Canadá-1992: Karl Wendlinger obtém últimos pontos da March

Karl Wendlinger (March) e seu bólido repleto de adesivos alcançaram um inacreditável quarto lugar em Montreal

Karl Wendlinger (March) e seu bólido repleto de adesivos em Montreal: no fim, um histórico 4º lugar

Karl Wendlinger (March) foi protagonista de uma epopeia em Montreal, palco do GP do Canadá de 1992. A bordo de um sofrível CG911B, o austríaco alcançou um impressionante quarto lugar no Circuito Gilles Villeneuve. Conduzindo com extrema maestria, o jovem de 23 anos foi heroico, levando ao delírio os mecânicos e engenheiros da March. O êxtase visto nos boxes fazia sentido: somente na base da ‘vaquinha’ (leia-se obtenção de pequenos patrocinadores que estamparam o carro azul), conseguiram colocar Karl e Paul Belmondo na prova canadense. A missão quase impossível, concluída com êxito, se tornou histórica. Os três pontos conquistados por Wendlinger seriam os últimos da escuderia, que somou um total de 173,5 pontos em sua trajetória na Fórmula 1. Não só isso: seria o auge de Karl na categoria – na Sauber, o austríaco conquistaria mais dois quartos lugares, nos GPs da Itália de 1993, em Monza, e no GP de San Marino de 1994, em Imola.

Nascido em 20 de dezembro de 1968, na cidade austríaca de Kufstein, Wendlinger sempre se mostrou preparado para superar desafios. A paixão pelo automobilismo veio na inspiração do pai e do avô – sim, seu DNA já trazia os genes da velocidade -, segundo texto publicado no site australiano Richards F1, de Richard Bailey. “Meu interesse em velocidade começou na revendedora de carros da família. Naquela época, meu pai corria bastante, e era demais acompanhá-lo nas corridas. A ajuda e os conselhos dele foram muito importantes. Quando comecei a competir, tinha 14 anos. Nessa idade, é fundamental ter alguém para ajudá-lo”, observou Karl ao site.

Incentivado pela família, Wendlinger ingressou no automobilismo aos 14 anos, no kart

Inspirado pela família, Wendlinger ingressou na velocidade aos 14 anos, nas competições de kart

A trajetória de Wendlinger teve início em 1983, no kart. Em 1987, migrou para os monopostos, iniciando trajetória na Fórmula Ford Austríaca. No ano seguinte, sagrou-se campeão da Fórmula 3 Austríaca e passou a competir na Fórmula 3 Alemã. Em 1989, obteve o título alemão de F3 por um ponto, derrotando duas revelações germânicas – Michael Schumacher e Heinz-Harald Frentzen. “Para mim, ganhar esse troféu deu um grande impulso na minha carreira”, confidenciou Karl ao Richards F1. A acirrada disputa abriu as portas da Mercedes para o trio. A marca alemã disputava o Mundial de Protótipos e, em parceria com Peter Sauber, formaria um time júnior em 1990. Para essa nova empreitada, Wendlinger, Schumacher e Frentzen teriam um mentor: Jochen Mass, que, após deixar a F1, em 1982, passou a se dedicar exclusivamente aos carros esportivos.

“No início não foi tão fácil para mim. Houve uma grande diferença na potência e velocidade, em comparação com a Fórmula 3. Mas a Mercedes nos deu todo o tempo necessário para adaptação”, admitiu Karl que, além de disputar o Mundial de Protótipos, seguiu nos monopostos. Ainda em 1990, competiu na Fórmula 3000 Internacional. Em seu primeiro ano, pilotou pela RSM Marko, do também austríaco Helmut Marko. Porém, o desempenho foi tímido – obteve um discreto quinto lugar no GP da Alemanha, em Hockenheim. Em 1991, Wendlinger continuou se dividindo entre a Sauber-Mercedes, nos Protótipos, e a RSM Marko, na F3000. No Mundial de Protótipos, obteve uma vitória em Autopolis (Japão), ao lado de Schumacher. Já no campeonato da F3000, alcançou um terceiro lugar no GP da Inglaterra, em Brands Hatch.

Jochen Mass, Karl Wendlinger, Heinz-Harald Frentzen e Michael Schumacher: a Sauber no Mundial de Protótipos de 1990

Mass, Wendlinger, Frentzen e Schumacher: a Sauber-Mercedes no Mundial de Protótipos de 1990

Como parte do desenvolvimento de seus pupilos, a Mercedes decidiu investir na entrada de seus jovens pilotos na Fórmula 1 ainda em 1991. O objetivo era um só: prepará-los para defender a nova equipe Sauber em 1993. Em agosto de 1991, a marca colocou Schumacher na Jordan, para a disputa do GP da Bélgica, em Spa-Francorchamps. O alemão foi tão bem-sucedido em sua estreia que, na etapa seguinte, já estava na Benetton. Em outubro do mesmo ano, foi a vez da fábrica inserir Wendlinger na Leyton House, para a disputa das duas últimas provas do Mundial, na vaga do experiente Ivan Capelli.

