Inglaterra-2008: na chuva, Barrichello dá último pódio à Honda

Rubens Barrichello deu um show à parte em Silverstone: com o problemático Honda, alcançou o terceiro lugar

Barrichello deu um show à parte em Silverstone: com o problemático Honda, alcançou o terceiro lugar

A Honda atravessava um período de incertezas na temporada de 2008. Era um ano que serviria para definir qual o lugar do time na Fórmula 1: no grupo dos grandes ou no dos nanicos? Entretanto, uma série de problemas teimava em desafiar Rubens Barrichello e Jenson Button. Nas oito primeiras etapas daquele Mundial, a escuderia nipônica havia somado apenas oito pontos, sendo cinco do brasileiro e três do inglês. A primeira metade da temporada seria encerrada em Silverstone, palco do GP da Inglaterra. Num cenário familiar para Barrichello e Button, o desejo de alcançar um bom resultado era natural. Contudo, o RA108 não correspondia às ambições da dupla. Só uma ajuda do ‘imponderável automobilístico’ seria capaz de fazer a Honda brilhar no célebre circuito britânico. E a mãozinha veio dos céus: a chuva que despencou em Silverstone naquele domingo, 6 de julho de 2008, alavancou Rubens para o terceiro lugar da prova inglesa.

Foi uma prova épica de Barrichello. O brasileiro parecia ignorar a pista molhada. É bem verdade que as decisões tomadas por Ross Brawn, diretor técnico da Honda, colaboraram para o primeiro pódio de Rubens pela equipe. Entretanto, a precisão demonstrada pelo experiente piloto em Silverstone levou os mecânicos do time ao êxtase. Era o quarto top 3 da equipe desde que a marca japonesa assumiu o controle da BAR, no fim de 2005. Em 2006, já com Barrichello e Button, a escuderia conquistou três pódios. Todos com o inglês – entre eles, o da inesperada vitória no GP da Hungria de 2006, em Budapeste. Em 2007, a queda de desempenho da Honda foi brutal. O melhor resultado veio com um quinto lugar de Jenson, no GP da China, em Xangai. Foram somente seis pontos no ano.

Apesar das expectativas ruins, Rubens estava confiante para o fim de semana: Silverstone era uma de suas pistas prediletas

Apesar dos problemas, Rubens estava confiante para o fim de semana: Silverstone era sua segunda casa

O sofrível desempenho de 2007 continuou a influenciar a Honda em 2008. Para se ter uma ideia, na semana anterior ao GP da Inglaterra, Barrichello participou de testes coletivos em Silverstone. Resultado: um tímido oitavo lugar entre os 10 pilotos que estiveram na pista, na quinta-feira de treinos. “Temos que esperar para ver. Sempre chego a Silverstone cheio de expectativas. Estou confiante em uma boa prova”, observou o brasileiro, que preferiu lembrar de grandes momentos vividos no circuito. “Já passei muito tempo testando e correndo aqui desde que eu era muito jovem. Posso dizer que essa pista é quase uma casa para mim. Tenho muitas lembranças especiais, especialmente da vitória com pole em 2003“, afirmou, se referindo ao triunfo dos tempos em que defendia a Ferrari.

Quando os treinos foram para valer, as boas lembranças ficaram para trás. No lugar delas, Barrichello se deparou com a dura realidade do RA108. Na sexta pela manhã, o brasileiro ficou com o pior tempo do treino livre (1m24s123), dando somente quatro voltas na sessão em razão de problemas na suspensão traseira de seu bólido. À tarde, houve uma melhora significativa. Com 1m21s002, Rubens acabou sendo o 14º do dia. Seu tempo foi 0s073 mais lento que o obtido por Button, 12º com 1m20s929, e 2s427 ao conquistado por Felipe Massa (Ferrari), o mais rápido da sexta. “Fiquei desapontado por não ter realizado a primeira sessão de hoje (sexta). À tarde, tivemos algumas respostas positivas com relação ao equilíbrio do carro. Nós não sabemos onde nosso desempenho nos coloca em relação aos nossos concorrentes ainda, no entanto, estou confiante em um bom fim de semana”.

Na pista britânica, o brasileiro sofreu com a Honda: problemas com a suspensão na sexta, erro no momento para entrar na pista no sábado

Na pista inglesa, o brasileiro sofreu com o RA108: problema na suspensão na sexta, erro tático no sábado

No sábado, a Honda ficou perdida diante da mudança climática em Silverstone. Se durante a manhã, o RA108 mostrou uma forma satisfatória no terceiro treino livre, à tarde, a chuva surpreendeu os membros do time nipônico. Quando Barrichello e Button foram para a pista, a ameaça da pista ficar molhada era enorme. Na volta rápida da dupla, a água se fez presente, prejudicando Rubens e Jenson. No fim, a decepção de não ter avançado para o Q2 – o brasileiro anotou o 16º tempo, com 1m21s512, 0s119 à frente do inglês, 17º com 1m21s631. A pole ficou com Heikki Kovalainen (McLaren) – a única da carreira do finlandês -, com 1m21s049.

