Bélgica-1966: Jochen Rindt apresenta cartão de visitas à F1

Jochen Rindt (Cooper), em ação durante o GP da Bélgica de 1966, em Spa: atuação ousada rendeu o 2º lugar

Jochen Rindt (Cooper), em ação no GP da Bélgica de 1966, em Spa: atuação ousada rendeu o 2º lugar

Não basta correr: tem que impressionar. Com essa ideia em mente, Karl Jochen Rindt (Cooper) largou para a disputa do GP da Bélgica de 1966, em Spa-Francorchamps. No 14º GP de sua carreira na Fórmula 1, o austro-germânico quase pôs tudo a perder no início. Em segundo no grid, despencou na classificação logo na primeira volta, após escapar na Chicane Masta Kink. Porém, com tremenda habilidade na chuva, reagiu no longo circuito de 14 km e se colocou numa incontestável liderança. Pontear uma prova pela primeira vez em sua trajetória era pouco para Rindt. Ele queria mais. A vitória inédita passou a ser o objetivo. Todavia, um problema no diferencial de seu Cooper T81 fez com que cedesse a ponta para John Surtees (Ferrari). No fim, restou o segundo lugar, a 42s1 de Surtees. Era o primeiro dos 13 pódios de Jochen na categoria máxima do automobilismo. Um resultado alentador, afinal, depois de quase dois anos de sua estreia, o audaz piloto demonstrou seu potencial.

Rindt tinha 24 anos quando alcançou seu primeiro top 3 na F1. Filho de mãe austríaca e pai alemão, nasceu em 18 de abril de 1942, na cidade germânica de Mainz. Com apenas 1 ano, sofreria com os horrores da Segunda Guerra Mundial. Em julho de 1943, seus pais morreram após um ataque anglo-americano contra a cidade de Hamburgo (Alemanha). Sobrevivente, foi levado para Graz (Áustria), onde seria criado pelos avós maternos. Em solo austríaco, Jochen teve uma infância agitada. Era uma criança travessa. Tanto que foi expulso diversas vezes de colégios. Com 15 anos, foi para a Inglaterra, onde estudou a língua da Rainha. Em solo britânico, teve o primeiro contato com a velocidade.

Rindt teve sua vida mudada após a Segunda Guerra Mundial: nascido na Alemanha, correu sob a bandeira austríaca

Rindt teve sua vida mudada após a 2ª Guerra: nascido na Alemanha, correu sob a bandeira austríaca

Ao retornar para a Áustria, queria se dedicar ao esporte a motor. Todavia, um incidente marcaria para sempre a vida de Rindt. Aos 16 anos, ao esquiar com amigos, sofreu um sério acidente. Após uma queda, o jovem fraturou o osso femural. Após diversas cirurgias, ficou com uma perna 4 cm mais curta que a outra, o que o levou a manquitolar pelo resto da vida. Rebelde e provocador, Jochen ignorou o problema físico e prosseguiu abusando. Ao comprar uma moto, decidiu correr em pistas de motocross. Além disso, por 18 meses, andou sem licença – e com um gesso na perna. Para obter a carteira de habilitação, precisou se explicar sobre as oito advertências de trânsito sofridas durante sua juventude. No fim do imbróglio, veio a recompensa: aos 18 anos, Rindt estava habilitado.

Com um Fusca, Jochen passou a guiar pelas ruas austríacas em 1960. No ano seguinte, acompanhou a primeira corrida de Fórmula 1 de sua vida. Ao lado de amigos de escola (entre eles, Helmut Marko), assistiu ao GP da Alemanha de 1961, em Nurburgring. Apesar da torcida pelo alemão Wolfgang von Trips (Ferrari) – por quem era fanático -, Rindt viu a 16ª e derradeira vitória de Stirling Moss (Lotus) na F1. Von Trips ficou em segundo. Na prova seguinte, o germânico morreria durante a disputa do GP da Itália de 1961, em Monza (mal sabia Jochen que, nove anos mais tarde, no mesmo circuito italiano, teria destino semelhante ao de Wolfgang…).

