Austrália-2002: um ‘pódio inesquecível’ para Webber e Minardi

Paul Stoddart (à esq.) e Webber, com a bandeira australiana: top 5 levou Minardi ao pódio em Melbourne

Paul Stoddart (à esq.) e Webber, com a bandeira australiana: top 5 levou Minardi ao pódio em Melbourne

Estrear a bordo do pior carro do grid não parece ser das situações mais agradáveis para um piloto de Fórmula 1. Iniciar uma trajetória com um fraco bólido e diante de seus compatriotas, então, deve ser mais complicado ainda. Porém, o automobilismo não é lógico. Que o diga o australiano Mark Webber. No cockpit da Minardi, o piloto de 25 anos fez sua primeira corrida no GP da Austrália de 2002, no Circuito de Albert Park, em Melbourne. Porém, Webber não estreou: deu show. Diante de 127 mil torcedores, protagonizou um verdadeiro conto de fadas ao alcançar um espetacular quinto lugar. Mesmo sem chegar ao top 3, o impressionante desempenho levou Mark e Paul Stoddart, chefe da equipe, ao pódio em Melbourne. Com direito a champagne do vencedor Michael Schumacher (Ferrari) e a bandeira australiana em mãos, os dois compatriotas celebraram o incrível resultado. Curiosamente, aquele foi o único pódio da Minardi na Fórmula 1. Mesmo sem ter conquistado uma posição entre os três primeiros, o feito de Webber por si só se tornou inesquecível. Os dois pontos obtidos pelo estreante foram os primeiros de um australiano em quase 16 anos – o último havia sido de Alan Jones (Lola), sexto no GP da Itália de 1986, em Monza. Também foi o primeiro top 6 da Minardi desde o GP da Europa de 1999, em Nurburgring – o espanhol Marc Gené obteve o sexto lugar na ocasião. Tudo isso graças a uma condução precisa de Mark. Logo em seu debut, o australiano mostrou suas credenciais ao ‘circo’, assegurando, em apenas uma exibição, um lugar para o restante da temporada.

Mark tinha duas paixões na infância: o automobilismo e o motociclismo

Mark tinha duas paixões infantis: o automobilismo e o motociclismo. Ídolos? Alain Prost e Kevin Schwantz

Nascido em 27 de agosto de 1976, na cidade de Queanbeyan, Mark Alan Webber tinha dois ídolos na infância: Alain Prost, um dos gênios da Fórmula 1, e Kevin Schwantz, norte-americano campeão de Motovelocidade. No início da adolescência, se aventurou sobre duas rodas. Mas foi aos 14 anos que o australiano tomou a definitiva decisão de se dedicar ao automobilismo. Aos 16, tornou-se campeão de kart de Nova Gales do Sul, região da Austrália. O título o credenciou para a Fórmula Ford Australiana. Em 1994, ficou em 14º na temporada. No ano seguinte, obteve o quarto lugar geral. Com os bons resultados, resolveu se arriscar na Europa a partir de 1996. Naquele ano, conquistou o vice-campeonato da Fórmula Ford Britânica. Em 1997, ingressou na Fórmula 3 Inglesa, assegurando o quarto lugar em sua temporada de estreia. Apesar do foco nos monopostos, Webber resolveu dar uma guinada na carreira em 1998, quando passou a competir em protótipos. Pela Mercedes, sagrou-se vice-campeão de FIA GT, ao lado do alemão Bernd Schneider. No ano seguinte, seguiu no time alemão. Porém, um sério acidente durante as 24 Horas de Le Mans de 1999 fez Mark repensar sua trajetória, retomando a carreira nos monopostos. No fim daquele ano, realizou, na Arrows, seu primeiro teste num Fórmula 1. Os bons tempos em Barcelona fizeram com que assinasse como terceiro piloto da escuderia na temporada de 2000. Ao mesmo tempo, participaria da Fórmula 3000, categoria de acesso à F1. Naquele ano, conquistou o terceiro lugar.

