Austrália-2016: Grosjean leva a estreante Haas ao sexto lugar

Romain Grosjean fez história em Melbourne ao colocar a estreante Haas na sexta posição em Melbourne

Romain Grosjean fez história ao colocar a estreante Haas na sexta posição em Melbourne

A Haas se tornou a 65ª escuderia a pontuar na Fórmula 1 desde o início do Mundial de Construtores, em 1958. Graças ao inimaginável sexto lugar do francês Romain Grosjean no GP da Austrália de 2016, em Melbourne, o time norte-americano inscreveu seu nome na história logo em sua primeira exibição. Pela primeira vez em 14 anos, um projeto totalmente novo (leia-se “sem assumir espólio alheio”) não pontuava em sua estreia – isso não acontecia desde o GP da Austrália de 2002, em Melbourne, quando a Toyota, com Mika Salo, terminou em sexto. Além disso, foram os primeiros pontos obtidos por uma escuderia ianque em quase três décadas – desde o sexto lugar da Lola-Haas (não confundir com a atual) no GP da Itália de 1986, em Monza, com Alan Jones.

Diante dos grandiosos feitos em uma única etapa, Grosjean e a Haas se tornaram as grandes sensações da prova de abertura do Mundial. Afinal, ninguém imaginaria que Romain, saindo do 19º lugar do grid, terminaria no top 6 da corrida australiana. Foi um desfecho grandioso para o time norte-americano, que encarou diversos desafios até alinhar seus carros em Melbourne. Criada em 2014 por Gene Haas, um bem-sucedido empresário do ramo de máquinas e proprietário de equipe da Nascar, a escuderia possui duas bases: uma em Kannapolis, nos Estados Unidos (junto ao núcleo da Nascar), e a outra em Banbury, na Inglaterra (adquirida junto a Marussia, em 2015).

Grosjean deixou a Lotus e se uniu a um novo projeto: duas bases e apoio técnico da Ferrari

Grosjean deixou a Lotus e se uniu ao promissor projeto da Haas: duas bases e apoio técnico da Ferrari

Além de instalar duas frentes, Gene fez parcerias técnicas com a Dallara, para desenhar o primeiro carro do time, e com a Ferrari, para a cessão do propulsor e de outros componentes técnicos para 2016. Para comandar a equipe, contratou o italiano Gunther Steiner, ex-diretor técnico da Jaguar e da Red Bull. E para ocupar o cockpit, tirou o veloz Grosjean da Lotus e trouxe o mexicano Esteban Gutiérrez como contrapeso do pacote ferrarista. Desse conjunto de esforços, surgiu o VF-16, o primeiro modelo da Haas. Apesar de ter obtido alguma quilometragem os testes da pré-temporada de 2016, em Montmeló (Espanha) – Grosjean e Gutiérrez deram um total de 474 voltas nos oito dias de testes no circuito catalão -, havia muito mais dúvidas do que certezas em torno do bólido da equipe.

Quando desembarcaram em Melbourne, palco do GP da Austrália, as expectativas eram modestas. “Podemos lidar com diversos cenários, mas não estamos dizendo que estamos preparados para tudo aqui”, disse Gunther Steiner, com sinceridade ímpar. “Há sempre a possibilidade de acontecer algo que pode nos atrapalhar, e eu não culparia ninguém se isso ocorresse”. As palavras de Steiner parecem ter norteado as ações da Haas durante a sexta-feira. O clima instável prejudicou não só o time estreante, como todos os presentes em Albert Park. Foram raros os momentos com pista seca, e muitos os instantes com piso molhado. Dessa forma, Grosjean e Gutiérrez pouco puderam assimilar sobre o comportamento do VF-16 no circuito australiano.

Na sexta-feira, os treinos foram atrapalhados pelo clima instável em Melbourne: chuva persistente

Na sexta, os treinos foram atrapalhados pelo clima instável em Melbourne: Romain deu 14 voltas

Na sexta, a dupla da Haas deu um total de 28 voltas, sendo 14 realizadas pelo francês e 14 pelo mexicano. No fim dos treinos, Romain ficou com o tempo de 1m43s443 – a longínquos 13s718 de Lewis Hamilton (Mercedes), o primeiro do dia, com 1m29s725. Gutiérrez foi um pouco mais veloz do que Grosjean, com 1m41s780. Após as sessões, o francês ignorou o fato de ter sido superado por Esteban, e reclamou do clima em Melbourne. “Tivemos um dia complicado para os nossos primeiros treinos. O clima estava complicado. Fizemos algumas voltas com pneus intermediários, mas perdemos a oportunidade de rodar com os slicks. Parece que teremos um sábado seco, então podemos tentar recuperar o tempo perdido”.