Com um Brabham, Jochen estreou na F1 no GP da Áustria de 1964, em Zeltweg:

Primeiro passo: com um Brabham, Jochen estreou na F1 no GP da Áustria de 1964, em Zeltweg

Rindt não se abalou com a perda de Von Trips e seguiu sua trajetória no esporte a motor. Ainda em 1961, iniciou sua carreira no automobilismo em provas de carros de turismo na Áustria (aqui, cabe uma ressalva. O avô de Jochen fez com que o neto se mantivesse com cidadania alemã. Apesar disso, o jovem preferiu competir sob as cores do país que o adotou. Quando questionado, Rindt costumava-se denominar como “um cidadão europeu”). Logo em sua primeira exibição, foi desclassificado por conduzir de forma perigosa. Depois, participou de algumas provas de rali, sem obter sucesso. No ano seguinte, obteve diversas vitórias em corridas off-road, a bordo de um Alfa Romeo GT 1300.

Porém, Jochen tinha um sonho: correr em monopostos. Em 1963, ingressou na Fórmula Júnior, uma categoria base do automobilismo europeu. Rindt colecionou vitórias, o que o credenciou às disputas das principais categorias internacionais: Fórmula 2 e Fórmula 1. A partir de 1964, Jochen disputaria paralelamente as duas séries máximas do automobilismo. Porém, foi uma vitória em uma etapa da F2 – a London Trophy, em maio daquele ano -, que abriria as portas de Rindt para a F1. O austro-germânico assegurou o triunfo ao derrotar o prestigiado campeão Graham Hill. Para a estreia na categoria máxima do automobilismo, no GP da Áustria, em Zeltweg, o jovem utilizou um Brabham-BRM. Na corrida, porém, muitos problemas. Rindt não completou a etapa austríaca.

Na segunda etapa do Mundial de 1966, Rindt apostava na potência do velho motor V12 da Maserati

Em Spa, 2ª etapa do Mundial de 1966, Rindt apostava na potência do velho motor V12 da Maserati

Em 1965, Jochen decidiu disputar sua primeira temporada completa na Fórmula 1. Com um Cooper-Climax, anotou um total de quatro pontos – três no quarto lugar no GP da Alemanha, em Nurburgring, e um no sexto posto do GP dos Estados Unidos, em Watkins Glen. Apesar da vitória nas 24 Horas de Le Mans daquele ano, os resultados na Fórmula 1 não agradavam Rindt. Por isso, 1966 passou a ser considerado um ano decisivo para a carreira do austro-germânico. Era consolidar uma carreira de vitórias ou virar mais um no grid. Na estreia da temporada, no GP de Mônaco, Rindt largou em sétimo e chegou a andar em segundo. Entretanto, o pesado e velho motor Maserati V12 de seu novo Cooper T81 quebrou, fazendo com que deixasse a disputa.

Ao chegar em Spa-Francorchamps, palco do GP da Bélgica de 1966, segunda etapa do Mundial daquele ano, Rindt tinha duas certezas: uma, era que ele voltaria a participar das filmagens de Grand Prix, película que também havia captado imagens durante o GP de Mônaco – a diferença foi que, em Spa, houve a instalação de uma câmera num McLaren, pilotado pelo campeão de 1961, Phil Hill, que ajudava nas gravações; outra, que a potência do lendário propulsor italiano iria fazer diferença nas longas retas do circuito belga.

Rindt surpreendeu ao alinhar em segundo no grid do GP da Bélgica: melhor posição da carreira até então

Rindt surpreendeu ao alinhar em 2º no grid do GP da Bélgica: melhor posição da carreira até então

O que Jochen não esperava era que o motor Maserati de seu Cooper enfrentasse dificuldades logo na sexta-feira, primeiro dia de treinos em Spa. Assim como no Principado, o austro-germânico se viu com o propulsor quebrado. A solução teria virado problema? Para a felicidade de Rindt e da Cooper, as coisas melhorariam no sábado. O motor Maserati fez jus à sua fama. O arcaico V12, bem-sucedido nos anos 1950, falou alto no veloz e extenso traçado das Ardenas. Jochen arrancou um belo tempo de 3m41s2 nos 14.120 metros de Spa, deixando Jackie Stewart (BRM) para trás. Contudo, John Surtees (Ferrari) era inalcançável. O inglês ficou com a pole, com 3m38s0 – 3s2 mais rápido que Rindt.

