Holanda-1981: o primeiro ponto de Salazar e o último da Ensign

Em 30 de agosto de 1981, o automobilismo chileno viveu um momento histórico com o 6º lugar de Eliseo Salazar (Ensign) em Zandvoort

O automobilismo chileno viveu um momento histórico com o 6º lugar de Eliseo Salazar em Zandvoort-1981

Eliseo Salazar foi muito mais do que “o piloto esbofeteado por Nelson Piquet no GP da Alemanha de 1982, em Hockenheim”. Primeiro chileno a competir na Fórmula 1, coube a esse desbravador inserir seu país nas estatísticas da categoria máxima do automobilismo. Graças a Salazar, o Chile ingressou na zona de pontuação pela primeira vez. A bordo de um Ensign, o pioneiro obteve o sexto lugar no GP da Holanda de 1981, disputado em Zandvoort. O ponto anotado por Eliseo também foi histórico por um outro aspecto: aquele seria o último obtido pela Ensign no ‘circo’ – depois daquele top 6, a escuderia se rastejaria pelos circuitos mundo afora até o fim de 1982, quando encerrou suas atividades. O resultado da etapa holandesa surpreendeu a todos do time, até porque o sul-americano frequentemente figurava nas últimas posições das provas realizadas naquele ano. Também pudera: com o modelo N180B impulsionado com motor aspirado Ford e calçado com pneus Avon, completar um GP já era uma vitória.

O ponto de Zandvoort-1981 viria coroar uma carreira repleta de desafios. Nascido em Santiago em 14 de novembro de 1954, Eliseo Salazar Valenzuela sempre viu sua vida ligada ao automobilismo. Para se ver perto dos carros e da velocidade, aos 15 anos, Salazar se tornou cronometrista num circuito dos arredores da capital do Chile. Depois, se tornou navegador em provas de rali. Eliseo só assumiria o comando de um carro em 1974, quando participou de competições de carros Austin Mini. Depois, seguiu para Buenos Aires, onde tomou aulas de pilotagem e ingressou na Fórmula 4 Argentina. Em 1978, sagrou-se campeão da categoria. Em 1979, deixou a América do Sul e rumou para a Europa, onde competiu na Fórmula 3 Britânica. Na categoria, não conquistou resultados expressivos, mas chamou a atenção por sua agressividade nas pistas. Dessa forma, em 1980, recebeu convite para a Fórmula 1 Britânica – categoria que utilizava antigos carros da F1.

Sucesso na F1 Britânica credenciou Salazar a ingressar na Fórmula 1 em 1981

Vice-campeonato na F1 Britânica, em 1980, credenciou Salazar a ingressar na Fórmula 1 em 1981

A experiência na F1 Britânica foi bastante válida. Salazar obteve o vice-campeonato na temporada, sendo superado somente pelo espanhol Emilio de Villota. A partir daí, a Fórmula 1 se tornou consequência. Em 1981, foi convidado pela March para competir na categoria máxima do automobilismo. Contudo, das seis primeiras etapas daquele ano, só conseguiu se classificar para uma: no GP de San Marino, em Imola, Eliseo estreava no ‘circo’ alinhando na 23º posição do grid. A corrida, porém, durou 38 voltas – com problemas na pressão de óleo de seu bólido, o chileno abandonou quando estava em nono. Insatisfeito com a March, Salazar se transferiu para a Ensign, onde passou a correr a partir do GP da Espanha, em Jarama. No time de Morris Nunn, substituiu o suíço Marc Surer, que havia obtido a proeza de ser 4º no GP do Brasil daquele ano, em Jacarepaguá.

Quando desembarcou em Zandvoort, Salazar havia disputado 4 GPs com a Ensign, abandonando em todas as oportunidades. Para o GP da Holanda, o objetivo inicial era se classificar. Depois, ver a bandeira quadriculada. Na sexta-feira, primeiro dia de treinos oficiais no circuito holandês, o chileno anotou 1m22s282, obtendo o 24º tempo, a 4s027 de René Arnoux (Renault), o mais veloz do dia com 1m18s255. No sábado, dia que definiria o grid, Eliseo melhorou em 0s258, o que foi fundamental para bater a dupla da Fittipaldi, Keke Rosberg e Chico Serra, e assegurar um lugar na corrida. Com 1m22s024, Salazar ficou em 24º, a 3s848 de Alain Prost (Renault), pole em Zandvoort com 1m18s176. Correr já era um prêmio para o sul-americano. Mal imaginaria ele que faria história no domingo.

