Bélgica-2018: Force India, da falência à ressurreição em Spa

Ocon (à esq.) e Pérez (à dir.) pressionam Vettel e Hamilton em Spa: dois carros da Force India no top 6 de Spa

Ocon (à esq.) e Pérez (à dir.) pressionam Vettel e Hamilton: os dois Force India no top 6 de Spa

A Force India viveu dias de tensão antes do GP da Bélgica de 2018, em Spa-Francorchamps. Tudo teve início no último mês de julho. Envolta em dívidas com parceiros, patrocinadores e até mesmo com Sergio Pérez, a escuderia se viu diante de um processo de administração judicial. Com essa medida, o funcionamento do time estava assegurado até o fim do ano. Contudo, a partir daquele instante, a FRP Advisory, uma empresa especializada em falências, tomava as rédeas da equipe no lugar de Vijay Mallya, sócio majoritário. O objetivo desse grupo passava a ser um só: encontrar novos donos para a Force India. Após a realização do GP da Hungria, em Hungaroring, a missão da FRP Advisory foi concretizada: em 7 de agosto, um consórcio liderado pelo bilionário Lawrence Stroll, pai de Lance Stroll (Williams), assumiu o controle da escuderia. Para tal, essa associação comprou os bens da equipe, e se comprometeu a quitar todas as dívidas vigentes e assegurar a manutenção dos 405 postos de trabalho.

Se a parte burocrática estava resolvida, restava definir a questão dentro da Fórmula 1. Quando a Force India desembarcou em Spa-Francorchamps, ainda havia vestígios da presença dos antigos donos nos carros, macacões e peças de comunicação visual do time. Enquanto isso era apagado à unha (literalmente), o consórcio de Lawrence Stroll tentava entrar em consenso com a FIA para fazer com que a equipe participasse normalmente da temporada. Porém, Stroll e seus sócios sabiam que a compra de um time via administração judicial feria o Pacto de Concórdia – documento que rege as relações entre as escuderias da F1. Assim, a FIA excluiu a Force India do campeonato “devido à sua incapacidade de completar a temporada”, e deu as boas-vindas à “Racing Point Force India”, que foi autorizada a competir, mas sem os 59 pontos obtidos pela sua antecessora até Hungaroring. Já Sergio Pérez e Esteban Ocon manteriam as pontuações individuais.

A Force India viveu momentos de tensão antes do GP da Bélgica: por pouco, time não alinhou em Spa

A Force India viveu momentos de tensão antes do GP da Bélgica: por pouco, time não alinhou em Spa

A Racing Point Force India vinha com o mesmo layout do início do ano, mas com sangue renovado após tantos percalços litigiosos. A única mudança estava na chefia da equipe – Bob Fernley, homem de confiança de Vijay Mallya, foi substituído por Otmar Szafnauer. Sob nova direção, a Force India (a ser chamada assim até o fim de 2018) queria ressurgir com estilo em Spa. Numa pista em que os carros rosa tiveram bom desempenho em 2017 – mas que foi bem tumultuada para Sergio Pérez e Esteban Ocon -, a expectativa era a melhor possível. Nos primeiros treinos livres, na sexta, Pérez anotou o sétimo tempo, com 1m44s662. Já Ocon foi bem pela manhã, mas não repetiu a melhor forma à tarde. No fim, anotou 1m45s786, ficando em 12º. O melhor tempo do dia ficou com Kimi Raikkonen (Ferrari), com 1m43s355 – 1s307 à frente do mexicano e 2s431 à frente do francês.

Checo estava satisfeito com o desempenho da Force India. “Eu amo a pista de Spa e realmente gostei de voltar ao carro hoje (sexta). O conjunto estava muito bom e estou feliz com a estabilidade. É provavelmente o melhor equilíbrio que tivemos em todo o ano. Portanto, há o potencial para um fim de semana forte, independentemente do que o clima trará”, observou o asteca, se referindo à possibilidade de chuva no circuito belga. Já Esteban admitiu que tentou uma outra estratégia no treino vespertino. Todavia, a tentativa não surtiu o efeito esperado. “O carro está funcionando bem e eu me senti muito confortável na primeira sessão. Tentamos uma direção diferente à tarde, o que realmente não funcionou, e eu também tive um furo que fez com que passasse a maior parte da sessão com um jogo de pneus supermacios. Mesmo assim, fizemos alguns bons progressos hoje (sexta) e acho que podemos lutar por um lugar no Q3”.

