Holanda-1973: em meio à tragédia, Hunt obtém primeiro pódio

James Hunt (March) só foi superado por Jackie Stewart e François Cevert, a dupla da Tyrrell: 3º lugar sem festa

James Hunt (March) só foi superado por Jackie Stewart e François Cevert, da Tyrrell: 3º lugar sem festa

James Hunt (March) precisou de apenas quatro corridas para alcançar seu primeiro pódio na Fórmula 1. No GP da Holanda de 1973, o inglês mostrou velocidade e competência para levar seu 731 ao terceiro lugar em Zandvoort. Durante toda a corrida, James andou no top 5. É bem verdade que o britânico contou com os problemas de José Carlos Pace (Surtees) e o abandono de Ronnie Peterson (Lotus) para alcançar um lugar entre os três primeiros. Porém, era o limite para o impetuoso piloto de 25 anos. Hunt só foi superado pela dupla da Tyrrell – Jackie Stewart quebrou o histórico recorde de vitórias de Jim Clark ao obter seu 26º triunfo na carreira, seguido por François Cevert. Todavia, todos os feitos foram relegados à segundo plano. A morte de Roger Williamson (March), na 8ª volta da etapa holandesa, deixou enlutada a categoria máxima do automobilismo. Não houve festejos no pódio. Jackie, François e James apenas lamentaram a perda de mais um colega em pleno local de trabalho.

Apesar do acidente que vitimou Williamson ter deixado seu feito em segundo plano, o terceiro lugar no GP da Holanda foi um marco na carreira de James Simon Wallis Hunt. Nascido em 29 de agosto de 1947, em Belmont, região de Londres, Hunt tinha uma paixão: o tênis. Quando fez 17 anos, passou a morar na casa de Chris Ridge, duplista com o qual formava parceria. O irmão de Chris, Simon, participava de festivais de carros Mini na Inglaterra. Certa vez, Simon chamou James para acompanhar uma prova em Silverstone. A partir dali, Hunt se tornou obcecado por velocidade. Com 18 anos, passou a correr de Minis. Em 1968, ingressou na Fórmula Ford Britânica. Apesar de muitos problemas, obteve uma vitória na categoria.

A carreira de Hunt viveu um impasse em 1972:  solução foi se associar ao lorde Alexander Hesketh

A carreira de Hunt viveu um impasse em 1972: solução foi se associar ao lorde Alexander Hesketh

Em 1969, a carreira automobilística de Hunt tomou ares mais sérios. Naquele ano, James ascendeu para a Fórmula 3 Britânica. Em sua temporada de estreia, conquistou diversas vitórias e recebeu o prêmio de “piloto com carreira mais promissora”. De fato, a condecoração teria razão de ser, mas não nos três anos que se seguiram na F3. Em 1970, Hunt se envolveu num sério acidente que manchou sua reputação. Em uma etapa em Crystal Palace, um choque com Dave Morgan provocou confusão e tirou o rival das pistas por um ano. Em 1971, os resultados não vieram. James seguiu na F3 até 1972, quando foi encerrado o contrato de seu time, a March, com o patrocinador.

Sem apoio, Hunt tentou um cockpit na F3 ainda para 1972. Entretanto, não houve acordo. A carreira de James entrava num impasse. O que fazer a partir dali? Foi quando, em meados daquele ano, conheceu o Lorde Alexander Hesketh. Jovem e milionário, Hesketh propôs um acordo com o piloto, então com 24 anos. A intenção do lorde era formar uma equipe de Fórmula 2. Até o fim de 1972, Hunt defendeu a Hesketh em algumas etapas da categoria de acesso à Fórmula 1. Todavia, o nobre notou que o investimento na F2 era praticamente o mesmo que o empenhado para montar um time de F1. Com isso, Hesketh comprou um chassis 731 da March para ingressar na categoria máxima do automobilismo em 1973, tendo Hunt em seu único cockpit.

