Abu Dhabi-2017: o 269º e último capítulo de Felipe Massa na F1

Felipe Massa (Williams), à frente de Fernando Alonso (McLaren): no último duelo, espanhol levou a melhor

Massa, à frente de Alonso: no duelo final, o espanhol levou a melhor, deixando o brasileiro em 10º

Ao que parece, foi para valer. Felipe Massa (Williams) encerrou sua carreira na Fórmula 1 no último dia 26 de novembro, em Yas Marina, palco do GP de Abu Dhabi de 2017. O brasileiro pendurou o capacete com um cartel respeitável: 269 GPs, 11 vitórias, 16 poles, 15 voltas mais rápidas, 41 pódios e 1.167 pontos. Foram 15 temporadas atuando na categoria máxima do automobilismo, tendo como ponto alto o vice-campeonato mundial de 2008. Boa parte desses números acabou sendo obtida quando pilotou pela Ferrari, entre 2006 e 2013. Além do carro vermelho, Massa defendeu as cores da Sauber (2002, 2004 e 2005) e da Williams (entre 2014 e 2017). Apenas no time de Grove, Felipe alcançou 5 pódios (o auge veio com o segundo lugar no GP de Abu Dhabi de 2014, em Yas Marina), 1 pole (no GP da Áustria de 2014, em Spielberg) e 1 melhor volta (no GP do Canadá de 2014, em Montreal).

Entre o primeiro ponto conquistado (com Sauber, foi sexto no GP da Malásia de 2002, em Sepang) e o último (terminou em 10º em Yas Marina-2017), muito se passou na trajetória de Massa. Vitórias incontestáveis, desempenhos abaixo das expectativas, acidentes espetaculares – sendo um que quase o matou (em Hungaroring-2009). Felipe tem história para contar. Melhor: conheceu como poucos tanto o lado bom como o ruim da Fórmula 1. Em 2017, sua campanha foi discretíssima, muito em razão da baixa eficiência do FW40 da Williams. Seus melhores resultados na temporada vieram antes do início da fase europeia – foi sexto nos GPs da Austrália, em Melbourne, e do Bahrein, em Sakhir. Apesar dos dois top 6, o desempenho mais marcante de Massa em 2017 ocorreu no GP do Brasil, em Interlagos, quando levantou o público pela última vez após conquistar o sétimo lugar.

Felipe utilizou um capacete especial para a despedida da F1 em Yas Marina

“Obrigado! Amo todos vocês!”: Felipe utilizou um capacete especial para a despedida da F1

Inspirado após a emocionante despedida do circuito paulistano, Felipe estava preparado para entrar num cockpit da Fórmula 1 pela última vez. Em Yas Marina, o veterano de 36 anos desejava encerrar seu ciclo na categoria de forma competitiva – de preferência, pontuando mais uma vez. Ao iniciar seu derradeiro fim de semana na F1, nos treinos de sexta, Massa esperava brigar novamente com os pilotos da Force India e da McLaren. Porém, a Williams não se encontrava no circuito do Oriente Médio. Após a realização dos dois primeiros tempos, Massa se viu num tímido 11º lugar, ao anotar 1m39s635. O brasileiro ficou a 1s758 de Lewis Hamilton (Mercedes), o mais veloz do dia. Por outro lado, superou seu companheiro, o novato Lance Stroll (Williams), por impressionantes 0s694 – o canadense, que corria em Yas Marina pela primeira vez, marcou 1m40s329.

Sobre sua última sexta na F1, Felipe foi taxativo. “Acho que foi uma sexta-feira normal. Para ser honesto, estava tentando entender o carro e os pneus. Eu também fiz alguns bons tempos de volta. Eu não senti que nada fosse diferente ou estranho em comparação com qualquer outra sexta-feira, mas talvez quando chegarmos à primeira corrida da próxima temporada sentirei falta disso, a competição e tudo mais. Estou pronto para isso e acho que é o momento certo. A única coisa que posso dizer é que eu sou grato por tudo, então vamos ver como vai ser sábado e domingo. Espero que possamos ter uma boa corrida e terminar bem”.

