Áustria-1975: Brambilla dá show, vence e… destrói seu March

Com a frente de seu bólido avariada, Vittorio Brambilla (March) celebra a vitória em Osterreichring

Com a frente de seu bólido avariada, Vittorio Brambilla (March) celebra a vitória em Osterreichring

A tempestade se intensificava a cada curva. A água já atrapalhava sua visão. Controlar o March já era uma missão quase impossível. Ainda assim, Vittorio Brambilla seguia acelerando. O italiano ocupava uma incontestável liderança no GP da Áustria de 1975, em Osterreichring. Apesar disso, a vitória estava longe de ser obtida – apenas metade da corrida havia sido completada. Porém, não havia mais como pilotar. A direção de prova sacramentou: a etapa austríaca deveria ser encerrada. Alheio aos bastidores, Brambilla voava sobre a água. Depois de contornar a veloz Curva Jochen Rindt e se aproximar da linha de chegada, se viu diante da bandeira quadriculada. Naquele momento, o sangue latino falou mais alto: Vittorio ergueu os braços com fervor. Inesperadamente, conquistava o primeiro triunfo de sua carreira.

A vitória fez o italiano se esquecer de tudo – até mesmo de seu March 751. Após receber a bandeirada, Brambilla aquaplanou em plena reta dos boxes. Para espanto do público, bateu no guard rail. Apesar do acidente, retornou à pista. Mesmo com o carro avariado, Vittorio conseguiu fazer a volta de celebração. Uma festa inédita, talvez a mais autêntica de um vencedor na história da Fórmula 1. De tão surpreendente, a conquista acabou sendo única. Brambilla obteve naquele 17 de agosto de 1975 sua solitária vitória na categoria máxima do automobilismo. Foi um auge cheio de estilo para o italiano, então com 37 anos.

O triunfo em Osterreichring-1975 marcou para sempre a carreira de Brambilla, cuja vida parecia fadada ao esporte a motor. Vittorio nasceu ao lado do Autódromo de Monza, na Itália, em 11 de novembro de 1937. Filho de um mecânico, foi bastante influenciado pelo irmão mais velho, Ernesto, que competiu no Mundial de Motovelocidade na década de 1950. À esteira de Tino (alcunha de Ernesto), Vittorio enveredou pelas duas rodas em 1957. No ano seguinte, chegou a se consagrar campeão italiano da categoria 175cc. Todavia, sua trajetória nas motos não deslanchou. Vittorio acabou seguindo os passos de Carlo, patriarca dos Brambilla, e dedicou-se à mecânica.

Por aproximadamente 10 anos, Vittorio atuou na oficina do pai. Em 1968, decidiu voltar às pistas. Desta vez, nada de motos – Brambilla pilotaria carros fórmula. Aos 31 anos, começaria uma nova carreira. O pontapé inicial se deu na Fórmula 3 Italiana. Após três temporadas sem muito sucesso, Vittorio emplacou uma boa temporada em 1972, alcançando o título. O troféu foi significativo, uma vez que repetiu o feito de Tino, campeão da F3 Italiana em 1966. Porém, Vittorio queria sair da sombra do irmão. Em 1973, transferiu-se para a Fórmula 2, categoria de acesso à Fórmula 1. Obteve uma vitória no ano, assegurando o quarto lugar no campeonato, vencido por Jean-Pierre Jarier.

Brambilla tentou se aventurar nas motos, mas desistiu para se dedicar à oficina mecânica do pai

Brambilla tentou se aventurar nas motos, mas desistiu para se dedicar à oficina mecânica do pai

Diante do desempenho crescente do italiano, a Beta, uma produtora do ramo de ferramentas, decidiu apoiar o sonho de Brambilla. A empresa possibilitou que Vittorio guiasse por um dos carros da March na temporada de 1974 da Fórmula 1. Aos 36 anos, o italiano estreou na categoria máxima do automobilismo. Em seu primeiro ano, encarou muitas dificuldades. Ainda assim, anotou seu primeiro ponto, ao terminar em sexto no GP da Áustria daquele ano, em Osterreichring.

No ano de 1975, o March 751 demonstrava velocidade. Em diversas ocasiões, Vittorio conseguiu boas qualificações. Seu melhor treino foi para o GP da Suécia, em Anderstorp, onde conquistou sua primeira (e única) pole position. Todavia, Brambilla errava em demasia, e vivia envolvido em acidentes. Esse perfil, aliado ao seu jeito bronco de ser, o fez se tornar um personagem caricato. Tanto que levou a imprensa britânica a alcunhá-lo de “O Gorila de Monza”. Aos 37 anos, o italiano ignorava toda e qualquer ‘brincadeira’. Queria saber apenas e tão somente de desafiar os limites das pistas.