Pérez foi o sétimo mais veloz da sexta-feira: otimismo com o desempenho do carro

Pérez foi o sétimo mais veloz da sexta-feira: otimismo com o desempenho do carro

No sábado, a estrela da Force India brilhou em meio à nebulosidade de Spa. Tanto Pérez quanto Ocon mostraram sintonia com o desafiador circuito belga no qualifying, avançando sem dificuldades para o Q3. Aí veio a chuva, que tumultuou a sessão decisiva e deu a oportunidade que Esteban e Checo esperavam. O francês se aproveitou dos pneus intermediários para anotar 2m01s851, contra 2m01s894 do mexicano. Ocon ficou em terceiro, apenas 0s044 à frente de Pérez, o quarto. A pole para o GP da Bélgica de 2018 ficou com Lewis Hamilton (Mercedes), a 78ª de sua carreira. Com 1m58s179, Hamilton foi 3s672 mais rápido do que Esteban e 3s715 mais veloz do que Checo. Os boxes da Force India celebraram a conquista da segunda fila em Spa.

Terceiro, Ocon estava em êxtase ao lado de Hamilton e Sebastian Vettel (Ferrari), o segundo no grid. Entretanto, havia desalento no ar. Também pudera: com a aquisição da Force India por Lawrence Stroll, tudo leva a crer que o gaulês perderá seu cockpit para Lance Stroll (Williams) em breve. Inclusive, a TV francesa Canal Plus ouviu uma conversa entre Ocon e Vettel em Spa. Esteban confirmou que não fica na Force India em 2019. Além disso, ele disse a Sebastian que ficará sem vaga porque um piloto “comprou a equipe” (Stroll) e o outro “traz o dinheiro” (Pérez). Futuro indefinido à parte, Ocon ficou radiante com o top 3 no quali belga.

Ocon deu show no Q3 de Spa, alcançando o terceiro lugar: francês foi festejado por Lewis Hamilton (Mercedes)

Ocon deu show no Q3 de Spa, alcançando o terceiro lugar: francês foi festejado por Lewis Hamilton

“É um dia fantástico. Depois de tudo o que aconteceu nas últimas semanas, é um momento especial e devemos apreciá-lo. Fomos fortes mesmo sem a chuva e passamos tranquilamente para o Q3 no seco. Quando a chuva começou a cair, sabíamos que havia uma chance de obter um resultado ainda melhor, mas não foi fácil. No início do Q3, tentamos fazer uma volta com os slicks, mas não foi possível e tive alguns momentos assustadores retornando aos pits. Quando colocamos os intermediários, eu sabia que precisava fazer uma volta perfeita, mas cometi um pequeno erro em minha primeira tentativa. Portanto, também tentei ser seguro em minha última volta e terminamos em terceiro. Estou muito animado para a corrida. Temos um carro rápido, principalmente nas retas, e estaremos na briga amanhã (domingo)”, observou Ocon.

Pérez também estava satisfeito com o desempenho da Force India em Spa. “Estou muito feliz com o resultado. Foi ótimo para a equipe – para os novos proprietários, os antigos que a levaram ao nível em que está agora e todos que trabalham duro no dia a dia. A chuva tornou as coisas estressantes e tivemos de correr alguns riscos. Decidimos ficar na pista com os slicks porque estava seco nos setores 1 e 2, mas logo em seguida a chuva aumentou rapidamente. Levei um susto enorme na Eau Rouge e tive sorte por não bater no muro, mas eu realmente me preparei para o pior – não há batida leve lá. Tivemos de colocar os intermediários e travei meus traseiros na última curva. Saltei por cima da zebra e danifiquei minha asa dianteira. Com o tempo que perdemos para trocá-la, só tive uma chance de fazer uma volta com os intermediários. Com uma volta a mais, talvez eu pudesse ter lutado pela pole, mas ainda podemos ficar felizes com o quarto lugar”.

