Áustria-1976: Watson e Penske, uma vitória por Donohue

John Watson festeja sua primeira vitória em Osterreichring-1976

Entre Jacques Laffite e Gunnar Nilsson, John Watson festeja sua 1ª vitória: única da Penske na F1

Quando cruzou a linha de chegada do GP da Áustria de 1976, em Osterreichring, John Marshall Watson tinha acabado de fazer história. Era a sua primeira vitória, e a primeira de seu país, a Irlanda do Norte, na Fórmula 1. Graças ao norte-irlandês, então com 30 anos, a Penske obtinha um inédito triunfo na categoria máxima do automobilismo. Porém, não foram essas façanhas que emocionaram o ‘circo’. Aquela vitória teve um significado especial não só para Watson,  como também para Roger Penske, chefe da escuderia ianque. Afinal, em Osterreichring, no ano anterior, o piloto titular do time, o norte-americano Mark Donohue, havia morrido após sofrer um acidente nos treinos para o GP da Áustria de 1975. Desde então, John passou a ocupar o cockpit de Donohue. E foi justamente naquele fatídico circuito que Watson e a Penske debutaram no topo do pódio. Não havia dúvidas: era um triunfo por Mike.

O doce sabor da primeira posição de Osterreichring-1976 marcou para sempre a vida de Watson. Afinal, foi um divisor de águas em sua trajetória no automobilismo. Nascido em 4 de maio de 1946, em Belfast, John iniciou no esporte a motor aos 17 anos. Com um Austin-Healey Sprite, um carro conversível esportivo, disputou provas na Irlanda do Norte. Em meados da década de 1960, migrou para os monopostos. John logo se tornou um dos principais pilotos da Fórmula Livre (uma categoria de base do automobilismo) de seu país. Porém, foi em 1970 que sua carreira deu uma guinada. Na Fórmula 2, Watson tentava se consolidar. Porém, um acidente em Rouen (França) quase deu fim ao sonho: o norte-irlandês quebrou um braço e uma perna. John só retornou à F2 em 1971. No ano seguinte, fez boas apresentações na categoria, chamando a atenção da Fórmula 1.

Watson ingressou na Penske no lugar de Mark Donohue, falecido após acidente em Osterreichring-1975

John ingressou na Penske no lugar de Mark Donohue, falecido após acidente em Osterreichring-1975

A estreia de Watson na categoria máxima do automobilismo aconteceu no GP da Inglaterra de 1973, em Silverstone. A bordo de um velho Brabham BT37, o norte-irlandês abandonou com problemas de alimentação de combustível. Depois, participou de outra corrida naquele ano – no GP dos Estados Unidos, em Watkins Glen, o motor Ford de seu Brabham deixou John na mão. Em 1974, disputou sua primeira temporada completa na F1. Com um Brabham da John Goldie Racing, Watson marcou seus primeiros pontos na categoria, terminando o ano com seis pontos. Destaque para o quarto lugar no GP da Áustria, em Osterreichring. No GP dos Estados Unidos, última prova daquele Mundial, o austríaco Helmut Koinigg (Surtees) morreu durante a prova em Watkins Glen, deixando a escuderia sem piloto para 1975. O campeão de 1964 e dono do time, John Surtees, convidou o norte-irlandês para ocupar a vaga de Koinigg. Ele aceitou prontamente.

Entretanto, sua passagem pela Surtees foi um período para esquecer: nenhum ponto e muitos problemas no decorrer de 1975. Quando as coisas iam de mal a pior, uma tragédia voltaria a alterar a rota de sua carreira. A morte de Mark Donohue nos treinos para o GP da Áustria, em Osterreichring, deixou uma lacuna na Penske. John foi convidado por Roger Penske para substituir o falecido norte-americano. Sua estreia no time ianque ocorreu no GP dos Estados Unidos, em Watkins Glen. Watson terminou em nono na última etapa daquele Mundial. Para 1976, o dono da Penske renovou contrato com John para defender a equipe. Seus primeiros pontos na escuderia norte-americana vieram após o quinto lugar no GP da África do Sul, em Kyalami. Depois, John engatou os dois primeiros pódios dele e da Penske – terminou em terceiro lugar nos GPs da França, em Paul Ricard, e da Inglaterra, em Brands Hatch.

