EUA-1985: Bellof obtém melhor resultado da carreira em Detroit

Mesmo sem carenagem e com problemas de embreagem, Stefan Bellof (Tyrrell) conquistou um expressivo quarto lugar em Detroit-1985

Sem carenagem e com problemas de embreagem, Stefan Bellof (Tyrrell) conquistou o 4º lugar em Detroit

É impossível falar de Stefan Bellof sem recordar de sua épica apresentação no GP de Mônaco de 1984. A bordo de um Tyrrell, o alemão levou a bandeirada em 3º lugar após a prova ser interrompida por conta da tempestade que caía no circuito monegasco. Apesar do marcante desempenho, o pódio de Bellof foi desconsiderado, assim como todos os resultados conquistados por ele em 1984. Explica-se: a escuderia de Ken Tyrrell perdeu todos os pontos obtidos naquela temporada por irregularidades no carro. Assim, oficialmente, o melhor resultado na carreira de Stefan foi o 4º lugar conquistado no GP dos Estados Unidos de 1985, disputado em Detroit. Assim como Mônaco, num circuito de rua. Tal qual naquela ocasião, em uma prova de recuperação. Apesar de estar sem parte da carenagem dianteira e com problemas de embreagem, cruzou a linha de chegada a apenas 3s055 de Michele Alboreto (Ferrari). O pódio bateu na trave, mas certamente estava por vir. Porém, o destino não quis assim: aqueles seriam seus três últimos pontos, e o 4º posto era o máximo que alcançaria na Fórmula 1.

Bellof tinha 27 anos quando atingiu seu auge na categoria máxima do automobilismo. Nascido em 20 de novembro de 1957, em Giessen, competiu no kart de 1973 até 1980. No último ano nos carrinhos, iniciou sua trajetória nos monopostos. Além de se sagrar campeão alemão sênior de kart em 1980, Stefan obteve o título nacional de Fórmula Ford 1600. A partir de 1981, dedicou-se a diversas categorias, como a F-Ford 1600, a F-Ford 2000 e a Fórmula 3 Alemã – nesta última, ficou em terceiro no campeonato. O bom desempenho na F3 o levou à Fórmula 2, categoria de acesso à Fórmula 1. Em 1982, Bellof conquistou duas vitórias, o que o ajudou a assegurar a quarta posição na temporada. No ano seguinte, o impetuoso alemão seguiu na F2 e passou a correr nos protótipos. Com a Porsche, ficou em quarto no Mundial de Protótipos. De quebra, bateu o recorde de Nordschleife, o antigo traçado de 22 km de Nurburgring – marca que resiste até os dias atuais.

Stefan se dividia entre a carreira nos monopostos e a nos protótipos: em ambos, era bem-sucedido

Stefan se dividia entre a carreira nos monopostos e a nos protótipos: em ambas, era bem-sucedido

Os bons desempenhos em carros distintos atraíram as atenções da Fórmula 1. No fim de 1983, Bellof participou de um teste na McLaren, a convite de Ron Dennis. Além do alemão, os dois melhores pilotos da Fórmula 3 Britânica daquele ano, Ayrton Senna e Martin Brundle, fizeram os treinos em Silverstone. Apesar das sessões, nenhum deles acertou para ser titular da McLaren em 1984. Enquanto Ayrton seguiu para a Toleman, Martin e Stefan passariam a formar a dupla da Tyrrell. Além do terceiro lugar em Mônaco, o germânico obteve um quinto no GP de San Marino, em Imola, e um sexto no GP da Bélgica, em Zolder. Como a escuderia foi excluída do campeonato, todas as posições pontuáveis foram descartadas. Dessa forma, Bellof e Brundle ficaram sem pontos na temporada. A partir da desclassificação do time de Ken Tyrrell, Stefan voltou a se dedicar aos protótipos. Novamente com a Porsche, o alemão sagrou-se campeão mundial da categoria.

Apesar do fiasco da Tyrrell e do sucesso no Mundial de Protótipos, Bellof decidiu dedicar-se à Fórmula 1 em 1985. Em sua segunda temporada na categoria máxima do automobilismo, o alemão voltou a apostar na parceria com Ken Tyrrell. Após não disputar o GP do Brasil, em Jacarepaguá, Stefan passou a defender o time azul a partir do GP de Portugal, no Estoril. Debaixo de chuva, o germânico ganhou seu primeiro ponto depois de ser sexto. Após o top 6 no circuito português, Bellof percebeu que o velho modelo 012, impulsionado pelo motor aspirado Ford-Cosworth, havia perdido espaço para os potentes turbos. Ken Tyrrel estava fechado com os propulsores Renault, mas o novo modelo 014 se encontrava em projeto. Assim, Stefan enfrentava um verdadeiro martírio nas pistas.

No GP do Canadá de 1985, em Montreal, Bellof obteve um tímido 11º lugar: falta de potência pesava contra a Tyrrell

No GP do Canadá, em Montreal (foto), Bellof obteve 11º lugar: falta de potência pesava contra a Tyrrell

Quando desembarcou em Detroit, palco do GP dos Estados Unidos, sexta etapa do Mundial de 1985, Bellof trazia em sua bagagem um tímido 11º lugar do GP do Canadá, em Montreal. Em uma pista de rua como a norte-americana, o alemão esperava um melhor desempenho do que o obtido na etapa canadense. Afinal, num circuito travado, a potência de motor não seria o diferencial. No primeiro dia de treinos oficiais, na sexta-feira, alguns acidentes atrapalharam o desenvolvimento dos times na pista – o pior deles com Elio de Angelis (Lotus), que destruiu seu carro após bater em Patrick Tambay (Renault). Com 1m47s911, Stefan anotou o 19º tempo da sessão, a 0s348 de Brundle, o 18º, e a longínquos 5s860 de Ayrton Senna (Lotus), o mais veloz do dia. No sábado, uma forte chuva caiu em Detroit, e as marcas de sexta acabaram determinando o grid para o GP dos Estados Unidos.

