Japão-2014: Bianchi, uma trajetória interrompida em Suzuka

Jules Bianchi (Marussia) em ação em Suzuka: terrível acidente põe fim em promissora carreira

Jules Bianchi (Marussia) em Suzuka: terrível acidente freia bruscamente uma promissora carreira

Atualizado em 18 de julho de 2015

O GP do Japão de 2014, disputado em 5 de outubro, em Suzuka, teve um trágico fim. Mais de nove meses após a interrupção da etapa japonesa, um jovem talento das pistas teve sua vida abreviada. Aos 25 anos, Jules Bianchi (Marussia) não resistiu às lesões cerebrais, consequências do violento impacto no carro de serviço que retirava o Sauber de Adrian Sutil, na volta 42 da corrida nipônica. Foi uma luta em vão. Desde o momento em que foi retirado de seu bólido, o francês não recuperou a consciência. Bianchi ficou 45 dias internado na UTI do Hospital Geral de Mie, no Japão. Depois desse período, foi transferido para um hospital de Nice (França), onde faleceria em 17 de julho de 2015. Jules se tornou o primeiro piloto a morrer em decorrência de um acidente durante uma prova do Mundial desde Ayrton Senna, vitimado no GP de San Marino de 1994, em Imola.

É impossível descrever as consequências do acidente de Bianchi para a Fórmula 1. A única certeza é que, desde Imola-1994, a categoria máxima do automobilismo não se deparava com esse cenário sombrio. Encontrar culpados para a presença de um trator na área do circuito, para uma bandeira verde agitada após o impacto de Jules, para a ausência do safety car num instante em que ele era necessário… Nada adianta nesse momento. Já aconteceu. O francês foi vítima de uma impressionante série de fatores. Azar? Pode ser. Porém, convenhamos: o acaso sempre fez parte do automobilismo, e Bianchi certamente estava ciente dos riscos que corria quando escolheu essa carreira.

Bianchi era um dos nomes cotados para substituir Fernando Alonso na Ferrari: alfinetadas na Scuderia

Bianchi era um dos nomes cotados para substituir Fernando Alonso na Ferrari: alfinetadas na Scuderia

A carreira de Jules, aliás, encontrava-se em um momento de decisão. Em sua segunda temporada pela Marussia, o gaulês ganhou status de ‘talento em ascensão’ após a proeza de levar seu bólido ao nono lugar no GP de Mônaco. Os dois pontos obtidos no Principado credenciaram Bianchi a um melhor cockpit para 2015. Na quinta-feira anterior ao GP do Japão, foi especulada a possibilidade de o francês substituir Fernando Alonso na Ferrari. Formado pelo time de desenvolvimento de jovens pilotos da Scuderia, Jules alfinetou a Rossa. “Quando você vê equipes como Red Bull e McLaren promovendo seus jovens pilotos, você espera que (a Ferrari) também (faça isso). Porém, andam dizendo por aí que eles contrataram Sebastian Vettel – isso significa que eles precisavam de um piloto como ele para substituir Alonso, e eu posso entender isso”.

Com as portas praticamente fechadas na Ferrari, Bianchi focou seus compromissos em Suzuka. Depois de participar da coletiva de imprensa da FIA, na quinta-feira, o francês fez parte de um evento promocional da Marussia. Um “happy hour”, como a equipe tratou uma espécie de festival de sushi. Promoções e entrevistas à parte, Jules entrou no cockpit de seu MR03 na sexta-feira. Após os dois treinos livres, anotou um modesto 20º tempo, com 1m39s306, 0s027 à frente do companheiro Max Chilton. “Perdemos um pouco de tempo esta manhã devido a um problema de confiabilidade. Apesar disso, tivemos um começo razoavelmente positivo para o nosso fim de semana. Acho que há algumas incógnitas sobre o fim de semana, pela situação do tempo, mas vamos cruzar os dedos para que possamos ter uma boa corrida aqui”, disse o gaulês.

