Áustria-1973: Pace espanta azar e conquista primeiro pódio

Pace (à dir.), com Stewart e Peterson no pódio de Osterreichring: primeiro top 3 veio com abandono de Fittipaldi

Pace (à dir.), com Stewart e Peterson no pódio de Osterreichring: 3º lugar veio com abandono de Fittipaldi

José Carlos Pace (Surtees) encarava uma tremenda maré de azar na temporada de 1973. Nas 10 primeiras corridas daquele ano, o brasileiro havia passado longe da zona de pontos. Foram seis abandonos, sendo dois por envolvimento do brasileiro em acidentes, e quatro em razão da ineficácia do modelo TS14A. Apenas em quatro ocasiões, Pace havia conseguido alcançar a bandeira quadriculada. Todavia, longe do top 6. A situação pareceu mudar na 11ª etapa do Mundial – no GP da Alemanha, em Nurburgring, obteve o quarto lugar e marcou a volta mais rápida da etapa. Os três primeiros pontos na Surtees impulsionaram José Carlos para a prova seguinte. No GP da Áustria, em Osterreichring, o paulista teve um desempenho soberbo. Pela segunda vez consecutiva, anotou uma flying lap. E, desta vez, contou com uma dose de sorte. Com o abandono do compatriota Emerson Fittipaldi (Lotus), a seis voltas do final, Moco herdou o terceiro lugar e alcançou seu primeiro pódio na carreira.

“Provei a todos que também sei correr”. Foi assim, em tom de desabafo, que Pace celebrou a terceira colocação em Osterreichring, de acordo com reportagem publicada na edição de 20 de agosto de 1973, da Folha de S. Paulo. Moco teve um fim de semana onde tudo se encaixou. Depois da apresentação positiva em Nurburgring, a Surtees utilizou o set up da prova germânica – ocorrida duas semanas antes – para a prova austríaca. Isso ocorreu pois há semelhanças nas características dos dois traçados – ambos de alta velocidade. Foi apostando nisso que José Carlos partiu atrás de mais um bom resultado. Na sexta, primeiro dia de treinos, anotou o nono melhor tempo do dia, com 1m37s55, cinco centésimos mais veloz que Mike Hailwood, seu companheiro de equipe, 10º com 1m37s60. O melhor tempo ficou com Ronnie Peterson (Lotus), que fez 1m35s37, 2s18 mais rápido que o brasileiro.

A temporada de 1973 não vinha sendo das mais fáceis para Moco: nas 10 primeiras etapas, nenhum ponto

A temporada de 1973 não vinha sendo das mais fáceis para Moco: nas 10 primeiras etapas, nenhum ponto

No sábado, Pace voltou a mostrar boa adaptação aos 5.911m do circuito austríaco. Em harmonia com o TS14A, o paulista foi 1s07 mais rápido do que no dia anterior. Com 1m36s48, Moco conquistou um excelente oitavo lugar no grid, apenas 0s04 atrás de Jackie Stewart (Tyrrell), líder incontestável daquela temporada e sétimo no treino oficial, e 1s50 de Emerson Fittipaldi (Lotus), campeão de 1972 e pole position, com 1m34s98. Já seu parceiro na Surtees, Hailwood, ficou com o mesmo tempo da sexta, tendo que se consolar com o 15º lugar no grid. A diferença de 1s12 para Mike só comprovou o quanto o brasileiro vivia uma boa fase na escuderia de John Surtees. Não somente isso: pontuar no GP da Áustria passou a ser um objetivo possível para José Carlos.

Nas primeiras voltas, Pace tentou (em vão) segurar Cevert: francês abandonaria logo depois

Nas primeiras voltas, Pace tentou (em vão) segurar Cevert: francês abandonaria logo depois

A corrida

Em 19 de agosto de 1973, 23 carros alinharam para a disputa da etapa austríaca. O dia estava ensolarado em Osterreichring, um cenário ideal para Pace brilhar. Na largada, o brasileiro superou Peter Revson (McLaren) – que ficou parado no grid – para assumir a sétima posição. Na volta 3, porém, não resistiu ao ataque de François Cevert (Tyrrell). Com melhor equipamento, o francês superou o brasileiro, que retornou à oitava colocação. Três voltas depois, Cevert se enroscou com Arturo Merzario (Ferrari) e levou a pior, sendo obrigado a abandonar a corrida. Sem François, Moco recuperou o sétimo lugar. A partir daí, José Carlos passou a pressionar Merzario. Na volta 10, o brasileiro da Surtees ultrapassou o italiano da Ferrari, assumindo a sexta posição.

Na volta 13, Denny Hulme (McLaren) teve um pneu furado, sendo obrigado a ir para os boxes. Após a troca, o neozelandês voltou no fim do pelotão. Sem Hulme, Pace alcançou a quinta colocação. Na volta 18, José Carlos se lançou para o ataque sobre Carlos Reutemann (Brabham), superando o argentino. A quarta posição parecia o máximo que Moco poderia almejar na prova. À sua frente, estavam Emerson Fittipaldi (Lotus), Ronnie Peterson (Lotus) e Jackie Stewart (Tyrrell). O trio contava com os melhores equipamentos daquela temporada. Ainda assim, o brasileiro da Surtees tinha ciência de que Stewart, terceiro colocado, enfrentava problemas de rendimento.

Moco persegue Reutemann: ao ultrapassar o argentino, brasileiro da Surtees assumiu o quarto lugar

Moco persegue Reutemann: ao ultrapassar o argentino, brasileiro da Surtees assumiu o quarto lugar

Aos poucos, José Carlos tirava diferença com relação a Jackie. O sonho do pódio começava a ficar palpável. Na volta 46, Moco acelerou tudo e anotou 1m37s29, assegurando a volta mais rápida do GP da Áustria. Apesar de descontar a vantagem do escocês da Tyrrell, seria o acaso que daria o top 3 para Pace: na volta 48, Fittipaldi, com vazamento de combustível, foi forçado a deixar a etapa quando estava na liderança. Dessa forma, Peterson herdou o primeiro lugar, Stewart, o segundo, e Moco, o terceiro. Apesar do pódio assegurado, o brasileiro da Surtees queria mais. Quando já tinha Jackie em sua alça de mira, a duas voltas do fim, o combustível de seu TS14A começava a terminar.

José Carlos fez um esforço tremendo para cruzar a linha de chegada em terceiro, com 1s27 de vantagem sobre Reutemann, o quarto. A vitória ficou com Peterson, seguido por Stewart. Mas quem estampava o sorriso mais largo no pódio de Osterreichring era Pace. O brasileiro não continha sua alegria. Afinal, era seu primeiro pódio na carreira. Aquele também seria o segundo – e último – top 3 da Surtees. Foi o auge da passagem de Moco no time de John Surtees. Depois, o máximo que alcançou foi o quarto lugar no GP do Brasil de 1974, em Interlagos. Mesmo assim, em Osterreichring-1973, o brasileiro tirava a nuvem negra de sua carreira. Pace, enfim, era feliz na Fórmula 1.

No fim, Pace celebrou o primeiro pódio da carreira, e a Surtees, o segundo e último top 3 de sua trajetória

No fim, Pace celebrou o primeiro pódio da carreira, e a Surtees, o segundo e último top 3 de sua trajetória

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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Uma resposta a Áustria-1973: Pace espanta azar e conquista primeiro pódio

  1. Eduardo Batera diz:

    Corrida sensacional!! Quando víamos pela TV, nos anos 70, era tão emocionante quanto.

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