Argentina-1975: o ‘batismo de fogo’ da Copersucar Fittipaldi

Wilson Fittipaldi Júnior fez história em Buenos Aires-1975 ao largar com o primeiro carro brasileiro de F1

Wilson Fittipaldi Júnior fez história em Buenos Aires-1975 ao largar com o primeiro carro brasileiro de F1

No dia 12 de janeiro de 1975, um sonho se tornava realidade. Ao alinhar seu Copersucar Fittipaldi para a largada do GP da Argentina, etapa de abertura do Mundial daquele ano, Wilson Fittipaldi Júnior fazia história. Na 23ª e última posição do grid, estava o primeiro carro brasileiro de Fórmula 1. Wilsinho viu seu bravo time desafiar o tempo para montar o FD01. Levado das margens do Rio Tietê, em São Paulo, até as proximidades do Rio da Prata, em Buenos Aires, o modelo estrearia oficialmente em solo portenho. Entretanto, problemas no projeto quase impediram a participação do monoposto nacional na pista alviceleste. O début da equipe durou apenas 13 voltas, com um desfecho pra lá de incendiário – uma quebra de suspensão provocou uma escapada de Wilson, que bateu contra o guard-rail. Na sequência do choque, veio o incêndio. O piloto nada sofreu, mas seu FD01 foi consumido pelas chamas. O carro, antes prateado, estava carbonizado. Mas isso não importava: fazer o bólido deixar a inércia foi uma vitória para a escuderia tupiniquim.

Em pouco mais de um ano, o time saiu do nada para o seleto ‘circo’ da categoria máxima do automobilismo. A saga da Copersucar Fittipaldi teve início em 1973. No término daquele ano, Wilsinho tomou uma decisão que mudaria o rumo de sua carreira: ele deixaria as pistas de lado na temporada de 1974 para se dedicar ao projeto de construir um Fórmula 1. A medida ganhou o incondicional aval de Emerson. Como os dois irmãos já haviam produzido protótipos nos anos 1960, o cenário não seria novidade. Entretanto, a missão era das mais ingratas, afinal, requereria muito investimento. Ainda assim, Wilson não esmoreceu e mergulhou na aventura. Para fazer parte da empreitada, convidou Ricardo Divila para projetar o carro da equipe. Wilsinho e Divila chamaram, então, dois mecânicos para iniciar o processo embrionário do time: o japonês Yoshiatsu Itoh (ex-Lotus) e Darci de Medeiros, colaborador da dupla nos tempos de Fórmula 2.

O bólido brasileiro começou a ganhar forma em um galpão de São Paulo:

O sonho de Wilsinho e de Ricardo Divila começou a ganhar forma em um galpão de São Paulo

Aos poucos, o ousado projeto foi ganhando adeptos. Diversos desenhistas se uniram ao grupo de Divila, como Odilon Costa Franco Júnior. No auge dos trabalhos, oito designers aperfeiçoavam o primeiro modelo da escuderia brasileira. Joel Queirós e Adilson Aires se juntaram a Itoh e Medeiros na montagem das peças. Já Geraldo Alves, especialista em solda de argônio e oxigênio, foi treinado pela Embraer para unir as peças do cockpit ao chassis. Aliás, a empresa aeronáutica foi uma das primeiras a apoiar o plano de Wilsinho, cedendo, inclusive, seu túnel de vento. Ainda assim, faltava estrutura. Sem fortes patrocinadores, o FD01 – batizado com as iniciais dos sobrenomes Fittipaldi e Divila – começou a ser concebido em um galpão nas proximidades de Interlagos. Apesar dos esforços, faltava um mecenas. No início do segundo semestre de 1974, a Copersucar (Cooperativa dos Produtores de Cana de Açúcar do Estado de São Paulo) abraçou a causa. Com ela, os idealizadores da escuderia brasileira passavam a ser construtores de fato.

Em 16 de outubro de 1974, no Salão Nobre do Congresso Nacional, em Brasília, o modelo FD01 da Copersucar Fittipaldi era apresentado com pompa. Diante do presidente da República à época, o general Ernesto Geisel, Wilsinho e Divila revelaram o carro brasileiro. Com traços arrojados, o bólido chamou a atenção pela sua beleza. Porém, ser bonito não ganharia corrida. Para isso, precisaria ter os melhores nomes em seu quadro de profissionais. O mexicano Jo Ramírez, um ex-mecânico da Tyrrell, então com 33 anos, foi contratado para o cargo de chefe de equipe. Em novembro, já com Ramírez no comando, o FD01 foi para a pista. Com o mais velho dos Fittipaldi no cockpit, o Copersucar apresentou diversos problemas, sintomas naturais para um time novato. Falhas mecânicas, do motor Ford Cosworth, de alimentação de combustível e de estrutura atrapalharam o desenvolvimento do carro, irritando Wilsinho.