As preces de Grosjean por um dia sem chuva surtiram efeito. O sábado em Melbourne estava com um clima ameno. Entretanto, para Romain, as orações não contemplaram suas saídas de box. Explica-se: durante o treino livre que precedia a sessão oficial, o francês foi atingido por Rio Haryanto (Manor). O indonésio, em seu primeiro fim de semana na Fórmula 1, saiu de forma abrupta dos boxes e atingiu Grosjean. Apesar da cena pastelão, não houve maiores problemas para os dois. À tarde, veio a primeira sessão classificatória da história da Haas. Contudo, diante da implantação da regra “nocaute” – que eliminaria os pilotos mais lentos a cada 90 segundos -, Romain e Esteban fizeram apenas figuração no Q1. Grosjean anotou 1m28s322, ficando 1s284 à frente de Gutiérrez, 20º no grid. No fim, a Haas superou apenas a Manor no qualifying.

No treino livre de sábado, Grosjean foi 'vítima' da saída equivocada de Rio Haryanto (Manor): cena pastelão

No treino livre de sábado, Grosjean foi ‘vítima’ da saída equivocada de Rio Haryanto (Manor)

“Eu estava em uma boa volta e de repente fui eliminado. Nem sequer tive uma chance de completar a volta. Isso é irritante porque o carro estava bom, nossa base é boa, e em termos de performance, claramente tínhamos potencial para avançar. Só nos faltou um pouco de agilidade nas operações da garagem, portanto ficamos muito fora de posição. Esta é uma daquelas corridas complicadas que você precisa terminar. É nossa primeira ordem para amanhã (domingo), é o que Gene (Haas) quer. A partir daí, tudo é possível. É uma prova longa e temos novas regras com o banimento do rádio, então precisamos tentar usar a experiência”, analisou Grosjean, que ficou a 4s485 de Lewis Hamilton (Mercedes), o pole do GP da Austrália, com 1m23s837.

Grid do GP da Austrália de 2016, em Melbourne: Grosjean alinhou na 10ª fila

Grid do GP da Austrália de 2016, em Melbourne: Grosjean alinhou na longínqua 10ª fila

A corrida

Domingo, 20 de março de 2016. O sol brilhava em Melbourne. Melhor cenário impossível para a abertura do 67º Campeonato Mundial de Fórmula 1. Ocupando a 10ª fila do grid do GP da Austrália, estavam Grosjean e Gutiérrez, os dois pilotos da Haas, a escuderia estreante da temporada. Antes da largada, a dupla herdou uma posição – a de Daniil Kvyat (Red Bull), que não conseguiu correr em razão de um problema elétrico em seu bólido. Assim, quando as luzes vermelhas se apagaram, Romain ocupava a 18ª posição, e Esteban, a 19ª. No fim da volta 1, o francês manteve sua colocação, enquanto o mexicano acabou sendo superado por Rio Haryanto (Manor), caindo para 20º.

Calçando novos pneus macios desde o início, a dupla da Haas precisava estender ao máximo sua presença na pista, a fim de tornar eficiente a estratégia de apenas uma parada nos boxes. Diante dos pit stops dos adversários, Grosjean começou a ganhar posições na classificação. Na volta 8, Carlos Sainz Jr. (Toro Rosso) realizou sua primeira parada, fazendo com que Romain assumisse o 17º lugar. Na 10, com o pit de Felipe Nasr (Sauber), o francês passou para 16º. Na passagem seguinte, com a ida aos boxes de Pascal Wehrlein (Manor) e Marcus Ericsson (Sauber), Grosjean se viu em 14º. Na 12, foi a vez de Felipe Massa (Williams) e Fernando Alonso (McLaren) irem ao pit, colocando Romain em 12º.

Com a tática de largar com pneus macios, Grosjean se manteve mais tempo na pista: tática eficiente

Estratégia de largar com pneus macios fez Grosjean se manter mais tempo na pista: tática eficiente

A ascensão do francês da Haas teve apenas um contratempo. Na volta 13, Grosjean não resistiu ao melhor equipamento de Massa, e caiu para 13º. Porém, a tática da equipe estreante em esticar o primeiro stint se mostrava eficiente. Na 15, Jenson Button (McLaren) fez sua troca de pneus, e Romain recuperou o 12º lugar. Na passagem seguinte, Sergio Pérez (Force India) e Nico Hulkenberg (Force India) foram para os boxes, fazendo com que o VF-16 ingressasse pela primeira vez na história na zona de pontos. Enquanto isso, Gutiérrez também ganhava posições e ocupava a 12ª posição. Porém, na volta 17, o mexicano foi abalroado por Alonso na freada da curva 3. O espanhol da McLaren sofreu um forte e espetacular acidente, mas escapou ileso. Esteban parou na brita, e deixou a corrida.