“É uma pena que não fomos capazes de progredir na qualificação de hoje (sábado), e eu temo pelo verdadeiro potencial do carro na pista seca. Dos boxes, pensei que avançaríamos para o Q2. Porém, quando fui para a pista, estava chovendo mais forte na parte da pista onde eu estava, e os outros foram capazes de melhorar no decorrer da volta, e acabei em 16º”, lamentou Barrichello, que acreditava num dia melhor no domingo. De preferência, com pista molhada. “Esperamos que chova amanhã (domingo), que deve tornar a corrida interessante e abrir possibilidades para a gente”.

Debaixo de muita chuva, os pilotos partiram para a disputa do GP da Inglaterra: Barrichello ganhou seis posições na volta 1

Com chuva, os pilotos partiram para a disputa do GP da Inglaterra: Rubens ganhou seis posições na volta 1

A corrida

Eduardo, filho de Barrichello, falou com o pai por telefone antes do GP da Inglaterra. “Ele me ligou após ter me visto triste com o 16º lugar no grid. Ele disse: ‘vou rezar para que chova e que você suba no pódio'”, afirmou. A oração surtiu resultado no domingo, 6 de julho de 2008. Desde a manhã, chovia em Silverstone. Era a senha para Rubens cumprir a profecia do garoto. Quando os carros foram para o grid, calçavam pneus intermediários, próprios para a pista úmida. Na largada, o brasileiro partiu determinado a superar quem estivesse à frente. As primeiras vítimas foram Kazuki Nakajima (Williams) e Sebastien Bourdais (Toro Rosso). Depois, Barrichello viu Felipe Massa (Ferrari) e Mark Webber (Red Bull) rodarem e caírem para o fim do pelotão, e Sebastian Vettel (Toro Rosso) e David Coulthard (Red Bull) deixarem a disputa. Com isso, completou a volta 1 em 10º.

Na volta 10, Barrichello foi superado por Button, caindo para 11º. Na volta 12, foi a vez de Webber ultrapassar o brasileiro. Era o sinal de que a pista começava a secar, e os compostos intermediários davam sinais de desgaste. Ainda assim, Rubens resistiu na pista. Na volta 19, com a ida de Webber para os boxes, o brasileiro assumiu o 11º lugar. Na volta 24, Barrichello foi aos boxes. Na troca, colocou pneus intermediários novos, retornando ainda em 11º. Após o pit stop, o brasileiro voltou em um excelente ritmo, superando os adversários com o decorrer das voltas. Na 25, com as paradas de Button e Timo Glock (Toyota), Rubens ascendeu para o nono lugar. Na passagem seguinte, com os pit stops de Jarno Trulli (Toyota) e de Fernando Alonso (Renault), subiu para sétimo.

No molhado, Barrichello voou: um a um, deixava os adversários para trás

No molhado, Barrichello voou: um a um, deixava os adversários para trás em Silverstone

Quando Kimi Raikkonen (Ferrari) parou nos boxes, na volta 31, Barrichello pulou para 6º. Naquele momento, a tempestade se intensificou. A pista ficava perigosa, e os pilotos escapavam da pista. Foi quando Rubens e Ross Brawn chegaram a um acordo: na volta 36, decidiram colocar pneus para chuva. Foi a escolha certa, na melhor hora. Porém, a execução não foi boa – um defeito na bomba de combustível impediu que o reabastecimento fosse totalmente feito no RA108 do brasileiro. Quando o piloto da Honda retornou à pista, estava em nono. Com os compostos adequados, passou a andar muito mais rápido que os adversários. Rubens encostava nos rivais e ultrapassava sem tomar conhecimento.

Na volta 37, com a rodada de Glock, Barrichello assumiu o oitavo lugar. Na passagem seguinte, viu Kimi Raikkonen (Ferrari) escapar da pista, tomando-lhe a sétima posição. Rubens virava até 10 segundos mais rápido que a concorrência por volta – uma média absurda em se tratando de Fórmula 1. Na volta 39, o brasileiro superou Heikki Kovalainen (McLaren). Com a escapada de Robert Kubica (BMW) na mesma passagem, Barrichello passava a figurar em quinto. Na 40, o piloto da Honda voou para tirar a quarta posição de Alonso. Na volta seguinte, foi a vez de Trulli não resistir a Rubens. O brasileiro era o terceiro.