Na sessão oficial de sábado, Jules bem que tentou, mas não conseguiu superar Marcus Ericsson (Caterham): confiança para a corrida

Na sessão oficial de sábado, Jules bem que tentou, mas não conseguiu superar Marcus Ericsson (Caterham)

No qualificatório de sábado, realizado em pista seca, Bianchi tinha como objetivo bater a Caterham. No fim do Q1, o francês superou Kamui Kobayashi, mas ficou atrás de Marcus Ericsson. O saldo foi um 20º lugar, com 1m36s943, a 4s437 de Nico Rosberg (Mercedes), pole em Suzuka com 1m32s506. “Foi um resultado frustrante para nós. Estou feliz com as voltas que fiz, mas as coisas não saíram como o planejado, e não conseguimos ficar à frente de Ericsson. Não conseguimos nenhuma melhoria, e a Caterham deu um passo à frente, o que reflete a evolução deles neste circuito. É uma pena, mas, como sempre, vamos nos concentrar no que podemos fazer na corrida, pois certamente será muito interessante”, vislumbrou Jules, sem imaginar o destino cruel que o aguardava no domingo.

Bianchi, na parada de pilotos, horas antes da largada em Suzuka: chuva foi protagonista no domingo

Bianchi, na parada de pilotos, horas antes da largada em Suzuka: chuva foi protagonista no domingo

A corrida

A previsão de tempestade na região de Suzuka confirmou-se no domingo, dia do GP do Japão. Um tufão estava à caminho da costa nipônica, o que provocou a intermitente chuva na área do autódromo. Diante do dilúvio, a direção da prova decidiu realizar a largada em movimento, tendo o safety car à frente do pelotão. Apesar do procedimento de segurança, a pista encharcada vitimou Marcus Ericsson (Caterham), que rodou e caiu para o último lugar. Largando em 18º após as punições por troca de motor dadas a Pastor Maldonado (Lotus) e Jean-Eric Vergne (Toro Rosso), Bianchi completou a volta 1 em 17º.  Todavia, o aguaceiro se intensificou, e, na volta 2, a bandeira vermelha interrompeu a corrida. Os carros foram para os boxes, e aguardaram a cúpula da FIA definir o horário do novo procedimento. Após cerca de 20 minutos, os pilotos retornaram ao circuito – novamente, com o safety car na liderança.

Assim que a corrida foi reiniciada, Fernando Alonso (Ferrari) deixou a prova com problemas eletrônicos, fazendo com que o francês da Marussia ocupasse o 16º posto. Após mais sete voltas sob bandeira amarela, a corrida, enfim, teve seu início efetivo. Quando o safety car deixou o circuito, na volta 9, a pista estava em melhores condições. Os pneus para chuva extrema já não eram condizentes com o que se via em Suzuka. Logo, os pilotos começaram a arriscar a troca para os compostos intermediários. Com a parada de Jenson Button (McLaren), na volta 10, Jules ascendeu para a 15ª posição. Na passagem seguinte, o gaulês assumiu a 13ª posição, após os pit stops de Esteban Gutiérrez (Sauber) e de Romain Grosjean (Lotus). Na 12, foi a vez de Daniel Ricciardo (Red Bull), Valtteri Bottas (Williams), Kevin Magnussen (McLaren),  Kimi Raikkonen (Ferrari), Daniil Kvyat (Toro Rosso) e Sergio Pérez (Force India) irem para os boxes, e Bianchi foi para sétimo.

Jules foi bem enquanto se manteve na pista com pneus molhados, chegando a figurar em quarto

Jules (em 1º plano) foi bem enquanto se manteve com pneus para chuva forte, chegando a figurar em 4º

Apesar da melhora da pista, Jules insistiu em permanecer com compostos para chuva intensa. Na volta 13, Felipe Massa (Williams), Sebastian Vettel (Red Bull) e Nico Hulkenberg mudaram de pneus, e o francês da Marussia se viu numa incrível quarta posição. À frente dele, estavam apenas a dupla da Mercedes – Nico Rosberg e Lewis Hamilton, e Button – que, com pneus intermediários, superou Bianchi sem problemas. Apenas na volta 14, o gaulês foi aos boxes. No retorno à pista, entretanto, se viu numa longínqua 18ª posição. Na passagem seguinte, Magnussen (que havia optado por pneus para chuva intensa) fez um novo pit stop e caiu para último. Assim, Jules se viu em 17º.

Com a segunda parada de Vergne, na volta 20, Bianchi passou a ocupar o 16º lugar. Com a ida de Grosjean aos boxes, na 22, subiu para 15º. Após as paradas de Sutil e Maldonado, na 23, Jules se viu em 13º. A ascensão prosseguiu na passagem seguinte, quando Raikkonen fez seu pit stop e o francês ficou com o 12º lugar. Contudo, na volta 25, a Marussia chamou seu piloto para a segunda troca de pneus. Quando retornou à pista, novamente com compostos intermediários, Bianchi despencou para 20º. Logo, era visível: a estratégia da Marussia havia sido um fiasco. Ao realizar um longo 1º stint com pneus para chuva intensa, e deixar Jules apenas 11 voltas no 2º stint, a escuderia arruinou qualquer possibilidade do francês na corrida.

