Azerbaijão-2018: Charles Leclerc, um histórico top 6 em Baku

Charles Leclerc conquistou seus primeiros pontos na F1 ao terminar em sexto em Baku

Charles Leclerc conquistou seus primeiros pontos na F1 ao terminar em sexto em Baku

Um misto de emoções povoou a cabeça de Charles Leclerc (Sauber) ao cruzar a linha de chegada do GP do Azerbaijão de 2018, disputado no último dia 29 de abril, em Baku. Ao alcançar o sexto lugar, o monegasco de 20 anos pontuava pela primeira vez na Fórmula 1, tornando-se o 337º piloto a marcar pontos na categoria máxima do automobilismo. Não só isso: Leclerc quebrava um jejum de 68 anos – desde Louis Chiron, terceiro no GP de Mônaco de 1950, o pequeno país não via um representante na zona de pontuação. O top 6 de Charles também teve significado especial para o time de Peter Sauber: foi o melhor resultado da escuderia desde o sexto lugar de Felipe Nasr no GP da Rússia de 2015, em Sochi. Diante das façanhas históricas para piloto e equipe, Baku acabou sendo cenário de uma grande festa para a turma de Hinwil.

O sexto lugar no Azerbaijão trouxe à tona o talento de Leclerc. Aliás, trata-se de um prodígio moldado desde o berço. Nascido em 16 de outubro de 1997, em Mônaco, Charles morava em uma residência que era a extensão de um circuito de corridas. O pai, Herve Leclerc, kartista e piloto de Fórmula 3, foi o mentor do filho na pistas. Sempre que podia, Herve contava a Charles sobre Ayrton Senna – lembrando que o garoto nasceu três anos após a morte do ícone brasileiro. “Meu pai sempre me falava sobre Senna. Então, cresci inspirado naquela lenda. Ayrton era o meu herói. Assisti suas voltas de qualificação em Mônaco inúmeras vezes. Era demais, pois ele pilotava nas ruas em que eu caminhava todos os dias”, disse, em 2017, para o site oficial da F1.

Orientado pelo pai Herve, Charles mirou o exemplo de Senna, foi influenciado por Bianchi

Orientado pelo pai Herve, Charles mirou o exemplo de Senna e foi influenciado por Jules Bianchi

Mirando no exemplo de Senna, Charles passou a andar de kart com apenas cinco anos, na pista de um outro apaixonado por velocidade: Philippe Bianchi, pai de… Jules Bianchi. Administrador de um circuito em Brignoles (França), Philippe abriu as portas para o garoto, que se inspirava em seu próprio filho. Jules era uma espécie de referência para Charles. Assim, construiu-se o caráter do monegasco: movido pelo sonho do pai, trilhando o caminho do amigo mais velho. Com apenas oito anos, Charles passou a competir no kartismo francês. Entre 2005 e 2013, ganhou quase tudo o que um piloto poderia almejar: campeonatos francês, monegasco, europeu nas categorias KF3, cadete e KF2.

Os títulos atraíram a atenção do empresário Nicolas Todt. O francês, que já agenciava Bianchi, passaria a gerenciar a carreira de Leclerc em 2011. Em 2014, Leclerc se transferiu para a Fórmula Renault 2.0, na qual obteve bons resultados. Naquele mesmo ano, Bianchi alcançou um marcante nono lugar no GP de Mônaco de F1. Todavia, um acidente no GP do Japão, em Suzuka, interrompeu a ascendente trajetória do francês. Em 2015, Jules não resistiu aos ferimentos, vindo a falecer. A morte do amigo não abalou a carreira de Leclerc. “Mesmo depois do acidente de Jules em Suzuka, eu nunca tive a menor dúvida sobre o meu futuro. Eu sei que o perigo faz parte das corridas, mas quando eu estou no cockpit, tudo que eu sinto é adrenalina. Nunca dirigi nem um metro sequer com medo de que algo pudesse acontecer”.

