Bélgica-2019: Leclerc dedica primeira vitória ao amigo Hubert

Charles Leclerc (Ferrari) cumprimenta mãe de Anthoine Hubert: primeira vitória do monegasco veio em nome do amigo

Charles Leclerc (Ferrari) abraça Nathalie, mãe de Anthoine Hubert: uma vitória em nome do amigo

Por Denise Vilche*
Colaboradora

Vencer uma corrida é o sonho de todo piloto de Fórmula 1. E Charles Leclerc (Ferrari) conquistou de forma irrepreensível a tão sonhada primeira vitória no GP da Bélgica de 2019, disputado no dia 1º de setembro, em Spa-Francorchamps. O topo do pódio era dele pela primeira vez. Porém, o monegasco não tinha motivos para comemorar. Ele havia perdido um amigo no dia anterior, justamente no mesmo lugar onde se tornou um vencedor de corridas de F1. A morte de Anthoine Hubert durante a etapa da Fórmula 2 acabou transformando a façanha de Leclerc em um tributo para o jovem francês.

Quando desembarcou em Spa, Charles não imaginava que seu feito serviria como uma homenagem a um companheiro de pistas como Hubert. No retorno das férias de verão, Leclerc se encontrava a 24 pontos de seu companheiro de Ferrari, o tetracampeão Sebastian Vettel – o alemão era o quarto colocado do Mundial, com 156 pontos, enquanto o monegasco ocupava o quinto lugar, com 132. A meta de Charles em Spa era uma só: se aproximar de Seb na tabela de Pilotos.

Ferrari voltou das férias com força: Leclerc (foto) e Vettel foram dominantes nos treinos em Spa

Ferrari voltou forte das férias: Leclerc (foto) e Vettel foram dominantes nos treinos em Spa

Logo no primeiro treino livre para o GP da Bélgica, a Ferrari demonstrou excelente forma, a ponto de não ser incomodada pelas Mercedes de Lewis Hamilton e Valtteri Bottas. No fim, Leclerc ficou com o segundo lugar, sendo superado por Vettel por 0s214. Já no segundo treino, o monegasco deu o troco no alemão – ele fechou o treino em primeiro, com 1m44s123, 0s630 à frente do tetracampeão, que fez 1m44s753.

O duelo entre Charles e Sebastian prosseguiu no sábado. No qualifying, Leclerc voltou a ser dominante, terminando na frente em todas as fases. No Q3, o monegasco cravou a pole position com o assombroso tempo de 1min42s519. Era a terceira pole dele em 2019. Charles foi 0s748 mais veloz do que Vettel, segundo com 1m43s267. Hamilton, que teve o carro consertado a tempo de participar do Q1, fechou a sessão com o terceiro lugar, com 1m43s282, seguido por Bottas, quarto com 1m43s415.

Leclerc ignorou Vettel e alcançou sua terceira pole em 2019: monegasco foi 0s758 mais rápido do que o alemão

Leclerc alcançou sua terceira pole em 2019, sendo 0s748 mais rápido do que Vettel

Enquanto davam entrevistas após a classificação, acontecia a primeira etapa da Fórmula 2 em Spa. E um momento chocante deixou os pilotos da F1 sem palavras. Anthoine Hubert foi desviar do francês Giuliano Alesi – filho de Jean Alesi – e acabou indo parar na área de escape na curva Raidillon. O carro bateu na proteção de pneus e foi lançado de volta para a pista. Nesse momento, o norte-americano Juan Manuel Correa passava com velocidade pela área de escape e acertou o carro de Hubert, que se partiu em dois com o impacto. Juan Manuel sofreu sérias lesões, ficando semanas em coma e quase tendo o pé direito amputado. Já Anthoine chegou a ser levado para o hospital, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu na mesma tarde, aos 22 anos.

Nascido em Lyon, na França, em 22 de setembro de 1996, Hubert começou no kart aos nove anos, em 2006. Até 2012, ele havia travado inúmeras batalhas com Charles, Esteban Ocon (piloto reserva da Mercedes) e Pierre Gasly (que reestreava na Toro Rosso em Spa, após ser “rebaixado” pela Red Bull). Os quatro eram contemporâneos, tendo competido em diversos campeonatos de kart na França. Juntos, eles acabaram ficando conhecidos como “Os Quatro Mosqueteiros”.

Hubert, Leclerc, Ocon e Gasly: os "Quatro Mosqueteiros" juntos em 2005

Da esq. para a dir, Hubert, Leclerc, Ocon e Gasly: os “Quatro Mosqueteiros” juntos em 2005

Em 2013, Anthoine venceu a Fórmula 4 Francesa logo em sua estreia na categoria. No ano seguinte, passou para a Eurocup Fórmula Renault 2.0, na qual ficou até 2016, disputando também algumas corridas da Fórmula Renault 2.0 Alps. Em 2017, se transferiu para a GP3. No ano seguinte, venceu o campeonato, o que lhe abriu as portas para ingressar na Academia de Desenvolvimento de Pilotos da Renault.