Raikkonen roda à frente de Barrichello: brasileiro da Honda ingressava no top 6

Raikkonen roda à frente de Barrichello: brasileiro ingressava no top 7 após atravessada do finlandês

Num ritmo alucinante debaixo d’água, Barrichello era o mais veloz de Silverstone. Facilmente, tirou a vantagem de Nick Heidfeld (BMW). Na volta 43, ultrapassou o alemão, assumindo uma inacreditável segunda posição. Na passagem seguinte, Rubens tirou dois segundos em relação a Lewis Hamilton (McLaren), líder da prova inglesa. Porém, a vantagem do britânico sobe o brasileiro era de 42 segundos. Alcançar a ponta era missão impossível. Naquele instante, a chuva torrencial tinha se tornado leve, o que reduzia qualquer pretensão de Barrichello. Além disso, ele tinha outra preocupação em mente: a falha na bomba de combustível obrigaria Rubens a parar novamente. Na volta 46, realizou seu terceiro pit stop. Colocou combustível para ir até o fim da corrida, e trocou os pneus – os de chuva intensa deram lugar para os compostos intermediários.

Quando voltou à pista, na 47, Barrichello perdeu a segunda posição para Heidfeld. Todavia, tinha uma confortável vantagem sobre Kovalainen – 7s5 à frente do finlandês. Se o pódio parecia garantido, as esperanças de retomar a segunda posição estavam encerradas – Rubens não conseguia descontar a diferença para Nick. Ao cruzar a linha de chegada, na volta 60, Hamilton comemorou uma expressiva vitória em Silverstone. Heidfeld assegurou o segundo lugar, seguido por um impressionante Barrichello, que celebrou seu primeiro pódio em três anos – desde o GP dos Estados Unidos de 2005, em Indianapolis, quando foi segundo com Ferrari, Rubens não alcançava um top 3.

Festa da Honda para Barrichello após terceiro lugar: primeiro pódio do brasileiro em três anos

Festa da Honda para Barrichello após terceiro lugar: primeiro pódio do brasileiro em três anos

“Foi um resultado fantástico, mas obviamente tive um pouco de sorte por causa do tempo e das condições da pista”, admitiu Barrichello, na edição de 7 de julho de 2008, da Folha de S. Paulo. O brasileiro lembrou como foi fundamental a mudança de tática durante a corrida. “A pista estava muito molhada, e o carro saía de traseira. Tinha gasolina para umas oito voltas, mas pedi para entrar e pôr pneus de chuva”, explicou. O que veio a partir daí encheu Rubens de satisfação. “Eu passava os caras por fora, por dentro. Foi mágico”, sintetizou. Ross Brawn, diretor técnico da Honda, se curvou a Barrichello. “Ele fez um excelente trabalho e nos fez escolher os pneus e a tática certa”.

À versão online de O Estado de S. Paulo, em 6 de julho de 2008, o brasileiro enalteceu o trabalho da escuderia nipônica. “Eu queria simplesmente agradecer a equipe pelo suporte. A Honda sabe o que é melhor para o nosso carro, mas eu tinha uma sensação de que eu conseguiria superar os problemas. Eu vivo para a velocidade, é uma questão de manter esse espírito”, disse Barrichello, “Nunca perdi a esperança e a fé em mim, e esse resultado é uma prova disso. Parece que a chuva sempre aparece a meu favor. De fato, foi uma corrida perfeita”.

Heidfeld, Hamilton e Barrichello celebram no pódio de Silverstone: terceiro lugar poderia ter sido segundo

Heidfeld, Hamilton e Barrichello celebram no pódio de Silverstone: 3º lugar poderia ter sido 2º para Rubens

Mal sabia Rubens que aquele seria seu único top 3 no time japonês. Tampouco que aquela terceira posição significaria o nono e derradeiro pódio da história da Honda na Fórmula 1. Apesar do incrível desempenho de Barrichello em Silverstone, o projeto nipônico sucumbiria ao final de 2008, deixando ameaçadas as carreiras de Rubens e Jenson. Por alguns dias, os dois não sabiam o que fariam em 2009. Quando Ross Brawn entrou em acordo com a Mercedes para utilizar os propulsores alemães nos carros do espólio da Honda, nascia a Brawn. O que veio depois disso virou vitória e entrou para a história…

Rubens e a Honda celebram terceiro lugar: foi o único pódio do brasileiro no time, e o derradeiro top 3 da equipe japonesa

Rubens e a Honda celebram 3º lugar: foi o único pódio do brasileiro no time, e o derradeiro top 3 da equipe

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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