Canadá-1969: Al Pease é desclassificado por ‘ser lento demais’

Al Pease (Eagle) em 'ação' no GP do Canadá de 1969, em Mosport: motivo da desclassificação é único na Fórmula 1

Al Pease (Eagle) em ‘ação’ em Mosport-1969: motivo da desclassificação é único na Fórmula 1

Bem possivelmente, Al Pease tenha sido o piloto mais odiado da Fórmula 1. O canadense era temido… pelas atrocidades que cometia na pista. O ‘auge’ de Pease na categoria máxima do automobilismo aconteceu no GP do Canadá de 1969, em Mosport, quando foi desclassificado pela direção de prova por ‘ser lento demais’. A bordo de um ultrapassado Eagle e impulsionado por um velho motor Climax, Al se rastejava no circuito, tornando-se uma séria ameaça aos adversários. Por conta dessa combinação desastrosa, chegou a tirar alguns rivais da disputa. Porém, antes que fizesse algo ainda pior, foi ‘convidado’ a se retirar da etapa canadense. Foi a única vez na história em que um piloto deixou uma corrida por incapacidade técnica. Depois do terrível desempenho em Mosport, Pease nunca mais ‘acelerou’ um F1.

Nascido em 15 de outubro de 1921, em Darlington, na Inglaterra, Pease foi batizado como ‘Victor’, mas adotou o nome ‘Al’ quando imigrou para o Canadá, em meados da década de 1940, após o fim da Segunda Guerra Mundial. Em Toronto, passou a trabalhar com ilustração. Sua paixão por automobilismo começou após completar 30 anos, quando Al passou a se dedicar a corridas regionais. Pease trilhou carreira de relativo sucesso em solo canadense, a ponto de ser eleito, em 1964, como o “Piloto do Ano no Canadá”.

Em 1964, Pease foi celebrado como o melhor piloto canadense. Cinco anos depois, se tornou chacota no automobilismo

Em 1964, Pease foi celebrado como o melhor piloto canadense. Cinco anos depois, se tornou chacota

Em 1967, uma notícia deixou Al animado: a Fórmula 1 promoveria sua primeira etapa canadense. Conceituado, Pease contou com o apoio da Castrol para adquirir um chassis Eagle e um motor Climax para competir em Mosport. Aos 45 anos, Pease estreava na categoria máxima do automobilismo. Todavia, a idade e a falta de familiaridade com o Eagle pesaram contra o canadense. Em sua primeira experiência, Al conquistou o 16º tempo, com 1m30s1 – 7s7 atrás de Jim Clark (Lotus), pole em Mosport.

A corrida foi difícil: por conta da forte chuva que caía no circuito, a bateria do carro pifou, e Pease não conseguiu alinhar seu bólido no grid. Quando os demais pilotos já estavam na volta 7, Al foi para a pista. No meio da corrida, o canadense voltou para os boxes, a fim de colocar uma nova bateria – detalhe: o próprio Al ajudou na instalação. Após longa demora, Pease ainda viu a bandeira quadriculada, com 43 voltas de desvantagem para Jack Brabham (Brabham), o vencedor da primeira edição do GP do Canadá.

Al Pease (com o carro 11) é superado por Jim Clark (o 3) na 1ª edição do GP do Canadá, em Mosport-1967

Problemas arruinaram a estreia de Pease (carro 11) em Mosport-1967: aqui, Al é superado por Jim Clark (3)

Al não tinha pretensão de ingressar no ‘circo’, mas fazia questão de disputar a etapa canadense da Fórmula 1. Diante do péssimo desempenho do ano anterior, Pease insistiu em correr em 1968. Dessa vez, o GP do Canadá seria disputado em Mont-Tremblant. Novamente com o modelo Eagle T1F e com o propulsor Climax, o piloto partiu para a classificação. Com o conjunto ultrapassado, Pease não conseguia anotar um bom tempo. No fim do treino classificatório, nova decepção: Al marcou 1m49s6, ficando a 15s8 de Jochen Rindt (Brabham), pole, e a 8s4 de Bill Brack (Lotus), 21º e penúltimo.

Nos boxes, o canadense não entendia o que tinha acontecido com o motor, que não tinha potência. Ao ser aberto, veio a explicação: havia uma chave de fenda (!!!) esquecida no propulsor. Sem tempo para reconstruir o motor, Pease não participou da corrida.

