Portugal-1989: Onyx obtém único pódio com Stefan Johansson

Johansson levou seu Onyx sem trocar pneus até a bandeira quadriculada: esforço lhe rendeu um incrível terceiro lugar em Estoril

Johansson levou Onyx sem trocar pneus até a bandeirada: esforço lhe rendeu incrível 3º lugar em Estoril

Estoril, 24 de setembro de 1989. Naquele dia, o autódromo luso seria palco de um feito único na história da Fórmula 1. Graças a uma condução segura de Stefan Johansson, a Onyx obteve seu primeiro – e derradeiro – pódio na categoria máxima do automobilismo. O experiente sueco carregou o bólido azul e branco a um inesperado terceiro lugar no GP de Portugal. Além de marcante, o incrível feito seria especial para o escandinavo, que conquistou em solo português seu 12º – e último – top 3 na F1. Para o sonho do pódio se tornar realidade, Stefan realizou a corrida sem parar nos boxes, e contou com uma boa dose de sorte – afinal, a terceira posição só veio depois do acidente que tirou Ayrton Senna (McLaren) e um desclassificado Nigel Mansell (Ferrari) da prova, e após o abandono de Riccardo Patrese (Williams).

Para entender o significado do pódio de Johansson e da Onyx em Estoril, é necessário retornar para o início de 1989. A equipe foi para a pista graças ao investimento de um milionário belga, Jean-Pierre Van Rossem, no sonho de Mike Earle e Jo Chamberlain. Bem-sucedida no comando do time em categorias de acesso na década de 1980 – Fórmula 2 e Fórmula 3000 -, a dupla precisava de uma injeção financeira para alcançar a F1. Com a verba da Moneytron, empresa de Van Rossem, foi possível finalizar o ORE-1, primeiro carro da Onyx. Projetado por Alan Jenkins, trazia motor Ford e pneus Goodyear. Além de Stefan, o time contava com um compatriota do milionário: Bertrand Gachot.

Gachot (com o carro 37) e Johansson (com o 36) em ação no GP da França, em Paul Ricard

Gachot (37) e Johansson (36) em Paul Ricard: primeiros pontos da Onyx vieram com 5º lugar de Stefan

Com o sueco e o belga, a escuderia partiu para a disputa da pré-qualificação – por ser novata, era preciso desafiar mais essa sessão. No começo da trajetória da Onyx, nem Johansson, tampouco Gachot, superavam a pré-qualificação. Apenas no GP do México, no Autódromo Hermanos Rodríguez, a equipe conseguiu alinhar pela primeira vez em uma prova. Com Stefan, o ORE-1 largou em 21º e vinha num bom ritmo e estava em 10º quando abandonou com problemas na embreagem, na volta 16. Nas outras duas etapas da América do Norte – GP do Canadá, em Montreal, e GP dos Estados Unidos, em Phoenix -, Johansson voltou a levar o bólido para o grid. Contudo, se retirou em ambas.

Já no GP da França, em Paul Ricard, a Onyx teria pela primeira vez seus dois carros em uma prova do Mundial. No fim, uma surpresa: tanto Johansson como Gachot viram a bandeirada na etapa francesa, com destaque para o escandinavo, que conquistou o quinto lugar. Foram os dois primeiros pontos da história do time. Apesar da pontuação, a equipe permaneceu entre as integrantes da pré-qualificação, uma vez que, no GP da Inglaterra, em Silverstone, a Minardi anotou três pontos. A partir dali, a Onyx entrou numa fase descendente no Mundial. Justamente na segunda metade da temporada, a equipe voltou a registrar diversos problemas.

No Estoril, o sueco superou facilmente a pré-qualificação, mas enfrentou problemas na sessão oficial de sexta

Em Estoril, o sueco superou facilmente a pré-qualificação, mas enfrentou problemas na sessão oficial de sexta

Insatisfeito com a queda de rendimento, Gachot passou a criticar publicamente a escuderia. Por conta disso, às vésperas do GP de Portugal, o belga foi demitido do time. Para seu lugar, foi contratado JJ Lehto. Com a nova dupla, a Onyx desembarcou em Estoril. Tanto Johansson quanto Lehto partiram para a pré-qualificação, realizada na manhã de sexta-feira. Stefan obteve o melhor tempo da sessão, que reuniu 13 pilotos. Com 1m18s623, o sueco garantiu um lugar nas sessões oficiais. Além de Johansson, avançaram Philippe Aliot (Lola), Roberto Moreno (Coloni) e Michele Alboreto (Lola). Quinto tempo na pré-classificação, Lehto acabou ficando de fora do restante do fim de semana. Logo, toda a atenção da Onyx se voltaria exclusivamente para Stefan.

