Hungria-1995: o cruel abandono de Rubens Barrichello

Depois de largar em 14º, Rubens Barrichello rumava para o pódio, mas abandonou antes da linha de chegada

Depois de largar em 14º, Rubens Barrichello seria terceiro, mas abandonou antes da linha de chegada

Abandonar uma corrida sempre é decepcionante. Não completar uma disputa depois de fazer uma boa apresentação, costuma frustrar mais ainda. Agora, largar em 14º com um problemático Jordan e deixar escapar um terceiro lugar a alguns metros da linha de chegada, em razão de uma bizarra quebra de motor, deixa qualquer um com os nervos à flor da pele. Rubens Barrichello ficou aos prantos diante do tremendo azar ocorrido no GP da Hungria, disputado em 13 de agosto de 1995, em Hungaroring. Ao invés de celebrar o segundo pódio naquela difícil temporada – já havia conquistado o segundo posto no GP do Canadá, em Montreal -, o brasileiro amargou a sétima posição. Barrichello saiu do autódromo húngaro sem pódio, sem pontos e sem sorrir. Em resumo, Rubens nadou, nadou e nadou, mas morreu na praia.

O ano de 1995 para o brasileiro e para a Jordan não estava sendo proveitoso. Excetuando o excelente resultado de Montreal, quando a escuderia somou 10 pontos – além do segundo lugar de Rubens, Eddie Irvine conquistou o terceiro posto -, o time de Eddie Jordan havia conquistado apenas outros 3 pontos – graças ao quinto lugar do norte-irlandês no GP da Espanha, em Montmeló, e à sexta posição de Barrichello no GP da França, em Magny-Cours. O saldo de 13 pontos em nove etapas estava abaixo da expectativa para aquela temporada. Ainda mais se comparado ao bom desempenho de 1994, quando a Jordan ficou em quinto no Mundial de Construtores – atrás apenas de Williams, Benetton, Ferrari e McLaren -, e Barrichello, em sexto na classificação dos Pilotos.

Barrichello e Irvine posam com membros da Peugeot: em 1995, motor francês foi o calcanhar de Aquiles da Jordan

Barrichello e Irvine posam com membros da Peugeot: em 1995, motor foi calcanhar de Aquiles da Jordan

A falta de resultados recaía nas costas da Peugeot. A montadora francesa havia se tornado a fornecedora de motores da Jordan no lugar da Hart. Em 1994, o propulsor havia impulsionado a McLaren, conquistando oito pódios. Na escuderia de Eddie Jordan, porém, a versão V10 foi um fiasco, sendo caracterizado pela falta de confiabilidade durante as provas. E era com esse calcanhar de Aquiles que o time irlandês desembarcava em Hungaroring, palco do GP da Hungria de 1995. Na travada e exigente pista húngara, Barrichello e Irvine demonstravam preocupação com a condição do equipamento para a etapa, que seria disputada em meio ao tórrido verão europeu.

Já na sexta-feira, Rubens se viu em meio a problemas com o motor Peugeot. Com pouco tempo de pista, obteve o 12º tempo da primeira sessão oficial, com 1m21s874. Eddie acabou ficando com a nona marca – 1m21s246. No treino que definiu o grid para o GP da Hungria, no sábado, as dificuldades aumentaram para o brasileiro. Na sessão decisiva, deu apenas três voltas com o seu modelo 195. Motivo: falha do propulsor francês, para variar. Dessa forma, teve que esperar para usar o carro de Irvine. No fim, arrancou 1m20s902, conquistando um tímido 14º lugar. Eddie, por sua vez, foi 1s403 mais rápido que o companheiro, fazendo 1m19s499, o que lhe assegurou a sétima posição. A pole ficou com Damon Hill, que anotou 1m16s982 – 3s920 à frente de Barrichello.

Na largada, Rubens superou Luca Badoer (Minardi) e assumiu o 13º lugar

Na largada, Rubens (ao fundo) superou Luca Badoer (Minardi) e assumiu o 13º lugar

A corrida

Hungaroring sempre se caracterizou por levar os carros ao limite. Logo, para quem ocupava o cockpit de um bólido nada confiável, a missão era penosa. Saindo do meio do grid com um Jordan impulsionado por um discutível motor Peugeot, Rubens tinha consciência de que passaria por maus bocados no GP da Hungria de 1995. Com o sol em sua plenitude, 24 carros alinharam para a disputa da 10ª etapa do Mundial daquele ano. Na largada, Barrichello superou Luca Badoer (Minardi) e completou a volta 1 em 13º. O brasileiro ganhou a 12ª posição na volta 4, quando Mika Hakkinen (McLaren) deixou a corrida com problemas de motor.

A partir dali, a prova de Rubens passou a depender da estratégia adotada pela Jordan. A equipe traçou que o paulistano pararia duas vezes nos boxes, sendo que a primeira seria realizada depois de um longo ‘stint’. Ao permanecer por mais tempo na pista, Barrichello ganharia posições dos pilotos que adotassem três paradas para a corrida. Os primeiros carros foram aos boxes na volta 18. Com as paradas de Gerhard Berger (Ferrari), Martin Brundle (Ligier) e Eddie Irvine (Jordan), o brasileiro foi para o nono lugar. Depois do pit stop de Olivier Panis (Ligier), na passagem seguinte, Rubens assumiu a oitava colocação. Após a ida aos boxes de Jean Alesi (Ferrari) e Johnny Herbert (Benetton), na volta 20, Barrichello se viu na zona de pontuação.