Bianchi, em duelo contra Pastor Maldonado (Lotus):tática da Marussia não foi eficiente para o francês

Bianchi, em duelo contra Pastor Maldonado (Lotus): tática da Marussia não foi eficiente para o francês

Após as paradas de Ericsson, na volta 26, e de Kobayashi, na 27, o gaulês subiu para 18º. Porém, a Caterham realmente estava em melhor momento que a Marussia, e Marcus superou Jules na volta 28. Depois do pit stop de Sutil, na 33, Bianchi retomou a 18ª colocação. Ali permaneceu até a volta 40, quando Ericsson foi pela terceira vez aos boxes. Naquele momento, a chuva se intensificou no autódromo, e os tempos de volta aumentaram. Com a parada de Marcus, Jules assumiu a 17ª posição. Todavia, era perseguido por Adrian. Com pneus mais novos que o do adversário, o alemão da Sauber pressionava o francês da Marussia. Contudo, na volta 41, Sutil perdeu o controle de seu bólido na Curva 7. O germânico aquaplanou e acabou batendo na barreira de proteção.

Apesar do carro de Adrian ficar num ponto próximo à pista, a prova prosseguiu normalmente – apenas com bandeira amarela no setor do acidente. Naquele momento, as primeiras posições estavam sendo definidas, e uma intervenção do safety car poderia selar o vencedor da etapa. O carro de segurança não veio – e o pior estava por vir…

Médico observa Bianchi ainda no cockpit: choque deixou francês inconsciente

Médico observa Bianchi ainda no cockpit: choque com trator na área de escape deixou francês inconsciente

Na volta 42, Bianchi contornou a Curva 1. Depois, fez a sequência dos dois “esses” longos, executados para esquerda e direita. A partir daí, começou a subir, para a esquerda, uma curva de raio longo. Era o trecho sob bandeira amarela. Entretanto, repentinamente, Jules perdeu o controle de seu Marussia. Como Sutil, seu bólido aquaplanou. Porém, justamente naquele instante, era feito o procedimento para retirada do Sauber do alemão. Um trator erguia o carro cinza. A marcha a ré da máquina rústica estava engatada. Uma bandeira verde era agitada para o trecho seguinte.  Tudo seguia conforme as regras da FIA. Mas isso é automobilismo. O acaso, o destino e o imponderável entraram em ação, e um acidente sem precedentes aconteceu: violentamente, Jules atingiu a traseira do trator. O veículo de resgate ‘prendeu’ o Marussia de Bianchi, provocando uma imensa desaceleração e destruindo o santantônio do carro.

Quando os fiscais alcançaram o cockpit de Jules, viram o piloto desacordado. Ao ser constatada a gravidade do estado do piloto, o safety car entrou na pista. Junto com ele, o carro médico. Na volta 44, a bandeira vermelha foi acionada, decretando o fim do GP do Japão. A vitória ficou com Hamilton, seguido por Rosberg e Vettel. Mas não havia nada para ser comemorado. Depois de ser retirado de seu Marussia, Bianchi foi encaminhado para o centro médico de Suzuka. Na sequência, acabou sendo levado, de ambulância, para o Hospital Geral de Mie, na região do autódromo, onde iniciou tratamento intensivo.

Acidente de Jules interrompeu a corrida: vitória em Suzuka ficou com Hamilton

Acidente de Jules interrompeu a corrida e sua promissora carreira: duro golpe do automobilismo

De forma abrupta, a Fórmula 1 viu a interrupção de uma promissora carreira. Bianchi se tornou vítima daquilo que mais amava: o automobilismo. Lamentavelmente, Jules virou estatística. Que sua morte sirva de alerta para aqueles que dirigem a categoria máxima da velocidade – afinal, casos como o do francês são inconcebíveis para o esporte a motor do século 21. E que Deus receba bem esse jovem e abençoe seus familiares e entes queridos.

Jules Bianchi (Marussia) acena para os fãs em Suzuka: horas depois, um terrível acidente t

Jules Bianchi acena para os fãs em Suzuka: acidente inconcebível para o automobilismo do século 21

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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