Espanha-1975: Lella, da tragédia de Montjuich para a história

Lella Lombardi (March) ficou com o sexto lugar do GP da Espanha de 1975, após interrupção da prova por conta do acidente de Rolf Stommelen (Lola)

Lella Lombardi (March) ficou com o 6º lugar no GP da Espanha de 1975: primeira mulher a pontuar na F1

Maria Grazia Lombardi abriu um rol histórico na Fórmula 1. A bordo de um March, a italiana assegurou o sexto lugar no GP da Espanha de 1975, em Montjuich. Aos 34 anos, Lella se tornava a primeira mulher a pontuar na categoria máxima do automobilismo. Todavia, levou apenas e tão somente 0,5 ponto para casa. Um acidente de graves proporções com Rolf Stommelen (Lola) custou a vida de cinco pessoas, interrompendo a etapa espanhola na 29ª das 75 voltas previstas. Como não havia sido atingida a metade da corrida, a pontuação foi concedida de forma parcial. Lombardi alcançou um feito inédito, mas não conseguiu celebrar: a tragédia de Montjuich manchou a façanha. Foi um resultado circunstancial, justamente numa prova que quase não foi realizada – em razão da falta de segurança no circuito, um movimento liderado por Emerson Fittipaldi (McLaren) tentou (em vão) impedir que os carros fossem para a pista. Caso a etapa não ocorresse, vidas seriam poupadas. E, bem provavelmente, Lella teria sido mais um nome que passaria ’em branco’ pela F1.

Nascida em 26 de março de 1941, em Frugarolo, região de Piemonte, Maria Grazia era a quarta filha de um açougueiro. A atração pelas quatro rodas veio logo cedo. Aos 13 anos, Lella já conduzia o carro da família. Aos 18, já com habilitação, passou a ajudar o pai no transporte de carne pela Riviera italiana. A bordo de um furgão, a adolescente distribuía a produção de seu genitor. Apesar de adorar estar no controle de um veículo, ela queria mais. No início da década de 1960, decidiu se arriscar no kart. Em 1965, aos 24 anos, Lella migrou para os monopostos. Inicialmente, competiu na Fórmula Monza Italiana. Em 1968, passou a disputar a Fórmula 3 Italiana, onde conquistou resultados convincentes. Também teve boas performances na Fórmula Ford, entre 1971 e 1973, e na Fórmula 5000, em 1974, categoria na qual conquistou o quinto lugar na temporada.

Lombardi chegou à Fórmula 1 em 1974, depois de passar por diversas categorias na Itália

Lombardi chegou à Fórmula 1 em 1974, depois de passar por diversas categorias na Itália

Ser uma mulher bem-sucedida em meio a um esporte predominantemente de homens, por si só, colocou Lella na mira da Fórmula 1. Ainda em 1974, recebeu o convite para participar do GP da Inglaterra. Com um Brabham privado, não obteve classificação para correr em Brands Hatch. O fiasco em solo inglês não abalou Lombardi. Em 1975, Lella participaria de sua primeira temporada completa ao lado do compatriota Vittorio Brambilla. Em sua estreia no time, no GP da África do Sul, em Kyalami, a italiana ignorou o fato de estar com um March do ano anterior e derrotou Wilson Fittipaldi Júnior (Copersucar Fittipaldi) e Graham Hill (Lola) para ficar com o 26º e último lugar no grid. Dessa forma, se tornou a primeira mulher a alinhar para uma largada desde o GP da Itália de 1958, quando a italiana Maria Teresa de Filippis atuou em Monza, com um Maserati. Na prova sul-africana, Lombardi abandonou com problemas no sistema de combustível.

O desempenho em Kyalami valorizou Lella. Para o GP da Espanha, em Monjuich, a italiana passaria a contar com o apoio da Lavazza, uma marca de cafés, e teria em mãos o modelo 751 da March. Apesar das boas novas, Lombardi vivenciaria um cenário tenso nos bastidores da prova. Antes dos treinos, os organizadores da corrida tinham consciência de que Montjuich deveria receber sua última etapa em 1975. Segundo matéria publicada na Folha de S. Paulo, em 25 de abril daquele ano, “com a decisão da GPDA (Associação dos Pilotos de Grande Prêmio), de não permitir a realização de novas corridas em circuitos de ruas, o clima em Barcelona era de total abatimento. Don Salvador Fábregas, presidente do Real Automóvel Clube da Catalunha, e o Conde de Villapadierna, do Real Automóvel Clube da Espanha, prometeram um encontro com Emerson Fittipaldi e o já ex-piloto Jean-Pierre Beltoise para contornar a proibição estabelecida pela entidade”.

