África do Sul-1967: amor (quase) triunfa com John Love

Por muito pouco, John Love (Cooper) não protagonizou uma das maiores zebras da história da F1 em Kyalami-1967

Por muito pouco, John Love (Cooper) não protagonizou uma das maiores zebras da F1 em Kyalami-1967

Há quem diga que, em histórias românticas, o amor sempre vence no fim. Na Fórmula 1, porém, tal pensamento não é regra. Pelo contrário: em 2 de janeiro de 1967, um piloto que trazia amor no nome foi derrotado no final do GP da África do Sul, em Kyalami. John Love (Cooper), então com 42 anos, surpreendeu a categoria máxima do automobilismo ao desbancar lendas como Jim Clark (Lotus), Jackie Stewart (BRM), Jack Brabham (Brabham), John Surtees (Honda) e Denny Hulme (Brabham). Na fase decisiva da etapa sul-africana, Love assumiu a ponta. Quando tudo levava a crer que o azarão venceria a prova inaugural do Mundial daquele ano, John se deparou com um problema no tanque de combustível a sete voltas da bandeira quadriculada. Após ir aos boxes, Love acabou sendo superado por Pedro Rodríguez (Cooper), que, mesmo com duas marchas, se segurava na pista. O mexicano asseguraria a vitória, enquanto Love carregaria seu bólido ao segundo lugar. Um feito significativo, mas que, por um triz, não se tornou eterno.

Como um ilustre desconhecido seria capaz de superar gigantes da Fórmula 1? Para compreender essa façanha, é necessário voltar no tempo. Nascido na cidade de Bulawayo, na Rodésia (atual Zimbábue), em 7 de dezembro de 1924, John Maxwell Lineham Love se interessou tardiamente por velocidade. Mas isso tem explicação: durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), John serviu o Exército Britânico – à época, a Rodésia era uma colônia do Reino Unido. Após o fim das batalhas, Love começou a se envolver com motociclismo. Durante a década de 1950, participou de diversas competições em seu país. Em 1958, passou a se interessar pelas disputas sobre quatro rodas. Em 1961, partiu para a Europa, onde ingressou na Fórmula Junior, pelas mãos de Ken Tyrrell. No ano seguinte, competiu com o Mini Cooper do time de Tyrrell no BTCC – Campeonato Britânico de Carros Turismo.

Love começou tardiamente no mundo da velocidade, fazendo carreira no automobilismo africano

Love começou tardiamente no mundo da velocidade, fazendo carreira no automobilismo africano

Ainda em 1962, Love estrearia na Fórmula 1. Com 38 anos, participou do GP da África do Sul, em Kyalami, a única etapa disputada no continente africano. A prova era uma oportunidade para os pilotos da África medirem forças contra os principais ases da velocidade. Em sua primeira experiência, John, a bordo de um ultrapassado Cooper, ficou em oitavo. Em 1963, Love voltou a competir na Fórmula Junior. Em uma corrida no circuito de Albi, na França, o rodesiano sofreu um grave acidente. Como consequência, seu braço foi severamente prejudicado, o que deu fim às possibilidades de disputar uma temporada regular de Fórmula 1.

Sem chance na categoria máxima do automobilismo, Love optou por competir no Campeonato Sul-Africano de Fórmula 1 e por participar da etapa de Kyalami do Mundial de F1. Quando se inscreveu para a disputa do GP da África do Sul de 1967, John ostentava o tricampeonato da F1 Sul-Africana (1964, 1965 e 1966) e três participações na F1 – além da corrida de 1962, o rodesiano competiu em 1963 e 1965. Com um Cooper privado, que foi utilizado por Bruce McLaren no Campeonato Neozelandês de F1 (era comum versões nacionais da categoria em meados dos anos de 1960 e 1970), Love não tinha muitas pretensões para a prova sul-africana. Entretanto, uma mudança radical no regulamento da Fórmula 1 para 1967 transformaria a corrida de Kyalami em um verdadeiro teste de sobrevivência.

O Cooper utilizado por Bruce McLaren na Nova Zelândia ajudou Love a obter vitórias no Campeonato Sul-Africano de F1

O Cooper utilizado por Bruce McLaren na Nova Zelândia ajudou Love a obter vitórias na F1 Sul-Africana

Para aquela temporada, os carros deveriam utilizar motores com três litros de capacidade. Dessa forma, algumas equipes adaptaram dois propulsores de 1,5 litro nos carros para competir em Kyalami, um circuito cuja altitude (1,5 mil metros) interfere na velocidade final dos bólidos. Outras, trouxeram imensos e pesados motores. A Ferrari, por sua vez, sequer viajou para a África do Sul. Alheio às mudanças técnicas, Love estava resignado com o ultrapassado Cooper T79 e o motor Climax de apenas 4 cilindros. Porém, justamente na estreia desse velho equipamento na Fórmula 1, estava o grande trunfo de John: o carro poderia comportar mais um tanque de combustível, fazendo com que andasse no limite em Kyalami, uma pista que conhecia como a palma de sua mão.

Nos treinos no circuito sul-africano, Love se aproveitou da fase de transição da Fórmula 1 e surpreendeu a todos. Na sessão qualificatória, anotou um incrível quinto tempo, com 1m29s5. A marca do rodesiano foi 1s2 inferior à obtida por Jack Brabham (Brabham) – o recém-coroado tricampeão anotou 1m28s3. Melhor piloto do continente africano no grid, John superou craques da estirpe de John Surtees (Honda), Jochen Rindt (Cooper) e Jackie Stewart (BRM), deixando a impressão de que poderia escrever história em Kyalami.

