Canadá-1995: dupla da Jordan vai ao pódio em dia de Alesi

Pódio pra lá de inusitado em Montreal: Alesi obteve sua única vitória, seguido por Barrichello e Irvine

Pódio inusitado em Montreal-1995: Alesi obteve sua única vitória, seguido por Barrichello e Irvine

Em 11 de junho de 1995, Jean Alesi (Ferrari) festejaria seu aniversário de 31 anos. O lugar da celebração não poderia ser mais apropriado: o cockpit da Rossa. Naquele dia, o francês conduziria o bólido vermelho na disputa do GP do Canadá, em Montreal. O que Alesi não esperava era receber um enorme presente de Michael Schumacher (Benetton): a vitória na etapa canadense. O primeiro e único triunfo de Jean na Fórmula 1 veio após um problema de Schumacher, que era líder destacado e que terminou em quinto em Montreal. O dissabor do alemão da Benetton também possibilitou um momento histórico para a Jordan: Rubens Barrichello acabou herdando o segundo lugar, e Eddie Irvine, o terceiro. Pela primeira vez, o dono da escuderia irlandesa, Eddie Jordan, colocava os seus dois carros num pódio da categoria máxima do automobilismo.

Depois de Montreal-1995, a Jordan só veria seus dois carros novamente num único pódio em uma outra ocasião – na dobradinha de Damon Hill e Ralf Schumacher, vencedor e segundo colocado do GP da Bélgica de 1998, em Spa-Francorchamps. Além disso, a façanha no Canadá seria especial para seus dois pilotos: era o melhor resultado da carreira de Barrichello (antes, seu melhor desempenho havia sido o terceiro lugar no GP do Pacífico de 1994, em Aida) e o primeiro pódio de Irvine na F1. O segundo e o terceiro lugares trariam conforto para o time, que vivia um clima conturbado antes de desembarcar no Circuito Gilles Villeneuve: até o expressivo resultado de Barrichello e Irvine na pista canadense, a Jordan penava em 1995.

Troca de motor e pressão da crítica brasileira prejudicaram Barrichello na Jordan em 1995

Troca para motor Peugeot e pressão da crítica brasileira prejudicaram Barrichello na Jordan em 1995

Após um promissor ano de 1994, a equipe de Eddie Jordan decidiu dar um passo ousado: trocou o pouco potente motor Hart V10 pelo propulsor Peugeot V10, que havia impulsionado a McLaren – o time de Ron Dennis rompeu contrato com os franceses e entrou em acordo com a Mercedes. Porém, as coisas não se encaixavam bem entre a escuderia irlandesa e a fabricante francesa. Nas cinco primeiras etapas de 1995, a equipe conquistou apenas dois pontos, frutos do quinto lugar de Irvine no GP da Espanha, em Montmeló. Aliás, até aquele momento do Mundial, Eddie capitaneava a Jordan, aproveitando-se do colapso de Rubens, que sofria com as críticas feitas no Brasil. O norte-irlandês largou à frente do brasileiro em todas as provas disputadas, e mostrava melhor performance em corridas.

Barrichello estava decidido a barrar a ascensão de Irvine na Jordan. Para isso, precisava reagir no Circuito Gilles Villeneuve, palco da sexta etapa do Mundial. O cenário, aliás, trazia boas lembranças para a equipe – foi ali, no GP do Canadá de 1991, que a escuderia conquistou os seus cinco primeiros pontos na Fórmula 1, graças ao quarto lugar de Andrea de Cesaris e ao quinto de Bertrand Gachot. Contudo, diferentemente daquela ocasião, em que era estreante, o time queria consolidar seu lugar entre as melhores da F1. Quando partiram para a pista com o Jordan 195, na sexta-feira, Eddie e Rubens andaram entre os melhores. Irvine anotou 1m29s021, o sexto mais veloz do dia, contra 1m29s393 de Barrichello, o oitavo. O mais rápido do treino oficial foi Michael Schumacher (Benetton), que marcou 1m27s661 – 1s360 à frente do norte-irlandês, e 1s732 à frente do brasileiro.