No primeiro treino oficial, de sexta, Johansson anotou 1m19s281, uma marca pior que a registrada na pré-classificação. O sueco enfrentou diversos problemas na sessão, ficando apenas na 25ª posição. Porém, no sábado, as coisas mudariam de figura. A Onyx encontrou um equilíbrio ideal para o circuito português, e o ORE-1 se comportou perfeitamente nas curvas do Estoril. No fim, Stefan anotou 1m18s105, conquistando um bom 12º lugar no grid. O tempo do escandinavo foi 2s637 inferior ao obtido por Ayrton Senna (McLaren), pole para o GP de Portugal de 1989 com o tempo de 1m15s468. Mas Senna não importava para Johansson. A boa marca mostrava que a Onyx poderia fazer bonito no domingo, dia da prova portuguesa.

Johansson foi cauteloso na largada. Depois, superou quatro rivais nas 10 primeiras voltas

Johansson foi cauteloso na largada. Depois, superou quatro rivais nas 10 primeiras voltas

A corrida

O sol brilhou forte na região do Estoril. Um clima perfeito para a disputa de uma corrida de Fórmula 1. Porém, não tão convidativo para a tática estabelecida pela Onyx. A escuderia definiu que Johansson não faria troca de pneus durante a prova. Dessa forma, Stefan teria que poupar seus compostos ao máximo. O fato de estar ciente de que encararia uma maratona fez com que o sueco largasse de forma comedida. Ainda assim, o escandinavo se manteve em 12º após a volta 1. O ritmo do ORE-1 era razoável, a ponto de permitir que Johansson pressionasse Luis Perez-Sala (Minardi). Na volta 4, Stefan se livrou do espanhol e assumiu o 11º lugar. Na passagem seguinte, foi a vez de ultrapassar Stefano Modena (Brabham), alcançando o top 10.

A ascensão do sueco da Onyx continuou nas voltas seguintes. Na volta 8, superou Martin Brundle (Brabham). Duas voltas depois, não tomou conhecimento de Alex Caffi (Dallara), passando a ocupar a oitava posição. Em 10 voltas, Johansson ultrapassou quatro adversários. Um ótimo presságio para a corrida? Ledo engano: a partir dali, Stefan teria de ser paciente, uma vez que, à frente dele, estavam os pilotos da McLaren – Ayrton Senna e Alain Prost -, da Ferrari – Nigel Mansell e Gerhard Berger -, e da Williams – Thierry Boutsen e Riccardo Patrese -, além de Pierluigi Martini (Minardi). Logo, entrava em ação sua estratégia de poupar equipamento e – sobretudo – pneus.

Sem parar nos boxes, Stefan se viu à frente da dupla da Williams, consolidando-se no top 5

Sem parar nos boxes, Stefan se viu à frente da dupla da Williams, consolidando-se no top 5

Na volta 28, o primeiro dos ponteiros foi aos boxes. Com o pit stop de Prost naquela passagem, Johansson passou para a sétima posição. Após a parada de Boutsen, na 35, Stefan ingressou pela primeira vez na zona de pontuação. Na volta 37, o sueco acabou não resistindo ao ataque de Prost, e retornou ao sétimo lugar. Contudo, por pouco tempo: na volta 40, Patrese fez seu pit stop, e o piloto da Onyx recuperou o sexto posto. Depois da parada de Martini – que chegou a liderar a etapa – na volta 43, Johansson subiu para a quinta posição. À frente do escandinavo, estavam, pela ordem: Berger, Senna, Mansell e Prost, o quarteto das duas principais equipes da época – McLaren e Ferrari.