Durante os testes, diversos problemas surgiram no projeto do FD01, que deixaram Wilsinho irritado

Durante os testes, diversos problemas surgiram no projeto do FD01, que deixaram Wilsinho irritado

Mesmo com todas as adversidades, o piloto-construtor andou mais de 2 mil km em testes privados nos autódromos de Interlagos e Brasília, adquirindo um bom ‘know how’ do novo equipamento. Porém, ainda não era possível saber a real condição do FD01. A resposta só seria dada na prova de Buenos Aires. Dedicada, a escuderia conseguiu empacotar o equipamento para o GP da Argentina, e, em 31 de dezembro de 1974, teve início a caravana da Copersucar Fittipaldi rumo ao país sul-americano. Quando desembarcou na capital argentina, Wilsinho tinha uma meta: completar a primeira etapa do Mundial. Porém, mal imaginava o que estava por vir. O primeiro fim de semana da história de um time brasileiro seria conturbadíssimo. Os treinos revelaram que muito ainda havia a ser feito no FD01. Em reportagem publicada na edição de 11 de janeiro de 1975, da Folha de S. Paulo, Wilson apontou os principais problemas constatados.

“O que está preocupando é que o carro não está andando tão bem como os outros nas retas. Mas houve uma melhora na relação de marchas e desapareceu um defeito de embreagem. Vamos fazer ajustes para tentar a classificação no treino de sábado”, avaliou o piloto-construtor. Contudo, o sábado seria mais problemático para a Copersucar Fittipaldi. Durante o dia, o FD01 apresentou falhas no rolamento de embreagem, na suspensão e no sistema de alimentação de combustível. Ainda assim, Wilsinho completou nove voltas, a mais veloz delas em 2m00s22, o que lhe assegurou o 23º e último lugar no grid. Para se ter uma ideia do abismo que o brasileiro tinha pela frente, o 22º e penúltimo colocado, Mike Wilds (BRM), anotou 1m54s48 – 5s76 à frente do piloto-construtor. A pole em Buenos Aires ficou com Jean-Pierre Jarier (Shadow), com 1m49s21 – incríveis 11s01 de vantagem sobre Wilsinho.

O FD01 apresentou diversas falhas no sábado. No fim, classificação para o GP da Argentina surpreendeu o próprio Wilsinho

O FD01 apresentou diversas falhas em Buenos Aires: classificação para o grid surpreendeu o próprio Wilsinho

A conquista do direito de disputar o GP da Argentina chegou a espantar Wilsinho: “Mesmo com esse tempo, consegui a classificação?”, indagou a Jo Ramírez. Depois, reconheceu que as dificuldades já eram esperadas. “Nós sabíamos que teríamos de enfrentar estes problemas”, afirmou, na edição de 12 de janeiro de 1975, da Folha de S. Paulo. No mesmo periódico, um anúncio da Copersucar contradizia a realidade encontrada em Buenos Aires. “O Copersucar Fittipaldi não é apenas um carro de Fórmula 1 – é um carro de F1 competitivo. E vai provar isto nas pistas em breve, muito em breve. Talvez hoje mesmo. Wilsinho, agora é com você. Boa sorte!”.

Peça publicitária da Copersucar no dia da estreia do time brasileiro na Fórmula 1: contradição

Peça publicitária da Copersucar no dia da estreia do time brasileiro na F1

A corrida

Diante das provações dos dias anteriores, Wilson Fittipaldi Júnior não poderia vislumbrar nada para o GP da Argentina. Pilotar em uma prova oficial de Fórmula 1 com um carro fruto de um ano de árduo trabalho, já daria a sensação do dever cumprido. O piloto-construtor tinha consciência de que, quando a largada fosse dada, estaria fazendo história. Entretanto, a façanha foi deixada de lado, e Wilsinho tratou de acelerar o FD01 prateado. Antes de sair do grid, o brasileiro já havia herdado uma posição – Jean-Pierre Jarier (Shadow), o pole, não largaria após ter seu câmbio quebrado. Quando a corrida foi iniciada, o brasileiro da Copersucar Fittipaldi superou Mike Wilds (BRM) e assumiu o 21º lugar. Além disso, contou com os infortúnios de Jody Scheckter (Tyrrell), Jochen Mass (McLaren) e John Watson (Surtees) – os três despencaram na classificação da corrida após pararem nos boxes – para fechar a volta 1 em 18º.

A partir dali, Wilsinho iniciou perseguição a Graham Hill (Lola), o 17º. Contudo, travar uma disputa por posições não estava nos planos iniciais do piloto-construtor. O brasileiro queria obter o máximo de informações do FD01, e observar se as alterações feitas antes da etapa argentina havia surtido efeito. De fato, as mudanças tornaram o Copersucar Fittipaldi mais veloz. Na volta 5, girou na casa de 1m58, sendo mais rápido do que nos treinos de sábado. Na volta 9, fez 1m57s86 -2s36 abaixo da marca conquistada na sessão oficial. Na mesma passagem, passou a ameaçar a posição de Hill. Mesmo com problemas de estabilidade, Wilsinho estava determinado a fazer um bom papel. Entretanto, na volta 13, veio o inesperado: Wilsinho perdeu o controle do FD01 na Curva Ombú, e bateu no guard-rail. Na sequência, o bólido incendiou-se. O mais velho dos Fittipaldi saiu rapidamente do cockpit, e viu o sonho ser consumido rapidamente em fogo.

