EUA Leste-1980: a última vez de Emerson Fittipaldi

Fittipaldi se prepara para a última prova da carreira: adeus melancólico

Fittipaldi se prepara para a última prova da carreira: adeus melancólico

5 de outubro de 1980 foi um dia histórico para o automobilismo brasileiro. Naquela data, o circuito de Watkins Glen reservaria um capítulo especial na vida de Emerson Fittipaldi. A bordo de seu Fittipaldi, o bicampeão de 1972 e 1974 fazia seu 144º GP na Fórmula 1. Era o último. A despedida de uma lenda. Um ocaso sem brilho de uma carreira repleta de luz. Na categoria máxima do automobilismo, Fittipaldi foi um vencedor que preferiu abdicar das conquistas para apostar num sonho que terminou numa melancólica ilusão.

Naquele ano, Rato viveu momentos especiais, sobretudo no pódio do GP dos Estados Unidos Oeste, disputado em Long Beach. A pretensão de Emerson, ainda que remota, era sair do circo pela porta da frente no GP da costa leste norte-americana. Curiosamente, em Watkins Glen – o mesmo palco que viu sua primeira vitória, num 4 de outubro de 1970. Contudo, nenhum dos pilotos batidos por Fittipaldi naquela ocasião estariam ali ao lado dele em sua derradeira prova. Alguns se aposentaram. Outros morreram. O bicampeão era um herói da resistência naquela década mortal. Mas cansou.

Uma prova para esquecer: Emerson largou em 19º e abandonou na volta 14

Uma prova para esquecer: Emerson largou em 19º e abandonou na volta 14

O último final de semana de Fittipaldi na Fórmula 1 foi esquecível. Nada deu certo para o brasileiro. Desde os treinos, o Fittipaldi-Ford F8 mostrou desempenho pífio. Emerson conseguiu apenas o 19º lugar no grid, com 1m37s088. O companheiro do bicampeão na escuderia tupiniquim, o finlandês Keke Rosberg, foi um pouco melhor: 14º, com 1m36s332. Aliás, Keke foi seguidamente superior a Rato em 1980. O finlandês correu estimulado em Watkins Glen – a Fittipaldi havia acabado de acertar com ele por mais duas temporadas. Um acerto não cumprido, uma vez que, em 1982, Rosberg seria campeão com a Williams.

Voltemos a Watkins Glen-1980. A pole da prova ficou com o italiano Bruno Giacomelli (Alfa Romeo), com 1m33s291. Foi a primeira e única dele na Fórmula 1. Fittipaldi nem veria Giacomelli na pista. Após a largada, Bruno disparou na primeira posição. Emerson saiu mal, despencou para 21º na volta 1 e 22º na 2. Na terceira passagem, o brasileiro reagiu, superando Rosberg e Derek Daly (Tyrrell). O bicampeão ficou na 19ª posição até a volta 14, quando um problema na suspensão dianteira esquerda de seu carro o obrigou a abandonar a prova. Era o fim.

Em Glen, Giacomelli fez sua única pole na carreira: abandono e fim de sonho

Em Glen, Giacomelli fez sua única pole na carreira: abandono e fim de sonho

Giacomelli dominou a prova até a volta 31, quando abandonou. Campeão antecipado de 1980, Alan Jones (Williams) ficou com a vitória, seguido por Carlos Reutemann (Williams) e Didier Pironi (Ligier). Quem também se aposentou das pistas foi o campeão de 1979, Jody Scheckter (Ferrari). E Emerson? Ele não viu o pódio. Deixou rapidamente o autódromo de Watkins Glen junto com sua mulher à época, Maria Helena. Viajou no mesmo dia para Nova Iorque e de lá para a Europa, onde foi ao encontro de seus filhos. Fórmula 1 a partir dali, para Fittipaldi, virou história.

Reflexões

Em depoimento reproduzido no blog Os Grandes Prêmios da Fórmula 1, Fittipaldi analisou a carreira e a categoria na época. Confira as principais reflexões da lenda do automobilismo brasileiro sobre a velocidade em 1980:

“Não acredito que tenham se passado 10 anos de minha primeira vitória num grande prêmio de Fórmula 1, aqui mesmo em Watkins Glen. A gente viaja muito, fica tanto tempo em aeroporto, que no final não parece que se passaram 10 longos anos. Neste tempo aconteceram muitas transformações na Fórmula 1, a começar pelos pneus. Antigamente utilizávamos pneus biscoitos. Agora são slicks e aumentaram muito de tamanho. Trabalhou-se também muito na aerodinâmica dos carros, principalmente nos últimos três anos, quando apareceram os carros asa.”

Fittipaldi achava que o papel dos pilotos em 1980 havia ficado em segundo plano

Fittipaldi achava que o papel dos pilotos em 1980 havia ficado em segundo plano

“O primeiro construtor a trabalhar em cima da aerodinâmica foi Colin Chapman. Na minha primeira vitória eu já utilizava um Lotus 72, que era um carro com a frente em forma de cunha, num primeiro ensaio para o “wing car” (carro asa). Na minha opinião, nesses últimos três anos o valor do piloto numa vitória perdeu muito de sua importância. Não quero com isso dizer que o Jones ou o Piquet não mereçam estar vencendo. Mas seus carros influíram muito nas suas vitórias.”

“Outro problema que os carros asa trouxeram para nós, pilotos, foi a falta de segurança. Hoje em dia o número de acidentes é bem maior e acho que isso está diretamente relacionado com o desenvolvimento dos carros asa. As pistas estão ficando obsoletas. As áreas de derrapagem ficam ridiculamente pequenas por causa da velocidade. Isso deve ser mudado rapidamente para que haja mais espetáculos para o público, com os pilotos fazendo curvas em derrapagens controladas, como antigamente.”

Hora de recolher o bólido: Fittipaldi avaliava os 'carros asa' como inseguros

Hora de recolher o bólido: Fittipaldi avaliava os ‘carros asa’ como inseguros

“A popularidade da Fórmula 1 cresceu muito, com patrocinadores investindo e a imprensa divulgando bastante. Acho que os carros não precisam regredir tecnicamente, retirando-se as mini-saias, como quer o Jean Marie Balestre, presidente da Fisa. Mas diminuir a área das mini-saias, cortando pela metade o efeito solo, não seria regredir. Isso auxiliaria no problema de segurança e selecionaria mais os pilotos.”

“A única coisa que me deixa chateado é a falta de segurança nas pistas. O que aconteceu em Watkins Glen foi uma verdadeira afronta aos pilotos. Prometeram recapear inteiramente a pista e não cumpriram. Colocaram apenas uma casquinha de asfalto em alguns trechos, em cima do asfalto ruim de antigamente. Então, a pista ficou inteiramente ondulada, provocando a quebra de muitos carros e também muitos acidentes.”

Emerson fez diversas críticas ao circuito de Watkins Glen: insegurança

Emerson fez diversas críticas ao circuito de Watkins Glen: insegurança

“O problema da falta de segurança é tão sério que estou largando em 1980, em Watkins Glen, e a meu lado não há nenhum piloto que correu comigo em 1970, nessa mesma pista. E não sou o mais velho dos pilotos, apenas o que tem maior número de grandes prêmios disputados. Pergunto então: onde foram parar os outros pilotos? Isso me assusta bastante e mostra que os pilotos não se preocupam com segurança como deveriam.”

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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