Áustria-1977: Alan Jones vence e tira a Shadow da sombra

Aos 30 anos, Alan Jones substituiu Tom Pryce na Shadow e liderou escuderia ao triunfo em Osterreichring

Aos 30 anos, Alan Jones substituiu Tom Pryce na Shadow e liderou escuderia ao triunfo em Osterreichring

Osterreichring, 14 de agosto de 1977. O autódromo, palco do GP da Áustria daquele ano, presenciou uma das maiores façanhas da história da Fórmula 1. O autor de um dos contos mais fascinantes da categoria máxima do automobilismo foi um australiano nascido em Melbourne. Alan Jones tinha 30 anos quando, a bordo de uma inexpressiva Shadow, surpreendeu a todos ao se adaptar bem ao instável clima austríaco. Com estratégia e eficiência, figurou na segunda posição durante boa parte da corrida. A 11 voltas do fim, viu James Hunt (McLaren) abandonar a prova. De forma inesperada, Jones vencia pela primeira vez na F1.

Foi o primeiro triunfo de um australiano desde Jack Brabham no GP da África do Sul de 1970 – o feito acabou sendo tão inesperado que nem o hino do país da Oceania estava disponível no pódio, tanto que tocaram “Parabéns para Você” para Alan. Não só isso: foi a primeira e única vitória da escuderia, que sofrera um duro golpe cinco meses antes, com a morte de Tom Pryce no GP da África do Sul.

Jones só correu pela Shadow em 1977 após a equipe sofrer a perda de Tom Pryce, morto em Kyalami

Jones só correu pela Shadow após a equipe perder Tom Pryce, morto em Kyalami, em março de 1977

Aliás, foi por conta da fatalidade com Pryce que Jones retornou à Fórmula 1. O australiano estreou na categoria em 1975, ao correr em equipes como Hesketh e Hill. Sua primeira temporada completa foi a de 1976, quando defendeu a Surtees. Apesar de alguns bons momentos, como o quinto lugar no GP da Alemanha de 1975 (com a Hill) e o quarto lugar no GP do Japão de 1976 (com a Surtees), Alan não assegurou um cockpit para a temporada de 1977. O australiano estava prestes a ingressar na Can-Am, nos Estados Unidos, quando Tom morreu tragicamente em Kyalami, em 5 de março.

Para substituir o britânico, a Shadow convidou Jones, que aceitou prontamente a oferta. Alan teve algumas boas performances, com destaque para o sexto lugar no GP de Mônaco e o quinto posto no GP da Bélgica. Após pontuar em Zolder, porém, o australiano não anotou pontos por quatro corridas consecutivas. Quando desembarcou em Osterreichring, o piloto estava interessado em se reabilitar, voltando à zona de pontuação.

Nos treinos, Jones não foi bem, obtendo apenas um 14º lugar no grid de largada

Nos treinos, Jones não foi bem, obtendo apenas um 14º lugar no grid de largada

Mas ir ao top 6 parecia ser uma missão impossível. Sobretudo após os treinos, quando seu Shadow, com motor Ford V8, não se mostrava capaz de encarar as longas retas da pista austríaca. Ao fim da sessão classificatória, Jones figurou numa discretíssima 14ª posição, com o tempo de 1m41s00. O tempo do australiano foi 1s68 mais lento do que o de Niki Lauda (Ferrari), anfitrião e pole para a etapa caseira. Em contrapartida, Alan foi 0s92 mais veloz que o italiano Arturo Merzario, seu companheiro de equipe, que alinhou na 21ª posição do grid.

É possível sair do meio do pelotão e ser bem-sucedido em Osterreichring? A resposta só seria positiva se caísse do céu, em forma de chuva. A região de Zeltweg, onde fica o circuito, é conhecida pelo clima instável. Ora chove, ora faz sol. Uma hora antes do sinal verde, uma tempestade caiu sobre a pista. Todavia, na hora da largada, o sol ameaçava despontar, e o traçado começava a secar. Largar com pneus slick ou biscoito, eis a questão? Jones ficou com a primeira opção.

