Canadá-1978: Derek Daly e o primeiro ponto da Irlanda na F1

Derek Daly terminou em sexto em Montreal: ponto histórico para a Ensign e para a Irlanda

Derek Daly terminou em sexto em Montreal: ponto histórico para seu país na Fórmula 1

Ao cruzar a linha de chegada do GP do Canadá de 1978, disputado em 8 de outubro daquele ano, em Montreal, Derek Daly colocava a Irlanda no livro de estatísticas da Fórmula 1. Em sua sexta participação na categoria máxima do automobilismo, o piloto de 25 anos conquistava o sexto lugar no circuito da Ilha de Notre-Dame. De quebra, obteve o primeiro ponto de seu país na F1. Foi um fato pouco notado pelo público canadense. Também pudera: Gilles Villeneuve (Ferrari) levantou as arquibancadas ao vencer pela primeira vez na carreira – justamente diante de seus fãs. Apesar dos louros à Villeneuve, Daly também tinha motivos para celebrar. Afinal, na última etapa daquele Mundial, alcançava a zona de pontuação com um Ensign, um carro nada confiável. Para um estreante, um resultado pra lá de significativo.

O ponto obtido em Montreal coroava uma trajetória ascendente e meteórica no automobilismo. Nascido em 11 de março de 1953, na cidade irlandesa de Dundrum, Derek teve suas primeiras experiências a bordo de um carro aos 12 anos. Os cenários das primeiras aceleradas de Daly foram circuitos ovais curtos em piso de terra, em torneios locais de stock car. Todavia, aos 19 anos, notou que não teria dinheiro para bancar a empreitada nas pistas. Determinado a trilhar carreira no automobilismo, Derek, acompanhado de um amigo, foi para a Austrália, onde trabalhou como operário em minas de ferro. O irlandês juntou verba suficiente para mergulhar no desafio da velocidade.

O sonho do automobilismo só se tornou realidade para Daly após trabalhar como operário na Austrália

O sonho da F1 só se tornou realidade para Daly após trabalhar como operário na Austrália

Morando em um ônibus escolar adaptado, Daly participou da temporada de 1976 da Fórmula Ford, tanto no campeonato inglês, quanto no irlandês. No torneio nacional, Derek sagrou-se campeão. Diante do bom desempenho na F-Ford, o irlandês se transferiu para a Fórmula 3 Britânica em 1977. Derek venceu as últimas quatro corridas do ano e assegurou o título daquela temporada. Campeão da F3 Britânica, Daly se credenciou à disputa da Fórmula 2 em 1978. Naquele mesmo ano, se arriscaria no sonho da Fórmula 1. Para isso, se viu no cockpit de uma decadente equipe, a Hesketh.

A aposta em competir em duas categorias top do automobilismo foi arriscada. Se por um lado, o desempenho na F2 era ascendente – o irlandês obteve duas vitórias nas etapas italianas de Mugello e Vallelunga -, na F1, suas tentativas para se classificar para um GP foram frustradas. Após amargar três fins de semana péssimos com a Hesketh, em Long Beach, Mônaco e Zolder, nas quais sequer conseguiu um lugar no grid, Daly se transferiu para a Ensign. A partir dali, só disputaria provas que não coincidissem com o calendário da Fórmula 2 – caso do fim de semana do GP da Alemanha, em Hockenheim, em que Derek competiu na categoria de acesso e foi substituído por um certo Nelson Piquet…

Nos treinos de sexta, em Montreal, a chuva foi personagem central: apesar de escapar da pista, Daly foi 8º na sexta

Nos treinos de sexta, em Montreal, a chuva atrapalhou os pilotos: Daly terminou o dia em 8º

Daly desembarcou em Montreal, palco do GP do Canadá de 1978, como um jovem promissor em busca de um lugar de destaque na Fórmula 1. O irlandês já havia encerrado sua participação na Fórmula 2 com um terceiro lugar geral, atrás apenas de Bruno Giacomelli e Marc Surer. Dessa forma, o foco de Derek era total na categoria máxima do automobilismo. Em cinco provas disputadas pela Ensign até ali, havia completado duas – foi 10º no GP da Itália, em Monza, e oitavo no GP dos Estados Unidos-Leste, em Watkins Glen. Na nova pista canadense, Daly tinha o objetivo de terminar mais uma prova, a fim de se despedir do ano de estreia recebendo a bandeira quadriculada.