Paul Stoddart colocou Webber na lacuna deixada por Fernando Alonso

Por intermédio de Flavio Briatore, Paul Stoddart colocou Webber na lacuna deixada por Fernando Alonso

Em 2001, deixou a Arrows e passou a ser testador da Benetton, após firmar acordo com Flavio Briatore. Já na F3000, alcançou o vice-campeonato. Após uma trajetória com bons resultados, faltava a ‘cereja do bolo’ – ou seja, ingressar na Fórmula 1. Agente de pilotos, Briatore passou a procurar uma vaga para Mark em 2002. Todavia, a saída encontrada pelo italiano foi promover uma dança das cadeiras entre seus pupilos. Para o lugar de Webber como piloto de testes da Renault (antiga Benetton), Flavio colocou Fernando Alonso. A lacuna deixada pelo espanhol na Minardi acabaria sendo preenchida pelo australiano. Dessa forma, Webber se tornava o primeiro piloto de seu país na F1 desde 1994, quando David Brabham defendeu a Simtek. Pilotar a Minardi estava longe de ser um sonho. Prova disso havia sido o desempenho de Alonso no time de Faenza em 2001. O ponto alto do espanhol naquele ano foi um 10º lugar no GP da Alemanha, em Hockenheim. Não bastasse o péssimo retrospecto da equipe, o contrato firmado por Webber com Paul Stoddart era para a disputa das três primeiras provas de 2002. Tudo levava a crer que Mark teria uma experiência efêmera na Fórmula 1. Todavia, o australiano soube aproveitar a oportunidade que teve como se fosse a última. A bordo do PS02, impulsionado por um motor Asiatech, Webber tratou de pisar fundo durante o fim de semana no Circuito de Albert Park.

Dois estreantes em ação nos treinos de sábado, em Melbourne: Webber e Felipe Massa (Sauber)

Dois estreantes em ação nos treinos de sábado, em Melbourne: Webber e Felipe Massa (Sauber)

Mark utilizou a sexta-feira para se adaptar ao carro da Minardi na pista australiana. No dia seguinte, porém, veio o grande momento. Webber se aproveitou do tempo instável de Melbourne e foi para a pista no início do treino oficial. Logo, anotou 1m30s086, um tempo superior ao anotado pela experiente dupla da Jaguar – Eddie Irvine (1m30s113) e Pedro de la Rosa (1m30s192) – e 1s318 mais veloz que o de Alex Yoong (1m31s504), seu companheiro de Minardi. Além disso, viu Takuma Sato (Jordan) só andar sob pista molhada, o que rendeu ao australiano a 18ª posição do grid. A pole para o GP da Austrália ficou com Rubens Barrichello (Ferrari), com 1m25s843 – 4s243 mais rápido que o calouro.

Acidente múltiplo na largada do GP da Austrália colocou Webber entre os primeiros

Acidente múltiplo na largada do GP da Austrália foi fundamental para colocar Mark entre os primeiros

A corrida Domingo, 3 de março de 2002. Naquele dia ensolarado, típico do verão australiano, seria dado o início daquela temporada. Para Webber, significaria o início de uma carreira na Fórmula 1. Mal sabia ele que, 58 voltas depois, sairia consagrado de Albert Park. Porém, para que Mark chegasse à zona de pontos em Melbourne, uma hecatombe deveria ocorrer no GP da Austrália. E ela veio logo na largada. Depois de sair na pole, Rubens Barrichello (Ferrari) acabou sendo abalroado por Ralf Schumacher (Williams). Com o toque, o alemão voou sobre o carro do brasileiro. Após o acidente, houve um efeito dominó, e outros seis pilotos acabaram se envolvendo na confusão da Curva 1: Giancarlo Fisichella (Jordan), Felipe Massa (Sauber), Nick Heidfeld (Sauber), Jenson Button (Renault), Olivier Panis (BAR) e Allan McNish (Toyota) abandonaram depois do incidente. Com o imbróglio, a bandeira amarela foi agitada e o safety car entrou na pista. Webber saiu mal, devido um problema no sistema de controle de largada. Contudo, há males que vêm para o bem. Como ficou para trás, Mark pôde se livrar com cautela dos acidentes da Curva 1, completando a volta 1 em um expressivo oitavo lugar. A relargada foi dada na volta 5, e o australiano da Minardi conseguiu manter sua posição. Entretanto, duas voltas depois, o calouro acabou sendo superado por Kimi Raikkonen (McLaren). Na volta 8, foi a vez de Jacques Villeneuve (BAR) ultrapassar Webber. Na passagem seguinte, Jarno Trulli (Renault) escapou e bateu sozinho, deixando seu bólido destruído na pista.