Barrichello foi mais veloz que Irvine no sábado, mas norte-irlandês garantiu melhor lugar no grid com tempo anotado na sexta

Barrichello superou Irvine no sábado, mas Eddie garantiu melhor lugar no grid com tempo da sexta

A diferença de 0s372 que separou os pilotos da Jordan na sexta-feira mexeu com o brios de Rubens. No sábado, dia do segundo treino oficial para o GP do Canadá, o brasileiro pisou forte em Montreal. Barrichello foi mais veloz que Irvine, anotando 1m29s171, contra 1m29s259 do norte-irlandês. Apesar de ter batido o companheiro, Rubens teve que se contentar com o nono lugar no grid. Pela sexta vez em seis provas de 1995, teve que largar atrás de Eddie – que, com o tempo de sexta, assegurou o oitavo posto. A pole ficou com Schumacher, com a marca obtida na sexta. Com os dois carros saindo entre os 10 primeiros, a Jordan mantinha a esperança de pontuar. Porém, as perspectivas mudariam drasticamente no domingo.

Largada do GP do Canadá de 1995: Barrichello saiu mal, mas completou a volta 1 em sexto

Largada do GP do Canadá de 1995: Barrichello saiu mal, mas completou a volta 1 em sexto

A corrida

O sol despontou imperial em Montreal no domingo, 11 de junho de 1995, para a disputa do GP do Canadá. Tão soberano quando a estrela era Michael Schumacher (Benetton), pole e franco favorito à vitória no Circuito Gilles Villeneuve. O objetivo do alemão era repetir o triunfo de 1994 e consolidar seu caminho para o bicampeonato. E assim partiram Michael e os outros 23 pilotos do grid para a largada da etapa canadense. Schumacher manteve a ponta, seguido por Damon Hill (Williams), David Coulthard (Williams), Gerhard Berger (Ferrari) e Jean Alesi (Ferrari). Já Barrichello fez uma largada combativa: o brasileiro superou Irvine, e contou com o enrosco entre Johnny Herbert (Benetton) e Mika Hakkinen (McLaren) no hairpin para assumir o sexto lugar na volta 1.

Na volta 2, Coulthard perdeu o controle de seu Williams na Curva 8 e parou na brita. Na escapada, o escocês quase atingiu Alesi, que superava Berger naquele momento. Com o abandono de David, Jean pulou para terceiro, seguido por Gerhard, Rubens e Eddie. A partir daí, Schumacher liderava com folga, enquanto Hill começava a sofrer com a perseguição de Alesi e Berger. Barrichello não conseguia acompanhar os ferraristas, e era acompanhado de perto por Irvine. Na volta 17, Jean se aproveitou de um vacilo de Damon com retardatários e superou o inglês da Williams na freada do hairpin, assumindo o segundo lugar. Após 20 voltas, Schumacher tinha 11s443 de vantagem sobre Alesi, 14s796 sobre Hill, 17s117 sobre Berger, 28s889 sobre Barrichello, e 32s336 sobre Irvine.

Antes da primeira parada nos boxes, Barrichello se manteve em sexto, com vantagem segura sobre Irvine

Antes da única parada nos boxes, Barrichello se mantinha em 5º, com vantagem segura sobre Irvine

Na volta 26, Berger atacou Hill e assumiu o terceiro lugar. Apesar de não estar em boa forma, o inglês da Williams não tinha motivos para se preocupar com a dupla da Jordan, mantendo cerca de 10s de vantagem sobre Barrichello e Irvine. Após 30 voltas, Michael seguia em primeiro, com 12s509 de vantagem sobre Jean, 16s902 sobre Gerhard, 21s097 sobre Damon, 31s723 sobre Rubens, e 35s597 sobre Eddie. Naquele momento, os carros começavam a ficar mais leves, e os compostos mais desgastados. Era necessária a parada nos boxes para troca de pneus e reabastecimento. Na volta 34, Irvine foi aos boxes, retornando em oitavo. Na passagem seguinte, Alesi, Hill e Barrichello fizeram o pit stop. No retorno à pista, Rubens se viu em quinto, ainda à frente de Eddie.

Ainda na volta 35, Berger sofria com pane seca, e se arrastava pela pista para alcançar os boxes. O austríaco desperdiçou um pódio certo e despencou na classificação. Com o problema do ferrarista, Barrichello assumiu o quarto lugar, e Irvine, o quinto. Na volta 38, Schumacher realizou seu pit stop, e voltou na ponta. Alesi estava em segundo, a 30s076 do alemão, e Hill em terceiro, a 40s455 de Michael. Rubens ocupava o quarto posto, a 15 segundos de Hill. Porém, sofria com a pressão de Eddie, que, após a parada, vinha mais veloz que o brasileiro – o norte-irlandês reduziu a diferença para menos de um segundo.

