EUA Oeste-1980: rito de passagem marca último pódio de Rato

Terceiro em Long Beach, Emerson Fittipaldi (Fittipaldi) ergue o braço de Nelson Piquet (Brabham), vencedor pela 1ª vez na F1

Terceiro, Emerson Fittipaldi (Fittipaldi) ergue o braço do vencedor Nelson Piquet (Brabham)

Nascido em São Paulo a 12 de dezembro de 1946, Emerson Fittipaldi tinha 33 anos quando iniciou a disputa da temporada de 1980 da Fórmula 1. Experiente, o renomado bicampeão partia para o quinto ano no cockpit de sua própria equipe. Sem o apoio da Copersucar, a Fittipaldi apostava no material adquirido junto à Wolf e na velocidade de seu novo piloto, o finlandês Keke Rosberg, para alcançar bons resultados. Os ingredientes surtiram efeito imediato – na etapa de abertura do Mundial, veio o terceiro lugar de Rosberg no GP da Argentina, em Buenos Aires. Nas duas provas seguintes, o time brasileiro chegou a flertar com a zona de pontuação – com Keke, no GP do Brasil, em Interlagos, e com Emerson, no GP da África do Sul, em Kyalami -, mas não obteve êxito. Com esse retrospecto, a equipe desembarcou em Long Beach, palco do GP dos Estados Unidos-Oeste, quarta etapa do ano, com o objetivo de retornar ao top 6.

No mesmo cenário onde pontuou pela primeira vez com seu próprio carro, em 1976, e conquistou um excelente top 5 em 1977, Emerson queria mostrar-se competitivo. Apesar de já ser considerado um veterano, Rato pretendia provar o seu valor. Porém, o brasileiro foi além: depois de largar na 24ª e última posição, o bicampeão alcançou uma inacreditável terceira posição nas ruas da Califórnia. Era seu segundo pódio pela Fittipaldi – o primeiro foi no GP do Brasil de 1978, em Jacarepaguá, quando foi segundo – e o terceiro da escuderia tupiniquim. A celebração foi intensa, uma vez que Emerson ascendeu 21 posições a partir da largada – a marca mais expressiva da carreira do piloto na Fórmula 1. Para completar a festa, Fittipaldi dividiu o pódio com Nelson Piquet (Brabham), que foi absoluto em Long Beach e obteve sua primeira vitória na categoria máxima do automobilismo.

Emerson (entre Piquet e Patrese) saúda a torcida em Long Beach: momento histórico para o automobilismo brasileiro

Emerson (entre Piquet e Patrese) saúda a torcida em Long Beach: momento histórico para o Brasil

Desde o GP da Inglaterra de 1975, quando Rato venceu com McLaren e José Carlos Pace ficou em segundo com Brabham, o Brasil não colocava dois pilotos num top 3. Quase cinco anos depois, Fittipaldi reencontrava um compatriota no pódio. Contudo, a cerimônia festiva também teria um significado histórico: ao erguer o braço do vencedor de Long Beach, Emerson transmitia para Piquet a responsabilidade de levar o automobilismo brasileiro à glória. A simbologia daquele gesto ganharia ares nostálgicos ao fim de 1980: com a confirmação da aposentadoria , o pódio de Long Beach acabou sendo o 35º e último do bicampeão na F1. Além disso, seria o derradeiro da escuderia Fittipaldi na categoria.

Apesar do triunfal desfecho para Rato, o GP dos Estados Unidos-Oeste de 1980 não se revelava promissor para a equipe brasileira. Quando o F7 entrou no circuito de rua californiano, na sexta-feira, dia da primeira sessão oficial de treinos, Emerson e Rosberg notaram que enfrentariam dificuldades para acertar o carro. Na definição do grid, no sábado, Keke andou no limite para anotar 1m20s911, arrancando um tímido 22º lugar. Já Fittipaldi se viu numa situação desesperadora. Para conseguir a 24ª e última posição no grid, com 1m21s350, precisou contar com a ineficiência da dupla da Shadow, formada pelos obscuros David Kennedy e Geoff Lees, e com a total falta de preparo de Stephen South, que substituiu o novato Alain Prost (o francês havia quebrado o pulso) na McLaren. A marca do bicampeão foi 3s656 inferior à anotada por Nelson Piquet (Brabham), pole com 1m17s694.