James tinha outras duas paixões, além do automobilismo: bebidas e mulheres

Além da velocidade, James tinha outra paixão: a boemia. Piloto e chefe de equipe não eram levados a sério

Hesketh e Hunt não eram levados a sério pelo grid quando James estreou na Fórmula 1 no GP de Mônaco de 1973. A equipe e o piloto eram tidos como “excêntricos” e “fanfarrônicos” no ‘circo’. Porém, o modelo 731, desenvolvido pelo jovem projetista Harvey Postlethwaite, demonstrou competitividade diante dos demais carros da March. Depois de andar em sexto em sua primeira experiência na F1, James encarou problemas e teve que se contentar com o nono lugar no Principado. A nova escuderia falhou presença no GP da Suécia, mas voltou às pistas para o GP da França, em Paul Ricard. Na etapa francesa, Hunt foi o sexto, obtendo seu primeiro ponto na carreira. Na prova seguinte, no GP da Inglaterra, em Silverstone, James cravou a volta mais rápida e conquistou um quarto lugar, depois de andar em terceiro.

Ao chegar em Zandvoort, palco do GP da Holanda, James tinha três corridas na Fórmula 1 e quatro pontos conquistados. Para um novato, em uma equipe recém-formada, os resultados eram demasiadamente positivos. Diante disso, havia uma boa expectativa para o inglês naquele fim de semana. Porém, a categoria temia a falta de segurança para a disputa da etapa holandesa. Até porque uma chuva incessante imperava na região do autódromo. De acordo com texto publicado na edição de 28 de julho de 1973, da Folha de S. Paulo, o piso molhado tornava o circuito traiçoeiro para os pilotos. “Fortes ventos e intensa chuva, que está caindo há três dias, atrapalharam os treinos e ameaçam a grande prova. No ano passado (1972), a corrida foi cancelada porque os próprios pilotos, vendo o perigo da competição na chuva, se recusaram a entrar na pista. O circuito é considerado perigoso mesmo pelos mais ousados pilotos da F1”, lembrou a reportagem.

Quando desembarcou em Zandvoort, Hunt tinha 6 pontos em 3 GPs: início promissor

Quando desembarcou em Zandvoort, Hunt tinha 6 pontos em 3 GPs: início promissor

Diante deste cenário, a direção de prova tomou alguns cuidados para os treinos, segundo mesmo material da Folha. “Ontem (sexta), os treinos foram retardados em mais de 1 hora, porque a visibilidade era inferior a 100 metros. Isso pode significar que, sendo realizada a corrida, ela poderá ser disputada sob a perigosa situação de pouca visibilidade. Isso e o natural perigo da pista podem fazer com que, este ano, os pilotos voltem a se negar a correr. Do contrário, o que se terá é um GP onde a possibilidade de grandes acidentes, e mesmo a morte de algum piloto, serão mais um motivo para a atenção do público, além da natural luta pelos primeiros lugares”, ressaltou o texto. Apesar dos riscos, Hunt pareceu se adaptar bem ao veloz e molhado circuito holandês. Tanto que anotou o quinto tempo da sexta, com 1m30s26. O melhor tempo do dia de Niki Lauda (BRM), com 1m29s48.

No sábado, a chuva deu uma trégua. Sem o piso encharcado, a pista se tornou mais rápida e perigosa. Emerson Fittipaldi (Lotus) foi uma das vítimas de Zandvoort. Ao tentar melhorar seu tempo, o brasileiro, campeão de 1972, bateu forte na curva antes da reta dos boxes. O resgate demorou cerca de 5 minutos para chegar até Fittipaldi, que estava preso nas ferragens. Graham Hill (Shadow) e Mike Hailwood (Surtees) pararam para resgatar Emerson. Felizmente, o paulista nada sofreu. Mal sabia Fittipaldi que, no dia seguinte, um outro piloto sofreria acidente semelhante – e não teria a mesma sorte que ele. Na tomada de tempo de sábado, James anotou 1m20s70, colocando seu March num ótimo sétimo lugar no grid de largada. O tempo do britânico foi 1s23 inferior ao obtido por Ronnie Peterson (Lotus), pole em Zandvoort com 1m19s47.

