Japão-2007: Adrian Sutil e a proeza de pontuar com a Spyker

Adrian Sutil (Spyker) se aproveitou do know-how em Fuji e da chuva para obter um incrível oitavo lugar

Adrian Sutil (Spyker) se aproveitou do know-how em Fuji e da chuva para obter um incrível 8º lugar

Em 30 de setembro de 2007, a Fórmula 1 retornava a Fuji. Depois de 30 anos sem receber a categoria máxima do automobilismo – a última vez havia sido em 1977 -, o autódromo desbancou Suzuka e ficou com a honra de sediar o GP do Japão. Por ter ficado tanto tempo distante do calendário, o circuito acabou se tornando um desafio para os pilotos: sem experiência na pista, eles tiveram que aprender os atalhos na marra. Um deles, porém, já era íntimo do traçado. Adrian Sutil conhecia Fuji como ninguém. Em 2006, o alemão conquistou ali duas de suas cinco vitórias no Campeonato Japonês de Fórmula 3, sedimentando o caminho para o título da temporada. Um ano depois, Sutil voltava ao autódromo numa condição diferente: se antes, era um dos protagonistas da F3 Japonesa, agora se via como um ilustre desconhecido no fim do grid. Todavia, o germânico se aproveitou do contato adquirido no ano anterior e da chuva que caiu sobre o circuito para obter o primeiro e único ponto da história da Spyker.

Não foi um oitavo lugar comum. Tampouco, uma posição celebrada – até porque ela só foi confirmada em meados de outubro de 2007. Na verdade, Adrian cruzou a linha de chegada na nona posição. Contudo, como Vitantonio Liuzzi (Toro Rosso) foi punido com o acréscimo de 25 segundos ao seu tempo de corrida, por ter ultrapassado Sutil sob bandeira amarela, o alemão ascendeu ao top 8, garantindo a conquista do histórico ponto. Foi o primeiro da carreira do germânico, e único e derradeiro da Spyker. A escuderia, aliás, já apareceu na tabela de classificação com os dias contados. Justamente naquele fim de semana, em Fuji, foi anunciada a venda do time para Vijay Mallya, que alteraria seu nome para Force India na temporada de 2008.

Campeão da F3 Japonesa em 2006, Adrian contava com a experiência em Fuji para conquistar um bom resultado

Campeão da F3 Japonesa, Adrian contava com a experiência em Fuji para conquistar um bom resultado

A Spyker desembarcava em solo japonês sem grandes pretensões. Ao lado de Sutil, o time contava com Sakon Yamamoto. O nipônico substituiu Markus Winkelhock, que marcou seu nome na história ao liderar o GP da Europa, em Nurburgring. Entretanto, nem Adrian, tampouco Sakon, tiveram êxito nas etapas seguintes. Apesar dos resultados pífios, a dupla estava animada para correr em Fuji. Afinal, os dois conheciam bem no circuito. Na pista, o alemão se sentiu em casa. No primeiro treino livre, cravou o nono melhor tempo, com 1m20s516. No segundo, ficou focado no trabalho em ritmo de corrida. Desta forma, não melhorou sua marca. Com 1m20s736, anotou o 16º tempo da sessão. No fim da sexta-feira, ele se mostrou satisfeito com o ritmo de seu F8-VII-B.

“Foi muito além que um dia normal. Vi o quão divertido é pilotar nesta pista com um carro de Fórmula 1. Pela manhã, tive uma sensação melhor, mas temos muito a fazer, com certeza. Tivemos alguns problemas com os pneus mais duros, eles simplesmente não parecem ser capazes de manter a temperatura ou de se adequar às condições da pista. O pneu mais macio parece ser melhor – eu obtive as minhas voltas mais rápidas nas duas sessões com esse composto. Espero que possamos encontrar meio segundo mais ou menos para este sábado”, afirmou Sutil após o treino.

Após obter bons resultados na sexta, Sutil teve um catastrófico sábado: 20º lugar no grid

Após obter bons resultados na sexta, Sutil teve um catastrófico sábado: 20º lugar no grid

No sábado, porém, tudo deu errado para a Spyker. Tudo por conta de uma tempestade que caiu em Fuji. Com a pista extremamente molhada, o treino livre foi cancelado. Sem acerto para chuva, Sutil e Yamamoto sofreram no treino oficial. Os carros alaranjados estavam inguáveis. Para Adrian, restou ficar à frente de Sakon e de Takuma Sato (Super Aguri).  Com 1m28s628, o germânico teve que se consolar com um tímido 20º lugar no grid. A marca foi 3s260 inferior à obtida por Lewis Hamilton (McLaren), que assegurou a pole para o GP do Japão, com 1m25s368.

