Itália-1986: a luta de Alan Jones para obter derradeiro ponto

Em Monza, Alan Jones (Lola) obteve seu 206º e último ponto ao ser sexto no GP da Itália de 1986

Em Monza, Alan Jones (Lola) obteve seu 206º e último ponto ao ser sexto no GP da Itália de 1986

Quando desembarcou em Monza, palco do GP da Itália de 1986, Alan Jones já era dono de um título mundial e de 12 vitórias na Fórmula 1. Entretanto, o australiano em nada lembrava o combativo piloto que triunfou com um Shadow no GP da Áustria de 1977, em Osterreichring, e que se sagrou campeão na Williams, em 1980. À beira dos 40 anos, Jones defendia a Lola, uma equipe que não lhe oferecia condições de alcançar as melhores posições. Assim, se tornou figura assídua nas últimas colocações. Além disso, o tempo fez Alan ganhar peso – e perder reflexo. Apesar dos pesares, ele ainda amava a velocidade. Jones deu sua última mostra de habilidade ao levar o modelo THL2 ao sexto lugar no mítico circuito italiano. De forma digna, o australiano obteve seu quarto ponto em 1986. Entretanto, aquele seria o 206º e último ponto na carreira de Alan.

Coincidentemente, a história do derradeiro ponto de Jones começou a ser escrita um ano antes, em Monza. O GP da Itália de 1985, disputado em 8 de setembro daquele ano, marcou o retorno do australiano à Fórmula 1 depois de mais de dois anos – após deixar a categoria no fim de 1981, ele participou do GP dos EUA-Oeste de 1983, pela Arrows. Alan integrava o projeto liderado por Carl Haas, renomado dirigente do automobilismo norte-americano. Haas tinha o objetivo de criar uma equipe genuinamente ianque. Em 1984, ele anunciou a escuderia, com o apoio da Beatrice, uma empresa do ramo alimentício, e da Ford. O projeto foi encabeçado pela FORCE (Formula One Race Car Engineering), uma empresa de engenharia de propriedade do chefe da equipe.

Alan Jones no cockpit da Lola: retorno melancólico à Fórmula 1 depois de três anos ausente

Jones no cockpit da Lola THL1, em 1985: após dois anos ausente, australiano teve dificuldades de adaptação

Por ser representante da Lola nos Estados Unidos, Haas adotou a nomenclatura da marca britânica. Contudo, a fábrica não teve relação com o projeto – apenas em 1987, ela ingressaria com recursos próprios. Monza-1985 era a corrida traçada como meta para a estreia do time. Todavia, Haas não contava com o atraso da preparação do motor Ford. Isso, porém, não desanimou o chefe de equipe, que acertou com a Hart para impulsionar o modelo THL1 – o primeiro carro da escuderia. Apesar da paixão pela velocidade, a reestreia do consagrado Jones pela equipe novata não poderia ser pior: alinhou na 25ª e penúltima posição do grid, a 9s859 da pole de Ayrton Senna (Lotus). A corrida do australiano durou nove voltas – uma quebra da transmissão do Lola tirou Alan da etapa.

Nas três provas restantes de 1985, o campeão mundial de 1980 não viu a bandeira quadriculada. Foi um início melancólico para a Lola, e um recomeço nada promissor para Jones. Para 1986, havia a promessa de melhora de desempenho. Para ser companheiro dele na temporada, a Lola contratou o francês Patrick Tambay. Nas primeiras provas do ano, o time ainda usou o THL1, com motor Hart. Assim como em 1985, nenhum resultado digno de nota. Com a estreia do THL2, com motor Ford, no GP de Mônaco, as coisas mudaram um pouco de figura para Alan e Patrick. Apesar de ainda andarem lá atrás, o modelo mostrou ser mais confiável que o anterior. No duelo interno, porém, Tambay se mostrava mais veloz que Jones, o que era justificável, uma vez que o francês estava em atividade na F1, diferentemente do retirado australiano.

Apresentação do Lola THL2, em 1986: Jones (1º da dir. para esq.) teve Tambay (no cockpit) como companheiro de equipe

Apresentação do Lola THL2, em 1986: Jones (1º da dir. para esq.) teve Tambay (no cockpit) como parceiro

Os resultados para a Lola só apareceram a partir da 10ª etapa. No GP da Alemanha, em Hockenheim, Patrick completou a prova em oitavo, e Alan, em nono. No GP da Hungria, em Hungaroring, os dois largaram entre os 10 primeiros e tiveram um bom início de prova. Todavia, Jones abandonou com problemas no diferencial, e Tambay bateu na trave do top 6 – alcançou o sétimo posto. Mas foi no GP da Áustria, em Osterreichring, que a escuderia de Carl Haas atingiu o auge: Alan obteve o quarto lugar, e Patrick, o quinto. Foram os primeiros pontos do time norte-americano na Fórmula 1. E logo de cara, vieram cinco pontos de uma só vez. Parecia a comprovação de que a dedicação estava valendo a pena.