O debut de Karl ocorreu no GP do Japão, em Suzuka. Porém, assim como seu ex-parceiro de Mercedes, Schumacher, sua estreia foi breve – abandonou na volta 1, após sofrer acidente. Já no GP da Austrália, em Adelaide, teve pouco tempo para mostrar suas habilidades – uma tempestade interrompeu a corrida, na volta 14. Wendlinger ficou em 20º, a duas voltas do vencedor, Ayrton Senna (McLaren). Após a participação nas duas últimas provas de 1991, o futuro de Karl na Fórmula 1 em 1992 era incerto. Tudo porque a Leyton House vivia uma crise financeira e moral – seu dono, o japonês Akira Akagi, foi preso por lavagem de dinheiro no fim daquele ano. O espólio da escuderia foi adquirido por um fundo, que rebatizou o time de March.

Karl largou em sétimo no GP da África do Sul de 1992, em Kyalami:

Karl surpreendeu ao largar em 7º no GP da África do Sul de 1992, em Kyalami: quebras constantes

Dona de três vitórias na categoria máxima do automobilismo – com Jackie Stewart, no GP da Espanha de 1970, em Jarama; Vittorio Brambilla, no GP da Áustria de 1975, em Osterreichring; e Ronnie Peterson, no GP da Itália de 1976, em Monza -, a equipe, que havia deixado o ‘circo’ no fim de 1989, retornava ao grid. Para se manter em 1992, a March decidiu continuar com Wendlinger (e o dinheiro da Mercedes) e contratou Paul Belmondo, um francês, filho do célebre ator Jean-Paul Belmondo. De forma mambembe, o time partiu para a disputa do Mundial. Logo na abertura do campeonato, no GP da África do Sul, em Kyalami, Karl surpreendeu ao colocar seu defasado CG911B no sétimo lugar do grid. Todavia, um superaquecimento do motor Ilmor fez com que o austríaco abandonasse a corrida.

O ocorrido na etapa sul-africana seria uma constante para Wendlinger – mesmo tendo bom desempenho nas sessões classificatórias, a March não oferecia resistência. Quando desembarcou em Montreal para a disputa do GP do Canadá, a sétima prova do Mundial, Karl tinha como melhor resultado um oitavo lugar, conquistado no GP da Espanha, em Montmeló. Porém, o austríaco e a March traziam muita preocupação na bagagem. Sem dinheiro para custear sua presença até o fim da temporada de 1992, a escuderia vivia um verdadeiro impasse, a ponto de se questionar a presença dos carros da equipe no grid do Circuito Gilles Villeneuve. A crise rendeu matérias em jornais canadenses.

A March não carregava patrocínios em sua carenagem: aqui, no GP do Brasil de 1992, em Interlagos, um apoio do Restaurante Fogo de Chão

A March carregava raros apoios em 1992: no GP do Brasil, em Interlagos, ‘Fogo de Chão’ na asa

O apelo nos periódicos rendeu resultados: empresas de Montreal viram no carro inteiramente azul a oportunidade de divulgar suas marcas. Com o CG911B repleto de adesivos, Wendlinger e Belmondo partiram para os treinos no Canadá. Na sexta, Karl obteve um razoável 14º tempo, com 1m22s778. A marca do austríaco foi 2s074 mais veloz que a de Paul, 27º com 1m24s852. O melhor do dia foi Ayrton Senna (McLaren), que anotou 1m19s775 – 3s003 à frente de Wendlinger . No sábado, Wendlinger melhorou sua marca. Com 1m22s566, acabou ganhando duas posições no grid – com esse tempo, assegurou o 12º lugar. O austríaco ficou 0s623 à frente de Belmondo, que teve um dia melhor que a sexta e fez 1m23s189, conquistando a 20ª posição. A pole do GP do Canadá de 1992 ficou com Senna, que não melhorou o tempo obtido na sexta.

Na largada do GP do Canadá de 1992, Wendlinger saltou de 12º para 10º lugar

Na largada do GP do Canadá de 1992, Karl (atrás da Ferrari de Jean Alesi) saltou de 12º para 10º

A corrida

Domingo, 14 de junho de 1992. O dia estava nublado em Montreal. Contudo, não havia previsão de chuva. Diante desse cenário, 26 carros alinharam no grid do Circuito Gilles Villeneuve, para a largada do GP do Canadá. Quando as luzes verdes foram acionadas, Wendlinger partiu com decisão. Após sair em 12º, o austríaco da March superou Ivan Capelli (Ferrari) e Ukyo Katayama (Venturi), para completar a volta 1 na 10ª posição. A partir dali, Karl não tinha muito a fazer, a não ser torcer contra os adversários. À sua frente, estava Jean Alesi (Ferrari), o nono. Enquanto isso, sofria com a aproximação de Capelli, o 11º.