Foi dessa maneira que conseguiu o apoio da equipe para disputar a F2 pela Arden em 2019. Até Spa, havia conquistado duas vitórias na categoria – nas etapas curtas de Mônaco e de Paul Ricard. Assim, a possibilidade de ver dos quatro mosqueteiros juntos na F1 estava a ponto de se consolidar. Mas o acidente de Spa interrompeu isso.

Hubert em ação em Spa: em 2019, havia vencido duas provas da F2

Hubert em ação em Spa: em 2019, havia vencido duas provas da F2 (Mônaco e Paul Ricard)

A morte de Hubert foi sentida por todos os pilotos no grid, mas os outros “Três Mosqueteiros” ficaram ainda mais impactados. Ocon, por exemplo, mostrava um semblante perdido, parecendo não acreditar no que tinha acontecido, bem diferente do sorriso que sempre costuma estampar no rosto.

Gasly também estava atônito. “Você não está pronto para viver um momento desses, de perder um de seus melhores amigos, aos 22, 23 anos. Eu conhecia ele (Hubert) desde que eu tinha sete anos, no kart. Nós fomos companheiros de quarto, nós moramos no mesmo apartamento por seis anos. Nós fomos companheiros de sala. Eu estudei dos 13 aos 19 anos com ele, com o mesmo professor em uma escola particular”, relembrou o piloto da Toro Rosso.

Leclerc (à esq.) ao lado de Hubert, nos tempos de kart: amizade dentro e fora das pistas

Leclerc (à esq.) ao lado de Hubert, nos tempos de kart: amizade dentro e fora das pistas

Leclerc recordou dos momentos iniciais de sua carreira ao lado de Hubert. “Perder Anthoine me leva de volta à 2005, no meu primeiro campeonato francês. Estavam ele, Esteban, Pierre e eu. Nós éramos quatro crianças que sonhavam com a Fórmula 1. Nós corremos no kart por muitos e muitos anos e perdê-lo foi um grande choque para mim e claro, para todo mundo no automobilismo, foi um dia triste”, disse.

Pilotos e equipes da F1 reverenciaram Hubert antes do GP da Bélgica de 2019, em Spa

Pilotos e equipes da F1 reverenciaram Hubert antes do GP da Bélgica de 2019, em Spa

A corrida

Antes da largada, os pilotos se reuniram ao redor da mãe e do irmão de Anthoine Hubert para fazer um minuto de silêncio em homenagem ao piloto. As duas provas da F2 haviam sido canceladas e os pilotos no grid estavam divididos sobre correr ou não. “A última coisa que queríamos fazer hoje é correr. Nós não estamos com o melhor estado de espírito, assim como toda a comunidade automobilística, mas nós vamos correr e fazer o nosso melhor, porque é isso que ele merece”, disse Sergio Perez (Racing Point) antes da corrida, sintetizando bem o clima no paddock.

Charles Leclerc (Ferrari) havia recebido uma missão especial de Pierre Gasly (Toro Rosso): o francês pediu para que o monegasco vencesse em Spa em nome de Hubert. Com esse espírito, o ferrarista partiu para a disputa do GP da Bélgica. Na largada, Leclerc manteve a liderança. Lewis Hamilton (Mercedes) tomou o segundo lugar de Sebastian Vettel (Ferrari), mas o alemão conseguiu ultrapassar o britânico ainda na primeira volta, retomando a vice-liderança da prova.

Leclerc largou bem e seguiu à frente de Vettel e Hamilton

Determinado a vencer por Hubert, Leclerc largou bem e permaneceu à frente de Vettel e Hamilton

Enquanto isso, Max Verstappen (Red Bull) e Kimi Raikkonen (Alfa Romeo) se tocaram na Raidillon, e o holandês acabou na barreira de pneus. O safety car acabou sendo acionado para retirar o carro de Verstappen. Quando o safety car estava pronto para sair, a McLaren de Carlos Sainz Jr., que já havia tido um problema na largada, apresentou problemas no motor. Com isso, o espanhol teve que abandonar a prova, aumentando a permanência do carro de segurança.

Quando a corrida recomeçou, Leclerc se manteve na liderança, seguido por Vettel, Hamilton, Bottas e Lando Norris (McLaren) – que largou em 11º e conseguiu ganhar muitas posições com os incidentes na pista. O monegasco da Ferrari passou a abrir vantagem média de 2s5 sobre seu companheiro de equipe. Na volta 15, Vettel fez sua parada, voltando em quarto lugar. Com isso, a vantagem de Leclerc sobre Hamilton era de 4 segundos.