Títulos da GP3 e da Fórmula 2 impressionaram a todos: vaga na Sauber foi consequência

Títulos da GP3 e da Fórmula 2 impressionaram a todos na F1: vaga na Sauber foi consequência

Ainda em 2015, Leclerc disputou a Fórmula 3 Europeia, conquistando o quarto lugar geral, com quatro vitórias. Outro destaque naquele ano foi o segundo lugar na tradicional prova de Macau. A boa sequência fez com que Todt pleiteasse um lugar para Charles na Academia de Desenvolvimento da Ferrari em 2016. Assim como Bianchi, Leclerc estreitava suas relações com a Scuderia. Simultaneamente à função de piloto de testes da Haas, Charles cumpriria a temporada da GP3. E o monegasco impressionou: com três vitórias e oito pódios, assegurou o título da categoria. O troféu chamou a atenção de todos da Fórmula 1. Leclerc já era tratado como diamante bruto quando foi para a Fórmula 2 em 2017. Com a equipe Prema, o monegasco assombrou a categoria. Dominante, Charles foi campeão com sete vitórias e 10 pódios. A partir dali, era impossível ignorá-lo.

Mas nem tudo foi perfeito para Leclerc em 2017. Dois anos após a morte de Bianchi, o monegasco teve que lidar com a perda do pai, Herve, aos 54 anos. Porém, Charles soube fazer das lacunas um combustível para mais conquistas. Em nome de Jules e de Herve, alcançou o tão sonhado objetivo: a Fórmula 1. No fim de 2017, o jovem foi anunciado como piloto da Sauber para a temporada de 2018. Com isso, os holofotes passaram a focalizar o monegasco com mais ênfase. Nas três primeiras provas de Charles na Fórmula 1, o desempenho foi tímido: 13º no GP da Austrália, em Melbourne; 12º no GP do Bahrein, em Sakhir; e 19º no GP da China, em Xangai. Por outro lado, o companheiro de Leclerc na Sauber, Marcus Ericsson, havia conquistado um nono lugar em Sakhir. A postura positiva do sueco no início do campeonato acendeu um sinal de alerta para o staff do estreante: reagir em Baku era preciso.

Em Baku, Leclerc sempre andou à frente de Ericsson: ritmo deixou monegasco confiante

Em Baku, Leclerc sempre andou à frente de Ericsson: ritmo deixou monegasco confiante

Leclerc queria fazer do circuito onde fez uma inesquecível pole na temporada de 2017 da F2, apenas três dias após a morte do pai, um marco para a sua carreira também na Fórmula 1. Ao levar o C37 para a pista, o monegasco mostrou-se à vontade no seletivo traçado de rua. No fim da sexta-feira, primeiro dia de treinos livres em Baku, Charles terminou em 16º, com 1m44s940. O tempo do piloto de 20 anos foi 1s102 mais veloz que o obtido por Ericsson, 20º com 1m46s042. Por outro lado, Leclerc ficou a 2s145 da marca de Daniel Ricciardo (Red Bull), o mais rápido da sexta com 1m42s795. “No geral, foi um dia bom. Ainda temos um pouco de trabalho a fazer na preparação para a classificação de amanhã (sábado). Geralmente é uma pista interessante em termos de gerenciamento de pneus. Nesse aspecto, nosso ritmo parece bom”, observou.

No sábado, as coisas melhoraram para a Sauber. Charles se aproveitou das circunstâncias para avançar para o Q2 no qualifying. O novato viu Romain Grosjean (Haas) se acidentar no Q1 e ainda contou com o péssimo desempenho de Stoffel Vandoorne (McLaren) e da dupla da Toro Rosso – que se viu em problemas com a falta de potência do motor Honda nas longas retas de Baku – para superar a primeira fase do treino qualificatório. No fim, Leclerc obteve um ótimo 14º lugar, com 1m44s074. Eliminado no Q1, Ericsson foi 18º, com 1m45s541 – 1s467 atrás da marca do monegasco. Charles ficou a 2s576 da marca obtida por Sebastian Vettel (Ferrari), que assegurou a pole do GP do Azerbaijão de 2018 com 1m41s498. Foi a 53ª pole da carreira do alemão.

