EUA Oeste-1981: a inesperada pole de Patrese com a Arrows

Riccardo Patrese (Arrows) colocou seu A3 à frente da Williams e da Brabham no grid de Long Beach

Riccardo Patrese (Arrows) colocou seu A3 à frente da Williams e da Brabham no grid de Long Beach

Desde a sua criação, em 1978, a Arrows contava com os serviços de Riccardo Patrese. Nos três primeiros anos de parceria, protagonizaram alguns momentos memoráveis, como os segundos lugares no GP da Suécia de 1978, em Anderstorp, e no GP dos Estados Unidos-Oeste de 1980, em Long Beach. Em 1981, a dupla Patrese-Arrows iniciaria o quarto ano de união na Fórmula 1. Mal sabia o conjunto que, logo na etapa de abertura do Mundial daquele ano, alcançaria uma impressionante proeza: a pole position do GP dos Estados Unidos-Oeste de 1981, em Long Beach. Aos 26 anos, o italiano largava pela primeira vez na posição de honra do grid. Graças a Patrese, a Arrows obteve sua primeira e única pole em 20 temporadas disputadas na categoria máxima no automobilismo. Na corrida, Riccardo liderou por 24 voltas, mas o sonho de vitória do italiano foi interrompido devido a uma falha no sistema de combustível de seu bólido.

A proeza de Patrese e da Arrows veio em meio ao conturbado cenário da Fórmula 1 de 1981. As mudanças de regulamento para aquela temporada transformariam o ‘circo’ e incendiariam os bastidores da categoria. A FISA – Federação Internacional de Automobilismo Esportivo (à época, o braço esportivo da FIA – Federação Internacional de Automobilismo), capitaneada por Jean-Marie Balestre, decretou o fim do efeito-solo – passava a ser proibido o uso das ‘saias aerodinâmicas’, que, segundo especialistas, “colavam os bólidos no chão”.

Patrese demonstrava confiança a bordo de seu A3: pole veio após a assinatura do Pacto de Concórdia

Patrese demonstrava confiança a bordo de seu A3: pole veio após a assinatura do Pacto de Concórdia

O fim da utilização do apêndice aerodinâmico seria o estopim para um racha sem precedentes, que colocou em lados opostos a FISA e a FOCA – Associação dos Construtores da Fórmula 1 (em português), liderada por Bernie Ecclestone, que defendia a manutenção das regras de 1980. Após idas e vindas, Balestre e Ecclestone começaram a arquitetar o Pacto de Concórdia em janeiro de 1981, o que viabilizaria a realização do Mundial e selaria uma nova relação entre a FISA, que regulava a Fórmula 1, e a FOCA, que defendia os interesses comerciais das equipes.

Porém, a paz ainda não estava selada entre as partes. A abertura da temporada estava marcada para fevereiro, em Kyalami (África do Sul). A FISA tentou alterar a data da realização da etapa para abril, mas, diante da falta de tempo hábil para a mudança e do clima chuvoso desta época em solo sul-africano, o dia da prova foi mantido como previsto. Assim, a FOCA assumiu a realização da corrida, em respeito aos contratos assinados com os organizadores. Para isso, liberou as equipes das regras da FISA, causando uma nova celeuma.

Riccardo derrotou Alan Jones (Williams) por míseros 0s009: primeira pole da carreira e a única da Arrows

Alheio aos embates extrapista, Riccardo Patrese tratou de focar no rendimento de seu Arrows A3

Alinhadas à Balestre, equipes como Ferrari, Renault e Alfa Romeo boicotaram a prova de Kyalami. Sem a chancela da FISA, a corrida sul-africana foi realizada com os demais construtores ligados à FOCA, sendo vencida por Carlos Reutemann (Williams). Porém, acabou sendo uma etapa extracampeonato – até porque contou com carros que utilizaram as ‘saias’ do efeito-solo. Apenas em março, foi agitada a bandeira branca: o Pacto de Concórdia finalmente entrava em vigor.

Dessa forma, Long Beach se tornou palco da primeira etapa da Fórmula 1 em 1981 – a primeira sob o Pacto de Concórdia. Nas ruas do circuito californiano, pilotos e equipes começavam a se adaptar à realidade sem efeito-solo e sem pneus Goodyear (que havia decidido deixar a F1, fazendo com que todos os carros do grid usassem compostos da Michelin na abertura do Mundial). Ainda assim, a Williams, de Reutemann e do campeão corrente, Alan Jones, surgia como favorita. A Brabham, do vice-campeão de 1980, Nelson Piquet, também aparecia com força.

