México-1965: a primeira vez de Ginther, Honda e Goodyear

Richie Ginther levou a Honda e a Goodyear ao topo da F1 pela primeira vez: feito histórico na Cidade do México

Richie Ginther levou a Honda e a Goodyear ao topo: feito histórico na Cidade do México

O GP do México de 1965, disputado em 24 de outubro daquele ano, na Cidade do México, viu o limiar de duas importantes marcas no topo do pódio da Fórmula 1. No circuito asteca, Honda e Goodyear venceram pela primeira vez na categoria máxima do automobilismo. Tanto a equipe japonesa quanto a fabricante de pneus norte-americana tiveram em comum um herói. Richie Ginther, então com 35 anos, atingiu seu auge ao debutar como vencedor na etapa mexicana. Para os conglomerados nipônico e ianque, o triunfo de Ginther simbolizaria o início de uma trajetória de sucesso pelas pistas mundo afora. Já para o piloto norte-americano, aquele seria seu maior feito. Mesmo que não tenha obtido novas vitórias, Richie foi protagonista de um capítulo histórico do esporte a motor.

Paul Richard Ginther nasceu em 5 de agosto de 1930, em Granada Hills, na Califórnia. Durante sua infância, conheceu aquele que seria o principal mentor de sua trajetória: Phil Hill (sim, o piloto que viria a ser campeão mundial de Fórmula 1, em 1961). Os dois conviveram intimamente – Hill era amigo do irmão de Ginther. Com o tempo, Richie se aproximou de Phil. Após atuar como mecânico dos carros antigos de Hill, Ginther ganhou a chance de competir em 1951, em Peeble Beach. Entretanto, enquanto a carreira de Phil já decolava, a de Richie sofreria uma freada brusca ainda naquele ano – ele foi convocado pelo serviço militar dos Estados Unidos para combater na Guerra da Coreia.

A carreira de Ginther foi paralisada por dois anos, em razão de sua participação na Guerra da Coreia

A carreira de Ginther foi paralisada por dois anos, em razão de sua participação na Guerra da Coreia

Quando as batalhas terminaram, em 1953, Ginther retornou ao seu país. Assim que desembarcou em solo norte-americano, foi chamado por Phil Hill para disputar a Carrera Pan Americana, no México. Na corrida que atravessava costa-a-costa o país asteca, a dupla sofreu um acidente e não terminou a jornada. No ano seguinte, Hill e Ginther terminaram em segundo. Após o evento, Richie começou a seguir carreira solo. Sua reputação em corridas nos Estados Unidos cresceu com o passar os anos, a ponto de, em 1957, ser convidado pela Ferrari para participar das 24 Horas de Le Mans.

O ingresso na Scuderia e a forte amizade com Phil Hill aproximaram Ginther da Fórmula 1. Os ótimos resultados nos protótipos fizeram com que a Ferrari convidasse Richie para competir na categoria máxima do automobilismo em 1960. Participou de três corridas naquele ano – Mônaco, Holanda e Itália. O desempenho de Ginther surpreendeu a todos. Em Monza, inclusive, chegou a liderar a bordo da Rossa. Todavia, foi superado por Phil Hill, que conquistava sua primeira vitória na Fórmula 1. À Richie, restou o segundo lugar.

Antes de defender a Honda na F1, Richie Ginther defendeu a Ferrari e a BRM

Antes de correr pela Honda na F1, Richie Ginther defendeu a Ferrari e a BRM

Em 1961, Ginther seguiu na Ferrari, onde disputaria sua primeira temporada completa. Naquele ano, formou um formidável esquadrão com Phil e Wolfgang Von Trips. Todavia, a morte de Von Trips no GP da Itália, em Monza, manchou a conquista de Hill diante dos ‘tifosi’. Enquanto isso, Richie terminaria o Mundial em quinto. No ano seguinte, o norte-americano deixou a Ferrari e se transferiu para a BRM. Coincidentemente, seguiria sendo escudeiro para um Hill. Ginther ajudou o britânico Graham a conquistar o primeiro título mundial.