Lella, no cockpit da March, em Montjuich: clima tenso na véspera do GP da Espanha

Lella, no cockpit da March, em Montjuich: clima tenso na véspera do GP da Espanha

Ainda segundo o texto da Folha, “um engenheiro da comissão esportiva da FIA constatou a impraticabilidade de se continuar correndo em Montjuich, considerado um ‘circuito obsoleto’ para pilotos e construtores”. Questionado sobre o tema, Emerson foi contundente. “Não gostei nada do circuito. Ele está pior do que em 1973 (quando o brasileiro, com Lotus, venceu a etapa). Tiveram dois anos para trabalhar nele, mas nada fizeram. Só colocaram algumas lâminas, atendendo uma exigência de Beltoise. Deve ser mesmo a última vez que Montjuich servirá para a Fórmula 1. O destino desse e dos demais circuitos de rua é desaparecerem. Os carros mudaram, e a segurança precisa ser permanentemente revista, pois circuitos como esse não evoluíram. Pelo contrário: voltaram no tempo”.

A reunião entre Fittipaldi, Beltoise e os promotores do GP da Espanha terminou com um resultado desastroso. O pedido dos pilotos foi solenemente ignorado, o que indignou a GPDA. De acordo com matéria publicada em 26 de abril de 1975, na Folha de S. Paulo, cinco representantes da entidade – Fittipaldi, James Hunt, Graham Hill, Niki Lauda e Jody Scheckter – inspecionariam os guard-rails colocados no circuito. Na sexta, foram notadas grades soltas, mal colocadas e oferecendo mais perigo do que segurança. Os cinco membros da GPDA alertaram: se não fossem atendidas as solicitações, não entrariam na pista. Como campeão vigente, as palavras de Emerson tinham peso determinante, e pressionavam a cúpula da corrida espanhola.

Da esq. para a dir: Graham Hill, Emerson Fittipaldi, Niki Lauda e Jody Scheckter: esforço em vão da GPDA

Graham Hill, Emerson Fittipaldi, Niki Lauda e Jody Scheckter em Montjuich: esforço em vão da GPDA

“Logo que cheguei a Barcelona, vi o que estava errado. Junto com outros pilotos, fomos examinar os guard-rails e eles estavam soltos, presos por arame ou, quando havia parafusos, as porcas estavam mal apertadas. Era a hora de tomarmos uma atitude firme. Estamos cansados de pedir e termos que ceder a pressões mais fortes. Entrando numa pista nestas condições, estaríamos pondo nossas vidas em risco. Só porque economizaram algumas ‘pecetas’. Tiveram muito tempo para arrumar o circuito e não o fizeram. Agora, não há condições para se disputar um GP aqui”, afirmou o brasileiro, dando um exemplo. “Eu chutei um dos locais onde instalaram grades e encontrei tudo solto. Como está, se um carro bater num desses guard-rails a 100 km/h, morrerão pelo menos 50 pessoas. O piloto voa, o carro se acaba e o público será atingido”, afirmou, sem imaginar que aquelas palavras teriam tom premonitório.

O documento foi assinado por diversos pilotos, incluindo Lella. Jacky Ickx e Vittorio Brambilla foram os únicos a furar o movimento. José Carlos Pace ressaltou a posição de Lombardi que, assim como Ickx e Brambilla, não pertenciam à GPDA. “Até a Lella ficou do nosso lado até o fim, assinando a lista de protesto”, disse Moco. Companheira de Vittorio, Lella teria dito que o italiano estava errado ao não integrar o manifesto. Apesar de todos os esforços da GPDA, o movimento se dispersou no sábado. Temendo represálias, equipes e pilotos cederam aos caprichos da organização do GP. Isolado, Fittipaldi manteve firmeza. Disse que não correria. Porém, antes, desabafou, em entrevista publicada na edição de 27 de abril de 1975, da Folha de S. Paulo.

