EUA Leste-1977: Regazzoni voa no molhado e é 5º no 100º GP

Clay Regazzoni brilhou no chuvoso circuito de Watkins Glen: após largar em 19º, suíço levou Ensign ao top 5

Clay Regazzoni brilhou na pista encharcada de Watkins Glen: após largar em 19º, alcançou o top 5

Gianclaudio Giuseppe Regazzoni vivia um fim de semana especial em Watkins Glen, palco do GP dos Estados Unidos Leste de 1977. Seria no desafiador circuito norte-americano que o suíço largaria pela 100ª vez na Fórmula 1. Porém, diferentemente de outros tempos, em que disputava vitórias a bordo da mítica Ferrari, se deparava com a realidade do meio do pelotão. Ao fim de 1976, Regazzoni deixou a equipe de Maranello e passou a defender a Ensign. Foi uma escolha surpreendente, mas calculada: Clay rejeitou um convite da Brabham, de Bernie Ecclestone, e aceitou correr para o time de Morris Nunn, pois “preferia trabalhar com pessoas agradáveis”. Apesar de boa gente, Nunn não conseguiu transformar o N177 em um bólido competitivo, relegando Regazzoni ao bloco intermediário. Mas, em Watkins Glen, ele queria mostrar serviço. Pela honra de sua carreira, Clay pisou fundo, ignorou o molhado e assegurou um notável quinto lugar em solo ianque.

Quando desembarcou no leste norte-americano, Clay trazia três pontos na bagagem. Logo em sua estreia na Ensign, no GP da Argentina de 1977, em Buenos Aires, havia conquistado o sexto lugar. Nada mal para um time pequeno. Porém, a partir dali, Regazzoni sofreu com um equipamento nada confiável. Nas 10 etapas seguintes, abandonou em sete. Seus melhores resultados nesse período foram dois sétimos lugares, nos GPs da Suécia, em Anderstorp, e da França, em Dijon. Porém, antes de chegar em Watkins Glen, Clay brilhou no GP da Itália, em Monza. Diante dos ‘tifosi’ ferraristas, o suíço deu show com seu N177, alcançando um belíssimo quinto lugar.

Morris Nunn (à esq.) dá instruções a Regazzoni: problemas no N177 atrapalharam o ano da Ensign

Morris Nunn (à esq.) dá instruções a Regazzoni: problemas no N177 atrapalharam o ano da Ensign

O top 5 de Monza-1977 serviu de inspiração para Regazzoni em seu GP centenário. A motivação ficou maior ainda após o serviço de meteorologia norte-americano divulgar que o fim de semana em Watkins Glen seria chuvoso. Na pista molhada, a habilidade de Clay se sobressaía. Animado com o cenário que se desenhava, o suíço partiu para o primeiro dia de treinos. Porém, logo de cara, veio a decepção: a água esperada não veio. Apesar da previsão, a sexta-feira teve atividades em piso seco, o que atrapalhou as pretensões de Rega. No fim do dia, anotou 1m44s208, ficando com o 19º tempo. A marca de Regazzoni foi 3s345 inferior à de James Hunt (McLaren), o mais veloz da sexta com 1m40s863.

O mau desempenho de Clay e da Ensign na pista seca acabou tendo consequências no sábado, dia que definiria as posições de largada para o GP dos Estados Unidos-Leste. A esperada chuva despencou sobre Watkins Glen, impedindo que os tempos fossem baixados. Com a pista molhada, o companheiro do suíço no time de Morris Nunn, Patrick Tambay, não conseguiu tempo para ingressar no grid. Já Regazzoni tinha que se conformar em largar em 19º. Não era dali que o suíço pretendia iniciar seu 100º GP. Porém, o destino reservaria um grande dia para o piloto da Ensign. Um momento que até mesmo Regazzoni custaria a acreditar.

Largada do GP dos Estados Unidos-Leste de 1977: Regazzoni saltou de 19º para 14º na volta 1

Largada do GP dos Estados Unidos-Leste de 1977: Regazzoni saltou de 19º para 14º na volta 1

A corrida

Domingo, 2 de outubro de 1977. A chuva incessante se fazia presente em Watkins Glen. Os competidores estavam cientes de que o desafiador circuito norte-americano se tornaria ainda mais traiçoeiro com a água. Os riscos eram elevados quando 26 pilotos receberam a ordem de largada do GP dos Estados Unidos-Leste. Saindo em 19º, Regazzoni tratou de exibir seu arrojo em condições adversas. Na volta 1, o suíço da Ensign superou Emerson Fittipaldi (Copersucar Fittipaldi), Brett Lunger (McLaren), Jean-Pierre Jarier (Shadow), John Watson (Brabham) e Jean-Pierre Jabouille (Renault), assumindo o 14º lugar.