No qualifying em Yas Marina, Massa conseguiu avançar para o Q3: competitivo até o fim

No qualifying em Yas Marina, Massa conseguiu avançar para o Q3: competitivo até o fim

No sábado, Massa estava concentrado em fazer o melhor em seu último qualifying na Fórmula 1. Ainda que o FW40 não oferecesse condições para brigar na parte de cima da classificação, a Williams e o brasileiro almejavam um lugar na fase decisiva do treino oficial. Tanto Felipe quanto Stroll avançaram para o Q2. Porém, na etapa intermediária do quali, o canadense ficou pelo caminho, anotando 1m39s646. Já o brasileiro se esforçou e foi recompensado com uma vaga no Q3. No fim, Massa obteve 1m38s550, sendo 1s096 mais rápido do que Lance. A marca rendeu ao veterano a 10ª posição no grid, ficando a 2s319 de Valtteri Bottas (Mercedes), pole do GP de Abu Dhabi com 1m36s231.

Ao final da sessão, Felipe se mostrou satisfeito com a façanha. Também pudera: foi mais de 1 segundo mais veloz do que um novato, que tem vaga assegurada na Williams em 2018. “Estou muito feliz com minha classificação e minha volta. Consegui entrar na Q3 e extraí o máximo do carro. Estou terminando com minha cabeça erguida, mostrando que estou no auge da competitividade. Estou muito feliz com o que alcancei e realmente ansioso pela corrida de amanhã (domingo). Seria ótimo marcar alguns pontos”, vislumbrou o brasileiro.

Largada do GP de Abu Dhabi de 2017, em Yas Marina: Massa se manteve em 10º lugar

Largada do GP de Abu Dhabi de 2017, em Yas Marina: Massa se manteve em 10º lugar

A corrida

Domingo, 26 de novembro de 2017. O pôr do sol em Yas Marina coincidia com o ocaso da carreira de Felipe Massa na Fórmula 1. Ao alinhar seu Williams FW40 de número 19 na 10ª posição do grid do GP de Abu Dhabi, o brasileiro estava a ponto de trilhar seus últimos momentos na categoria máxima do automobilismo. O veterano queria curtir o momento, travar boas disputas e, se possível, conquistar pontos. Calçando pneus ultramacios, o vice-campeão de 2008 viu as cinco luzes vermelhas se apagarem pela última vez. Ao acelerar seu bólido, deu uma patinada, permitindo que Fernando Alonso (McLaren) pudesse ultrapassá-lo. Porém, Felipe reagiu: ainda na primeira volta, conseguiu dar o troco no espanhol. Assim como em Interlagos, Massa se impunha contra Alonso, mantendo-se na 10ª colocação.

A partir de então, Felipe passava a ser perseguido por Fernando. Entretanto, os pontos de ultrapassagem de Yas Marina eram escassos. Assim, o brasileiro da Williams controlava as investidas do espanhol da McLaren – a diferença não era superior a 1 segundo. Por outro lado, Esteban Ocon (Force India) já colocava vantagem sobre Massa – na volta 5, o francês estava 2s2 à frente do veterano. Dessa forma, a última corrida do paulista se configurou em um duelo à parte contra seu ex-companheiro de Ferrari. Na volta 12, Alonso ganhou a companhia de Carlos Sainz Jr. (Renault) na perseguição ao piloto da Williams. Mesmo com o avanço dos rivais ibéricos, Felipe mantinha-se no top 10 com relativa facilidade.

Sem conseguir acompanhar Ocon, Massa liderou pelotão com Alonso e Sainz até o pit stop

Sem conseguir acompanhar Ocon, Massa liderou pelotão com Alonso e Sainz até o pit stop

Na volta 17, teve início a janela de parada de boxes. Em geral, as equipes planejaram somente um pit stop para a corrida de Yas Marina. Com a ida de Sergio Pérez (Force India) para a troca de pneus, Massa assumiu provisoriamente o nono lugar. Após a parada de Nico Hulkenberg (Renault) na volta 18, o brasileiro ascendeu para oitavo. Na 21, Daniel Ricciardo (Red Bull) abandonava com problemas hidráulicos, o que colocava Felipe em sétimo. Nesta mesma volta, Alonso ingressou nos boxes. Foi a deixa para a Williams chamar o veterano para seu único (e último) pit stop – afinal, com pneus novos, a tendência era o bicampeão ultrapassar o paulista. Na volta 22, Massa entrou no pit. O time sacou os usados compostos ultramacios e os substituiu por um jogo de supermacios.

