Abu Dhabi-2014: Force India desafia a tradição em Yas Marina

Em Yas Marina, Hulkenberg (à frente) e Pérez (ao fundo) desbancaram Alonso, Raikkonen, Vettel e Magnussen

Hulkenberg (à frente) e Pérez (ao fundo) colocaram a Force India no mesmo patamar de Ferrari e McLaren

A temporada 2014 da Force India pode ser considerada a mais bem-sucedida de sua trajetória na Fórmula 1, iniciada em 2008. Com os pontos obtidos por Nico Hulkenberg e Sergio Pérez no GP de Abu Dhabi, disputado no último domingo, em Yas Marina, o time de Vijay Mallya não só assegurou o sexto lugar no Mundial de Construtores, como também se colocou em patamar semelhante ao das tradicionais Ferrari e McLaren. Neste fim de semana, Hulk e Checo se impuseram diante dos ferraristas Fernando Alonso e Kimi Raikkonen, e do dinamarquês Kevin Magnussen (McLaren). Somente Jenson Button (McLaren) conseguiu superar a dupla do time indiano – e isso só ocorreu em decorrência de uma polêmica punição dada a Nico durante a prova. Hulkenberg recebeu a bandeirada na sexta posição, a 1s814 de Button, enquanto Pérez assegurou o sétimo lugar.

Com o ótimo resultado conquistado na etapa de Abu Dhabi – cuja pontuação foi dobrada -, a Force India encerrou 2014 com 155 pontos, a apenas 26 da McLaren (que somou 181) e a 61 da Ferrari (que marcou 216). Além disso, viu Hulkenberg e Pérez terminarem o ano no top 10 do Mundial de Pilotos – o alemão foi o nono, com 96 pontos, e o mexicano o 10º, com 59. Para se ter uma ideia da solidez do VJM07 e da dupla de pilotos nesta temporada, tanto Hulk quanto Checo superaram Magnussen e Raikkonen – que somaram 55 pontos, cada. Também pudera: das 19 provas da temporada, 10 tiveram Nico e Sergio juntos no top 10. Os resultados mostraram que a Force India foi mais constante que Ferrari e McLaren, que pontuaram muito à base dos talentos dos campeões Alonso e Button do que propriamente pelo equilíbrio de seus bólidos.

Nico (à esq.) terminou o Mundial em nono, com 96 pontos, enquanto Sergio (à dir.) foi o 10º: á frente de Raikkonen e Magnussen

Nico (à esq.) terminou o Mundial em 9º, enquanto Sergio (à dir.) foi 10º: à frente de Raikkonen e Magnussen

Apesar da temporada positiva, o time indiano enfrentou um declínio na segunda metade do campeonato. E isso pôde ser percebido na última etapa do Mundial. Hulkenberg e Pérez encararam muitas dificuldades no fim de semana em Yas Marina. Para a dupla, figurar no top 10 era o máximo que planejavam. Entretanto, nem isso foi possível durante os treinos. Na sexta-feira, o mexicano foi o 11º melhor, com 1m43s746, enquanto o alemão ficou em 13º, com 1m44s068. A marca do Force India mais bem posicionado foi 1s6 mais lenta que a de Lewis Hamilton (Mercedes), o melhor do dia com 1m42s113. Para Sergio, a sexta foi importante para compreender a temperatura da pista – que é alta com os raios solares, mas baixa com o anoitecer. “Nos treinos, analisamos o desempenho dos pneus e vimos onde podemos melhorar”.

Nico, por sua vez, sentiu demais a mudança brusca de clima no circuito do Oriente Médio. “A primeira sessão correu bem, mas o meu carro estava bastante diferente à noite, tornando-o difícil de guiar. É algo que temos de analisar e entender, porque isso teve um impacto sobre o desempenho e o tempo de volta. Apesar desses problemas, ainda fui capaz de obter uma sensação com os pneus, que têm sido um desafio maior do que esperávamos”. As constatações de Hulkenberg soaram como um prenúncio do que estava por vir no dia seguinte. Nos treinos oficiais para o GP de Abu Dhabi, no sábado, os carros da Force India estavam lentos para uma volta rápida. Assim, dificilmente Hulk e Checo beliscariam uma vaga para o Q3.

Durante os treinos, Checo foi mais veloz que Hulk: adaptação ao clima foi principal desafio da Force India

Durante os treinos, Checo foi mais veloz que Hulk: adaptação ao clima foi principal desafio da Force India

Quando a sessão classificatória teve início em Yas Marina, começou o sufoco da dupla. No fim do Q1, Sergio e Nico conseguiram lugares no Q2. Porém, era o limite para ambos. Nem o germânico tampouco o latino conquistaram um lugar entre os 10 melhores. Pérez fez o 13º tempo, com 1m42s239 – a 1s759 de Nico Rosberg (Mercedes), pole com 1m40s480. Já Hulkenberg anotou 1m42s384 – a 1s904 de Rosberg -, o que lhe rendeu o 14º lugar. Apesar do fiasco, Checo e Hulk trataram de minimizar a situação. “Nós não tivemos velocidade para conseguir uma posição melhor. Já esperávamos por isso, nosso acerto está mais voltado para a corrida. Os pneus estão se comportando de maneira bastante diferente em relação aos anos anteriores aqui, então tivemos de fazer as correções apropriadas. Esperamos que isso nos dê alguma vantagem amanhã (domingo)”, afirmou Pérez.