Bellof, entre Martin Brundle (Tyrrell) e Jacques Lafitte (Ligier): ascensão meteórica no início da prova norte-americana

Bellof, entre Martin Brundle (Tyrrell) e Jacques Lafitte (Ligier): ascensão meteórica no início da prova

A corrida

No domingo, 23 de junho de 1985, a chuva deu lugar a um forte sol em Detroit. Após a luz verde ser acionada, 25 pilotos partiram para o GP dos Estados Unidos. A largada foi confusa, e Bellof se aproveitou para ganhar seis posições em uma volta. Stefan superou Riccardo Patrese (Alfa Romeo), Jacques Lafitte (Ligier), Andrea de Cesaris (Ligier), Patrick Tambay (Renault), Marc Surer (Brabham) e Eddie Cheever (Alfa Romeo), assumindo a 13ª posição. Depois do abandono de Teo Fabi (Toleman), na volta 5, o germânico da Tyrrell passou para o 12º lugar. Com o pit stop de Ayrton Senna (Lotus), na volta 8, Bellof subiu para 11º. Três voltas depois, Niki Lauda (McLaren) deixou a corrida com problemas nos freios, o que conduziu Stefan para o top 10 em Detroit.

Na volta 12, depois da parada de Nelson Piquet (Brabham), o tedesco ascendeu para o nono posto, colado em Martin Brundle (Tyrrell). Bellof estava tão próximo do inglês que acabou tocando na traseira do carro de seu companheiro, o que provocou a perda da carenagem dianteira de seu bólido. Ainda assim, ambos permaneceram na pista, para alívio do chefão Ken Tyrrell. Duas voltas depois, Derek Warwick (Renault) foi aos boxes, e o alemão alcançou a oitava posição. Entretanto, na mesma passagem, não resistiu ao ataque de Senna, retornando à nona colocação. Na volta 20, Alain Prost (McLaren) padeceu da mesma falha de seu companheiro Lauda, e, sem freios, parou na proteção de pneus. Sem o francês, o germânico da Tyrrell subiu para oitavo. Na mesma passagem, Senna retornou aos boxes, e Stefan se viu em sétimo.

Com a parada de Nigel Mansell (Williams), na volta 24, Bellof ingressou na zona de pontuação. A partir dali, a possibilidade de pontuar deixou de ser algo impossível e passou a ser palpável. Além disso, situações impensáveis colaboraram para Stefan se consolidar no top 6. Na volta 29, Elio de Angelis (Lotus) se enroscou com o retardatário Gerhard Berger (Arrows) e despencou para a nona posição. Dessa forma, o alemão da Tyrrell estava em quinto. À sua frente, estava Brundle, que se aproximava de Michele Alboreto (Ferrari) para a disputa do terceiro lugar. Na volta 31, Philippe Alliot (RAM) abriu passagem para tomar uma volta de Alboreto, mas não viu Martin. Conclusão: tanto o inglês da Tyrrell quanto o francês da RAM estavam fora da corrida.

Naquele momento, Bellof estava em quarto, atrás somente de Keke Rosberg (Williams), Stefan Johansson (Ferrari) e Alboreto. Entretanto, o alemão da Tyrrell sofreria com a pressão dos pilotos da Lotus – Senna era o quinto, seguido por De Angelis. Mais veloz, Ayrton se aproximava perigosamente de Stefan, que começava a sofrer com problemas na caixa de câmbio. Na volta 45, o inevitável aconteceu: o brasileiro da Lotus ultrapassou o germânico, que caiu para quinto. Sete voltas depois, contudo, Senna bateu seu carro e deixou a disputa. Bellof voltava a herdar o quarto lugar, a 12 voltas do fim. Além disso, a sorte parecia sorrir para o germânico: os pilotos da Ferrari sofriam com problemas de freios. Johansson e Alboreto reduziram o ritmo, permitindo a aproximação de Stefan.

O alemão da Tyrrell chegou a ameaçar Alboreto e Johansson, mas problemas na empbreagem impediram o pódio

O alemão chegou a ameaçar Alboreto e Johansson, mas problemas na embreagem impediram o pódio

Mesmo com todos os problemas de seu Tyrrell, o sonho do pódio parecia se tornar realidade para Bellof. Tanto que o alemão colou em Alboreto. Todavia, na volta 61, a duas do fim, a embreagem de seu 012 começou a falhar. As marchas não engatavam. Assim, restou a Stefan carregar seu carro até o fim. Apesar de todos os esforços, não foi possível participar da cerimônia dos três primeiros: Rosberg ficou com a vitória em Detroit, seguido por Johansson e Alboreto. À Bellof, restou o quarto lugar e a certeza do dever cumprido: ganhar 15 posições em um circuito como norte-americano e com um carro desequilibrado só com habilidades especiais. Lamentavelmente, menos de três meses depois do feito de Detroit, em 1 de setembro de 1985, o alemão perderia a vida num acidente nos Mil Quilômetros de Spa, na Bélgica. A tragédia tirou da Fórmula 1 a possibilidade de assistir a consolidação de um talento nato.

Os três pontos obtidos em Detroit-1985 foram os últimos da carreira de Bellof: alemão morreria em 1 de setembro daquele ano, em Spa

Os três pontos de Detroit-1985 foram os últimos de Bellof: alemão faleceu em 1 de setembro de 1985, em Spa

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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