Largada do GP da Bélgica de 2018 foi marcada pelo acidente entre Hulkenberg, Alonso e Leclerc

Largada do GP da Bélgica de 2018 foi marcada pelo acidente entre Hulkenberg, Alonso e Leclerc

A corrida

Domingo, 26 de agosto de 2018. A instabilidade peculiar do clima predominava na região de Spa-Francorchamps. Entretanto, diferentemente do que ocorreu no sábado, a chuva não daria as caras na disputa do GP da Bélgica. Dessa forma, a dupla da Force India, Esteban Ocon e Sergio Pérez, tinha ciência de que não conseguiria sustentar a terceira e quarta posições conquistadas no qualifying no dia anterior. Mas ambos estavam confiantes de que aquele seria um dia especial – e que bons pontos seriam somados na corrida. Quando a largada foi dada, Ocon e Pérez mergulharam com sede ao pote na La Source. Depois, os dois pisaram fundo na descida para a Eau Rouge. Por fim, contornaram a Raidillon e ingressaram na Reta Kemmel colados em Lewis Hamilton (Mercedes) e Sebastian Vettel (Ferrari), os dois primeiros colocados e principais favoritos ao título de 2018. Os quatro chegaram a ficar emparelhados, mas os pilotos da Force India recolheram seus bólidos. Na freada para a Les Combes, Esteban perdeu o terceiro lugar para Sergio.

Ainda durante a volta 1, a direção de prova acionava o safety car. Na freada da La Source, Nico Hulkenberg (Renault) simplesmente atropelou Fernando Alonso (McLaren). O carro do espanhol foi catapultado sobre o cockpit de Charles Leclerc (Sauber). A roda da McLaren chegou a atingir o halo do bólido do monegasco. Apesar da cena impressionante, todos saíram ilesos do acidente. Para Pérez e Ocon, o acidente acabou trazendo uma boa notícia: Valtteri Bottas (Mercedes), Kimi Raikkonen (Ferrari) e Daniel Ricciardo (Red Bull) sofreram avarias após a largada e caíram para o fim do pelotão. Assim, a chance de alcançar o top 5 em Spa aumentava consideravelmente.

Ocon não resistiu ao ataque de Verstappen: disputa desigual em Spa

Ocon não resistiu ao ataque de Max Verstappen (Red Bull): disputa desigual em Spa

A relargada da prova belga foi dada na volta 5. Pérez não conseguiu atacar Hamilton, o segundo. Entretanto, continuou à frente de Ocon, o quarto. Na passagem seguinte, a dupla da Force India sofreria com a impetuosidade de Max Verstappen (Red Bull). Em quinto, o holandês vinha em franca recuperação na prova. Com um equipamento superior, Verstappen se utilizou da mesma manobra, no mesmo local: abrir o DRS na Reta Kemmel. Assim, os pilotos dos carros rosa acabaram sendo presas fáceis. Na volta 7, Max superou Esteban, fazendo com que o francês caísse para a quinta posição. Três voltas depois, foi a vez do piloto da Red Bull ignorar Checo, colocando o mexicano na quarta colocação.

A Force India não tinha como acompanhar Verstappen. A partir daquele momento, Pérez e Ocon focavam a preservação da quarta e quinta posições. Na volta 15, o mexicano tinha 4s de vantagem sobre o francês. A maior ameaça naquele momento era Romain Grosjean (Haas), que estava a 3s8 de Esteban. Na volta 20, a diferença entre Ocon e Grosjean aumentou para 5s3. Com um ritmo sólido, o time adquirido por Lawrence Stroll poderia planejar o melhor momento para realizar o único pit stop. Calçando pneus supermacios, os pilotos estenderam ao máximo a permanência na pista. Quando Grosjean se encaminhou para os boxes, na volta 23, a Force India decidiu chamar Ocon já na 24, a fim de inibir qualquer possibilidade de ultrapassagem do piloto da Haas. Na parada, Esteban sacou os supermacios e colocou os macios. O francês da Force India retornou à pista em sétimo.