Hulkenberg corroborou com a opinião do companheiro. “Antes da classificação, sabíamos que nosso ritmo em volta única não era o melhor e que seria difícil ficar entre os 10 primeiros. Com o acerto que escolhemos, tem sido complicado encontrar uma boa harmonia em uma única volta nesta pista. A boa noticia é que nosso ritmo de corrida parece mais forte e espero que tenhamos uma performance melhor amanhã (domingo). Além disso, há os pontos dobrados, portanto tudo conta em dobro. Também é a última prova do ano, então devemos tentar correr alguns riscos para terminar bem o ano”, observou o alemão, sem imaginar que seria protagonista de uma controversa punição no dia seguinte, justamente por ter se arriscado…

Hulkenberg fez uma largada feroz em Yas Marina e superou Pérez: punição polêmica

Hulkenberg fez uma largada feroz em Yas Marina e superou Pérez: punição polêmica atrapalhou o alemão

A corrida

Naquele domingo, 23 de novembro de 2014, o Mundial seria decidido entre Lewis Hamilton (Mercedes) e Nico Rosberg (Mercedes). O alemão havia superado o inglês nos treinos e largaria na pole, enquanto o líder da temporada sairia em segundo. Alheia ao duelo entre Hamilton e Rosberg, a dupla da Force India recebeu uma boa notícia: a Red Bull foi desclassificada dos treinos por ter usado asas flexíveis nos bólidos de Sebastian Vettel e Daniel Ricciardo. Dessa forma, Pérez passaria a ocupar o 11º lugar no grid, e Hulkenberg, o 12º. Como o time de Vijay Mallya havia traçado a estratégia de largar com pneus macios em Yas Marina, a perspectiva de pontuar cresceu consideravelmente. Quando as luzes vermelhas se apagaram, Nico e Sergio partiram com sede de pontos. Tanta sede que Hulk se impôs logo de cara, superando Checo, Jean-Eric Vergne (Toro Rosso) e Kevin Magnussen (McLaren), o que o colocou em nono. Na cola do alemão, vinha o mexicano.

Contudo, na feroz largada do germânico, Magnussen acabou fora da pista e perdeu posições. Há quem diga que foi Hulkenberg quem jogou o dinamarquês da McLaren para longe do traçado. A disputa de corrida foi parar nas mãos dos comissários, que culpou Nico pelo incidente. Por isso, o alemão sofreria punição de 5s quando fosse realizar seu primeiro pit stop. Porém, a parada de Hulk iria demorar. Enquanto isso, os pilotos que começaram a prova com pneus supermacios já se encaminhavam aos boxes. Na volta 6, Fernando Alonso (Ferrari) fez seu pit stop, o que fez a dupla da Force India subir uma posição. Na passagem seguinte, Jenson Button (McLaren) e Kimi Raikkonen (Ferrari) realizaram suas paradas, e Nico assumiu o quinto lugar, seguido por Sergio. Naquele momento, apenas as duplas de Mercedes e Williams estavam à frente dos pilotos da Force India.

Após pagar punição de 5s nos boxes, Nico voltou à pista atrás de Sergio

Após pagar punição de 5s nos boxes, Nico voltou à pista atrás de Sergio: troco viria no segundo pit stop

Na volta 11, Valtteri Bottas (Williams) foi aos boxes. Dessa forma, Hulk ascendeu para o quarto lugar, seguido por Checo. Todavia, os pneus médios começavam a se desgastar, e o mexicano se encaminhou para seu primeiro pit stop na volta 14. No retorno à pista, Pérez se viu em 12º. Na passagem seguinte, Hulkenberg realizou sua parada. Antes, porém, pagou sua punição. Com a perda de 5s, Nico voltou à pista em 12º – justamente atrás de Sergio. A partir dali, a dupla da Force India determinava sua estratégia. Ao contar com os dois carros novamente calçando compostos macios, Checo e Hulk puderam realizar um stint longo, o que os conduziria de volta à zona de pontuação com o pit stop dos adversários. A segunda sessão de paradas teve início na volta 22, com Magnussen e Sebastian Vettel (Red Bull). Sem o dinamarquês da McLaren e o alemão da Red Bull, Pérez subiu para nono, e Hulkenberg, para 10º.