Vittorio se sentia à vontade em Osterreichring: em 1974, obteve o 1º ponto da carreira

Vittorio se sentia à vontade em Osterreichring: lá, em 1974, obteve o 1º ponto da carreira

Ao desembarcar em Osterreichring, palco do GP da Áustria de 1975, Vittorio tinha dois pontos no Mundial. Curiosamente, havia figurado na zona de pontuação de corridas encerradas antes do programado – o italiano foi quinto no GP da Espanha, em Montjuich (interrompido antes do previsto devido ao acidente de Rolf Stommelen), e sexto no GP da Inglaterra, em Silverstone (paralisado em razão da forte chuva que caía no circuito britânico). Na etapa austríaca, queria repetir o top 6 do ano anterior. Na sexta, obteve o sexto tempo. Com 1m36s01, o italiano ficou a 1s16 de Niki Lauda (Ferrari), o mais veloz com 1m34s85. Apenas Lauda, James Hunt (Hesketh), Emerson Fittipaldi (McLaren), Clay Regazzoni (Ferrari) e José Carlos Pace (Brabham) ficaram à frente de Vittorio.

Apesar dos pilotos se sentirem desafiados pelo seletivo circuito de Osterreichring, havia grande preocupação com relação à segurança da pista. Logo na sexta, Wilson Fittipaldi Júnior (Copersucar Fittipaldi) se acidentou com violência no circuito austríaco. O bólido do brasileiro sofreu uma falha mecânica durante o contorno da veloz Curva Jochen Rindt. Wilsinho nada pôde fazer, e o impacto foi fortíssimo. O irmão de Emerson foi levado de helicóptero para o hospital, onde ficaria em observação. Dessa forma, o piloto da Copersucar Fittipaldi estava fora da disputa da corrida. Lamentavelmente, outros acidentes ainda estariam por vir – esses, de proporções ainda mais graves…

A chuva atrapalhou Brambilla no sábado: tímida melhora rendeu oitavo lugar no grid

A chuva atrapalhou Brambilla no sábado: tímida melhora rendeu oitavo lugar no grid

No sábado, uma chuva fina prejudicou muitos pilotos na tentativa de melhora de tempo. Houve apenas breves períodos em que a pista secou. Mesmo com o clima instável, Brambilla conseguiu melhorar sua marca – anotou 1m35s80. Todavia, teve que se contentar com o oitavo lugar no grid do GP da Áustria. Vittorio ficou a 0s95 de Niki Lauda (Ferrari), pole com a marca conquistada na sexta-feira. Os treinos ficaram marcados por dois acidentes sérios: José Carlos Pace (Brabham) perdeu a roda na subida da reta dos boxes. Moco nada sofreu. Todavia, a roda atingiu dois fiscais de pista e um espectador – os três tiveram ferimentos leves. Já Brian Henton (Lotus) bateu no mesmo ponto que Wilson Fittipaldi na sexta, destruindo seu bólido e ficando de fora da prova austríaca.

Mas o pior ocorreria no warm up para o GP da Áustria, já no domingo. Mark Donohue (Penske) perdeu o controle de seu bólido na Curva Voest-Hugel, a primeira de Osterreichring, em razão de um pneu furado. O norte-americano bateu contra um posto de fiscais e em placas de publicidade. O Penske ficou destruído. Donohue foi retirado consciente de seu cockpit. Entretanto, as consequências do acidente seriam tenebrosas. Dois dias depois do término da corrida, dois morreram em decorrência daquele impacto: Manfred Schaller, um fiscal atingido pelos destroços do Penske, e Mark, que sofreu hemorragias cerebrais em razão do impacto. Em apenas 14 GPs, Donohue obteve um pódio – no GP do Canadá de 1971, em Mosport, o ianque estreou com um terceiro lugar.

No início do GP da Áustria, Brambilla deixou Depailler e Stuck para trás

Brambilla teve um início irresistível em Osterreichring: na foto, deixando Depailler e Stuck para trás

A corrida

Apesar do forte acidente de Donohue no warm up, os pilotos estavam focados no GP da Áustria. Também pudera: a notícia inicial era a de que Mark estava em bom estado de saúde. Contudo, o impacto do Penske na Voest-Hugel fez com que a largada fosse adiada para reparos na curva. Com o passar do tempo, a direção de prova vivia um impasse: nuvens começavam a cercar Osterreichring. Afinal, seria prudente colocar todos os carros no grid com pneus para pista molhada ou deixar que fizessem um pit stop durante a corrida? Aos poucos, a chuva se fazia presente no circuito. Dessa forma, a natureza definiu o problema: os bólidos foram para os boxes e trocaram de compostos, provocando novo adiamento da largada.

Com o traçado encharcado, 26 carros partiram para a disputa da prova austríaca com pneus para chuva. Em oitavo no grid, Bambilla saltou bem e ganhou as posições de José Carlos Pace (Brabham) e Clay Regazzoni (Ferrari). O italiano da March completou a volta 1 em sexto. Na passagem seguinte, Vittorio superou Emerson Fittipaldi (McLaren), assumindo o quinto lugar. Após ultrapassar o brasileiro, Brambilla iniciou perseguição a Hans-Joachim Stuck (March) e Patrick Depailler (Tyrrell). Com prudência e paciência, o italiano esperou o momento certo para atacar. Na volta 5, superou o alemão da March. Na passagem seguinte, ignorou o francês da Tyrrell, colocando duas rodas sobre a grama para alcançar a terceira posição.