No início da corrida, Clay andava no ritmo de Jochen Mass (McLaren), que estava imediatamente à sua frente. Toda vez que o alemão executava uma ultrapassagem, o suíço fazia o mesmo. Aproveitando-se do caminho aberto por Mass, Regazzoni ignorou Patrick Depailler (Tyrrell) na volta 2, assumindo o 13º lugar. Na 4, o piloto da Ensign superou Gunnar Nilsson (Lotus) e Vittorio Brambilla (Surtess). Na mesma passagem, Alan Jones (Shadow) escapou da pista e deixou a disputa, fazendo com que Clay ingressasse no top 10 de Watkins Glen.

A ascensão de Regazzoni prosseguiu na volta 5, quando ultrapassou Jacques Laffite (Ligier), passando a ocupar o nono lugar. A partir dali, iniciou perseguição a Ronnie Peterson (Tyrrell). De forma sublime, Clay superou Ronnie na volta 8, assumindo a oitava posição. Na passagem seguinte, um problema na bomba de combustível de seu McLaren tirou Mass da corrida. Sem o alemão, Rega herdou a sétima colocação. Para alcançar a zona de pontos de Watkins Glen, o suíço contou com o abandono de Hans-Joachim Stuck (Brabham), então líder da prova – o alemão perdeu o controle e bateu no muro na volta 15.

Em sexto, Clay passou a tirar diferença em relação a Carlos Reutemann (Ferrari). O argentino, que sucedeu o suíço no cockpit da Rossa, não estava à vontade com o piso molhado de Watkins Glen. Na volta 23, Regazzoni atacou Reutemann e tomou a quinta posição do ferrarista. Incrivelmente, o piloto da Ensign se colocava entre os cinco primeiros do GP dos Estados Unidos-Leste.

Regazzoni superou John Watson (Brabham) e assumiu

John Watson (Brabham) foi um dos que sucumbiram ao arrojo de Regazzoni em Watkins Glen-1977

Entretanto, a partir dali, a missão de Clay era mais tortuosa. À sua frente, estavam James Hunt (McLaren), Mario Andretti (Lotus), Jody Scheckter (Wolf) e Niki Lauda (Ferrari). Aos poucos, Regazzoni passou a reduzir a diferença para Lauda, o quarto colocado. Porém, o austríaco corria para conquistar o bicampeonato mundial em Watkins Glen. O suíço da Ensign tinha ciência de que Niki precisaria de apenas um ponto para assegurar o segundo título naquela corrida. Apesar dos esforços, Regazzoni não conseguiu alcançar seu ex-companheiro na Rossa.

No fim, a vitória no GP dos Estados Unidos-Leste de 1977 ficou com Hunt. O campeão de 1976 foi acompanhado no pódio por Andretti, o segundo, e Scheckter, o terceiro. Em quarto, Lauda consagrou-se bicampeão, com apenas 7s5 de vantagem sobre Regazzoni. Apenas os cinco primeiros de Watkins Glen completaram a prova na mesma volta, demonstrando o quão valente foi Clay. Apesar dos 38 anos (Regazzoni nasceu na cidade suíça de Mendrisio, em 5 de setembro de 1939), mostrou disposição de menino em seu 100º GP, conquistando um quinto lugar merecido e surpreendente.

Com os dois pontos, Regazzoni ajudou a Ensign na conquista de seu melhor desempenho em sua trajetória na F1

Com os dois pontos de Regazzoni, a Ensign conquistou seu melhor resultado num ano na F1

Os dois pontos obtidos em Watkins Glen-1977 foram os últimos de Regazzoni naquele Mundial. Clay encerrou a temporada em 17º, com cinco pontos – mesma pontuação de seu companheiro de equipe, Patrick Tambay. Com os 10 pontos da dupla, a Ensign terminou o ano na 10ª posição no Mundial de Construtores – o melhor desempenho da história da escuderia, que participou da Fórmula 1 entre 1973 e 1982.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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