Rindt (à dir.) supera seu companheiro de Cooper, Richie Ginther, no início do GP da Bélgica: chuva provocou acidentes em Spa

Rindt (à dir.) supera Richie Ginther (Cooper), no início do GP da Bélgica: chuva provocou acidentes

A corrida

Jochen alinhou seu Cooper T81 na segunda posição do grid do GP da Bélgica de 1966. Era a melhor posição de largada na carreira do austro-germânico até então. Porém, havia algo de diferente no ar. Ao invés do sol, presente nos treinos de sexta e sábado, o céu estava nebuloso naquele 12 de junho. Quando a bandeirada para a partida foi acionada, um ansioso Rindt partiu rumo a Eau Rouge, primeira curva da etapa belga. Entretanto, seguiu em segundo, atrás de John Surtees (Ferrari), mas à frente de Jack Brabham (Brabham), Lorenzo Bandini (Ferrari) e de Jackie Stewart (BRM). Na altura da região de Burnenville, uma forte chuva surpreendeu os pilotos (cabe reiterar que o circuito de Spa tinha mais de 14 km de extensão à época).

Na região de Masta Kink, diversos deles escaparam da pista: Stewart, Graham Hill (BRM) e Bob Bondurant (BRM) abandonaram na chicane – Jackie sofreu diversas lesões, e foi resgatado pelo britânico e pelo norte-americano. Jochen também passeou por fora do traçado, mas teve mais sorte e conseguiu retornar à corrida. Todavia, o piloto da Cooper havia perdido posições. Ao final da volta 1, ocupava a quinta posição – fora superado por Brabham, Bandini e Richie Ginther (Cooper). Por outro lado, oito pilotos deixaram a disputa na passagem inicial – além de Stewart, Hill e Bondurant, abandonaram Jim Clark (Lotus), Denny Hulme (Brabham), Mike Spence (Lotus), Jo Siffert (Cooper) e Jo Bonnier (Cooper). Do grupo que saiu da corrida, apenas Clark ficou de fora por problema de motor – os demais se acidentaram pelo caminho.

Após superar os Ferrari de Surtees e Bandini, Rindt liderou uma corrida pela 1ª vez na carreira

Após superar os Ferrari de Surtees e Bandini, Rindt liderou uma corrida pela 1ª vez na carreira

Na volta 2, Rindt passou a imprimir um ritmo fortíssimo. Debaixo d’água, o austro-germânico foi para cima dos adversários. Com arrojo, superou Brabham e Ginther, assumindo a terceira posição. Na passagem seguinte, já andava no ritmo dos Ferrari de Bandini, o líder, e de Surtees, o segundo. Jochen ignorou solenemente os carros vermelhos à sua frente, e completou a volta 3 em primeiro, à frente de John e Lorenzo. Pela primeira vez em sua carreira, Rindt liderava uma corrida na Fórmula 1. Apesar de todas as adversidades, o piloto da Cooper se portava de forma destemida, ignorando os riscos da pista molhada e colocando uma pequena vantagem em relação a Surtees, o segundo.

Na pista molhada, Jochen se impôs diante do campeão mundial de 1964. Entretanto, aos poucos, a chuva parou. Dessa forma, o traçado secou. Com isso, o inglês partiu com mais ação sobre o austro-germânico. Não bastasse isso, Rindt começava a sentir problemas com o diferencial (conjunto mecânico que distribui a potência do motor para as rodas) do seu Cooper. Na volta 24, a cinco do fim do GP da Bélgica, Jochen não resistiu ao melhor desempenho de John. Após 22 voltas na ponta, Rindt foi superado por Surtees, que depois de assumir a liderança, colocou grande vantagem. Apesar da queda de rendimento, o austro-germânico não tinha sua posição ameaçada – havia dado uma volta sobre Bandini, o terceiro. Assim, restou a Jochen levar seu carro à bandeirada.

No fim, Jochen não resistiu aos problemas do motor Maserati e foi superado por Surtees (à esq.)

No fim, Jochen (à dir.) não resistiu aos problemas do motor Maserati e foi batido por Surtees (centro)

Surtees triunfou em Spa, mas quem escreveu história foi Rindt. Após uma “pilotagem muito corajosa” – definição dada pela revista britânica Motorsport -, Jochen pisava num pódio da Fórmula 1 pela primeira vez. “O jovem piloto austríaco fez um esplêndido trabalho em condições muito difíceis, e não foi nenhuma desgraça ser batido por um John Surtees impulsionado com um motor Ferrari V12. Se a chuva não tivesse parado e a pista secado, teríamos um desfecho ainda mais interessante”, analisou a publicação sobre o austro-germânico, que obteve o primeiro top 3 de um motor Maserati desde a vitória de Juan Manuel Fangio (Maserati) no GP da Itália de 1957, em Monza. Diante de todos os feitos de Rindt, era possível decretar: melhor cartão de visitas à categoria máxima do automobilismo do que o segundo lugar em Spa-1966, impossível.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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