EUA-2005: fiasco da Michelin põe Monteiro e Portugal no pódio

Tiago Monteiro (Jordan) aproveitou a desistência dos carros calçados com pneus Michelin e assegurou o terceiro lugar

Tiago Monteiro aproveitou a desistência dos carros calçados com pneus Michelin e assegurou o terceiro lugar

Em 24 de julho de 1976, a cidade portuguesa do Porto testemunhava o nascimento de uma criança com um nome totalmente antagônico à sua futura profissão. Tiago Vagaroso da Costa Monteiro veio ao mundo para ser piloto. Apesar de iniciar tardiamente sua carreira no automobilismo – algo condizente com sua certidão -, o luso logo engatou uma trajetória meteórica, cujo ápice foi alcançado na Fórmula 1. Contudo, para atingir seu auge, Monteiro precisou estar no cockpit certo, com os pneus certos. No GP dos Estados Unidos de 2005, em Indianapolis, 14 pilotos calçados com Michelin desistiram da disputa antes da largada, alegando falta de segurança dos compostos. Utilizando Bridgestone, Tiago se viu num grid com seis carros. À frente dele, apenas a dupla da Ferrari – Michael Schumacher e Rubens Barrichello. Atrás, seu companheiro de Jordan, Narain Karthikeyan, e os pilotos da Minardi, Christijan Albers e Patrick Friesacher. Assim, Monteiro apenas precisou ser constante para sustentar o terceiro lugar na conturbada etapa norte-americana.

Vagarosamente, a bandeira rubro-verde tremulou na controversa cerimônia dos vitoriosos – Schumacher, o vencedor, e Barrichello, o segundo colocado, estavam visivelmente constrangidos. Alheio ao fiasco da Michelin, Monteiro só queria saber de celebrar. Afinal, havia entrado na história do automobilismo português. O pódio conquistado por Tiago em Indianapolis-2005 foi o primeiro de Portugal na Fórmula 1. Não só isso: Monteiro era o primeiro lusitano a pontuar na categoria depois de 10 anos – desde o sexto lugar de Pedro Lamy, com Minardi, no GP da Austrália de 1995, em Adelaide, um piloto do país europeu não figurava na zona de pontuação. Além disso, conquistou o 19º e derradeiro pódio da trajetória da Jordan. Foram muitos feitos – todos eles graças à Michelin.

Foi o primeiro pódio dele e de Portugal, e o derradeiro da Jordan na F1

Foi o primeiro pódio de Tiago Monteiro e de Portugal, e o derradeiro da Jordan na Fórmula 1

Quando Tiago subiu ao pódio em Indianapolis, tinha 28 anos. Em 2005, fazia sua temporada de estreia na Fórmula 1. Até ingressar na Jordan, teve uma curiosa trajetória. Afinal, nunca competiu no kart. Sua primeira experiência no automobilismo só ocorreu aos 20 anos, quando pediu ao pai, Edmar, um piloto amador, para dar umas voltas em seu Porsche de competição. O jovem pegou gosto pela velocidade e, em 1997, fez sua estreia no esporte a motor na Porsche Cup Francesa. Logo em seu primeiro campeonato, assegurou o título da categoria light. A conquista fez com que o português ingressasse na Fórmula 3 Francesa no ano seguinte. Na categoria de monopostos, disputou quatro temporadas (entre 1998 e 2001), obtendo dois vice-campeonatos – 2000 e 2001.

Em 2002, decidiu disputar a Fórmula 3000 Internacional, categoria de acesso à Fórmula 1. Pela Supernova, ficou em 12º na classificação geral. O discreto resultado fez Monteiro dar uma guinada na sua trajetória automobilística. Em 2003, partiu para os Estados Unidos, onde correu na ChampCar. Contratado pela Fittipaldi Dingman – time capitaneado por Emerson Fittipaldi -, o português terminou no top 10 em 10 oportunidades. Porém, Tiago insistiu em trilhar sua carreira na Europa. Em 2004, retornou ao Velho Mundo, onde disputou a World Series by Nissan. Na categoria, obteve o segundo lugar geral, sendo superado somente pelo finlandês Heikki Kovalainen.

Em suas oito primeiras corridas na Jordan, em 2005, Monteiro teve como melhor resultado dois décimos lugares

Nas oito primeiras corridas com a Jordan em 2005, Tiago teve como melhor resultado dois décimos lugares

O vice-campeonato na World Series by Nissan credenciou Monteiro à Fórmula 1. Em 2004, se tornou piloto de testes da Minardi. Porém, aos 28 anos, Tiago precisava arriscar para ingressar no grid da categoria máxima do automobilismo. Em 2005, a Jordan, que passava por uma grave crise financeira, abriu as portas para o português. Ao lado do endinheirado indiano Narain Karthikeyan, Monteiro defenderia a cor amarela do time de Eddie Jordan. O EJ15 impulsionado pelo motor Toyota e calçado com pneus Bridgestone só conseguia andar à frente da Minardi. Ainda assim, em suas primeiras oito corridas na Fórmula 1, Tiago mostrou consistência. Completou todas elas, com destaque para dois top 10 – nos GPs do Bahrein, em Sakhir, e do Canadá, em Montreal, terminou em 10º.

Quando desembarcou em Indianapolis, palco do GP dos Estados Unidos de 2005, Monteiro queria apenas terminar a etapa, disputada no circuito misto construído em meio à célebre pista oval. Os únicos setores utilizados originalmente nas 500 Milhas de Indianapolis são a Reta dos Boxes e a Curva 1 – ambas feitas pelos bólidos da F1 em sentido horário, diferentemente dos carros da Indy, por exemplo. Logo, as equipes tinham que trabalhar o equilíbrio para percorrer a sinuosa parte mista e a veloz parte do oval. No trecho do Speedway, os pilotos aceleravam ao máximo para contornar a Curva 1. Inclinada, ela exercia mais pressão sobre os pneus do lado esquerdo dos carros.