O quinto lugar estava pra lá de satisfatório para Stefan. Porém, a sorte sorriu para o experiente piloto de 33 anos. Então líder da prova, Mansell errou ao fazer sua parada, e engatou a marcha a ré nos boxes – o que é proibido. Ao voltar para a pista, a direção de prova deu bandeira preta ao britânico da Ferrari, desclassificando-o da disputa. Em terceiro, Nigel ignorou os avisos e partiu para cima de Senna na luta pelo segundo lugar. O brasileiro, porém, fez pouco caso da desclassificação e passou a travar uma árdua batalha na pista. O resultado: na volta 49, Mansell encheu a traseira de Senna, e os dois abandonaram a corrida. Com o controverso acidente, Johansson simplesmente herdava o terceiro lugar.

O piloto da Onyx resistiu bravamente ao calor e contou com o acidente de Senna e Mansell para figurar em terceiro

Johansson resistiu bravamente ao calor e contou com o acidente de Senna e Mansell para figurar em terceiro

Apesar de estar bem colocado na disputa, o conjunto da Onyx já apresentava sinais de desgaste. Aos poucos, a dupla da Williams se aproximava de Stefan. Na volta 58, Patrese superou Johansson e passou a abrir diferença para o sueco. O terceiro posto não passaria de sonho para a pequena equipe. Tampouco o quarto, pois Boutsen também ameaçava o sueco. Todavia, a sorte tornou a sorrir para o escandinavo. Na volta 61, tanto Riccardo quanto Thierry abandonaram em Estoril com o mesmo problema – superaquecimento. Sem a dupla da Williams, Johansson pôde respirar. A diferença para Alessandro Nannini (Benetton) estava consolidada. Entretanto, para levar o ORE-1 até o pódio, Stefan precisou se sacrificar ao máximo.

A vitória no quente GP de Portugal ficou com Berger. Prost foi segundo, praticamente garantindo o título de 1989 após o acidente que tirou Senna no Estoril. Nannini, em quarto, Martini, em quinto, e Jonathan Palmer (Tyrrell), em sexto (foi o último ponto do inglês na F1) completaram a zona de pontuação. Extenuado, Johansson cruzou a linha de chegada, mas não conseguiu completar a volta até os boxes. Para chegar ao pódio, o sueco precisou pegar uma carona. Quando chegou ao local da cerimônia, viu Gerhard e Alain já estourando o champagne. Stefan apareceu para celebrar, literalmente, no fim da festa. Se soubesse que aquele seria seu último grande momento na Fórmula 1, certamente se apressaria para ocupar o terceiro degrau.

Stefan chegou atrasado ao pódio e só teve tempo de estourar o champagne

Stefan chegou atrasado ao pódio e só teve tempo de estourar o champagne

Em entrevista publicada em 2010 pelo ótimo site RichardsF1.com, Johansson comentou como foi a conquista do pódio com a Onyx em Estoril-1989. “Fizemos uma boa corrida em Portugal. Nos classificamos razoavelmente bem, e eu sabia que tínhamos um carro bem equilibrado para a prova. Minha estratégia era não parar para trocar os pneus. Essa ideia surgiu a partir dos dados que reunimos nos treinos, e acabou sendo realizada. Todos os outros foram aos boxes, enquanto cuidei dos pneus até o fim. A estratégia funcionou muito bem – embora os pneus estivessem literalmente na tela quando a corrida acabou…”.

A Onyx encerrou 1989 com seis pontos – todos obtidos por Stefan. A escuderia terminou a temporada na 10º posição do Mundial de Construtores, enquanto o escandinavo ficou em 11º na tabela de Pilotos. Em 1990, o projeto degringolou. Sem o dinheiro de Van Rossem, a equipe não pontuou, e encerrou suas atividades ao fim daquele ano. Apesar de participar de somente duas temporadas na Fórmula 1, a Onyx deixou sua marca, segundo Johansson. “Aquele foi um grande desafio, com certeza. O que realizamos naquelas circunstâncias, de fato, não foi igualado por quase nenhum time em seu primeiro ano de F1”, ressaltou o sueco, que, tem uma marca a ser superada por seus compatriotas – depois de Estoril-1989, nenhum piloto de seu país voltou a figurar num pódio da categoria.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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