O impacto de Alonso em Gutiérrez sujou a pista com detritos dos carros. Com isso, a direção de prova decidiu acionar a bandeira vermelha em Melbourne. Pela primeira vez desde o GP do Japão de 2014, em Suzuka – em razão do acidente que vitimou Jules Bianchi -, uma etapa era interrompida durante a disputa. Naquele momento, Grosjean ocupava uma promissora nona colocação – o francês havia superado Valtteri Bottas (Williams), que parou nos boxes no mesmo instante do acidente. Com os carros nos boxes, possibilitou-se a troca de pneus. A Haas, então, colocou novos compostos médios no bólido de Romain. Pronto: o piloto e o time estavam preparados para fazer história.

Com a bandeira vermelha, carros ficaram nos boxes: Grosjean colocou pneus médios durante a interrupção

Bandeira vermelha em Melbourne: Grosjean colocou pneus médios durante a interrupção

O reinício da corrida ocorreu na volta 20, pouco mais de 20 minutos após o acidente que envolveu Alonso e Gutiérrez. Grosjean se manteve em nono até a volta 22. Naquela passagem, Kimi Raikkonen (Ferrari) deixou a corrida com o motor em chamas. Com isso, o francês alcançou a oitava posição. A partir dali, Romain se preocupava mais em impedir a aproximação de Hulkenberg, o nono, do que perseguir Massa. Ocupado em se segurar na zona de pontos, Grosjean seria beneficiado com um erro da Toro Rosso: Sainz Jr. e Verstappen voltaram da bandeira vermelha calçando pneus macios. Com esses compostos, a dupla não conseguiria resistir até o fim sem fazer um novo pit stop.

Na volta 31, o espanhol se encaminhou aos boxes, fazendo com que Romain subisse para sétimo. Na passagem seguinte, foi a vez do holandês realizar sua segunda parada, o que colocou o francês da Haas numa incrível sexta posição. A partir de então, Grosjean gerenciava de forma precisa seus pneus, a fim de não permitir a aproximação de Hulkenberg. O alemão da Force India, por sua vez, sofria pressão de Bottas, Sainz Jr. e Verstappen. Com isso, a maior preocupação de Nico era se segurar em sétimo, e não atacar Romain pelo sexto lugar.

Grosjean, à frente de Hulkenberg: sexta posição não foi ameaçada pelo alemão da Force India

Grosjean, à frente de Hulkenberg: sexta posição não foi ameaçada pelo alemão da Force India

No fim, o GP da Austrália de 2016 foi vencido por Nico Rosberg (Mercedes). Lewis Hamilton (Mercedes) terminou em segundo, seguido por Sebastian Vettel (Ferrari). Porém, os grandes vencedores de Melbourne foram Grosjean e a Haas. “Foi um ótimo dia no escritório. Esse sexto lugar é como uma vitória. É uma sensação incrível. Para todo o pessoal que trabalhou tão duro nas últimas semanas, isso é inacreditável. Não tivemos muito tempo para acertar o carro. Foi um caso de entrar na pista e ver o que acontece. Tivemos azar ontem (sábado), mas um pouco de sorte hoje (domingo) com a bandeira vermelha”, afirmou Romain após conquistar os oito pontos.

O top 6 na estreia de um novo projeto colocou a Haas num rol com a Toyota (sexto com Mika Salo no GP da Austrália de 2002, em Melbourne) e a Shadow (sexto com George Follmer no GP da África do Sul de 1973, em Kyalami). Apenas a Sauber teve uma estreia mais bem-sucedida – quinto, com JJ Lehto, no GP da África do Sul de 1993, em Kyalami. Se forem levadas em consideração as equipes que assumiram espólio ou estrutura de outros times, os melhores resultados em estreias foram as vitórias da Brawn (com Jenson Button, no GP da Austrália de 2009, em Melbourne) e da Wolf (com Jody Scheckter, no GP da Argentina de 1977, em Buenos Aires).

Festa no pit lane da Haas: dedo em riste para Grosjean, como se o francês tivesse vencido em Melbourne

Festa no pit lane da Haas: dedo em riste para Grosjean, o grande vencedor de Melbourne

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
Esta entrada foi publicada em Austrália, Carlos Sainz Jr., Esteban Gutiérrez, Felipe Nasr, Force India, Gene Haas, Haas, Manor, Marcus Ericsson, Max Verstappen, Melbourne, Nico Hulkenberg, Pascal Wehrlein, Rio Haryanto, Romain Grosjean, Sauber, Sergio Pérez, Toro Rosso. ligação permanente.

Uma resposta a Austrália-2016: Grosjean leva a estreante Haas ao sexto lugar

  1. Um Passarinho me contou que Este carro da Haas è a ferrari 2015 só mudaram a pintura..Se Há comfirmar nas proximas corridas equipe estreante logo na primeira corrida sexto lugar ??

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