O acidente de Ralf Schumacher (Toyota), na sexta-feira, deixou a Fórmula 1 em alerta

O acidente de Ralf Schumacher (Toyota), na sexta, deixou a F1 em alerta: pneu Michelin se desintegrou

Nos treinos de sexta, os times que calçavam Michelin estavam um passo à frente dos que usavam Bridgestone, cravando os melhores tempos. Todavia, quando Ralf Schumacher (Toyota) carimbou o muro da Curva 1, após o pneu traseiro esquerdo se desintegrar em alta velocidade, um sinal de alerta acendeu na categoria. Além da Toyota, as outras seis equipes que recebiam os pneus da marca francesa – Renault, McLaren, BAR, Williams, Red Bull e Sauber – alegaram ter problemas com os compostos na curva inclinada. Acionada, a Michelin disse não ter notado nenhuma falha com os compostos enviados para Indianapolis. Ainda assim, trabalharia para enviar novos pneus da França para os Estados Unidos. A borracha chegaria antes da corrida. Contudo, feriria o regulamento da FIA.

Em meio ao imbróglio, os pilotos foram para a pista para a qualificação de sábado. Todos, exceto um: Ralf Schumacher. Após a forte batida, o alemão foi vetado para a disputa da etapa norte-americana, sendo substituído por Ricardo Zonta. Problemas da Michelin à parte, Monteiro tratou de acelerar seu EJ15. Contudo, fez o que estava a seu alcance. Tiago anotou 1m13s462, conquistando sua já habitual 17ª posição no grid. Sua marca foi 2s837 mais lenta que a de Jarno Trulli (Toyota), pole com 1m10s625. Era a primeira vez que a escuderia japonesa largaria na ponta de uma corrida. E, curiosamente, seria a única vez da Toyota na pole de um GP. Seria, pois não haveria domingo para os times apoiados pela Michelin.

A constrangedora largada em Indianapolis-2005: Monteiro só se preocupou em manter 3º lugar

A constrangedora largada em Indianapolis-2005: Monteiro só se preocupou em manter 3º lugar

A corrida

Muita discussão ocorreu na manhã de domingo, 19 de junho de 2005, em Indianapolis. Dirigentes das equipes se reuniram constantemente com Bernie Ecclestone, o promotor da Fórmula 1, para tentar chegar a um denominador comum. A ideia de substituição dos pneus, que partiu da Michelin, logo caiu por terra. A solução mais aceitável foi a de instalar uma chicane provisória na Curva 1. Entretanto, os chefes das escuderias que recebiam pneus da Michelin se depararam com dois obstáculos – Jean Todt, o homem-forte da Ferrari, e Max Mosley, presidente da FIA. Os dois foram contrários à alternativa provisória na curva.

Após muita conversa e nenhum acordo, veio a decisão: os 14 carros que usavam compostos da marca francesa fariam a volta de apresentação e se retirariam voluntariamente da disputa da corrida. A cena foi chocante: a maioria dos carros nos boxes e ‘meia dúzia de gatos pingados’ – literalmente – num grid esvaziado. Monteiro só via os Ferrari de Michael Schumacher e Rubens Barrichello à sua frente. Quando as luzes vermelhas se apagaram, sua preocupação maior foi de administrar a terceira posição e conduzir à frente de Narain Karthikeyan (Jordan), Christijan Albers (Minardi) e Patrick Friesacher (Minardi).

Monteiro toma uma volta de Schumacher, o vencedor: vaias das arquibancadas envergonharam os pilotos

Monteiro toma uma volta de Schumacher, o vencedor: vaias das arquibancadas envergonharam os pilotos

Ao contornar as primeiras curvas, Tiago viu Albers tomar o quarto lugar de Karthikeyan. Porém, o holandês da Minardi havia programado três paradas para a corrida, e logo retornou à quinta posição. Em nenhum momento, o terceiro lugar do português, que parou duas vezes, foi ameaçado pelos adversários. Foram 72 voltas para testar a concentração de Monteiro. Ao fim, tomou uma volta de Schumacher e Barrichello. Mesmo assim, sentia-se consagrado.

Quando recebeu a bandeirada, Tiago celebrou seu melhor resultado na Fórmula 1. Não só ele, como Karthikeyan, o quarto, Albers, o quinto, e Friesacher, o sexto, alcançaram seus ápices na categoria máxima do automobilismo. No pódio, em meio às vaias vindas das arquibancadas, o português comemorava seu inédito feito. Que, acima de tudo, foi histórico, apesar de todos os pesares.

A festa de Monteiro no pódio de Indianapolis: o único a festejar o fiasco da Michelin

A festa de Monteiro no pódio de Indianapolis-2005: o único a festejar o fiasco da Michelin

“Foi uma oportunidade única na minha carreira. Todos sabemos que foi uma corrida muito atípica, mas era preciso lá estar para aproveitar essa oportunidade e felizmente consegui. Esse resultado deixou o meu nome no mapa internacional. Conquistei, acima de tudo, respeito como piloto”, disse à agência Lusa, em matéria publicada em 18 de julho de 2015, em razão dos 10 anos do primeiro (e até hoje, único) pódio português na Fórmula 1.

Monteiro estava em êxtase: foi o primeiro pódio de Portugal, e o 19º e último da Jordan na F1

Tiago estava em êxtase: resultado em Indianapolis-2005 colocou-o na história do automobilismo português

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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