Mônaco-1989: Modena obtém derradeiro pódio da Brabham

Modena (1º à esq.) foi intruso na festa da McLaren: Senna foi o primeiro, e Prost, o segundo

Modena (1º à esq.), um intruso na festa da McLaren no GP de Mônaco: Senna foi o primeiro, e Prost, o segundo

Dona de 35 vitórias, quatro títulos mundiais de pilotos e dois troféus de Construtores, a Brabham iniciou uma fase de declínio a partir da segunda metade dos anos de 1980. A saída de Nelson Piquet, em 1985, a morte de Elio de Angelis, em 1986, e a retirada de Bernie Ecclestone, em 1987, colocaram a equipe em xeque. Tais acontecimentos foram determinantes para o fim das atividades da escuderia, em 1992. Porém, antes de sua extinção, a Brabham teve um lampejo de seus áureos tempos. O último brilho veio em 7 de maio de 1989, quando o time viu seus dois pilotos atrás somente da hegemônica McLaren, de Ayrton Senna e Alain Prost. No GP de Mônaco, Martin Brundle andou em terceiro, mas um problema de bateria fez com que fosse relegado à sexta posição. Com o azar do inglês, coube a Stefano Modena conduzir a tradicional marca ao terceiro lugar no Principado.

O pódio na prova monegasca foi o primeiro da (até então) ascendente carreira do italiano, rendendo-lhe seus quatro primeiros pontos na categoria máxima do automobilismo. Em contrapartida, era o 124º e último da Brabham em sua trajetória na Fórmula 1. Graças a Modena, o time festejava seu melhor resultado desde o terceiro lugar de Riccardo Patrese no GP do México de 1987, na Cidade do México. Assim, de uma só vez, Stefano protagonizava um momento inédito e nostálgico – condizente com seu vitorioso passado no esporte a motor.

O terceiro lugar em Mônaco-1989 parecia o início de uma carreira vitoriosa na F1. Parecia...

O terceiro lugar em Mônaco-1989 parecia o início de uma carreira vitoriosa na F1 para Stefano. Parecia…

Nascido na cidade de Modena em 12 de maio de 1963, o italiano ingressou no mundo da velocidade aos 12 anos, graças ao incentivo do pai, Leonello. Como todo piloto, começou no kart, e logo mostrou ao que veio: foi campeão mundial júnior de kart em 1978. Depois de uma bem-sucedida carreira no kart, ingressou no mundo dos monopostos em 1983, na Fórmula Ford Italiana. Em 1985, migrou para a Fórmula 3 Italiana. Ficou na categoria por duas temporadas, tendo como melhor resultado o quarto lugar na temporada de 1986. Em 1987, ascendeu para a Fórmula 3000 Internacional, principal categoria de acesso à Fórmula 1 na época. Modena deu show. Num Onyx, venceu três etapas e se sagrou campeão da temporada.

O excelente desempenho do italiano na F3000 levou-o a estrear na categoria máxima do automobilismo ainda em 1987. No GP da Austrália, em Adelaide, Stefano correu na Brabham, substituindo o compatriota Riccardo Patrese, que estava na Williams no lugar de Nigel Mansell, lesionado após acidente em Suzuka. Apesar da empolgação, não suportou o calor, abandonando por problemas físicos. Modena faria sua primeira temporada completa na Fórmula 1 em 1988, pela novata Eurobrun. Porém, o contrato com a escuderia caloura se mostrou um tremendo equívoco. O time lutava para se classificar para as corridas. Das 16 etapas do ano, Stefano participou de 10. Seu melhor resultado foi um 11º lugar no GP da Hungria, em Hungaroring.

Em 1988, Modena defendeu a Eurobrun, na qual sempre andou no fim do pelotão

Em 1988, Modena defendeu a problemática Eurobrun (foto): portas da Brabham se abriram em 1989

Para 1989, Modena achou por bem abandonar a aventura chamada Eurobrun e resolveu embarcar num novo (ou seria velho?) barco: a Brabham, que retornaria ao ‘circo’ naquele ano, após um período sabático – o time ficou de fora de 1988, por decisão do investidor suíço Joachim Luhti, que, em 1987, havia assumido a parte que pertencia a Bernie Ecclestone. Enquanto o baixinho britânico se dedicava com mais afinco à Associação de Construtores da Fórmula 1 (FOCA), a escuderia buscou se reorganizar, para retornar com força à categoria máxima do automobilismo.