Pérez estendeu ao máximo sua presença na pista: tudo pelo quarto lugar

Pélo 4º lugar, Pérez estendeu ao máximo sua presença na pista: mexicano só não contava com Bottas

Na volta 25, foi a vez de Pérez realizar seu pit stop. Assim como Ocon, tirou os pneus supermacios e colocou os compostos macios. Ainda que sua parada tenha sido mais longa do que o habitual, Sergio saiu dos boxes na quinta posição – uma à frente de Esteban, que ganhou o sexto lugar com a parada de Kevin Magnussen (Haas). À frente da dupla da Force India, surgia Valtteri Bottas (Mercedes). O finlandês parou na volta 2 depois de se envolver no acidente da primeira volta e tentava ganhar as posições do mexicano e do francês. Quando Bottas se encaminhou para os boxes para uma segunda parada, na volta 30, Pérez e Ocon retomaram o quarto e o quinto lugares. Todavia, Valtteri deixou o pit com Esteban em sua alça de mira – a diferença entre os dois era de apenas 2s. Bastaram duas voltas para o piloto da Mercedes se aproximar do adversário da Force India e o ultrapassar na Reta Kemmel. Assim, Bottas era o quinto, e Ocon, o sexto.

Pérez tinha 6s de vantagem sobre Bottas. Entretanto, ainda faltavam 11 voltas para a bandeirada do GP da Bélgica. Era questão de tempo para Valtteri chegar e tomar o quarto lugar de Checo. O mexicano se esforçou o quanto pôde, mas era em vão. O finlandês chegou no latino na volta 37. Pérez ainda anulou algumas tentativas de Bottas, mas, na volta 40, não teve jeito: por fora na freada da Les Combes, o piloto da Mercedes ultrapassou o rival da Force India, tomando-lhe o quarto lugar. À Pérez, restou a quinta posição. No fim, a vitória no GP da Bélgica ficou com Vettel – a 52ª do alemão, que superou Alain Prost e assumiu o terceiro lugar no ranking de vitórias na F1. Hamilton ficou em segundo, seguido por Verstappen e Bottas.

Mecânicos da Force India festejam desempenho no GP da Bélgica: 18 primeiros pontos sob nova direção

Mecânicos da Force India festejam desempenho em Spa: 18 pontos na estreia da nova direção

Na Force India, o clima era festivo com a façanha de Pérez e Ocon. Para Checo, após toda a turbulência pré-Spa, levar os dois carros do time ao top 6 foi algo além das expectativas. “Foi uma ótima performance da equipe, acho que executamos um fim de semana quase perfeito. Podemos ficar felizes com os pontos que marcamos. Não poderíamos ter mantido as equipes de ponta atrás de nós no seco, então ser o ‘melhor do resto’, com Esteban (Ocon) logo atrás de mim, é o máximo que poderíamos ter feito hoje (domingo). Minha largada foi ótima e consegui me colocar nas posições certas durante as primeiras curvas. Depois disso, meu ritmo foi forte e consistente. Abri uma vantagem e pude controlar minha prova. Não havia nada que eu pudesse fazer para manter Valtteri (Bottas) atrás de mim – às vezes, você precisa escolher suas batalhas e pensar no cenário mais amplo. Estou feliz com o que alcançamos. É um bom começo de uma nova era para o time”.

Ocon concordou com o pensamento do companheiro de equipe. “Estou satisfeito com a corrida e acho que chegamos onde merecíamos com nossa velocidade. Fiz uma boa largada e coloquei por dentro de Sebastian (Vettel) na curva 1. Ele tracionou melhor, mas fui muito rápido na Reta Kemmel e tentei assumir a liderança. Peguei um bom vácuo de Vettel e Lewis (Hamilton) e tentei encontrar um espaço por dentro, mas acabei perdendo uma posição para Sergio. Foi uma disputa boa e totalmente limpa. É um bom começo para a nova vida da equipe: marcamos muitos pontos, o que é importante para nossa recuperação no campeonato. Fomos competitivos durante o fim de semana inteiro e espero que isso continue na parte final da temporada”, analisou o francês, ressaltando que, com os 18 pontos conquistados em Spa, a Force India já deixou a Williams para trás e ficou a apenas 1 ponto da Sauber no Mundial de Construtores.

Com os pontos anotados em Spa, Pérez passou a ter 40 pontos no Mundial, contra 37 de Ocon

Com os pontos de Spa, Pérez passou a ter 40 pontos no Mundial (10º), contra 37 de Ocon (11º)

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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