Largada do GP da África do Sul: em quinto no grid, Love (nº 17) saiu mal e perdeu posições

Largada do GP da África do Sul: em quinto no grid, John Love (nº 17) saiu mal e perdeu posições

A corrida

O sol brilhava forte naquela segunda-feira, 2 de janeiro de 1967, em Kyalami, palco do GP da África do Sul. O verão castigava pilotos e equipamentos, e seria um ingrediente a mais para a disputa da etapa inaugural da temporada. Quando a largada foi dada, John Love acabou engolido pelo pelotão, sendo ultrapassado por Surtees, Rindt, Stewart, Bob Anderson (Brabham) e Dave Charlton (Brabham). Ao completar a volta 1, o rodesiano da Cooper se viu em 10º. Na passagem seguinte, Love superou Anderson, mas perdeu posição para Dan Gurney (Eagle), continuando, assim, no top 10. O abandono de Stewart na volta 3, com motor quebrado, atrapalhou quem vinha atrás do escocês. John se aproveitou para ultrapassar Charlton e Gurney, assumindo, assim, a sétima colocação.

A partir daí, Love passou a acompanhar ninguém menos do que Jim Clark (Lotus). Em contrapartida, Jo Siffert (Cooper) se aproximava perigosamente do rodesiano. Na volta 10, Siffert ultrapassou John, que caiu para oitavo. Quatro voltas depois, Love deu o troco no suíço, reassumindo a sétima posição. Na 18, o motor BRM do Lotus de Clark sucumbia, e o escocês perdeu rendimento. Dessa forma, o rodesiano superou o bicampeão, e alcançou o sexto lugar. Para melhorar a situação de Love, Pedro Rodriguez (Cooper) encarava problemas de câmbio. Na volta 26, John ultrapassou o mexicano, recuperando o quinto lugar perdido na largada.

John, na perseguição a Dan Gurney (Eagle, nº 9): rodesiano travou bons duelos contra o norte-americano

John, na perseguição a Dan Gurney (Eagle, nº 9): rodesiano travou bons duelos contra o norte-americano

Naquele momento, o rodesiano estava atrás da dupla da Brabham – Denny Hulme e Jack Brabham -, Rindt e Surtees. Contudo, não tinha contato com os quatro primeiros. Em compensação, Gurney seguiu colado em Love. Na volta 32, o norte-americano da Eagle tornou a superar John, porém, o piloto da Cooper novamente daria o troco na passagem seguinte. Na volta 37, Surtees, com problemas em seu Honda, viu seu ritmo despencar. O rodesiano não titubeou e ultrapassou o inglês, tomando-lhe a quarta colocação. Duas voltas depois, Rindt virou refém do seu propulsor Maserati, sendo obrigado a abandonar. Love herdou o terceiro lugar, atrás somente de Hulme e Brabham.

Na volta 41, Jack se encaminhou aos boxes e se despediu da luta pela vitória em Kyalami. Sem o australiano tricampeão à frente, John assumiu o segundo posto, atrás somente de Denny. Contudo, o rodesiano estava léguas atrás do neozelandês. Fim de papo? Nada disso. Na volta 60, Hulme foi para o pit. A liderança do GP da África do Sul caía no colo de Love. Naquele instante, faltavam 20 voltas para o fim. Determinado a fazer história, John guiava com segurança pela pista que tanto conhecia. Atrás dele, estava Rodríguez, que lutava para se manter na pista com apenas duas marchas. Favas contadas? Nada disso…

Love (à frente de Gurney e Siffert) liderou por 13 voltas em Kyalami, mas viu vitória escapar após problema na bomba de combustível

John (à frente de Gurney e Siffert) liderou por 13 voltas, mas falha na bomba de combustível tirou vitória

Após 13 voltas na liderança, o rodesiano começou a notar que o combustível de seu Cooper estava no fim. Como aquilo seria possível, se havia espaço mais do que suficiente para colocar gasolina em seu bólido? A bomba do tanque do carro de Love não funcionava mais. Na volta 74, o rodesiano parou nos boxes, abasteceu seu bólido e partiu em uma busca desenfreada atrás de Rodríguez, que acabava de assumir a ponta em Kyalami. Apesar de todos os esforços, John não logrou êxito. Ao cruzar a linha de chegada, estava a 26s4 de Pedro, que, bravamente, vencia a primeira corrida de sua carreira. À Love, restou o segundo lugar. Surtees completou o pódio.

O GP da África do Sul de 1967 foi o auge de John na categoria máxima do automobilismo. Após aquela apresentação, o rodesiano disputou outros cinco GPs em Kyalami. Desses, abandonou três e terminou dois fora da zona de pontos. Além disso, obteve outros três títulos do Campeonato Sul-Africano de F1, encerrando sua trajetória na categoria como hexacampeão. Em 25 de abril de 2005, Love faleceu aos 80 anos, vítima de câncer. John se foi, mas deixou um legado na Fórmula 1: por alguns instantes, fez o amor liderar uma corrida. E, por muito pouco, não deu um final feliz à Kyalami-1967.

Por muito pouco, John Love (Cooper) não protagonizou uma das maiores zebras da história da F1 em Kyalami-1967

O segundo lugar em Kyalami-1967 foi o auge de John Love na Fórmula 1

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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