Sob uma nova roupagem, a Brabham veio com novidades. Seu carro, o BT58, foi desenhado pelos projetistas John Baldwin e Sergio Rinland, seria impulsionado pelo motor Judd e calçado com pneus Pirelli. Um conjunto modesto, que teria, além de Modena, o experiente britânico Martin Brundle no cockpit. Apesar de confiante, a dupla estava consciente do árduo desafio para aquela temporada. Inicialmente, os dois foram obrigados a participar da pré-qualificação – a saída da Brabham em 1988 fez com que a equipe fosse relegada em 1989. Além disso, Brundle e Modena teriam de lutar com problemas mecânicos. Nas duas primeiras provas do Mundial, Martin e Stefano não viram a bandeira quadriculada. Tanto no GP do Brasil, em Jacarepaguá, e no GP de San Marino, em Imola, a dupla da Brabham abandonou.

O retorno da Brabham à F1 se deu no GP do Brasil de 1989, em Jacarepaguá: como companheiro, Stefano teria Martin Brundle (foto)

A Brabham retornou à F1 no GP do Brasil de 1989: Stefano e Brundle (foto) abandonaram em Jacarepaguá

Na terceira etapa, em Mônaco, a missão era terminar a corrida (mal sabiam os dois que o Principado traria boas – e incríveis – razões para acreditar na possibilidade de um pódio…). Na quinta-feira, primeiro dia de treinos, a escuderia mostrou uma força que ainda não tinha sido vista em 1989. Apoiados na característica travada da pista monegasca, Brundle e Modena não só superaram a pré-qualificação, como colocaram a Brabham entre os 12 melhores da sessão: Martin foi o oitavo, com 1m26s970, e Stefano, o 12º, com 1m27s599 – o italiano ficou a 3s473 de Ayrton Senna (McLaren), o melhor do dia, com 1m24s126.

O bom desempenho de quinta encheu de motivação a dupla da Brabham para os treinos decisivos de sábado. Brundle parecia se sentir em casa no Principado. À vontade no apertado circuito, o inglês voava com seu BT58. Alcançar os McLaren de Ayrton Senna e de Alain Prost era missão impossível. Contudo, o terceiro lugar no grid se tornou palpável para Martin. Apesar de mostrar condições para isso, o britânico acabou sendo superado por Thierry Boutsen (Williams). Ainda assim, ficou com uma incrível quarta posição no grid, com 1m24s580. Modena também fez um treino convincente, alcançando o oitavo lugar, com 1m25s086 – a 2s778 de Senna, o pole com inacreditáveis 1m22s308.

Na largada, Modena perdeu posição para Andrea de Cesaris, permanecendo em oitavo

Na largada, Modena perdeu posição para Andrea de Cesaris (Dallara), permanecendo em oitavo

A corrida

Diante do grande potencial apresentado nos treinos de quinta e de sábado, pontuar parecia algo possível para a Brabham. Entretanto, a performance favorável dos dois carros seria testada realmente na corrida. Afinal, o BT58 ainda não havia concluído uma prova sequer. E o desafio da extenuante etapa de Mônaco colocaria à prova todos os componentes do conjunto. Naquele domingo ensolarado, em 7 de maio de 1989, Brundle e Modena partiram determinados a recolocar uma histórica equipe entre as melhores do grid. Na largada do GP de Mônaco, Martin perdeu terreno para Nigel Mansell (Ferrari), caindo para quinto. Por sua vez, Stefano havia herdado uma posição após Riccardo Patrese (Williams) largar dos boxes, mas foi ultrapassado por Andrea de Cesaris (Dallara), mantendo-se em oitavo.

Na volta 3, Derek Warwick (Arrows), com problemas elétricos, deixou a disputa, fazendo com que Modena assumisse o sétimo lugar. A partir daí, a corrida se tornava modorrenta. Enquanto a dupla da McLaren sumia na frente, os demais consolidavam suas posições. Mudanças só aconteceriam por obras do acaso. Na volta 18, Thierry Boutsen (Williams), então terceiro colocado, tentava aplicar uma volta em René Arnoux (Ligier). Porém, o belga tocou no francês, sendo obrigado a ir aos boxes para trocar a asa dianteira. Com Boutsen despencando na classificação, Brundle herdava a quarta posição, e Modena, a sexta.

De Cesaris esbraveja contra Piquet após acidente bizarro: Modena (à dir.) assumiu quarto lugar

De Cesaris esbraveja contra Piquet após acidente bizarro: Modena (à dir., carro 8) se espremeu para ser 4º

Naquele momento, os carros da Brabham estavam num bom ritmo no Principado. Esperar mais seria pedir demais. Contudo, no automobilismo, tudo é possível. Terceiro na prova monegasca, Mansell começou a encarar problemas no câmbio de seu Ferrari. Nigel passou a se arrastar na pista, e Martin aproveitou-se da situação do compatriota para ultrapassá-lo na volta 27. Três voltas depois, o ferrarista abandonaria a etapa, fazendo com que Stefano passasse a ocupar a quinta posição, próximo a De Cesaris, o quarto colocado.