Na largada em Long Beach, Emerson aparece em último: avanço de 21 posições na corrida

Na largada em Long Beach, Fittipaldi aparece em último: avanço de 21 posições na corrida

A corrida

O que Emerson Fittipaldi poderia esperar quando alinhou seu F7 na 24ª e última posição do grid, em 30 de março de 1980, em Long Beach? Nada. Simplesmente nada. Os outros 23 carros haviam se mostrado superiores ao seu Fittipaldi nos treinos. Para a corrida, a perspectiva do brasileiro era guiar pela honra e dignidade. Porém, quando a luz verde foi acionada naquela tarde de domingo, na Califórnia, o que se viu foi um piloto determinado a provar porque era bicampeão mundial. Na largada, Rato foi comedido. Antes de contornar o primeiro hairpin do circuito, herdou as posições de Ricardo Zunino (Brabham) e de Mario Andretti (Lotus), que abandonaram após acidente, e de Jan Lammers (ATS), que deixou a disputa com problemas de transmissão. Na confusão protagonizada por Zunino e Andretti, Jochen Mass (Arrows) e Elio de Angelis (Lotus) despencaram para o fim do pelotão, fazendo Emerson completar a volta 1 em 19º.

Duas voltas depois, De Angelis superou Fittipaldi, que caiu para 20º. Atrás do Rato, apenas Mass. Sinal de tempos difíceis para o veterano na etapa? Ledo engano. Na volta 4, uma reviravolta fez com que o brasileiro subisse na classificação. Bruno Giacomelli (Alfa Romeo) cometeu uma barbeiragem na aproximação do hairpin que levava à Reta dos Boxes. Depois de bater no guard-rail, o carro do italiano ficou no meio da pista, atrapalhando que vinha atrás dele. Carlos Reutemann (Williams), Jean-Pierre Jarier (Tyrrell) e De Angelis foram obrigados a abandonar. Emerson se aproveitou do imbróglio para superar Giacomelli, Jody Scheckter (Ferrari) e Eddie Cheever (Osella), assumindo a 14ª colocação.

Na vota 15, Emerson ultrapassou seu companheiro Keke Rosberg e assumiu o 11º lugar

Na volta 15, Emerson ultrapassou seu companheiro Keke Rosberg e assumiu o 11º lugar

A ascensão do veterano da Fittipaldi prosseguiu na volta 9. Com problemas em seu bólido, Jean-Pierre Jabouille (Renault) foi aos boxes, retornando à pista nas últimas posições. Na mesma volta, Rato ultrapassou John Watson (McLaren), alcançando o 12º lugar. Na volta 15, Emerson se deparou com o companheiro Keke Rosberg, que sofria com a queda de rendimento de seu F7. Após superar o finlandês, o brasileiro passou a ocupar o 11º posto. Cinco voltas depois, Fittipaldi ingressou no top 10 depois de ultrapassar Derek Daly (Tyrrell). Com uma condução precisa, Rato se impunha diante dos adversários, apesar das condições precárias de seu bólido. Na volta 27, o bicampeão viu Didier Pironi (Ligier) encarar problemas e se encaminhar para os boxes, o que o fez assumir a nona posição.

A partir da volta 29, Emerson se colocou em meio a um pelotão que disputava a oitava colocação. À frente dele, estava o também veterano Clay Regazzoni (Ensign), que havia largado em 23º; atrás, vinham os ferozes Giacomelli e Watson. Regazzoni imprimia um bom ritmo, enquanto Fittipaldi tinha que se virar com os rivais, que possuíam conjuntos melhores. Rato não se deixou intimidar e, conhecedor dos atalhos de Long Beach, segurava com maestria os adversários. Entretanto, na volta 35, Giacomelli decidiu atacar Emerson e Clay, superando os veteranos numa mesma passagem. Apesar disso, o brasileiro recuperou o nono lugar após o abandono de Jacques Laffite (Ligier), na volta 37. Quatro voltas depois, foi a vez de Patrick Depailler (Alfa Romeo) deixar a disputa, impulsionando Fittipaldi para o oitavo posto. Com a parada de Gilles Villeneuve (Ferrari) nos boxes, na volta 42, Emerson assumiu a sétima colocação.