Dessa forma, o jovem promissor da March só conseguiria ganhar posições com os abandonos dos principais pilotos. E eles vieram aos montes. A ascensão de Wendlinger teve início na volta 14, justamente com uma escapada de Nigel Mansell (Williams), então líder do Mundial. Na ânsia de superar Ayrton Senna (McLaren), o primeiro em Montreal, o inglês perdeu o controle de seu carro e deixou a corrida. Karl tomou um susto ao ver a Williams, e desviou de Mansell para ser nono. Com o abandono de Capelli, seu principal perseguidor, na volta 19, Wendlinger passou a contar com mais tranquilidade na etapa.

Com o abandono dos adversários, Wendlinger ascendeu em Montreal

Com o abandono dos adversários, Wendlinger ascendeu em Montreal: de repente, na zona de pontos

As coisas pareciam monótonas para o austríaco. Também pudera: com um velho CG911B, Wendlinger fazia o que estava ao seu alcance. Porém, a partir da volta 35, a etapa ganharia excelentes contornos para Karl. Naquela passagem, a dupla da Lotus, Johnny Herbert e Mika Hakkinen, abandonaram em Montreal. Sem os dois, o piloto da March subiu para a sétima colocação. De repente, o austríaco estava a um passo da zona de pontuação. Caso houvesse problema com algum integrante do top 6, Wendlinger poderia flertar com os pontos. E ele não precisou esperar muito por isso: na volta 38, o líder Senna, com problemas elétricos, foi obrigado a deixar a etapa. Pronto: Karl estava em sexto.

Na volta 44, Riccardo Patrese (Williams), com problemas na caixa de câmbio, abandonou a corrida. Sem o italiano, Wendlinger ascendeu para o quinto lugar. Duas voltas depois, foi a vez de Martin Brundle (Benetton) sofrer com a transmissão de seu bólido e ficar pelo caminho. Assim, Karl passava para o quarto posto. À sua frente, somente seu compatriota Gerhard Berger (McLaren), seu amigo dos tempos de Mercedes, Michael Schumacher (Benetton), e Alesi. O pódio já estava definido. A partir daquele momento, a principal missão de Wendlinger foi carregar seu CG911B para a bandeirada.

Aos 23 anos, Wendlinger alcançou o auge da carreira e deu os últimos pontos à March

Aos 23 anos, Wendlinger alcançou o auge da carreira e deu os últimos pontos à March

Apesar da aproximação de Andrea de Cesaris (Tyrrell), o quinto, e de Erik Comas (Ligier), o sexto, o austríaco conquistou seu objetivo. Diante dos mais diversos obstáculos, Karl levava seu March à quarta posição. Foram os primeiros pontos do jovem piloto na F1. O resultado de Montreal-1992 era o melhor da escuderia desde o terceiro lugar de Mauricio Gugelmin no GP do Brasil de 1989, em Jacarepaguá. Diante disso, Wendlinger foi bastante festejado pelos membros do time. Na edição de segunda-feira, 15 de junho de 1992, da Folha de S. Paulo, o austríaco foi reverenciado em texto assinado pelo jornalista Flavio Gomes. “Karl Wendlinger merece um busto na fábrica da March. Com um carro ultrapassado e cheio de problemas, chegou em quarto ontem (domingo) no Canadá e, como disse o chefe de equipe, Charlie Moody, ‘deu uma plataforma ao time para a sobrevivência no resto da temporada'”.

Ao site Richards F1, Wendlinger recordou aquele momento em Montreal. “Esse resultado (o quarto lugar) ajudou a construir um pouco o meu nome na Fórmula 1. Já estava decidido que eu ia ser um dos pilotos da Sauber em 1993, mas foi importante para mostrar minha capacidade”, analisou Karl. Lamentavelmente, a trajetória do austríaco não deslanchou em razão de um pavoroso acidente nos treinos para o GP de Mônaco de 1994. Após ficar em coma, Wendlinger se recuperou e tentou retomar a carreira na F1 pela Sauber, em 1995. Todavia, nunca mais foi o mesmo. Após disputar o GP da Austrália de 1995, em Adelaide, Karl decidiu deixar a categoria máxima do automobilismo. Apesar disso, o austríaco deixou marcas na F1 – como o épico top 4 de Montreal-1992.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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Uma resposta a Canadá-1992: Karl Wendlinger obtém últimos pontos da March

  1. eu sempre g0stey e g0starey sempre..de tymes pequenas da f1!!!sempre…..

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