Largada do GP da Holanda: enquanto os líderes contornavam a Curva Tarzan, Gilles Villeneuve (ao fundo) ficava na brita

Largada em Zandvoort: enquanto os líderes faziam a Curva Tarzan, Villeneuve (ao fundo) ficava na brita

A corrida

Em 30 de agosto de 1981, 24 pilotos partiram para a largada do GP da Holanda, em Zandvoort. Num domingo ensolarado, a luz verde brilhou, e os carros dispararam pela reta em busca das melhores posições. Salazar saltou da 23ª posição do grid e viu Gilles Villeneuve (Ferrari) escapar pela brita da Curva Tarzan. Na sequência, os franceses Patrick Tambay (Ligier) e Didier Pironi (Ferrari) se estranharam – o primeiro abandonou, e o segundo caiu para a última posição e logo deixaria a etapa. Após essas confusões, o chileno da Ensign ainda ultrapassou Slim Borgudd (ATS) – sueco que alcançou o ápice em Silverstone-1981 -, completando a volta 1 em 19º. Na passagem seguinte, Eliseo herdou uma posição após o abandono de Nigel Mansell (Lotus) e superou Siegfried Stohr (Arrows), passando a ocupar o 17º posto.

A ascensão do chileno prosseguiu com os azares dos adversários. Na volta 5, a quebra da suspensão de Derek Daly (March) colocou o piloto da Ensign em 16º. Na 10, Mario Andretti (Alfa Romeo) despencou para o último lugar, o que conduziu Salazar para 15º. Cinco voltas depois, Eliseo caiu para 16º após Stohr devolver a ultrapassagem do início da prova. Apesar de ter sido superado pelo italiano da Arrows, o sul-americano não esmoreceu. Na volta 16, com o abandono de Riccardo Patrese (Arrows), Salazar recuperou o 15º posto. Três voltas depois, Jacques Laffite (Ligier) e Carlos Reutemann (Williams) se enroscaram na disputa pela quarta posição e deixaram a corrida. Dessa forma, o chileno subiu para 13º.

Salazar (ao fundo) trava duelo com Slim Borgudd (ATS): chileno levou a melhor sobre o sueco na prova holandesa

Salazar (ao fundo) trava duelo com Slim Borgudd (ATS): chileno levou a melhor sobre o sueco 

Na volta 20, Salazar deu o troco em Stohr. Porém, o piloto da Ensign foi superado por Michele Alboreto (Tyrrell). Como Bruno Giacomelli (Alfa Romeo) se acidentou na mesma passagem, Eliseo assumiu o 12º lugar. Na 21, o chileno acabou sendo ultrapassado por Borgudd, caindo para 13º. Todavia, na volta seguinte, René Arnoux (Renault) deixou a disputa, e o sul-americano voltou para 12º. Na volta 25, Salazar voltou a ultrapassar Borgudd, alcançando o 11º posto. O chileno da Ensign ingressaria no top 10 na volta 29, graças ao abandono de Jean-Pierre Jarier (Osella). Naquele momento, 11 carros já haviam deixado o GP da Holanda. Eliseo só estava à frente de Borgudd, Stohr e Andretti.

Aos poucos, Salazar passou a se aproximar de Alboreto. Na volta 33, o chileno superou o italiano, assumindo o nono lugar. Ali permaneceu até a volta 47, quando Eddie Cheever (Tyrrell) sofreu um acidente e deixou a prova. Sem o norte-americano, o piloto da Ensign se viu em oitavo. Após o abandono de John Watson (McLaren), Eliseo alcançou o sétimo posto. A partir dali, a etapa holandesa se tornava uma prova de resistência. O chileno sabia que, se resistisse ao calor, poderia figurar nos pontos. Na volta 54, Salazar se deparou com Marc Surer (Theodore), que sucumbia na corrida. Ao ultrapassar o suíço, o sul-americano ingressou na zona de pontuação. Naquele momento, o crucial era levar o carro até o fim. Eliseo não tinha como alcançar Elio de Angelis (Lotus), o quinto. Dessa forma, levou seu Ensign com cuidado até a sexta posição.

Sexto lugar veio depois de ultrapassagem sobre Marc Surer (Theodore), que antecedeu Eliseo no cockpit da Ensign

Após ultrapassagem sobre Marc Surer (Theodore), Eliseo assegurou o sexto lugar no GP da Holanda

Alain Prost (Renault) ficou com a vitória no GP da Holanda, seguido por Nelson Piquet (Brabham) e Alan Jones (Williams). Entretanto, quem fez história foi Salazar. O primeiro chileno a atuar na Fórmula 1 se tornava o primeiro daquele país a figurar no top 6. Depois de Eliseo, nenhum piloto do Chile conseguiu correr na categoria máxima do automobilismo. Diante disso, o feito de Salazar em Zandvoort-1981 entrou na história do esporte a motor do Chile. Sem dúvida, uma grande façanha do esporte chileno.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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