Sem acordo, os pilotos foram para os treinos. Lella só ficou à frente dos 'manifestantes' Fittipaldi e Merzario

Sem acordo, os pilotos foram para os treinos. Lella só ficou à frente dos ‘manifestantes’ Fittipaldi e Merzario

“Cheguei a acreditar que a GPDA fosse finalmente criar uma união e encontrar sua força. Mas não conseguimos nada de novo. Fomos derrotados. Há muita gente envolvida nas corridas, muito dinheiro correndo e enormes interesses em jogo. Existe gente que só pensa em ganhar dinheiro, em usar os pilotos, sem se preocupar nenhum pouco com a vida dos outros. E o pior é que alguns deles acabam fazendo seu jogo, também por causa do dinheiro”, contou Emerson. Conformados, os pilotos acabaram partindo para a sessão classificatória. Lella pareceu ter ficado intimidada com os riscos de Monjuich, anotando 1m30s3 no sábado, assegurando o 24º lugar, a 6s9 de Niki Lauda (Ferrari), o pole com 1m23s4. A italiana ficou à frente de Arturo Merzario (Williams) e de Fittipaldi, que levantaram o pé e anunciaram que dariam uma volta na etapa e depois se retirariam.

Logo na largada em Montjuich, Lauda (à esq.) se viu obrigado a abandonar: mau prenúncio

Logo na largada em Montjuich, Niki Lauda (Ferrari, à esq.) sofreu acidente e se viu obrigado a abandonar

A corrida

Domingo, 27 de abril de 1975. Havia uma sensação estranha no ar. Apesar do dia ensolarado, um clima sombrio pairava em Monjuich. Contrariados, 25 pilotos alinharam para o GP da Espanha. Assim como prometeu no dia anterior, Emerson Fittipaldi (McLaren) sequer foi para o grid. Mal sabia o brasileiro, mas ao deixar Barcelona antes da corrida estava tomando a melhor posição do dia. Quando foi dada a largada, Mario Andretti (Parnelli) tocou em Niki Lauda (Ferrari). O austríaco rodou e bateu em seu companheiro, Clay Regazzoni (Ferrari). Lella se esquivou do acidente que envolveu os ferraristas e Patrick Depailler (Tyrrell), e superou Bob Evans (BRM) e Wilson Fittipaldi Júnior (Copersucar Fittipaldi) para completar a volta 1 em 19º. Na passagem seguinte, Wilsinho e Arturo Merzario (Williams) seguiram Emerson e desistiram da prova.

Na volta 4, Alan Jones (Hesketh) – que estreava em Montjuich – e Mark Donohue (Penske) se enroscaram na luta pelo 15º lugar e deixaram a corrida. Na mesma passagem, Jody Scheckter (Tyrrell) abandonou com problemas de motor. Sem o trio, Lombardi assumiu a 16ª colocação. Na volta 7, o líder James Hunt (Hesketh) se estatelou contra um guard-rail. Para sorte do inglês, era um trecho de baixa velocidade. Com o abandono de Hunt, Andretti assumiu a ponta, e a italiana da March subiu para a 15ª posição. Na volta 8, Vittorio Brambilla (March) e Jean-Pierre Jarier (Shadow) entraram nos boxes, e Lella ascendeu para o 13º lugar. Entretanto, na volta 12, Brambilla e Jarier deixaram Lombardi para trás. A italiana só prosseguiu em 13º devido aos problemas encarados por John Watson (Surtees) e François Migault (Lola), que despencaram para o fim do pelotão.