Em 1963, o norte-americano viveu seu melhor momento na carreira. Em 10 GPs disputados naquele ano, Richie foi ao pódio em cinco. No fim da temporada, conquistou o mesmo número de pontos de seu companheiro de BRM, o vice-campeão Graham Hill. Todavia, ficou em terceiro no critério de desempate – o britânico venceu duas vezes, contra nenhum triunfo de Ginther. No ano seguinte, Graham voltou a ser dominante na BRM, para consternação de Richie. O norte-americano era tido como talentoso, mas não conseguia transformar suas qualidades em resultados.

Ginther viu na Honda uma oportunidade de liderar um projeto na Fórmula 1

Ginther viu na Honda uma oportunidade de liderar um projeto na Fórmula 1

Enquanto Ginther vivenciava um impasse em sua trajetória na Fórmula 1, duas marcas estreavam na categoria em 1964. Três anos depois da construção de seu primeiro carro de corridas, a Honda decidiu ingressar na F1. Com um poderoso motor V12, os japoneses se arriscaram na temporada com o norte-americano Ronnie Bucknum. Porém, o time não completou nenhuma das três corridas em que alinharam no grid. Além da Honda, quem também optou por desafiar o circo naquele ano foi a Goodyear. Sua estreia ocorreu no GP da Itália, em Monza, com o português Mario Araújo Cabral (A-T-S). Todavia, os compostos norte-americanos não conseguiram levar o luso até o fim da etapa italiana.

Após a frustração das primeiras experiências, a Honda ousou no planejamento para competir em sua primeira temporada completa em 1965. Para isso, rompeu seu elo com a Dunlop e se uniu à Goodyear. Dessa forma, apenas a equipe japonesa e a Brabham contariam com a borracha ianque. A partir dali, a novata escuderia passaria a contar com dois carros. Além de Bucknum, os nipônicos buscavam um piloto experimentado, capaz de levar o time à glória. Dessa forma, surgiu o nome de Richie Ginther – tão norte-americano quanto Ronnie, tão competitivo e constante quanto os principais nomes do grid.

Ginther, em ação na pista mexicana: antes do GP asteca, havia somado apenas dois pontos em 1965

Ginther, em ação na pista mexicana: antes do GP asteca, havia somado apenas dois pontos em 1965

Ginther se viu entusiasmado com o projeto, e se uniu ao conjunto Honda-Goodyear em 1965. Todavia, não foi um ano fácil. Quando desembarcou na Cidade do México, palco do GP do México, o norte-americano e a Honda tinham somente dois pontos – frutos dos sextos lugares nos GPs da Bélgica, em Spa-Francorchamps, e da Holanda, em Zandvoort. Porém, quando Richie entrou na pista mexicana, havia algo diferente no ar (literalmente). Na rarefeita capital asteca (que fica a 2.250 metros acima do nível do mar), os motores V12 da Honda mostraram bom desempenho, a ponto de desafiar Lotus, Brabham e BRM.

No treino que definiu o grid de largada, Ginther anotou um impressionante terceiro tempo, com 1m56s48. O norte-americano ficou a apenas 0s31 de Jim Clark (Lotus), pole com 1m56s17. O tempo de Richie foi 1s4 mais rápido que o anotado por Bucknum, seu companheiro de equipe. Dessa forma, o poderoso propulsor poderia render um bom resultado na corrida do dia seguinte. Mas havia um temor: será que os pneus Goodyear resistiriam ao calor mexicano. A resposta seria dada no GP do México de 1965.