Por exímios 0s009, Patrese superou Alan Jones (Williams) e cravou sua 1ª pole na F1 e a única da história da Arrows

Por exímios 0s009, Patrese superou Jones e cravou sua 1ª pole na F1 – a única da história da Arrows

Nono no Mundial de 1980, Patrese apostava no bom desempenho no GP dos Estados Unidos-Oeste do ano anterior para tentar surpreender Williams e Brabham. Logo na sexta-feira, o desempenho de Riccardo foi promissor: o italiano anotou o sexto melhor tempo do dia – o mais veloz foi Jones. Porém, foi no sábado que o padovano deixou o ‘circo’ de queixo caído. O piloto acelerou seu A3 em Long Beach e cravou um inacreditável tempo. Com 1m19s399, Patrese alcançou a pole. Alan Jones bem que tentou desbancar Riccardo, mas o australiano da Williams anotou 1m19s408. Por exímios 0s009, o italiano da Arrows derrotava o campeão de 1980. Apesar do bom tempo, Riccardo ficou atrás do recorde da pista, obtido por Piquet em 1980 – muito por causa das mudanças de regulamento.

“Foi uma surpresa para mim anotar a pole e começar à frente de Jones. Aliás, acho que foi uma surpresa para todo mundo”, disse um espantado Patrese, segundo texto publicado em 15 de março de 1981, no jornal Reading Eagle, da Pensilvânia (EUA). “Nós estamos mais lentos do que no ano passado, porque não temos mais o efeito-solo. Mas o tempo anotado hoje (sábado) foi inesperado. Nós ficamos cerca de 1s5 atrás das marcas de 1980 – o que não é tão lento assim”, analisou o italiano. Para ressaltar ainda mais o tamanho da façanha de Riccardo, o companheiro dele na Arrows, o também italiano Siegfried Stohr, anotou 1m23s504 – 4s105 mais lento que o pole de Long Beach-1981 – e não se qualificou para o GP norte-americano.

Patrese arranca à frente na largada do GP dos Estados Unidos-Oeste de 1981

Patrese arranca à frente na largada do GP dos Estados Unidos-Oeste de 1981, em Long Beach

A corrida

Long Beach vivia um dia ensolarado naquele domingo, 15 de março de 1981. No grid, 24 pilotos estavam alinhados para a largada do GP dos Estados Unidos-Oeste. Largando na pole, Riccardo Patrese controlava a ansiedade. O italiano da Arrows sabia que era fundamental saltar bem, uma vez que havia poucos pontos de ultrapassagem no circuito californiano. Quando as luzes verdes se acenderam, Patrese tracionou bem e manteve-se na ponta. Todavia, o que Riccardo não esperava era o comportamento tresloucado de Gilles Villeneuve (Ferrari). Quinto no grid, o canadense ignorou quem aparecia à sua frente. Antes da aproximação da primeira curva, Villeneuve superou Nelson Piquet (Brabham), Carlos Reutemann (Williams), Alan Jones (Williams) e Patrese. Gilles só se esqueceu de frear, e despencou para o quarto lugar.

Gilles Villeneuve (Ferrari) ignorou todos à sua frente, mas se esqueceu de fazer a curva: Patrese manteve-se em 1º

Gilles Villeneuve (Ferrari) superou todos, mas se esqueceu de fazer a curva: Patrese manteve-se em 1º

A partir daí, Patrese ditou o ritmo do primeiro pelotão. Mesmo com Reutemann em seus calcanhares, o italiano não via sua liderança ameaçada pelo argentino. Lole, por sua vez, era acompanhado por Jones. Os três comandavam as ações sem serem importunados por Didier Pironi (Ferrari), que superou Villeneuve na volta 4 e andava em quarto. Naquele cenário, Riccardo consolidava, ao menos, um lugar no pódio. Todavia, o padovano queria mesmo era a vitória. O sabor de liderar uma prova ele tinha tido apenas uma vez – no GP da África do Sul de 1978, ponteou em Kyalami por 37 voltas com a Arrows. Se seu bólido suportasse o ritmo, alcançaria seu objetivo. Contudo, depender de um equipamento irregular é sempre uma loteria.

Patrese, à frente das Williams de Reutemann e Jones e da Ferrari de Villeneuve: problema no sistema de combustível acabou com o sonho de vitória

Patrese, à frente de Reutemann, Jones e Villeneuve: falha no sistema de combustível deu fim ao sonho

Na volta 24, subitamente o Arrows de Patrese começou a perder rendimento. Logo, foi superado por Reutemann. Na passagem seguinte, foi a vez de Jones superá-lo. Na volta 26, foi aos boxes. Após tirarem a carenagem de seu A3, Riccardo tinha a certeza: o sonho do triunfo havia terminado. No retorno à pista, o italiano estava na longínqua 15ª posição. Após ser superado por René Arnoux (Renault), na volta 31, Patrese recolheu seu Arrows, que apresentava problemas no sistema de combustível. Era fim de prova para o padovano. A vitória em Long Beach-1981 ficou com Jones, seguido por Reutemann e Piquet. À Riccardo, restou a consolação de ter anotado sua primeira pole, e a única da história da escuderia que viu nascer.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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