Os acidentes que envolveram os adversários fizeram Lella ascender na corrida espanhola

Os acidentes que envolveram os adversários fizeram Lella ascender na corrida espanhola

Na volta 16, o líder Andretti, após anotar a volta mais rápida da corrida com seu Parnelli, perdeu o controle de seu bólido e abandonou a etapa espanhola. Assim como Hunt, Mario não sofreu nenhuma consequência de seu choque com os famigerados guard-rails de Montjuich. Sem o norte-americano, Rolf Stommelen (Lola) assumiu a ponta, seguido por José Carlos Pace (Brabham). Lella ocupava a 12ª colocação, e ali continuou até a volta 21. Com o abandono do estreante holandês Roelof Wunderink (Ensign) e os problemas do também debutante Tony Brise (Williams), Lombardi ingressou no top 10 da etapa espanhola. Na volta 23, uma batida tirou Ronnie Peterson (Lotus) e Tom Pryce (Shadow) da disputa, fazendo com que a italiana da March herdasse o oitavo lugar.

Distante de Lella, Stommelen e Pace batalhavam pela liderança em Monjuich. O alemão resistia bravamente às investidas do brasileiro quando, na volta 25, a asa traseira se desprendeu de seu Lola. Rolf virou passageiro de um carro totalmente fora de controle. O bólido do germânico bateu no Brabham de José Carlos e iniciou um voo sobre o guard-rail. Enquanto Moco parava na proteção, Stommelen arrebentava postes e mergulhava sobre o público que acompanhava o GP da Espanha. Pronto: a tragédia anunciada estava consumada. Diversas pessoas foram atingidas pelo carro. O Lola se partiu no meio, e Rolf sofreu fraturas múltiplas. Apesar da gravidade do acidente, a corrida prosseguiu. Segundo a matéria publicada em 28 de abril de 1975, na Folha de S. Paulo, “os organizadores da prova não queriam paralisar o GP da Espanha, pois seria o reconhecimento de que a pista não oferecia condições, como os pilotos tanto criticaram nos dias anteriores”.

Sem Stommelen e Pace, Lombardi assumiu o sexto lugar. Na volta 29, enfim, a corrida era interrompida. Somente 28 minutos após o pavoroso acidente, o GP da Espanha foi dado como encerrado. Jochen Mass (McLaren) ficou em primeiro – seria o único trinfo da carreira do alemão -, seguido por Jacky Ickx (Lotus) e Carlos Reutemann (Brabham). Duas voltas atrás de Mass, terminou Lella. Mas não havia festa pelo sexto posto. Pelo contrário: o foco estava no resgate das vítimas do Lola de Stommelen. Três bombeiros e um fotógrafo morreram instantaneamente. Horas depois, mais uma pessoa morreria no hospital. Além das cinco mortes, 11 feridos com gravidade foram contabilizados em Montjuich – entre eles, Stommelen.

O voo trágico de Stommelen: Lola do alemão só parou sobre os espectadores

A tragédia anunciada de Montjuich: Lola de Rolf Stommelen só parou sobre os espectadores

À reportagem da Folha, Pace relatou seu ponto de vista sobre o acidente. “Eu estava colado, bem atrás dele (Stommelen), quando vi o seu aerofólio traseiro sair. A curva estava chegando e o carro de Rolf dançou na pista. Tentei desviar e bati no guard rail, estourando o meu pneu dianteiro esquerdo. Já havia passado por ele, quando vi seu choque contra a grade do lado esquerdo e o carro levantar voo. Até abaixei a cabeça, pois ele passou bem por cima de mim, a uns 2 metros do chão. Ele atravessou a tela de proteção e caiu no meio do público. Parei e corri junto com Wilsinho para socorrê-lo”, afirmou Pace. À Wilsinho, Stommelen teria confidenciado: “Emerson tinha razão. Emerson…”.

Foi a última vez que Montjuich figurou no calendário da Fórmula 1. E a única vez que Lella pontuou na categoria máxima do automobilismo. Foram 12 GPs disputados até 1976, e 0,5 ponto – obtido na fatídica prova espanhola. Lombardi morreu em 3 de março de 1992, com 50 anos, em decorrência de um câncer. Ainda que sua façanha tenha ficado em segundo plano devido ao trágico desfecho do GP da Espanha de 1975, Maria Grazia Lombardi será lembrada para sempre como uma pioneira das pistas.

Lella Lombardi será lembrada para sempre como uma pioneira do automobilismo

Lella Lombardi será lembrada para sempre como uma pioneira da categoria máxima do automobilismo

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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