Largada do GP da Áustria de 1977 aconteceu com pista molhada: Alan Jones é o 14º, no meio do pelotão

Largada do GP da Áustria de 1977 aconteceu com pista molhada: Alan Jones é o 14º, no meio do pelotão

A decisão pareceu ousada – e foi. Merzario, com pneus para chuva, saltou de 21º para 14º na volta 1, e já tinha Jones, 13º, em sua alça de mira. Na volta 2, Alan ultrapassou Patrick Depailler (Tyrrell) e Jacques Laffite (Ligier), mas foi superado por Arturo, ficando na 12ª posição. Na volta 5, o australiano da Shadow alcançou o 11º lugar ao passar por Ronnie Peterson (Tyrrell). Na 6, chegou ao top 10 ao superar Carlos Reutemann (Ferrari). Na mesma volta, Merzario ocupava uma espetacular sexta posição.

Porém, a pista começava a secar, e Alan, numa tocada arrojada, partiu para o ataque. Na volta 8, chegou ao nono lugar ao passar por Jochen Mass (McLaren). Depois, foi a vez de Jones superar Lauda, que se via em apuros na pista molhada e com pneus para seco. Na volta 10, o australiano superou Patrick Tambay (Ensign) e Merzario, passando a figurar na almejada zona de pontuação. Mas o piloto da Shadow estava impossível: o sexto lugar era pouco para Jones.

Na volta 8, Alan aparece em 8º, à frente de Lauda, Mass e Reutemann

Na volta 8, Jones aparece em 8º, à frente de Lauda, Mass e Reutemann

Na volta 11, Gunnar Nilsson (Lotus) foi aos boxes para colocar pneus slick, e Alan subiu para o quinto lugar. Na 12, Mario Andretti (Lotus), que liderava em Osterreichring, viu seu motor Ford Cosworth explodir, abandonando a etapa. Jones já era o quarto colocado, e estava próximo de Hans-Joachim Stuck (Brabham) e Jody Scheckter (Wolf). Na volta 15, o alemão não resistiu ao australiano da Shadow. Na passagem seguinte, o sul-africano foi superado. Em 16 voltas, Alan Jones, 14º no grid, alcançou a vice-liderança do GP da Áustria.

A partir daí, o australiano da Shadow se consolidou na segunda posição. Não era ameaçado por Lauda, que, em uma prova de recuperação, alcançou o terceiro lugar na volta 38. Todavia, estava distante de James Hunt, que caminhava para uma tranquila vitória em Osterreichring. Mas o inesperado acontece: na volta 44, um problema no motor Ford Cosworth tirou o inglês da McLaren, campeão de 1976, da disputa. A primeira colocação caía no colo de Jones.

Momento histórico: o primeiro e único triunfo da Shadow na F1. Festa no pit lane

Momento histórico: o primeiro e único triunfo da Shadow na F1.

Diante dos seus súditos, Lauda não conseguia mais alcançar o australiano. Scheckter, o terceiro, sofreu um acidente e também deixou a corrida – o terceiro lugar sobrava para Stuck. Para Alan, restou administrar o resultado – e que resultado: o australiano obteve a primeira vitória na carreira, o primeiro pódio na Fórmula 1. “Eu não consigo acreditar, foi fantástico”, foram as primeiras palavras de Jones após sair de seu Shadow. “Nós tivemos muitas dificuldades no treino, mas alteramos a distribuição de peso do carro, e isso foi fabuloso”.

Com Alan, a Austrália voltava ao topo do pódio após sete anos sem vitórias. Contudo, a organização do GP da Áustria não contava com a possibilidade do triunfo de Jones. Tanto que não havia disponibilizado a gravação do hino australiano. Diante do inesperado, restou a seguinte opção: “coloque qualquer coisa em inglês”. A solução encontrada foi executar “Happy Birthday” para o piloto da Shadow. Foi a primeira e única vez em que um hino não foi entoado na Fórmula 1, o que tornou o feito de Jones ainda mais folclórico – e digno de todos os parabéns.

Alan Jones celebrou a primeira vitória na carreira ao lado de Stuck (Brabham) e sem hino da Austrália

Alan Jones celebrou a primeira vitória na carreira ao lado de Stuck (Brabham) e sem hino da Austrália

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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