Naquele momento, os pilotos da Force India encostavam em Raikkonen e Alonso. Com a Ferrari perdida em Yas Marina, era questão de tempo que Pérez e Hulkenberg investissem nas posições dos ferraristas. Na volta 26, Sergio superou Kimi, assegurando a oitava colocação. Na passagem seguinte, o finlandês parou nos boxes, e Nico conquistou o nono lugar. Na volta 28, Alonso e Daniel Ricciardo (Red Bull) fizeram seus pit stops. Dessa forma, Checo herdou as duas posições, assumindo o sexto lugar. Hulk, por sua vez, ganhou somente a posição de Fernando – Ricciardo retornou justamente à frente do alemão da Force India – e passou a figurar em oitavo. Na passagem seguinte, Button ingressou nos boxes, elevando Pérez para quinto e Hulkenberg para sétimo. Porém, o top 5 do mexicano durou pouco: na volta 31, Ricciardo, com pneus recém-trocados, ultrapassou Sergio. Assim, Checo era sexto, e já tinha Hulk em sua cola.

Pérez, à frente de Hulkenberg: pit stop antecipado do alemão fez mexicano perder posição

Pérez, à frente de Hulkenberg: pit stop antecipado do alemão fez mexicano perder posição

Naquele instante, Nico Rosberg (Mercedes) dava adeus à disputa do título mundial após sofrer com severos problemas eletrônicos no motor de seu W05. Assim, o germânico foi sendo ultrapassado pelos demais adversários. Na volta 35, Rosberg realizou pit stop, Pérez retomou o quinto lugar, seguido por Hulkenberg. Nesse instante, a Force India decidiu mudar a estratégia de Nico. A escuderia antecipou a parada do alemão e chamou-o aos boxes na volta 38. Com pneus supermacios, Hulk retornou à pista em 12º e passou a acelerar. Duas voltas depois, ultrapassou Raikkonen e assumiu o 11º lugar. Na passagem seguinte, superou Vergne e ingressou no top 10. Sergio só fez sua derradeira parada na volta 42. Quando retornou à pista, se viu em 12º. Além de herdar a posição de Pérez, Hulkenberg ultrapassou Alonso, passando a ocupar o oitavo posto.

Tanto Hulk quanto Checo foram beneficiados com a estratégia da Force India. Naquele momento, o VJM07 era um dos carros mais velozes da pista, se tornando predador contra Ferrari e McLaren. Na volta 44, Pérez recuperou lugar na zona de pontuação ao superar Vergne e Raikkonen. Na passagem seguinte, Hulkenberg ascendeu ao sétimo lugar ao ultrapassar Rosberg. Na volta 47, com o derradeiro pit stop de Vettel, Nico herdou o sexto lugar. Além de ganhar a posição de Sebastian, Sergio superou Alonso, passando a ocupar o oitavo posto. Checo não parou por aí: na volta 49, o mexicano alcançou Rosberg e ultrapassou sem problemas o alemão da Mercedes. A partir daí, a dupla da Force India começou a descontar a diferença existente entre ela e Button, o quinto colocado. Entretanto, não houve tempo hábil para tirar o inglês do top 5.

Hulkenberg e Pérez bem que tentaram, mas não conseguiram alcançar o top 5 em Yas Marina

Hulkenberg e Pérez bem que tentaram, mas não conseguiram alcançar o top 5 em Yas Marina

A vitória no GP de Abu Dhabi e o título de 2014 ficaram com Lewis Hamilton (Mercedes). Além do bicampeão recém-coroado, o pódio em Yas Marina foi composto de pilotos da Williams – Felipe Massa ficou em segundo, seguido por Bottas. Ricciardo assegurou o quarto lugar, e viu Button ser quinto e Hulkenberg receber a bandeirada a apenas 1s8 do britânico campeão de 2009. O resultado deixou Nico extremamente satisfeito. “Após lutar com o carro na sexta e no sábado, acho que podemos ficar orgulhosos da corrida de hoje (domingo). O carro teve uma ótima performance. Tive um bom equilíbrio e confiança para forçar ao máximo. O trecho final longo (18 voltas) com os pneus supermacios foi corajoso, mas acabou sendo uma ótima estratégia da equipe e realmente funcionou bem”, disse Hulk, que obteve 15 top 10 em 2014, com destaque para o quinto lugar no GP da Malásia, em Sepang.

Já Pérez se impôs diante de Vettel e assegurou a sétima posição. Entretanto, lamentou a demora para a realização da sua segunda e definitiva parada nos boxes. “Acho que poderíamos ter chegado ainda mais à frente, mas provavelmente paramos tarde demais no último pit stop. Se tivéssemos colocado os supermacios um pouco antes, poderíamos ter nos aproximado de Button no final da prova. Os pontos de hoje (domingo) me ajudaram a terminar entre os dez primeiros no campeonato, o que é um feito importante após um ótimo ano”, concluiu Checo, que obteve o melhor resultado da Force India em 2014 – o terceiro lugar no GP do Bahrein, em Sakhir.

Pérez (à frente) obteve o único pódio da Force India em 2014, no Bahrein; já Hulk conquistou 15 top 10 em 2014

Pérez (à frente) obteve único pódio da Force India no ano, em Sakhir; já Hulk conquistou 15 top 10 em 2014

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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