A bordo do Penske PC4, Watson voou em Osterreichring, obtendo o segundo lugar no grid

A bordo do Penske PC4, Watson voou em Osterreichring, obtendo o segundo lugar no grid de largada

Ao desembarcar em Osterreichring, palco do GP da Áustria de 1976, Watson ocupava a sétima posição do Mundial, com 10 pontos. As perspectivas para a prova eram as mais positivas, uma vez que as características do circuito austríaco (de alta velocidade) eram similares às de Paul Ricard e de Brands Hatch. Logo, almejar um novo pódio passou a ser a meta de John e da Penske. As possibilidades aumentariam ainda mais diante da decisão da Ferrari – sem Niki Lauda, acidentado durante o GP da Alemanha, em Nurburgring, e lutando para sobreviver, a escuderia italiana decidiu não correr com Clay Regazzoni. Com a ausência dos ferraristas, os demais pilotos no grid passavam a ver a possibilidade de uma maior briga pelas primeiras posições.

Sem Lauda e Regazzoni, James Hunt (McLaren) ficou com o caminho livre para encostar no austríaco na luta pelo título mundial. Na sexta-feira, primeiro dia de treinos oficiais, Hunt fez 1m35s02. Atrás do inglês, veio um surpreendente Watson. O norte-irlandês voou com seu Penske, anotando 1m35s84 – a 0s82 de Hunt. John se colocou à frente de Ronnie Peterson (March), terceiro com 1m36s34. Com a chuva que caiu sobre Osterreichring no sábado, os tempos obtidos na sexta serviram para definir o grid. Para se ter uma ideia, o melhor tempo do dia foi de Peterson, com 1m54s50 (quase 20s acima da pole de Hunt). Ótimo para Watson e para a Penske, que conquistavam a melhor posição do grid em suas trajetórias na Fórmula 1.

Largada do GP da Áustria de 1976: Watson traciona melhor, supera Hunt e lidera pela 1ª vez

Largada do GP da Áustria de 1976: Watson traciona melhor, supera Hunt e lidera pela 1ª vez

A corrida

Domingo, 15 de agosto de 1976. O dia estava nebuloso em Osterreichring, palco do GP da Áustria daquele ano. Momentos antes da largada, uma forte chuva caiu sobre a pista austríaca. Havia o temor de que a tempestade voltasse a atrapalhar o evento, como no ano anterior – Vittorio Brambilla (March), vencedor do GP da Áustria de 1975, completou apenas 29 das 75 voltas previstas. A direção da prova, então, decidiu adiar o início da corrida em 30 minutos. A decisão foi acertada. Com uma leve chuva, a pista já estava em melhores condições quando os 25 pilotos partiram para a disputa da etapa austríaca. Watson fez uma largada brilhante: saltou de forma decidida e superou James Hunt (McLaren), assumindo a ponta em Osterreichring. Pela primeira vez, John e a Penske ocupavam a liderança de uma prova na Fórmula 1.

Mas ainda era muito cedo para vislumbrar a vitória. O circuito, com 5.910 metros de extensão, tinha trechos bastante molhados. Qualquer erro selaria o fim do sonho para John. Cauteloso, o norte-irlandês sofria com o assédio de Ronnie Peterson (March). O sueco partiu para cima de Watson, tomando-lhe a ponta na volta 3. Quem também se sentia bem no piso molhado era Jody Scheckter (Tyrrell). Após largar em 10º, o sul-africano foi superando seus adversários, um a um. Na volta 7, Scheckter superou Hunt e Watson, assumindo o segundo lugar. Na 10, Jody tirou Peterson do primeiro lugar. Todavia, o sul-africano se atrapalhou com o retardatário Jean-Pierre Jarier (Shadow) e acabou tomando o troco de Ronnie e John na passagem seguinte.

Watson lidera, à frente de Peterson e Nilsson: norte-irlandês tomou a ponta e não largou mais

Watson lidera, à frente de Peterson e Nilsson: norte-irlandês tomou a ponta e não largou mais

Enquanto Scheckter perdia rendimento, Watson atacou Peterson pela primeira posição. Em um momento de hesitação do sueco, o norte-irlandês reassumiu a liderança na volta 12. Naquele momento, John liderava um pelotão com seis carros. Além do norte-irlandês da Penske, o grupo era formado (pela ordem) por Peterson, Gunnar Nilsson (Lotus), Scheckter, Hunt e Jacques Laffite (Ligier). Ao mesmo tempo, um tímido sol começou a brilhar em Osterreichring, secando a pista. Watson passou a colocar diferença em relação ao pelotão. Na volta 15, um problema de suspensão fez Scheckter escapar da pista, abandonando a corrida. Assim, Hunt subiu para quarto, e Laffite, para quinto. Na volta 19, Nilsson superou Peterson, assumindo o segundo lugar. Porém, Watson já havia construído uma boa vantagem para o sueco da Lotus.