Ginther em ação no GP do México: um espetáculo à parte do carro japonês

Ginther em ação no GP do México: um show à parte do carro japonês

A corrida

O domingo amanheceu ensolarado na capital mexicana para a disputa da última etapa do Mundial de 1965. O campeonato estava decidido a favor do incrível Jim Clark (Lotus), bicampeão ao conquistar sete vitórias no ano. Título definido à parte, aquela seria a derradeira vez que a Fórmula 1 veria seus carros sendo impulsionados por motores de 1,5 litro – a partir de 1966, a categoria adotaria motores de 3 litros. Porém, se “a última impressão é a que fica”, a Honda deveria se orgulhar do que viria a partir da bandeirada de largada. Quando acionou o acelerador, Richie Ginther voou com seu RA 272. De repente, o norte-americano ignorava o bicampeão Clark e Dan Gurney (Brabham) para assumir a liderança na Cidade do México.

O ritmo de Ginther era notável. Atrás dele, vinha Jackie Stewart (BRM), que também ultrapassou Clark e Gurney e tomou a segunda posição. Todavia, Stewart não conseguia acompanhar o norte-americano da Honda. Tanto que Mike Spence (Lotus), companheiro de Clark, ultrapassou o escocês da BRM e assumiu o segundo lugar na volta 3. Apesar da vontade de alcançar Richie, o britânico da Lotus teve que ficar resignado à segunda posição. Enquanto isso, quem reagia na prova era Gurney, que havia caído para a quinta posição. Assim como Ginther, o norte-americano da Brabham contava com pneus Goodyear, que se impuseram no circuito asteca contra os compostos Dunlop – excetuando Brabham e Honda, as demais equipes usavam Dunlop.

Richie Ginther (Honda) foi pressionado por Dan Gurney (Brabham): frieza rendeu a vitória

Richie Ginther (Honda) foi pressionado por Jackie Stewart (BRM) no início: frieza rendeu a vitória

Na volta 8, Dan ultrapassou Stewart e passou para o quarto lugar. Na volta 12, superou Graham Hill (BRM) para alcançar o terceiro posto. Aos poucos, Gurney tirou a diferença para Spence. Após um intenso duelo, o norte-americano da Brabham se impôs diante do britânico da Lotus e assumiu a vice-liderança. Naquele momento, Dan era o mais veloz do circuito mexicano. A diferença que existia entre Gurney e Ginther diminuiu drasticamente. Logo, Dan alcançou Richie. Todavia, o desempenho de Richie em reta impressionava – a Honda era o carro que tinha maior velocidade máxima, fruto do empenho do time em lidar com o ar rarefeito da Cidade do México.

Apesar de todas as tentativas de Gurney, o norte-americano da Brabham nada poderia fazer. A pressão não tirava Ginther do sério. De forma precisa, o ianque da Honda não se incomodava com as investidas. Além disso, apenas Dan seria capaz de tirar a vitória de Richie – Clark, Stewart e Hill sucumbiram ao calor mexicano. Quando Ginther cruzou a linha de chegada após 65 voltas, a alegria tomou conta dos japoneses da Honda. O triunfo cumpria a missão da fabricante japonesa. Sim, eles poderiam disputar, de igual para igual, com qualquer adversária no mundo.

No México-1965, Ginther liderou a última dobradinha da história do automobilismo norte-americano na F1

No México-1965, Ginther liderou a última dobradinha da história do automobilismo norte-americano

Ginther venceu com 3s2 de vantagem sobre Gurney, formando a última dobradinha norte-americana na Fórmula 1 (foram três na história, excetuando as corridas de Indianapolis, entre 1950 e 1960). Spence terminou em terceiro, conquistando seu único pódio na Fórmula 1. Jo Siffert (Brabham) foi o quarto, seguido pelo companheiro de Ginther, Ronnie Bucknum (Honda) – que obteve no México seus dois únicos pontos na categoria -, e por Dick Attwood (Lotus). Assim terminava a temporada de 1965. Na ensolarada Cidade do México, brilharam mais o Sol Nascente da carenagem da Honda e o sorriso do vencedor Richie Ginther.

Na ensolarada Cidade do México, brilhou mais o Sol Nascente da Honda e o sorriso de Ginther

Na ensolarada Cidade do México, brilharam mais o Sol Nascente da Honda e o sorriso de Ginther

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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