No sábado, Leclerc avançou pela primeira vez para o Q2: 14º lugar foi comemorado

No sábado, Leclerc avançou pela primeira vez para o Q2: 14º lugar foi comemorado

“Estou muito feliz com a minha classificação de hoje (sábado). Eu tive uma ótima volta no Q1, o que me permitiu avançar para o Q2. É a primeira vez que faço isso desde o início da temporada, o que é um grande passo para mim como novato. Toda a equipe fez um ótimo trabalho para tornar isso possível. Aprendi muito nos últimos três fins de semana de corrida e me sinto mais confortável com todos os procedimentos em cada sessão. Demos alguns passos positivos em termos de gerenciamento de pneus e o equilíbrio do carro é bom. Estou ansioso para a corrida de amanhã (domingo). Neste circuito, existem muitos fatores que irão influenciar o resultado”, afirmou Leclerc.

Largada do GP do Azerbaijão de 2018, em Baku: Leclerc fez início cauteloso

Largada do GP do Azerbaijão de 2018, em Baku: Leclerc teve início cauteloso

A corrida

Domingo, 29 de abril de 2018. Um sol tímido esquentava Baku para a disputa do GP do Azerbaijão. Entretanto, a temperatura seria quente do início ao fim da prova. Alinhado com pneus supermacios na 13ª posição do grid – herdou um lugar devido à punição dada a Nico Hulkenberg (Renault) -, Charles Leclerc sabia que, partindo no meio do pelotão, poderia sofrer as consequências de algum acidente durante a primeira volta. Todo cuidado seria pouco. Quando as luzes vermelhas se apagaram, o monegasco foi cauteloso, perdendo posições para Hulkenberg e Pierre Gasly (Toro Rosso). Mas logo dois acidentes aconteceriam à frente de Leclerc: o choque entre Kimi Raikkonen (Ferrari) e Esteban Ocon (Force India) – que tirou o francês da corrida e colocou o finlandês no fundo do pelotão – e o acidente entre Fernando Alonso (McLaren) e Sergey Sirotkin (Williams) – que fez com que o russo abandonasse e deixasse o espanhol com duas rodas e no fim da classificação. Assim, Charles era o 11º ao fim da volta 1.

Diante dos embates e da sujeira na pista, foi necessária a entrada do safety car em Baku. Sob bandeira amarela, Sergio Pérez (Force India) mudou de estratégia ao antecipar seu pit stop para a volta 3, fazendo com que o piloto da Sauber ingressasse na zona de pontuação. A relargada só veio na volta 6. Leclerc teve que se defender das investidas de Stoffel Vandoorne (McLaren) e Raikkonen, permitindo que Hulkenberg partisse para cima de Lance Stroll (Williams). Na volta 7, foi a vez de Charles atacar o canadense, tomando o nono lugar. Na passagem seguinte, o monegasco superou Gasly. Contudo, o piloto da Sauber acabou levando o troco de Stroll. Assim, Leclerc permaneceu em nono. Na volta 11, Charles se aproveitou para ultrapassar definitivamente Lance, assumindo o oitavo lugar. Na mesma passagem, Hulkenberg quebrou a suspensão de seu bólido, sendo obrigado a abandonar. Dessa forma, Charles passava a ocupar o sétimo lugar.

Após a relargada, Leclerc se defendeu das investidas de Vandoorne

Após a primeira relargada, Leclerc se defendeu das investidas de Vandoorne e Raikkonen

Com o primeiro pit stop de Carlos Sainz Jr. (Renault), na volta 15, o monegasco subiu para o top 6. Era um rendimento impressionante, estando atrás apenas de Sebastian Vettel (Ferrari), Lewis Hamilton (Mercedes), Valtteri Bottas (Mercedes), Max Verstappen (Red Bull) e Daniel Ricciardo (Red Bull). Detalhe: a menos de dois segundos do australiano, que duelava de forma insana com seu companheiro de equipe. Além disso, estava à frente de Raikkonen, que aparecia em sétimo. Na volta 17, Charles não resistiu ao ataque de Kimi, caindo para sétimo. Mas Leclerc não esmoreceu. Atrás apenas dos pilotos das três principais escuderias da temporada, o monegasco andava num ritmo consistente, sem percalços. Aos 20 anos, parecia um veterano em ação.