Com seu Dallara mostrando desempenho acima das expectativas, Andrea queria caçar Brundle. Todavia, havia retardatários em seu caminho. Na volta 32, o italiano tentou dar uma volta em Nelson Piquet (Lotus) na curva Loews. Mas só ficou na tentativa: os dois ficaram enroscados na travada curva em 180 graus. Mero espectador da cena pastelão, Modena conseguiu escapar do “congestionamento” e assumiu o quarto lugar. Assim, antes da metade do GP de Mônaco, a dupla da Brabham ocupava a terceira e quarta posições, atrás somente dos McLaren de Ayrton Senna e Alain Prost.

Stefano (em primeiro plano), à frente de Martin: dupla da Brabham andou em terceiro e quarto em Mônaco

Stefano (em primeiro plano), à frente de Martin: dupla da Brabham andou em terceiro e quarto em Mônaco

Apesar do cenário otimista, ainda havia muita corrida pela frente. Martin e Stefano conduziam de forma segura pelas ruas do Principado. Quando tudo levava a crer que o BT58, enfim, não sofreria problemas mecânicos, veio um banho de água fria: na volta 49, Brundle foi aos boxes para trocar a bateria de seu bólido. Dessa forma, o inglês ficou distante do pódio, que seria o primeiro de sua carreira – o segundo lugar conquistado por ele no GP dos Estados Unidos-Leste de 1984, em Detroit, foi desconsiderado por conta da eliminação da Tyrrell naquela temporada. Martin voltou à pista em 10º, deixando o terceiro lugar nas mãos de seu companheiro de Brabham.

A partir de então, Modena passou a guiar com cuidado. Seguro, o italiano tinha consciência de que era impossível alcançar Senna e Prost. Assim, administrava sua boa vantagem para Alex Caffi (Dallara), que estava em quarto. Enquanto isso, Brundle voava nas ruas monegascas. Na volta 51, ultrapassou Jonathan Palmer (Tyrrell). Na 58, anotou aquela que foi a segunda melhor volta da corrida, com 1m25s882 – na passagem seguinte, Prost fez a flying lap, com 1m25s501. Na volta 64, Martin superou Alessandro Naninni (Benetton), assumindo o oitavo lugar. Na 70, ignorou Eddie Cheever (Arrows), tomando-lhe o sétimo lugar. O esforço do inglês da Brabham acabou sendo recompensado na volta 74: com o abandono de Ivan Capelli (March), por problemas elétricos, ficou com o sexto lugar.

Modena sai do Túnel para a freada da Chicane do Porto: pódio histórico

Modena sai do Túnel para a freada da Chicane do Porto: pódio histórico para o italiano e para a Brabham

Se Brundle havia assegurado um ponto, Modena se via como o vencedor dos mortais. Ao cruzar a linha de chegada em terceiro – a uma volta de Senna, o primeiro colocado, e de Prost, o segundo -, o italiano passava a ser considerado um campeão em potencial. Afinal, junto aos dois pilotos da McLaren, estava um jovem que reconduzia a Brabham à glória. Porém, tudo não passaria de um sonho. Aqueles quatro pontos seriam os únicos de Stefano em 1989. E aquele seria o último top 3 da tradicional escuderia.

Depois de Mônaco-1989, Modena perambulou pela categoria máxima do automobilismo mesclando lances brilhantes com atuações inexpressivas, enquanto a Brabham agonizou no ‘circo’. Curiosamente, tanto Stefano quanto a equipe criada por Jack Brabham encerraram suas trajetórias em 1992: enquanto o piloto abandonou a Fórmula 1 após ser sexto, com Jordan, no GP da Austrália, em Adelaide, o time fez sua última exibição no GP da Hungria, em Hungaroring, com um novato que faria história: Damon Hill.

Os quatro pontos obtidos em Mônaco-1989 foram os únicos de Modena em 1989

Os quatro pontos obtidos no GP de Mônaco foram os únicos de Stefano Modena na temporada de 1989

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
Esta entrada foi publicada em Alex Caffi, Andrea de Cesaris, Arrows, Bernie Ecclestone, Brabham, Dallara, Derek Warwick, Eddie Cheever, Eurobrun, Ivan Capelli, Jonathan Palmer, Ligier, Lotus, March, Martin Brundle, Mônaco, René Arnoux, Stefano Modena, Tyrrell. ligação permanente.

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