Fittipaldi pressionou bastante Clay Regazzoni (Ensign): acidente selou o fim da carreira do suíço

Rato pressionou bastante Clay Regazzoni (Ensign): acidente em Long Beach selou o fim da carreira do suíço

Como o bicampeão tinha Regazzoni em sua alça de mira, pontuar passou a ser algo possível. Apesar de pressionar, o brasileiro não conseguia superar o suíço da Ensign. Com o pit stop de Giacomelli, na volta 47, Fittipaldi ingressou na zona de pontuação. Na passagem seguinte, Alan Jones (Williams) sofreu um acidente que o tirou da corrida, o que o elevou para o quinto lugar. Ainda assim, Emerson tentava de todas as formas ultrapassar Clay. Os veteranos travavam um duelo que fez recordar os tempos em que disputaram, ponto a ponto, o título de 1974. Regazzoni segurou Fittipaldi até a volta 51, quando uma falha no Ensign mudaria sua vida: ao pisar no freio, o carro não respondeu. Seu bólido passou reto no hairpin, enquanto Rato contornou a curva e ouviu o estrondo. O brasileiro chegou a pensar que o suíço não sobreviveria. Regazzoni foi resgatado com vida. Entretanto, o acidente o deixou paraplégico. Foi a 132ª e última apresentação do suíço na Fórmula 1.

Sem Clay, Emerson assumiu o quarto lugar. À frente do bicampeão, estavam Nelson Piquet (Brabham), Riccardo Patrese (Arrows) e René Arnoux (Renault). Contudo, Fittipaldi tinha Watson em seus calcanhares. Na volta 56, o norte-irlandês superou o brasileiro. John passou a abrir diferença sobre Emerson, até encarar problemas na caixa de câmbio de seu McLaren. O experiente paulistano aproveitou-se disso para dar o troco no britânico na volta 60, reassumindo a quarta posição. A partir daí, o bicampeão se consolidou na zona de pontuação, colocando vantagem sobre Watson. O que Fittipaldi não esperava era que o pódio cairia em seu colo na volta 63: com um furo no pneu, Arnoux foi obrigado a fazer uma volta lenta. Depois, o francês teve que ir aos boxes, despencando na classificação. O brasileiro, assim, herdava a terceira posição.

Após o furo no pneu do carro de René Arnoux (Renault), Emerson herdou o terceiro lugar e assegurou um lugar no pódio

Após o furo no pneu do carro de René Arnoux (Renault), Emerson assegurou um lugar no pódio

Nas 17 voltas seguintes, Emerson administrou a posição. O bicampeão sabia que era impossível alcançar Piquet e Patrese, os dois primeiros. Ao cruzar a linha de chegada, celebrou o incrível feito como se tivesse erguido um campeonato. A vitória em Long Beach foi de Nelson, que, de forma absoluta, se impôs no circuito de rua e reconduziu o pavilhão brasileiro ao topo do pódio depois de cinco anos. Quase 50s atrás do piloto da Brabham e cerca de 30s à frente de Fittipaldi, veio Riccardo, que assegurou seu segundo top 3 e o segundo da Arrows na categoria – o primeiro ocorreu no GP da Suécia de 1978, em Anderstorp.

Orgulhoso ao lado dos dois jovens pilotos, o experiente bicampeão esbanjava felicidade: era o segundo pódio da equipe brasileira em quatro GPs disputados em 1980. Prenúncio de bons tempos para o time tupiniquim? Nada disso. Era o derradeiro momento de comemoração para Emerson e para a Fittipaldi. Depois de Long Beach-1980, nem o piloto, tampouco o time, retornaram para o pódio. Como consolo para o veterano, ele pôde testemunhar de perto o surgimento de uma nova estrela brasileira na Fórmula 1: Nelson Piquet Souto Maior.

Fittipaldi, atrás de Piquet em Long Beach:  Rato viu de perto a 1ª

Fittipaldi, atrás de Piquet em Long Beach: Rato viu de perto o surgimento de uma nova estrela brasileira

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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