Na volta 26, Laffite ultrapassou Hunt, tomando-lhe o quarto lugar. Na 29, o francês da Ligier partiu para cima de Peterson. Na volta 31, após travar um intenso duelo com o sueco, Jacques assumiu a terceira posição. Hunt se aproveitou da disputa para superar Ronnie, passando a ocupar a quarta colocação. Enquanto isso, Watson liderava sem ser incomodado por Nilsson. O sueco da Lotus, por sua vez, passava a se preocupar com a aproximação de Laffite. Na volta 45, Jacques ultrapassou Gunnar e assumiu o segundo lugar. Apesar do bom desempenho da Ligier, o francês não tinha muito a fazer – estava a 15 segundos de Watson.

Determinado, Watson obteve a primeira vitória da Irlanda do Norte na F1

Watson obteve a primeira vitória da Irlanda do Norte na F1: misto de emoções na Áustria

Nas últimas voltas, John apenas administrou a vantagem existente entre ele e Laffite. Depois de 41 GPs disputados, enfim, chegava o grande dia. Watson era o vencedor do GP da Áustria de 1976, 10s79 à frente de Laffite. Nilsson tentou a todo custo alcançar o segundo lugar, mas teve que se contentar com a terceira posição. Ao chegar nos boxes, uma multidão aguardava o norte-irlandês. Logo, foi abraçado efusivamente por Roger Penske. Porém, havia um misto de emoções no ar. De acordo com entrevista concedida em 2014 por John ao site australiano MotorsportM8 (antigo RF1), vencer em Osterreichring-1976 “foi tristemente irônico”.

“Para mim, era a realização de um sonho. A pista estava úmida no início, e isso nivelou as forças. Mas a Penske tinha evoluído seu modelo PC4, e eu senti que era capaz de conduzir bem o carro naquelas condições e vencer a corrida. Entretanto, foi irônico vencer no mesmo local onde o time perdeu (Mark) Donohue, um dos icônicos pilotos norte-americanos. Roger (Penske) é muito leal com quem trabalhou. Mas havia uma reciprocidade sem igual entre Mark e Roger”, observou Watson. Apesar de não ser tão próximo a Roger Penske como Donohue, John mantinha uma relação pra lá de cordial com o chefe da escuderia. Tanto que firmou uma aposta com o dirigente: barbudo, Watson prometeu a Roger que rasparia sua vasta barba caso vencesse uma corrida.

Watson tinha um trato com Roger Penske: se vencesse, tiraria sua barba. Foi o que aconteceu...

Watson tinha um trato com Roger Penske: se vencesse, tiraria sua barba. Foi o que aconteceu…

Eis que veio o triunfo em Osterreichring-1976, e lá foi Watson se redimir. “Roger sempre defendeu uma apresentação limpa de seus profissionais. Eu tinha barba quando fui contratado, mas em nenhum momento ele me pediu para raspá-la. De fato, eu queria me livrar daquela maldita coisa. Assim, acabamos concordando que, se ganhasse um GP, eu tiraria minha barba”, explicou o norte-irlandês ao MotorsportM8. “Voamos de volta a Londres naquela noite após a vitória. Roger estava voando na segunda-feira seguinte para os Estados Unidos. Nós concordamos em ter uma reunião no hotel onde ficaríamos, no café da manhã, e, em seguida, ele retornaria para a América. Então, entrei no quarto do hotel, me olhei no espelho, levantei a navalha, passei a espuma sobre a barba e raspei o rosto”.

John prosseguiu. “Eu desci para o café da manhã antes de Roger e de Heinz Hofer, o gerente da equipe. Estava no salão, e vi os dois me procurando. Roger disse: ‘Onde está Watson? Onde está Watson?’. Eu respondi: ‘Roger, aqui’, sem colocar a mão para cima. Os dois ouviram a voz, mas não me reconheceram. Roger não achava que eu rasparia a barba, e eu não podia esperar melhor momento para tirar aquela coisa. Então, o trato foi cumprido: Roger entregou um bom carro, e eu tirei minha barba após vencer com ele”. Coincidentemente, o primeiro lugar do norte-irlandês em Osterreichring-1976 foi o único da Penske – desiludido com a morte de Donohue, Roger deixou a categoria máxima do esporte a motor e retornou seu foco para o automobilismo norte-americano, onde consolidou sua equipe na Fórmula Indy e na Nascar. Ainda assim, uma inesquecível conquista. Para Roger. Para John. E por Mike.

Watson festeja em Osterreichring: vitória para Roger - e por Mark

Watson festeja em Osterreichring: vitória para Roger – e por Mark Donohue

Advertisements

Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
Esta entrada foi publicada em Áustria, Gunnar Nilsson, Helmut Koinigg, Jacques Lafitte, Jean-Pierre Jarier, Jody Scheckter, John Watson, Ligier, March, Mark Donohue, Osterreichring, Penske, Roger Penske, Ronnie Peterson, Shadow. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s