No retorno à pista, na volta 23, Felipe conseguiu sair à frente de Fernando, na 11ª posição. Era a fiel repetição do que havia ocorrido em Interlagos. Todavia, o espanhol tinha pneus aquecidos, e aproveitou-se desse fator para ultrapassar o brasileiro. Assim, Alonso subia para 11º, e Massa caía para 12º. Ainda que sofresse com a falta de potência do motor Honda, o bicampeão tinha um carro mais equilibrado que o piloto da Williams. Dessa forma, o asturiano sumia à frente do paulista. Na volta 28, Fernando já colocava 3 segundos sobre Felipe. Era o fim da possibilidade de o brasileiro bater novamente o espanhol.

Massa perdeu posição para Alonso após a parada nos boxes, mas lugar no top 10 estava consolidado

Massa perdeu posição para Alonso após a parada nos boxes, mas lugar no top 10 estava consolidado

Com Alonso inalcançável, a consolação para Massa era retornar ao top 10. Para isso, bastava aguardar as paradas de Sainz e de Romain Grosjean (Haas). Na volta 32, o espanhol da Renault se encaminhou aos boxes. Contudo, o time francês não prendeu a porca da roda dianteira esquerda, e Carlos deixou o pit mesmo assim. Logo na saída dos boxes, o madrileno escapou de um acidente sério. Metros depois, Sainz parou seu carro. Assim, sem esforço, Felipe assumiu o 11º lugar. Na 33, foi a vez de Grosjean se encaminhar aos boxes. O francês da Haas fez a troca sem problemas, retornando atrás do brasileiro da Williams. Assim, o veterano estava mais uma vez na zona de pontuação.

Na volta 34, Massa estava a 4 segundos de Alonso, mas tinha 13 segundos de vantagem para Grosjean. O top 10 estava assegurado. Bastava levar o FW40 para casa. E Felipe o fez com dignidade, aproveitando cada momento, cada acelerada, cada freada, cada contorno de curva. O GP de Abu Dhabi de 2017 foi vencido por Valtteri Bottas (Mercedes). O finlandês, companheiro de Massa na Williams entre 2014 e 2016, obteve sua terceira vitória na carreira, assegurando o terceiro lugar no Mundial. Com o tetra assegurado no México, Lewis Hamilton (Mercedes) foi burocrático e ficou em segundo, seguido por Sebastian Vettel (Ferrari), que, com o pódio, conquistou o vice-campeonato. Décimo em Yas Marina, Massa não se conteve e celebrou com o vencedor Bottas e o campeão Hamilton, fazendo ‘zerinhos’ com a dupla da Mercedes.

Após a bandeirada, Massa se juntou a Bottas (vencedor em Yas Marina) e Hamilton (campeão de 2017) na 'festa dos zerinhos'

Massa se juntou a Bottas (1º em Yas Marina) e Hamilton (campeão de 2017) na ‘festa dos zerinhos’

Após a apoteose da carreira no Oriente Médio, Felipe fez uma avaliação sobre sua última corrida. “É uma grande sensação. Posso dizer que estou muito orgulhoso de tudo o que consegui, de todos os 16 anos e de todas as incríveis corridas e das ótimas pessoas que conheci no paddock, correndo contra os melhores pilotos do mundo. Para ser honesto, tenho muita sorte de ter tido tudo isso na minha vida, então, graças à minha família e a Deus por todas essas oportunidades incríveis. A corrida foi boa, eu estava lutando desde o início até o fim. Infelizmente, perdemos a posição para Alonso após o pit stop, mas estou realmente feliz no geral”.