Na etapa canadense de 1968, em Mont-Tremblant, Al foi o pior na pista: chave de fenda foi 'esquecida' no motor

Em 1968, em Mont-Tremblant, Al não conseguiu largar: culpa de uma chave de fenda ‘esquecida’ no motor

Veio 1969, e o persistente Al partiu para sua terceira tentativa num GP do Canadá. A prova voltou para Mosport, e, assim como nas duas edições anteriores, Pease retornou com seu Eagle-Climax. De tão defasado, o bólido já estava em exposição em Montreal, e foi retirado de lá justamente para Al participar da etapa. Com quase 48 anos, o canadense desafiou seu conjunto e anotou o tempo de 1m28s5. A marca era 11s1 inferior à obtida por Jacky Ickx (Brabham), pole para o GP. Entretanto, Pease superou outros três pilotos, ficando com o 17º lugar no grid.

Um alento para o experiente piloto, que planejava alcançar o fim da corrida baseando-se em sua regularidade na pista. Todavia, nem ele, tampouco os demais adversários, esperavam que Al seria regularmente lento…

Parada de pilotos antes da largada de Mosport-1969: ao lado de Bill Brack, Pease acena para o público

Parada de pilotos antes da largada de Mosport-1969: ao lado de Bill Brack, Pease acena para o público

A corrida

Em 20 de setembro de 1969, 20 carros alinharam para a disputa do GP do Canadá, em Mosport. Logo na largada, Pease se estranhou com Silvio Moser (Brabham). O canadense acabou tocando no suíço, que bateu numa barreira de pneus e foi obrigado a abandonar a prova. Quando completou a volta 1, Al havia avançado para o 16º lugar. Entretanto, na passagem seguinte, o piloto da Eagle foi ultrapassado por Bill Brack (BRM) e por Peter Lovely (Lotus), caindo para a 18ª posição. Na volta 3, John Cordts (Brabham) superou Pease. Como Jackie Oliver (BRM) havia deixado a prova naquela passagem, Al seguia em 18º. Contudo, já era o último. A partir daí, a prova do canadense passou a ser de resistência. Porém, para os demais, era difícil ter paciência com Pease na pista.

Na volta 13, Al tomaria uma volta de Jean-Pierre Beltoise (Matra), quarto colocado em Mosport. Sem pestanejar, o canadense fechou o francês, que ficou com a suspensão torta. Além de prejudicar Beltoise, o piloto da Eagle desfez um pelotão que lutava pelo terceiro lugar na prova. Naquele momento, Pease irritava público e equipes. Porém, ele permanecia firme e forte na pista. Quando Jackie Stewart (Matra) quase perdeu a liderança por se atrapalhar com Al, Ken Tyrrell, então chefe da Matra, esbravejou na direção de prova. A decisão foi sumária e inédita: Pease estava desclassificado do GP do Canadá por ‘ser lento demais’. Quando se retirou, na volta 22, já tinha quatro voltas de desvantagem para Stewart, então líder da prova.

Pease retirou o Eagle de uma exposição em Montreal e foi para a pista: peça de museu se rastejou em Mosport-1969

Pease retirou o Eagle de exposição em Montreal e foi para a pista: peça de museu se rastejou em Mosport-1969

No fim, a vitória em Mosport ficou com Jacky Ickx (Brabham), seguido por Jack Brabham (Brabham) e por Jochen Rindt (Lotus). Apesar dos pesares, quem fez história naquela etapa foi Al Pease. Não só pela conturbada desclassificação, mas também por ser responsável pela última corrida de um chassis Eagle e a de um motor Climax na Fórmula 1. Além disso, foi a derradeira apresentação do canadense na categoria. Ao site F1 Rejects, Al concedeu entrevista sobre sua trajetória na F1 (ei-la aqui, em inglês). Nela, deu detalhes sobre o que ocorreu em Mosport-1969.

“Nem tudo foi bem. Fomos rápidos o suficiente na classificação. Na corrida, porém, o carro não era veloz o bastante e eles (direção de prova) me desclassificaram, e eu não os culpo. Eu dei muito espaço a todos, porque eu sabia que eu não era nada”, afirmou o canadense ao F1 Rejects. Além disso, o canadense não gostou do fato de ter sido tachado de ‘lento’ pela desclassificação. “Isso não foi muito agradável. Mas como eu disse, eu não os culpo”, reiterou Pease, que faleceu em 4 de maio de 2014, aos 92 anos, e – ironia do destino – acabou sendo lembrado justamente pelo episódio do GP do Canadá de 1969.

Al Pease no cockpit do Eagle: canadense entrou para a história pela porta dos fundos

Pease no cockpit do Eagle: canadense entrou para a história da F1 pela porta dos fundos

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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