Mostrando boa forma, Leclerc não era ameaçado pelos multicampeões: desempenho soberbo do monegasco

Após parar nos boxes, Leclerc caiu para quarto. Monegasco recuperaria a ponta na volta 27

Na 19ª volta, a torcida presente em Spa homenageou Hubert, que corria com o número 19, ao se levantar das arquibancadas e aplaudir o francês. Duas voltas depois, Leclerc fez sua parada, voltando em quarto, logo atrás de Vettel. Nas voltas seguintes, Hamilton e Bottas pararam, fazendo com que Seb assumisse a liderança da etapa belga. Mas com pneus mais novos, Charles passou a tirar 1 segundo por volta, até que na volta 27, o monegasco ultrapassou o alemão e recuperou a liderança da corrida.

Para piorar as coisas para o tetracampeão, além de ver Charles abrindo vantagem na liderança, ele passou a ser ameaçado por Hamilton, que vinha tirando mais de 1 segundo por volta. Na volta 31, o piloto da Mercedes finalmente conseguiu a ultrapassagem, com Vettel, agora ameaçado por Bottas, fazendo sua segunda parada na volta 33. Na frente, Leclerc mantinha uma vantagem de 6s sobre Hamilton.

Em segundo, Hamilton se aproximou e chegou a ameaçar, mas Leclerc assegurou a vitória - sua primeira na F1

Em segundo, Hamilton chegou a ameaçar, mas Leclerc assegurou a vitória – sua primeira na F1

Mas na volta 41, Charles começou a sofrer com o desgaste de pneus e Hamilton diminuiu a vantagem para menos de 3s. Na última volta, Antonio Giovinazzi (Alfa Romeo) bateu na barreira de pneus na curva Pouhon e provocou uma bandeira amarela no local. Um pouco mais à frente, Norris sofreu perda de potência em seu motor Renault e também abandonou a prova na última volta, quando era o quinto colocado. Sua posição acabou ficando para Alexander Albon, que fazia sua corrida de estreia na Red Bull.

Na briga pela vitória em Spa, Hamilton bem que tentou. Ele até conseguiu diminuir a diferença para menos de 1 segundo na última volta. Porém, não foi o suficiente para impedir Leclerc de cruzar a linha de chegada na frente e vencer sua primeira corrida na Fórmula 1. Lewis ficou em segundo, seguido por Bottas e Vettel. A comemoração do vencedor, no entanto, foi contida. Ao sair do carro, Charles apontou para um adesivo em homenagem a Hubert colocado em sua Ferrari e dedicou a vitória ao francês. Era a primeira vitória de um dos mosqueteiros na F1 – que, infelizmente, viria um dia após a morte de um deles.

Para Anthoine, com carinho: Leclerc aponta para o céu e dedica primeira vitória ao francês

“Para Anthoine, com carinho”: Leclerc aponta para o céu e dedica primeira vitória ao francês

“Por um lado, foi um sonho que eu tenho desde que eu era criança sendo realizado, mas do outro, foi um fim de semana muito difícil e nós perdemos um amigo. Eu gostaria de dedicar minha primeira vitória ao Anthoine, nós crescemos juntos, minha primeira corrida na vida foi com ele e é uma pena o que aconteceu. Eu não consigo aproveitar plenamente minha primeira vitória, mas ela ficará na minha memória para sempre”, declarou Leclerc após a corrida.

No pódio, o hino de Mônaco foi tocado pela primeira vez na história da categoria. Mas o momento não era para comemoração. Leclerc, Hamilton e Bottas apenas brindaram com suas garrafas, sem fazer a tradicional festa com champanhe. Com o resultado, Leclerc se tornou o piloto mais jovem a vencer uma corrida pela Ferrari, aos 21 anos, 10 meses e 16 dias. Foi a 236ª vitória da escuderia italiana na F1, e a primeira da equipe em 2019. Já no campeonato, Leclerc reduzia a vantagem para Vettel na batalha interna da Scuderia, de 24 para 12 pontos (169 para Seb, 157 para Charles).

Festa contida para Leclerc: não havia clima para celebração em Spa

Entre Hamilton e Bottas, Leclerc comemora de forma contida: não havia clima para festa em Spa

* Sobre Denise Vilche: “Formada em jornalismo, vi a oportunidade perfeita de unir minha formação com a minha paixão pela F1. Conhecida por meus colegas como ‘a que gosta de corridas’, escrevi sobre automobilismo durante três anos para o extinto site ‘Canal da Velocidade'”.
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(Texto com supervisão do Contos da Fórmula 1)

Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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