Após cruzar a linha de chegada, Alesi ficou parado na pista. Depois, ganhou outro presente de Schumacher: uma carona até o pódio

Após triunfar, Alesi ficou parado na pista. Depois, ganhou outro presente de Schumacher: uma carona

Apesar da proximidade do companheiro de Jordan, Barrichello mantinha um bom ritmo em Montreal. Entretanto, não tinha equipamento para lutar pelo pódio. Ele só viria por obra do acaso. Coincidentemente, a estrela de Rubens estava brilhante no Circuito Gilles Villeneuve. Na volta 50, Hill encarou problemas com o sistema hidráulico do câmbio de seu Williams, e foi obrigado a abandonar a corrida. Barrichello ascendeu para o terceiro lugar, seguido por Irvine, o quarto. A situação ficaria ainda mais favorável para a dupla da Jordan quando o improvável aconteceu: na volta 58, Schumacher, o líder incontestável em Montreal, se deparou com um problema elétrico no câmbio e se encaminhou para os boxes. A parada foi longa, e Michael caiu para sétimo lugar.

Sem o alemão, Alesi assumiu a ponta, para delírio dos canadenses. A justificativa: o francês guiava a lendária Ferrari número 27, que marcou época nas mãos do herói local, Gilles Villeneuve. Jean era seguido por Barrichello e Irvine. A partir daí, os três passaram a administrar seus respectivos equipamentos para alcançar um histórico momento. Após 91 GPs na carreira, Alesi vencia pela primeira vez. Mal sabia ele que o triunfo seria o único de sua carreira, e o último de um motor V12 na história. Rubens cruzou a linha de chegada em segundo, a 31s477 de Jean, e 4s503 à frente de Eddie. Olivier Panis (Ligier) terminou em quarto, seguido por Schumacher, o quinto, e Gianni Morbidelli (Footwork), o sexto.

Alesi, Barrichello e Irvine celebraram muito a façanha de Montreal: feito histórico do trio - graças a Schumacher

Alesi, Barrichello e Irvine celebraram muito a façanha de Montreal: feito histórico do trio

A festa foi imensa. A torcida não coube em si e invadiu a pista antes do fim da corrida. A direção de prova decidiu que o resultado seria válido com 68 voltas (e não 69, como previsto). A Ferrari de Jean ficou pelo caminho. Para chegar aos boxes, o francês contou com uma carona de Schumacher – era mais um presente do alemão. No pódio, Alesi não cabia em si pelo feito. Era um presente mais que perfeito de aniversário. Barrichello erguia, com orgulho, a bandeira brasileira. Irvine estava perdido – afinal, nunca havia estado no palco de celebração.

De acordo com a edição de 12 de junho de 1995 do jornal Folha de S. Paulo, Barrichello confidenciou após obter a segunda posição: “este é o dia mais feliz da minha vida”. Também pudera: até então, era o auge da carreira do brasileiro de 23 anos. Nos boxes da Jordan, Barrichello e Irvine foram reverenciados por mecânicos, engenheiros e Eddie Jordan. Rubens estava em êxtase. “Tivemos vários problemas, mas eles foram superados, e o resultado de hoje (domingo) prova isso”, declarou Rubens, após a corrida. Questionado sobre como foi saber que Schumacher havia tido problemas, Barrichello afirmou que fez uma promessa para conquistar o segundo posto. “Prometi que não beberia água até o fim da prova. Morri de sede, mas consegui”, contou o brasileiro.

O pódio de Montreal-1995 foi o auge da Jordan no ano: único top 3 do ano

O pódio de Montreal-1995 foi o auge da Jordan no ano: único top 3 da temporada

Com o resultado, a escuderia irlandesa assumiu o quarto lugar do Mundial de Construtores, com 12 pontos. Porém, aquele seria o melhor fim de semana da Jordan em 1995 – o time somaria 10 dos 21 pontos conquistados durante o ano em Montreal. Ao final da temporada, Barrichello ficou com 11 pontos, contra 10 de Irvine. Por isso, o momento marcante daquele Mundial para Rubens e Eddie foi o top 3 da prova canadense. No fim, o presente de aniversário de Schumacher para Alesi também contemplou a dupla da Jordan, marcando para sempre a carreira do trio que figurou no pódio.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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