Impressões finais

Felipe: "Depois da bandeirada do GP de Abu Dhabi, decidi fazer algo especial - que não está previsto nas regras da FIA. Mas, depois de 15 anos de F1, tenho certeza de que isso será perdoado"

Felipe: “Após o GP, decidi fazer algo especial (‘zerinhos’). Tenho certeza de que será perdoado”

Em sua última coluna da Motorsport Brasil como piloto de Fórmula 1, Massa resumiu as sensações de Yas Marina. Além disso, traçou planos para o futuro. Confira o texto na íntegra.

“Depois da bandeirada do GP de Abu Dhabi, decidi fazer algo especial – que não está previsto nas regras da FIA. Mas, depois de 15 anos de F1, tenho certeza de que isso será perdoado. Após a volta de desaceleração, fui com meu carro à linha de chegada com os dois pilotos da Mercedes para comemorar com um espetacular zerinho. Fiquei muito feliz em receber as felicitações de Valtteri Bottas e Lewis Hamilton, mas, acima de tudo, em ter a oportunidade de agradecer a todos que me acompanharam nessa longa jornada.

"Eu fiquei muito feliz com os resultados do Brasil e de Abu Dhabi, onde não acho que seria possível conquistar mais do que conquistei"

“Fiquei muito feliz com os resultados do Brasil e de Abu Dhabi. Não seria possível conquistar mais”

Sinto que sou uma pessoa muito sortuda. Completei minhas ambições ao concluir uma carreira de sonhos realizados que tive quando criança. E, quando você vive uma história tão bonita, é preciso agradecer a todos que o ajudaram neste caminho. E isso começa com minha família, que não perdeu a oportunidade de me dar o maior apoio possível – especialmente nos momentos mais difíceis. Acho que as últimas corridas mostraram como eu era querido como um piloto de F1. Eu fiquei muito feliz com os resultados do Brasil e de Abu Dhabi, onde não acho que seria possível conquistar mais do que conquistei.

Foi importante terminar a longa jornada de minha carreira de forma tão positiva, e, até os metros finais de minha carreira na F1, mostrei que sou um profissional que pode trazer uma boa contribuição à equipe. Em Yas Marina, começamos o fim de semana com bom ritmo, e chegamos à classificação com a esperança de chegar ao Q3. Foi a meta que alcançamos – e poder superar outros carros competitivos mostra o progresso que tivemos nos estágios finais da temporada. Isso me deixou particularmente satisfeito. Antes da corrida, pensei que a largada seria crucial para tentar nos ajudar a marcar pontos.

Duas semanas depois de nosso longo duelo em Interlagos, me encontrei novamente em uma dura batalha com meu velho companheiro de equipe

“Me encontrei novamente em uma dura batalha com Alonso, meu velho companheiro de equipe”

Sabemos como é difícil ultrapassar em Abu Dhabi, e eu fiquei feliz em passar Fernando Alonso no começo. Duas semanas depois de nosso longo duelo em Interlagos, me encontrei novamente em uma dura batalha com meu velho companheiro de equipe. Pude controlar a situação até o pit stop, sem nenhum problema em particular. Depois da troca de pneus, forcei muito para evitar ser ultrapassado, e, após meu pit stop, voltei à pista praticamente colado em seu carro. Infelizmente, naquele momento, a carga da parte híbrida do meu carro não era a ideal, e Fernando pôde me ultrapassar. Não havia nada que eu pudesse fazer para evitar, mas, pelo menos, a meta de pontuar não me escapou completamente, já que consegui terminar em 10º.

Depois de cumprimentar vários amigos em Yas Marina no domingo à noite, vou descansar. Muitas pessoas me perguntaram quais são meus planos para o futuro, mas ainda é muito cedo para dar uma resposta precisa. Tenho várias oportunidades e vou decidir de maneira calma. A única certeza é que vocês me verão no automobilismo novamente. É o mundo que sonhei quando criança e no qual tive sorte o suficiente para viver até agora”.

"Vou descansar. A única certeza é vocês me verão no automobilismo novamente"

“Vou descansar. A única certeza é que vocês me verão no automobilismo novamente”

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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