Jones desembarcou em Monza inspirado no espetacular resultado de Osterreichring. Justamente no circuito italiano, onde, um ano antes, retomou sua carreira na Fórmula 1. Porém, como em 1985, o australiano não iniciou bem seu fim de semana. Com problemas, Alan não conseguiu levar seu THL2 à pista, ficando sem tempo no treino oficial de sexta-feira. Tambay, por sua vez, obteve o 15º lugar, com 1m29s744. O melhor tempo do dia foi de Ayrton Senna (Lotus), com 1m25s363 -4s381 à frente do francês. No sábado, Jones conseguiu treinar. Com 1m28s043, o campeão de 1980 ficou com a 18ª posição do grid. Tambay novamente superou seu companheiro, ao fazer 1m27s808, assegurando o 15º lugar. A pole ficou com Teo Fabi (Benetton), com 1m24s078 – 3s965 mais rápido que Alan.

Jones, entre Patrese (Brabham) e Boutsen (Arrows): GP da Itália teve muitas quebras e acidentes

Jones, entre Patrese (em 1º plano) e Boutsen (ao fundo): GP da Itália teve muitas quebras e acidentes

A corrida

Como é costume no outono da Lombardia, o sol brilhou em Monza em 7 de setembro de 1986. Antes do procedimento de largada, Teo Fabi (Benetton) não conseguiu sair da pole, sendo obrigado a largar em último. Alain Prost (McLaren), segundo no grid, também ficou parado, mas o francês optou por trocar de carro – o que era proibido. Quando a luz verde foi acionada, 27 carros partiram para a disputa do GP da Itália. Além das ausências de Fabi e Prost, Jones contou com a quebra da transmissão do bólido de Ayrton Senna (Lotus) para ganhar três posições logo nos primeiros metros. Além disso, o australiano superou Christian Danner (Arrows), mas foi ultrapassado por Martin Brundle (Tyrrell), completando a volta 1 em 15º. Na passagem seguinte, Alan deu o troco em Brundle. Porém, não resistiu ao melhor equipamento de Fabi, que iniciava prova de recuperação.

Na volta 3, um acidente envolvendo Patrick Tambay (Lola) e Riccardo Patrese (Brabham), na disputa pela 11ª posição, tirou os dois da etapa. Com isso, Jones ascendeu para o 13º lugar. Na passagem seguinte, o australiano superou Thierry Boutsen (Arrows) e assumiu o 12º posto. Na volta 8, Alan acabou sendo ultrapassado por Prost, retornando para 13º. O piloto da Lola manteve sua posição até a volta 17, quando Derek Warwick (Brabham) abandonou com problemas no freio. Sem o inglês, Jones recuperou o 12º lugar. Duas voltas depois, com a quebra da caixa de câmbio de Johnny Dumfries (Lotus), o campeão de 1980 herdou o 11º posto. Com o pit stop de Prost, na volta 22, o australiano subiu para 10º.

Australiano da Lola ascendeu na corrida após quebras de adversários

Australiano da Lola ascendeu na corrida após quebras de adversários

Na volta 23, Philippe Alliot (Ligier) abandonou após a quebra do motor Renault de seu bólido. Jones avançou para nono, mas voltou a ser superado por Prost. Naquele momento, porém, começava a ser acionada a bandeira preta para o francês da McLaren. Motivo: Alain trocou de carro após o início de procedimento de largada. Na passagem seguinte, o piloto da Lola perdeu o 10º lugar para Boutsen. Alan ficou em 11º até a volta 28. Além de ganhar posição com a desclassificação de Prost, o australiano voltou a ultrapassar Thierry, assumindo o nono lugar. Na passagem seguinte, Jones subiu mais uma posição, após o abandono de René Arnoux (Ligier), com problemas de câmbio.

Com pneus desgastados, Alan fez sua única parada de boxes na volta 30. Após o pit stop, o piloto da Lola retornou à pista em 10º. Na passagem seguinte, Fabi, com problemas em seu Benetton, se encaminhou aos boxes e voltou no fim do pelotão. Dessa forma, Jones recuperou a nona posição. Com a quebra de motor de Michele Alboreto (Ferrari), na volta 34, o campeão de 1980 passou a figurar em oitavo. Na passagem seguinte, Brundle fez seu pit stop, e Alan avançou para a sétima posição. A partir daquele momento, era matar ou morrer. Com apenas 11 carros na pista, qualquer descuido arruinaria a prova. Por isso, Jones tratou de conservar seu THL2 e ver o que acontecia.

Após ultrapassar Boutsen, Jones assegurou seu 206º e último ponto na carreira

Após ultrapassar Boutsen, Jones assegurou seu 206º e último ponto na carreira

Aos poucos, o australiano da Lola passou a se aproximar de Boutsen. Com problemas em seu Arrows, o belga se rastejava na pista. Na volta 44, Alan ultrapassou Thierry e assumiu o sexto lugar. A vitória no GP da Itália ficou com Nelson Piquet (Williams). Nigel Mansell (Williams), em segundo, e Stefan Johansson (Ferrari), em terceiro, completaram o pódio. Keke Rosberg (McLaren) e Gerhard Berger (Benetton) ficaram em quarto e quinto lugar, respectivamente. Depois de resistir na pista até a bandeirada, Jones sentiu o sabor de conquistar o segundo top 6 em sequência na temporada. Todavia, era a última vez que abocanharia um ponto na categoria máxima do automobilismo. Depois de Monza-1986, a equipe de Carl Haas perdeu o patrocínio da Beatrice e se retirou da F1. Sem Haas, Jones encerrou definitivamente sua carreira no fim de 1986.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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