Quebra na suspensão provocou a escapada de Wilsinho Fittipaldi em Buenos Aires

Quebra da junta esférica da suspensão traseira provocou a escapada de Wilsinho Fittipaldi em Buenos Aires

Quinto colocado da corrida naquele momento, Emerson Fittipaldi (McLaren) viu o Copersucar em chamas e ficou preocupado. Prontamente, o time inglês avisou Rato de que seu irmão não havia sofrido nenhum ferimento. A mensagem impulsionou Emerson à vitória em Buenos Aires, seguido por James Hunt (Hesketh) e Carlos Reutemann (Brabham). O triunfo do irmão foi um alento para Wilsinho, que tinha nos boxes seu FD01 totalmente destruído. Era o fim da linha para o ousado e problemático modelo – na garagem da Copersucar Fittipaldi, em São Paulo, o FD02 já estava sendo preparado para correr duas semanas mais tarde, no GP do Brasil, em Interlagos. À edição de 15 de janeiro de 1975 do jornal Folha de S. Paulo, Wilsinho fez um relato sobre a primeira prova de sua equipe na Fórmula 1.

“Entramos na corrida preparados para tudo. Acidentes sempre acontecem. Tive prejuízos com a perda do carro – não sei quanto ainda -, mas a experiência foi boa. Fizemos boas observações, o comportamento do carro até a hora do acidente foi bom e a equipe finalmente pôde trabalhar na pista. Antes o ambiente era de tensão, pois todos ficaram trabalhando um ano dentro de uma oficina e estavam nervosos. Agora o trabalho aumentou, mas o ambiente se transformou”. Sobre o acidente que o tirou do GP da Argentina, disse que algo havia quebrado na suspensão – na semana seguinte à corrida, o time confirmou que houve a desintegração da junta esférica da suspensão traseira. “De qualquer forma, quebra de peças é coisa normal num Fórmula 1. Todas as peças foram testadas em aproximadamente 2 mil km de testes em Interlagos, e depois passaram pelo raio-x antes da viagem para Buenos Aires. Estavam perfeitas, mas não quer dizer nada”.

Wilsinho deixa o FD01 após se chocar na Curva Ombú: incêndio destruiu o bólido da Copersucar Fittipaldi

Wilsinho deixa o FD01 após se chocar na Curva Ombú: incêndio destruiu o bólido da Copersucar Fittipaldi

Durante os treinos do GP da Argentina, o FD01 teve problemas na alimentação do combustível. Foi pensado que fosse um defeito nas válvulas – como já havia acontecido nas sessões pré-temporada no Brasil. No entanto, a falha era da bomba de gasolina. O defeito fez com que Wilsinho perdesse muito tempo e não conseguisse uma boa posição de largada.
“Essa descoberta fez com que o carro se comportasse bem na corrida. Consegui andar a 1m57s, com mais de 150 litros de gasolina no tanque. Antes, rodava em mais de 2 minutos, tendo apenas 20 litros de combustível. No mais, nenhum problema: a temperatura da água, a pressão do óleo, tudo estava perfeito”, observou o brasileiro à Folha de S. Paulo.

Independentemente do resultado em Buenos Aires, Wilsinho se sentia realizado. “O que importa é que eu disse que terminaria o carro e que participaria do GP da Argentina. Realizei tudo isso. Não me preocupo com gozações. Eu consegui colocar o carro na pista, consegui correr. E garanto que também vou torná-lo competitivo. Apesar do tempo na prova de classificação e do acidente, posso andar de cabeça erguida, como estou andando. Eu não vou parar. A Copersucar Fittipaldi continuará sempre. Entrei nisso para valer e vou chegar até o fim, não tenho dúvidas”, reiterou o piloto-construtor.

Fogo toma conta do cockpit do FD01 após o impacto de Wilsinho - primeira e única corrida do FD01

Fogo toma conta do cockpit do FD01 após o impacto de Wilsinho – primeira e única corrida do FD01

Após o fim da temporada de 1975, Wilsinho cedeu seu cockpit para o irmão Emerson e passou a fazer parte do staff da equipe brasileira. O time nacional ficou na categoria máxima do automobilismo até 1982. No total, participou de 103 GPs e obteve três pódios – nos GPs do Brasil de 1978 e dos Estados Unidos-Oeste de 1980, com Emerson; e no GP da Argentina de 1980, com Keke Rosberg. Se o topo da Fórmula 1 não foi alcançado, é do jogo. Apenas o fato de ter perseverado na busca por um sonho coloca Wilson Fittipaldi Júnior como um dos grande heróis do automobilismo brasileiro.

Em Buenos Aires, a Copersucar Fittipaldi deu o primeiro passo de uma trajetória que seguiria até 1982

Em Buenos Aires, a Copersucar Fittipaldi deu o primeiro passo de uma trajetória que seguiria até 1982

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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