“Ontem (sexta) foi muito melhor do que hoje (sábado). Nós não fizemos nenhuma volta sob chuva, pela manhã, e isso dificultou a busca do acerto do carro para o qualifying. Esperávamos ir melhor, mas estávamos tão desequilibrados nas curvas de alta velocidade, que não havia nenhuma possibilidade de alcançar uma volta plena”, lamentou o alemão da Spyker. “Quando o carro está com um acerto errado, acaba sendo difícil fazer qualquer coisa na qualificação. Você só tem que viver com isso. Porém, vamos verificar quais eram os problemas. Teremos uma longa noite de trabalho, para estarmos preparados para a corrida de amanhã (domingo)”, observou Sutil.

Por 18 voltas, o GP do Japão teve a 'liderança' do safety car: chuva torrencial em Fuji

Por 18 voltas, o GP do Japão teve a ‘liderança’ do safety car: chuva torrencial em Fuji

A corrida

Se havia chovido demais no sábado, os 22 pilotos que alinharam para a largada do GP do Japão se espantaram com o que viram no domingo. O mundo desabou sobre Fuji. Diante do aguaceiro que dominava a pista, a direção de prova (sabiamente) autorizou a largada sob bandeira amarela, com o safety car ditando o ritmo da etapa japonesa. Sutil era um dos pilotos que saíram com pneus para chuva forte. A dupla da Ferrari, Kimi Raikkonen e Felipe Massa, estava com compostos intermediários. Sem o menor equilíbrio, os dois foram para os boxes e despencaram para as últimas posições. Vitantonio Liuzzi (Toro Rosso) e Alexander Wurz (Williams) também sofreram com a tromba d’água, e foram para o fim do pelotão. Na volta 16, Jarno Trulli (Toyota) se encaminhou aos boxes, assim como Rubens Barrichello (Honda), duas voltas depois.

Na volta 19, enfim, o carro madrinha deixou a pista. Ainda com o traçado molhado, os carros partiram para a disputa. Naquele momento, Sutil já era o 14º. Na passagem seguinte, Adrian superou Ralf Schumacher (Toyota) e Anthony Davidson (Super Aguri). Além disso, contou com a escapada Nico Rosberg (Williams) para assumir o 11º lugar. Na 21, o alemão da Spyker ultrapassou Nick Heidfeld (BMW) – que havia se chocado com Jenson Button (Honda) na disputa pelo terceiro posto – e ingressou no top 10. Desequilibrado após o acidente, Button foi para os boxes, e Adrian herdou o nono lugar. Ali permaneceu até a volta 25. Nas passagens seguintes, acabou não resistindo aos ataques de Heidfeld, na 26, e de Raikkonen, na 27, e caiu para a 11ª posição.

Com a tática de parar apenas uma vez nos boxes, Sutil ascendeu na classificação

Com a tática de parar apenas uma vez nos boxes, Sutil ascendeu na classificação

Na volta 28, um momento histórico: com a parada dos líderes Lewis Hamilton (McLaren) e Fernando Alonso (McLaren), Sebastian Vettel (Toro Rosso) assumiu a ponta em Fuji. Com 20 anos, 2 meses e 27 dias, o alemão se tornou o mais jovem piloto a liderar uma etapa do Mundial. Enquanto Vettel surpreendia o ‘circo’, Sutil se mantinha em 11º. Na volta 35, Adrian foi superado por Liuzzi e Rosberg, despencando para 13º. Com o pit stop de Heidfeld, na passagem seguinte, o alemão da Spyker subiu para o 12º lugar. Na 37, foi a vez de Robert Kubica (BMW) ir aos boxes, fazendo com que Sutil recuperasse o 11º posto. Porém, ficou ali por duas voltas. Na 39, Massa, em prova de recuperação, superou o germânico, que retornou para o 12º lugar.