Quanto mais a chuva caía, mais rápido era Brambilla: italiano ignorou Lauda e Hunt

Quanto mais a chuva caía, mais rápido era Brambilla: italiano ignorou Lauda e Hunt

Com pista livre, Brambilla passou a voar em Osterreichring. À frente dele, estavam Niki Lauda (Ferrari) e James Hunt (Hesketh). Quanto mais a chuva se intensificava, mais reduzia o rendimento do líder Lauda. Aos poucos, Hunt alcançou o ferrarista, passando a andar no ritmo imposto por Niki. Isso fez com que Vittorio se aproximasse rapidamente dos dois primeiros – já na volta 10, o italiano tinha os dois em sua alça de mira. Como podia assegurar seu primeiro título mundial em casa, o austríaco tentava segurar a ponta. Porém, na volta 15, Lauda acabou sendo superado por Hunt e Brambilla, caindo para terceiro. De repente, dois azarões ponteavam o GP da Áustria.

James bem que tentou se isolar na ponta. Entretanto, o inglês da Hesketh não contava com o excelente desempenho de Vittorio. O italiano da March acompanhava Hunt a todo o momento. Brambilla parecia aguardar algum erro do britânico. Curiosamente, o vacilo viria quando menos se esperava. Na volta 19, Hunt aplicaria uma volta em Brett Lunger, seu companheiro de Hesketh. Porém, James tirou o pé para não se chocar no parceiro. Foi a deixa para Vittorio assumir a ponta. O Gorila de Monza superou a dupla da Hesketh de uma só vez para alcançar a liderança em Osterreichring.

Na volta 29, a direção decidiu dar fim ao GP da Áustria: festa de Vittorio e da March

Na volta 29, a direção decidiu dar fim ao GP da Áustria: festa de Vittorio e da March

A partir daí, o que se viu foi um verdadeiro show de Brambilla. Na volta 24 – a quinta com Vittorio na ponta -, o italiano colocava 12 segundos de vantagem sobre Hunt, o segundo. Na 26, a diferença para James aumentava para incríveis 20 segundos. Quanto mais a tempestade se intensificava em Osterreichring, mais Brambilla abria frente – tanto que anotou a melhor volta do GP, com 1m53s9 (pela única vez na carreira). Parecia haver uma corrida para ele, e outra para os demais. Porém, os riscos também se evidenciavam, uma vez que as condições de pista eram extremas. Como outros acidentes ocorreram na pista austríaca naquele fim de semana, a melhor solução encontrada era interromper a disputa.

Diante desse cenário repleto de riscos, a direção de prova encerrou o GP da Áustria na volta 29, das 54 previstas. Após conduzir de maneira maestral até a linha de chegada, Brambilla voltou a ser o bom Gorila de Monza. Vibrante, o italiano soltou o volante, aquaplanando de maneira perigosa na reta dos boxes e se chocando no guard rail. Foi a primeira (e única) vitória e o primeiro (e único) pódio do folclórico piloto, e a segunda vitória da March na Fórmula 1 – a primeira foi no GP da Espanha de 1970, em Jarama, com Jackie Stewart. Em segundo, ficou Hunt, que levou a Hesketh pela sétima e última vez ao top 3. Tom Pryce (Shadow) terminou em terceiro, conquistando seu primeiro pódio na categoria.

Pódio do GP da Áustria de 1975 (da esq. para a dir.): Hunt, Brambilla e Pryce

Pódio do GP da Áustria de 1975, em Osterreichring (da esq. para a dir.): Hunt, Brambilla e Pryce

Como não foram completadas 75% do total previsto das voltas, a corrida distribuiu pontos pela metade. Dessa forma, Brambilla anotou 4,5 pontos pelo triunfo em Osterreichring. Muitos afirmam que, se o GP da Áustria de 1975 ocorresse até o seu final programado, Vittorio não resistiria na ponta. Acredita-se que, lá pelas tantas, cometeria algum erro crucial, capaz de arruinar o sonho da vitória. Sim, é bem possível. Porém, nas 29 voltas daquela etapa austríaca, Brambilla foi impecável. Falecido em 26 de maio de 2001, aos 63 anos, vítima de uma parada cardíaca, o italiano descansou com o sabor do dever cumprido. Por mais que não tenha realizado o sonho de vencer na Fórmula 1 em Monza, o Gorila teve o gostinho de obter uma vitória completa.

Mecânicos da Ferrari fizeram festa pela conquista de Brambilla: Gorila de Monza foi genial na Áustria

Mecânicos da Ferrari fizeram festa pela conquista de Brambilla: Gorila de Monza foi genial na Áustria

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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