Na largada, Hunt superou a dupla da McLaren e assumiu a quinta posição

Na largada do GP da Holanda, Hunt (na imagem, em 6º) superou a dupla da McLaren ainda na volta 1

A corrida

Em 29 de julho de 1973, 23 carros alinharam para a largada do GP da Holanda, em Zandvoort. Havia um clima de tensão no ar. A previsão era de chuva para a disputa, mas o céu estava cinzento e nebuloso, parecendo prever o que estava por vir. Quando os bólidos partiram rumo à primeira curva, Hunt superou os McLaren de Peter Revson e de Denny Hulme, assumindo o quinto lugar. À frente de James, estavam Peterson, Jackie Stewart (Tyrrell), José Carlos Pace (Surtees) e François Cevert (Tyrrell). O ritmo dos quatro era superior ao do inglês, que era perseguido por Hulme. Na volta 6, Cevert se aproveitou do melhor equipamento para ultrapassar Pace, tomando o terceiro lugar. A partir dali, José Carlos começou a perder rendimento, e James passou a se aproximar do brasileiro da Surtees.

Enquanto Hunt caçava Pace, na volta 8, no fim do pelotão, um acidente traria consequência inestimável. Perseguido por David Purley (March), Roger Williamson (March) acelerava o quanto podia para se sustentar na 13ª posição. Quando Williamson se aproximou da Curva do Túnel Leste, perdeu o controle de seu March 731, possivelmente por um problema no pneu traseiro. O impacto foi inevitável, e o carro de Roger capotou. Depois do choque, o piloto se viu preso nas ferragens do bólido, que pegava fogo. No local, não havia equipe de resgate. Imediatamente, Purley parou no local para tentar tirá-lo. David notou que Roger estava consciente. Ele clamava por rapidez, pois o incêndio se alastrava. Purley tentou virar o carro. Depois, utilizou um extintor. Porém, o March explodiu. David entrou em desespero. Williamson morreu carbonizado pelas chamas e asfixiado pela fumaça. O resgate só chegou ao local cinco minutos após o acidente. Mas já era tarde demais.

David Purley (à dir.) tenta, em vão, salvar Roger Williamson: inglês morreu carbonizado, e a prova não foi paralisada

Purley (à dir.) tenta, em vão, salvar Williamson: inglês morreu carbonizado, e a prova não foi paralisada

Apesar da gravidade do acidente, a corrida não foi paralisada. Apenas uma bandeira amarela acabou sendo acionada no setor. Sem saber do ocorrido com Williamson, os pilotos seguiram na batalha pela vitória em Zandvoort. Na volta 16, James, enfim, conseguiu superar José Carlos – que encarava problemas no motor Ford de seu Surtees – e assumiu o quarto lugar. A partir dali, Hunt manteve seu desempenho. Estava sem condições de ameaçar Peterson, Stewart e Cevert, mas continuava com boa vantagem sobre Hulme. Com o abandono de Denny, na volta 31, Revson passou a ser o principal perseguidor de James. Contudo, o ritmo do inglês da March era bom o suficiente para não sofrer ameaças.

Quando tudo se encaminhava para alcançar mais um lugar na zona de pontos, a sorte sorriu para Hunt. Com problemas na caixa de câmbio de seu Lotus, Peterson viu escapar uma vitória certa e abandonou na volta 66. A seis voltas do final, James assumiu o terceiro lugar para não mais perdê-lo. A vitória ficou com Stewart, seguido por seu companheiro Cevert e pelo novato Hunt, que passava a somar oito pontos em quatro GPs disputados. O bom desempenho seria motivo para muita celebração, não fosse a tragédia envolvendo Williamson, um inglês de 25 anos e calouro na Fórmula 1 – tal como James no dia de seu primeiro pódio na categoria.

Hunt obteve seu primeiro pódio aos 25 anos - mesma idade que Williamson tinha quando morreu

Hunt obteve seu primeiro pódio aos 25 anos – mesma idade que Williamson tinha quando morreu

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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