, chefe da Arrows, havia vislumbrado. Ainda assim, a esperança de um resultado positivo na etapa húngara era imensa. O motivo tinha um nome: Bridgestone. Todos no time apostavam na durabilidade dos pneus japoneses na abrasiva pista da Hungria, país que vivia em agosto o auge do seu verão.

Nos treinos da sexta-feira, Damon testou os pneus macios da Bridgestone, a fim de avaliar até que ponto eles eram eficazes. Os resultados surpreenderam os engenheiros da Arrows: os compostos eram bem duráveis. No sábado, veio o inesperado: Hill esteve sempre entre os mais velozes. No final, anotou um incrível terceiro tempo, com 1m15s044. Foi superado apenas por Michael Schumacher (Ferrari) e Villeneuve, que duelavam pelo título daquele ano. O alemão da Rossa anotou 1m14s672, enquanto o canadense da Williams fez 1m14s859. Os dois, aliás, foram os únicos a andar na casa de 1m14.

No lado emborrachado da pista de Hungaroring, Hill saltou bem e fez a curva 1 em 2º, atrás de Schumacher

No lado emborrachado da pista de Hungaroring, Hill saltou bem e fez a curva 1 em 2º, atrás de Schumacher

Ficar a 372 milésimos da pole foi um feito e tanto para Damon. Se o clima quente permanecesse no domingo, o pódio seria algo possível. Outro fator importante, que poderia determinar uma situação ainda mais positiva na prova, era a posição do inglês no grid – saindo em terceiro, estava no lado limpo da pista. Quando foi dada a largada, Villeneuve patinou, e Hill saltou para o segundo lugar, atrás apenas de Schumacher.

Melhor, impossível, deve ter pensado Damon. Ledo engano. O melhor ainda estaria por vir. Os pneus Goodyear, que calçavam, entre outras, Ferrari e Williams, se deterioravam com muita facilidade. Hill acompanhou Schumacher com facilidade nas primeiras voltas. A partir da volta 8, começaram a surgir bolhas nos pneus do carro do alemão. Michael, então, passou a se preocupar com os ataques de Damon. Na volta 11, veio o grande momento: Hill colocou de lado, e Schumacher não esboçou reação. O inglês era o líder em Hungaroring.

Na volta 11, Damon colocou por dentro e superou Michael: Arrows na ponta após oito temporadas

Na volta 11, Damon colocou por dentro e superou Michael: Arrows na ponta após oito temporadas

“Eu pude ver que os pneus do carro de Michael estavam péssimos, e ultrapassá-lo foi relativamente fácil”, apontou Hill, sem se dar conta do significado daquela manobra: a Arrows retornava à ponta de uma etapa desde o GP do Canadá de 1989, quando outro britânico, Derek Warwick, ponteou quatro voltas em Montreal. A partir daí, ninguém acreditava no que via. Damon passou a colocar diferença sobre Schumacher. Na volta 14, o ferrarista foi aos boxes, e Villeneuve assumiu o segundo lugar. Todavia, Jacques também não acompanhava o ritmo do inglês. Hill disparou na ponta.

Na volta 25, Villeneuve foi para os boxes, com os pneus em frangalhos. Hill fez seu pit stop na passagem seguinte, sem problemas maiores com seus compostos. No retorno à pista, Damon se viu em segundo, atrás de Heinz-Harald Frentzen (Williams). Contudo, um problema na válvula de combustível da Williams do alemão obrigou Frentzen a abandonar a etapa. Com um a menos pelo caminho, Damon ia colocando vantagem sobre Jacques, que estava mais preocupado em manter o segundo lugar diante dos ataques de David Coulthard (McLaren). Na volta 36, Hill abria 12 segundos. Na 48, a diferença dobrou – o inglês da Arrows estava 25 segundos à frente de Villeneuve.

Em nenhum momento, Hill foi ameaçado pelos rivais. Nem mesmo após seus dois pit stop

Em Hungaroring, Hill não foi ameaçado pelos rivais. Nem mesmo após seus dois pit stop

Na volta 50, Coulthard foi aos boxes para sua segunda parada. Para aniquilar a possibilidade de ser ultrapassado, Villeneuve fez sua parada na passagem seguinte. No retorno, David estava na frente de Jacques, mas, na base do “chega pra lá”, o canadense retomou a posição. Hill, por sua vez, fez sua parada na volta 53. O segundo e definitivo pit transcorreu sem problemas, e o britânico da Arrows manteve sua tranquila liderança.

Enquanto isso, Villeneuve se engalfinhava com Coulthard. Na volta 66, David abandonou com problemas elétricos em seu McLaren, deixando o terceiro lugar nas mãos de Johnny Herbert (Sauber). A vida ficou tranquila para Jacques, que estava conformado com o segundo lugar. Para Damon, bastava só levar a criança para casa. O problema é que, quando uma equipe não anda costumeiramente entre os primeiros – caso da Arrows -, esse singelo ser infantil se torna arisco.

Hill lamentou o problema no fim da etapa húngara: vitória escapou pelas mãos

Hill lamentou o problema no fim da etapa: vitória escapou pelas mãos

Até que… veio a volta 75. A três voltas do fim, o pedal do acelerador da Arrows de Hill ficou preso. A confortável liderança de 35 segundos se desfez rapidamente. Damon tentava de todas as formas levar o carro até o fim. A vantagem sumiu. Na 77ª e última volta, o britânico lutava de todas as formas para se manter à frente. Faltando 2 km para a bandeirada, Villeneuve surgiu atrás de Hill. Damon ainda tentou pregar uma peça em Jacques – mais lento, o inglês colocou a Arrows levemente para a esquerda, e o canadense foi obrigado a ultrapassá-lo pela grama.

Hill, o troféu do segundo lugar e Tom Walkinshaw: foi o auge da Arrows na F1

Hill, o troféu do segundo lugar e Tom Walkinshaw: foi o auge da Arrows na F1

Para Villeneuve, os seis pontos que se tornaram 10 graças ao problema de Hill valeram no fim da temporada – Jacques foi campeão com três pontos de vantagem sobre Schumacher. Para Damon, restou uma indescritível sensação. “Houve uma mistura de emoções. Esse carro (Arrows) foi totalmente feito do zero, e o potencial dele se manifestou aqui. Adoraria ter ganho, claro, mas celebramos como se fosse uma vitória”, disse Hill, o vencedor moral do GP da Hungria de 1997.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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Uma resposta a Hungria-1997: Damon Hill dá vitória moral à Arrows

  1. Um enorme pecado, os cruéis deuses da F1 tiraram aquela que seria a maior vitória de Hill.

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