Charles se manteve no top 7 até a volta 24, quando a Sauber chamou-o para realizar sua primeira parada nos boxes em Baku. Na troca, sacou os desgastados pneus supermacios e colocou um jogo de macios, mais duráveis. No retorno à pista, o novato estava em 11º, imediatamente atrás de Alonso. Com os compostos novos, e aproveitando-se de que o espanhol estava com o carro avariado, o monegasco superou Fernando na volta 26, retornando ao top 10. O ritmo de Leclerc era bom, a ponto de reduzir a diferença para Sainz, o nono. Na volta 32, Charles estava a 3s de Carlos, e tinha 6s de vantagem sobre Stroll. Naquelas circunstâncias, pontuar era algo quase certo para o piloto da Sauber. Mas a sorte começaria a sorrir ainda mais para o calouro.

Charles foi superado por Raikkonen na volta XX: por boas voltas, monegasco só foi superado pelas duplas das três principais equipes

Charles foi batido por Raikkonen na volta 17: monegasco só estava atrás de Ferrari, Mercedes e RBR

Na volta 39, na disputa fratricida da Red Bull, Ricciardo e Verstappen se enroscaram bisonhamente na freada da reta dos boxes. Ambos estavam fora da corrida. O acidente fez com o que o safety car fosse acionado novamente. Com isso, Leclerc e os demais pilotos do grid ingressaram nos boxes para uma segunda e derradeira parada. Na troca, Charles sacou os pneus macios e colocou compostos ultramacios. No retorno à pista, o piloto da Sauber ocupava a mesma oitava posição. Ainda sob bandeira amarela, Romain Grosjean (Haas) errou feio e sofreu um acidente durante o aquecimento dos pneus. Sem o francês, o monegasco subiu para sétimo.

Com muitos detritos, a bandeira amarela se estendeu até a volta 47. Na relargada, Leclerc atacou Sainz e tomou o sexto lugar do espanhol. Na 48, a três do fim, Bottas viu seu pneu traseiro direito explodir após passar sobre um pedaço de carro atirado na pista. Com o dano, o finlandês foi obrigado a abandonar. Charles herdaria a quinta posição, mas acabou sendo ultrapassado por Carlos. Dessa forma, manteve-se em sexto – e dali não mais sairia. A vitória do GP do Azerbaijão de 2018 caiu no colo de Hamilton. Foi o primeiro triunfo do britânico no ano, o 63º na carreira. Com o resultado, somado ao quarto lugar de Vettel, Lewis assumiu a liderança do Mundial. Raikkonen terminou em segundo, seguido por Pérez – foi o oitavo pódio da carreira de Checo, que se tornou o mexicano com mais top 3 na história da F1. Quem também festejou o primeiro ponto na F1 foi Brendon Hartley (Toro Rosso), 10º na corrida.

Leclerc mostrou categoria para assegurar o sexto lugar em Baku: primeiros pontos de um monegasco em 68 anos

Leclerc mostrou categoria para assegurar o top 6: primeiros pontos de um monegasco em 68 anos

Em sexto, Leclerc fez a festa da Sauber em Baku. As celebrações do novato foram intensas. O time suíço estava orgulhoso da performance do monegasco. Ao fim da corrida, Charles não se conteve. “Foi uma corrida incrível hoje (domingo), estou muito feliz com o meu resultado. Foi definitivamente agitado, com muitos incidentes na pista. Isso tornou pilotar especialmente difícil e divertido. Senti-me confortável no carro e fiz o meu melhor para avançar para a frente do pelotão intermediário durante a corrida. É uma sensação incrível marcar pontos pela primeira vez na Fórmula 1. Como equipe, podemos ver nosso potencial e saber quais são nossos pontos fortes. Estou muito satisfeito e estou ansioso para continuar neste caminho positivo”, celebrou, em nome de Herve Leclerc e Jules Bianchi.

Sexto lugar de Leclerc foi o melhor da Sauber desde o top 6 de Nasr em Sochi-2015

Sexto lugar de Leclerc foi o melhor resultado da Sauber desde o top 6 de Nasr em Sochi-2015

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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