Webber, à frente de Irvine, De La Rosa e Yoong: tarefa árdua do australiano da Minardi no Albert Park

Webber na volta de apresentação, à frente de Irvine, De La Rosa e Yoong: tarefa árdua do australiano

Com o acidente do italiano, o safety car retornou à pista, e Mark voltou para a nona posição. Sob bandeira amarela, Villeneuve foi para os boxes, e o australiano recuperou o oitavo lugar. Na volta 11, ainda com o carro de segurança à frente do pelotão, foi a vez de Takuma Sato (Jordan) realizar seu pit stop, o que reconduziu Webber para a sétima colocação. A relargada veio na volta 12, e o estreante seguiu em sua posição, à frente de seu companheiro, Alex Yoong (Minardi). O australiano não conseguia perseguir Pedro de La Rosa (Jaguar), o sexto, mas se mantinha à frente do malaio. Na volta 18, De La Rosa foi aos boxes, e Mark entrou pela primeira vez na zona de pontos de uma etapa de Fórmula 1. A situação ficaria melhor para Webber na volta 25. Com problemas na transmissão de seu bólido, David Coulthard (McLaren) perdeu rendimento e foi aos boxes. Dessa forma, o australiano da Minardi ascendeu para o quinto lugar. Ali permaneceu até a volta 36, quando realizou sua primeira e única parada. No retorno à pista, se viu em sexto. Porém, na passagem seguinte, retomou a quinta posição, após o pit stop de Yoong. Naquele momento, haviam apenas oito carros na pista. Logo, pontuar passou a ser uma possibilidade real para Mark e para a Minardi. Todavia, o quinto posto não estava assegurado. Atrás do australiano, estava Mika Salo (Toyota).

Bandeirada para Mark Webber: o estreante celebrou o quinto lugar como se fosse uma vitória. E foi mesmo

Mark, à frente de Salo (ao fundo): o estreante celebrou o 5º lugar como se fosse uma vitória. E foi mesmo

A bordo de um carro estreante em Mundiais, Salo estava mais veloz que Webber. Natural, uma vez que a Toyota investiu bastante para ingressar na Fórmula 1 em 2002. Alcançar um top 5 logo na estreia seria importante para a equipe japonesa. Porém, para atingir essa meta, teria que superar Mark. Correndo com total apoio da torcida, o australiano passou as últimas voltas da corrida sob intensa pressão do finlandês. E foi o calor vindo das arquibancadas que impulsionou Webber na batalha pela quinta posição. Até que veio a volta 56. A última do GP da Austrália. Mika partiu para o ataque sobre Mark. Na tentativa de ultrapassar o australiano, o escandinavo se afobou e escapou da pista. Ainda assim, ficou com o sexto lugar, garantindo à Toyota seu primeiro ponto na categoria. A rodada de Salo levou o público de Albert Park ao delírio: Webber estava com o quinto lugar assegurado. Michael Schumacher (Ferrari) venceu em Melbourne, seguido por Juan Pablo Montoya (Williams), Raikkonen e Irvine. Porém, poucos se importaram com esse resultado. Afinal, a celebração seria toda voltada para o quinto colocado. Os mecânicos da Minardi se engalfinhavam para encontrar um lugar no pit lane e saudar Webber. Enquanto isso, Mark levava seu PS02 com extremo cuidado após a escapada de Salo. Com a tranquila vantagem, o australiano pôde curtir o momento, a ponto de acenar para o público na última curva. A torcida explodiu em êxtase quando Webber cruzou a linha de chegada. O estreante vibrou com entusiasmo dentro do carro. Parecia que ele havia ganhado a corrida. E tinha: o quinto lugar era uma vitória para Mark e a Minardi.

Celebração nos boxes da Minardi: foram os únicos pontos do time em 2002

Celebração na Minardi: os mecânicos pareciam imaginar que seriam os únicos pontos do time em 2002

O feito foi tão exaltado que não coube no box da escuderia italiana. Webber e o chefe da equipe, o também australiano Paul Stoddart, subiram ao pódio. Com uma enorme bandeira da Austrália, Mark pôde usar a garrafa de champagne deixada por Schumacher para festejar a façanha. O quinto lugar de Melbourne foi um desfecho perfeito para a estreia de Webber na Fórmula 1. Logo em sua primeira exibição, o australiano conquistou o auge no time de Faenza – depois, disputou outras 16 corridas em 2002 e não pontuou. Graças a esses dois pontos, Webber sedimentou seu lugar na categoria máxima do automobilismo, onde traçou uma respeitável carreira – que se estendeu até 2013. https://www.youtube.com/watch?v=E8qG3qWIjx8

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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