Porém, conhecer os atalhos de Montreal seria uma tarefa pra lá de complexa para equipes e pilotos. Na sexta-feira, primeiro dia de treinos para a corrida, um forte chuva atrapalhou o planejamento das equipes. O irlandês da Ensign, contudo, não quis saber de obstáculos e andou forte. Com a pista molhada, Derek conquistou um ótimo oitavo tempo, com 2m00s260, a 2s320 de Carlos Reutemann (Ferrari), o mais veloz da sexta. Como o grid para o GP do Canadá contaria com apenas 22 pilotos, Daly torceria por mais tempestade no fim de semana. Entretanto, a pista estava seca no sábado. Apesar disso, o irlandês demonstrou boa performance com seu Ensign N177. Derek anotou o 15º tempo, com 1m40s042, a 2s027 de Jean-Pierre Jarier (Lotus), pole com 1m38s015.

Largada do GP do Canadá de 1978: Daly ganhou cinco posições na primeira volta

Largada do GP do Canadá de 1978: Daly ganhou cinco posições na primeira volta

A corrida

Quando os 22 carros foram para o grid do GP do Canadá em 8 de outubro de 1978, em Montreal, havia a expectativa de chuva. Todavia, apesar das nuvens carregadas, ela não deu o ar de sua graça. Mesmo com um número limitado de carros, a largada foi conturbada. Emerson Fittipaldi (Copersucar Fittipaldi) e Hans-Joachim Stuck (Shadow), que estavam entre os oito primeiros do grid, se envolveram em um acidente que tirou os dois da prova canadense. Além de contar com o abandono de Fittipaldi e Stuck, Daly superou Nelson Piquet (Brabham), Riccardo Patrese (Arrows) e Jacques Laffite (Ligier), completando a volta 1 em 10º.

Na volta 6, Mario Andretti (Lotus) e John Watson (Brabham) se enroscaram na disputa pelo quinto lugar, caindo para o fim do pelotão. Na mesma passagem, Niki Lauda (Brabham), com problemas de freios, abandonou a corrida canadense. Assim, Derek saltou para o sétimo lugar. A etapa vinha se tornando uma prova de resistência. O irlandês da Ensign estava ciente de que, para pontuar em Montreal, precisava administrar seu equipamento. Ainda assim, exercia um bom ritmo. Enquanto isso, na volta 18, Patrick Depailler (Tyrrell) apresentou problemas e foi aos boxes, fazendo com que Daly ingressasse na zona de pontuação.

Com a quebra dos adversários, Daly ganhou posições e ingressou no top 6 de Montreal

Com a quebra dos adversários, Daly ganhou posições e ingressou no top 6 de Montreal

Derek se manteve em sexto até a volta 22, quando acabou sendo superado por Patrese. O italiano, que, com seu Arrows, foi ao pódio no GP da Suécia, em Anderstorp, não teve trabalho para ultrapassar o irlandês. Apesar de ter caído para sétimo, o ritmo da Ensign seguia satisfatório em Montreal. Na volta 33, Daly retornou à sexta posição, após superar um lento Alan Jones (Williams), que sofria com problemas de pneus. O top 6 parecia assegurado para Derek. Todavia, o novato não contava com a incrível ascensão de Depailler. Em prova de recuperação, o francês ultrapassou o irlandês na volta 48.

Novamente, Daly estava em sétimo. O sonho de pontuar parecia ter ruído. O que ninguém esperava era que Jean-Pierre Jarier (Lotus), líder destacado em Montreal, sofresse um problema de vazamento de óleo. O francês, que vivia a flertar com uma vitória na Fórmula 1, foi obrigado a abandonar. Com isso, Gilles Villeneuve (Ferrari) assumiu a liderança e assegurou sua primeira vitória na categoria máxima do automobilismo. Para delírio do público canadense, o triunfo de Villeneuve veio em casa. Porém, o abandono de Jarier também colocou Derek na história da F1. Afinal, graças ao francês, Daly conquistou o primeiro ponto da história da Ensign e da Irlanda na categoria.

Derek Daly, com Morris Nunn, chefe da Ensign: 6º lugar histórico para piloto e time

Derek Daly, com Morris Nunn, chefe da Ensign: único ponto da equipe em 1978

A sexta posição em Montreal-1978 coroou um bom início de trajetória de Derek na Fórmula 1. Entretanto, com o passar dos anos, a carreira de Daly acabou ficando mais marcada pelos incríveis acidentes do que propriamente por resultados. Ainda assim, graças ao piloto de Dundrum, um país passou a figurar nas estatísticas da categoria máxima do automobilismo. A Irlanda deve muito a Derek.

Advertisements

Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
Esta entrada foi publicada em Arrows, Canadá, Derek Daly, Emerson Fittipaldi, Ensign, Fittipaldi, Gilles Villeneuve, Hans-Joachim Stuck, Jacques Lafitte, Ligier, Montreal, Patrick Depailler, Riccardo Patrese, Shadow, Tyrrell. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s