Com as paradas de Rosberg, na volta 40, e de Raikkonen, na 41, Sutil voltou ao top 10. Na mesma passagem, porém, um espetacular acidente protagonizado por Alonso tirou o espanhol da corrida, e promoveu a entrada do safety car. Após três voltas atrás do pelotão, Adrian foi para os boxes fazer o reabastecimento e a troca de pneus. A partir dali, o alemão da Spyker não pararia mais. Entretanto, ao sair do pit stop, na volta 45, estava em 18º. Na passagem seguinte, Vettel, o terceiro, inexplicavelmente acertou Mark Webber (Red Bull), o segundo. Saldo da bobagem do alemão da Toro Rosso: os dois ficaram de fora da prova. Sem Vettel e Webber, Sutil subiu para 16º. Com o pit stop de Ralf, na volta 47, Adrian passou para a 15ª posição.

Depois da relargada, Sutil superou o companheiro Yamamoto e partiu para o ataque

Depois da relargada, Sutil superou o companheiro Yamamoto e partiu para o ataque

A nova relargada foi dada na volta 49, e Sutil ignorou os adversário. Decidido, o alemão da Spyker deixou Rosberg, Trulli e Button para trás, alcançando o 12º lugar. Na passagem seguinte, superou o companheiro Yamamoto, assumindo o 11º posto. Na 52, foi a vez de Adrian ultrapassar Liuzzi, recuperando uma posição entre os 10 primeiros.  Na volta 55, Davidson abandonou a prova, por problemas no acelerador de seu bólido. Por estar num ponto perigoso, foi acionada a bandeira amarela no local. Na passagem seguinte, Sutil tirou o pé, enquanto Liuzzi pisou fundo. Assim, Vitantonio tomou a posição de Adrian – essa ultrapassagem daria muito o que falar depois da prova, mas isso é assunto para depois…

Na volta 58, Liuzzi foi para os boxes, e Sutil recuperou o 10º lugar. Três voltas depois, Barrichello fez seu derradeiro pit stop, e o alemão da Spyker assumiu o nono lugar. Todavia, na volta 64, Vitantonio voltou a superar Adrian, que caiu para 10º. Com o abandono de Heidfeld, na volta 66, o germânico retomou a nona posição. E foi a 4s5 de Liuzzi – e da zona de pontuação -, que Sutil recebeu a bandeirada do GP do Japão, vencido por Hamilton, seguido pelos finlandeses Heikki Kovalainen (Renault) e Kimi Raikkonen (Ferrari). Após a etapa, Adrian lamentou o ponto que escapou pelas mãos.

Sutil ressaltou a disputa com os rivais, mas lamentou a perda do ponto por 4s5: surpresa viria horas depois da bandeirada

Sutil ressaltou a luta, mas lamentou perda do ponto por 4s5: surpresa viria depois

“Foi uma corrida difícil para todos, com muita água na pista e longos períodos atrás do safety car. Em circunstâncias difíceis como essa, acho que tomamos algumas boas decisões e encontramos o equilíbrio certo ao acertar o carro. Lutamos bastante durante as disputas, e estávamos tão perto de conseguir esse primeiro ponto, mas terminamos em nono. Ainda assim, podemos dizer que fomos bem-sucedidos, uma vez que ficamos em 14º em Spa – no GP da Bélgica de 2007 -, e agora, em nono. Em condições meteorológicas especiais como estas de hoje (domingo), acho que fomos muito fortes”, observou.

Horas depois do fim da corrida, após ação da Spyker, a direção de prova acresceu 25 segundos ao tempo de Liuzzi, por entender que o italiano burlou a regra e ultrapassou Adrian sob bandeira amarela. Assim, a Toro Rosso perdeu o primeiro ponto dela na temporada, e a Spyker ficou com o primeiro – e único – ponto de sua história. Graças à competência de Sutil no molhado e ao erro de Vitantonio. “Com certeza, merecemos este ponto depois de todo o trabalho duro este ano”, comentou o alemão, após a boa notícia. “É uma sensação ótima, mesmo não sendo obtida na pista. Acho que a direção de prova agiu corretamente. Não havia nenhuma bandeira verde após esta bandeira amarela da Curva 1. Agimos corretamente, e é por isso que ganhamos esse ponto”.

A Toro Rosso apelou da decisão dos comissários, mas não obteve êxito. Em 13 de outubro de 2007, a Corte da FIA confirmou o oitavo lugar de Adrian Sutil em Fuji-2007, dando um ponto final na disputa dos tribunais, e um ponto tão sofrido quanto único na história da Spyker e do piloto alemão.

O oitavo lugar em Fuji-2007 determinou o 1º ponto de Sutil na F1 e o único da Spyker na categoria

O oitavo lugar em Fuji-2007 determinou o 1º ponto de Sutil na F1 e o único da Spyker na categoria

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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