Momento pastelão de Hungaroring-1995: Taki Inoue (Arrows) é atropelado por fiscais

Momento pastelão de Hungaroring-1995: Taki Inoue (Arrows) é atropelado por fiscais

A ascensão do brasileiro da Jordan seguiu na volta 24. Com a parada de Heinz-Harald Frentzen (Sauber), Rubens alcançou o quinto lugar. Porém, seus pneus estavam no limite. Na volta 26, enfim, foi aos boxes. No retorno à pista, se viu em 10º, à frente de Panis e Frentzen – pilotos que andavam à frente de Barrichello antes do pit stop. O paulistano só foi ganhar posições com a nova janela de paradas. Na volta 35, Irvine foi aos boxes, fazendo com que Rubens retomasse o nono lugar. Duas voltas depois, Berger e Herbert realizaram seus pit stops, colocando Barrichello em sétimo. Com a ida de Brundle aos boxes, na 38, o piloto da Jordan voltou à sexta colocação.

A tática surtia efeito. Na volta 42, Alesi, com o estouro do motor Ferrari, foi obrigado a deixar a etapa húngara. Sem o francês, Rubens andava no top 5. Ali prosseguiu até a volta 48, quando fez seu segundo e definitivo pit stop. No retorno, estava em nono – havia ganhado a posição de Berger na base da estratégia. Com a parada de Frentzen, na passagem seguinte, assumiu o oitavo lugar. Na volta 53, o terceiro pit stop de Irvine reconduziu Barrichello à sétima colocação. Na passagem seguinte, Mark Blundell (McLaren) padeceu da mesma causa que vitimou seu companheiro Hakkinen – quebra do motor Mercedes – e deixou a corrida, elevando Rubens ao sexto lugar.

Com uma tática eficiente, Barrichello ascendeu na etapa húngara e ingressou na zona de pontos

Com uma tática eficiente, Barrichello ascendeu na etapa húngara e ingressou na zona de pontos

A terceira parada de Brundle, na volta 57, fez com que Barrichello assumisse a quinta posição. Três voltas depois, a definitiva parada de Herbert pôs o paulista na quarta posição. A estratégia havia dado certo. As duas paradas elevaram Rubens de forma incrível em Hungaroring. A constância do brasileiro e a eficiência da Jordan deixavam o piloto atrás somente de Damon Hill (Williams), Michael Schumacher (Benetton) e David Coulthard (Williams). Além disso, o colocavam com uma confortável diferença para Berger. Quando tudo parecia crer que Barrichello levaria três pontos para casa, o improvável aconteceu: na volta 74, uma pane elétrica fez com que Schumacher abandonasse. Rubens herdava o terceiro lugar a três voltas do fim, para delírio dos mecânicos da Jordan.

A sorte parecia acompanhar o brasileiro. A festa pelo pódio estava preparada. Os funcionários do time irlandês se encaminharam para o pit lane para saudar a façanha de Barrichello. Porém, o imponderável deu as caras em Hungaroring. Depois de contornar a última curva, Rubens acionou o acelerador. Todavia, o motor Peugeot não respondeu. Mais uma vez, a válvula do sistema pneumático do propulsor falhou. O modelo 195 de Rubens parou em plena Reta dos Boxes, a alguns metros da bandeira quadriculada. Do seu carro, o brasileiro viu Berger, Panis e Frentzen completarem a prova.

Do seu carro (ao fundo), Barrichello observa Berger, Herbert e Frentzen completarem a prova

Do seu carro parado (ao fundo), Barrichello observa Berger, Herbert e Frentzen completarem a prova

Ao brasileiro, restou o amargo sétimo lugar e nenhum ponto. “Estou muito chateado. Acho que ninguém da equipe merecia passar por isso. Estávamos em terceiro por uma questão de sorte, pois o Schumacher estava fora. Mas preferia que meu carro tivesse quebrado antes, para não ser tão chato. Na última curva, é muito triste”, desabafou, em entrevista concedida à TV Globo logo depois da prova, em Hungaroring. Sobre seu desempenho, Rubens destacou a participação dos membros da Jordan e voltou a criticar a Peugeot.

“Para a gente, essa seria a pior pista. Ainda assim, andamos entre os três primeiros, jogando em cima da tática. A equipe foi bem nas trocas dos boxes. E tudo funcionou perfeitamente até a quebra da válvula pneumática do motor. Perceber os mesmos sinais (de problemas) que ocorreram nas últimas corridas, é uma coisa muito chata. Foi covardia tirar esse terceiro lugar da gente”, lamentou o brasileiro, que, à edição de 14 de agosto de 1995, da Folha de S. Paulo, relatou ter pensado inicialmente que o combustível havia terminado. Porém, era novamente o propulsor.

Abandono aconteceu porque dispositivo impedia que motor soltasse fumaça

Abandono aconteceu porque dispositivo desligava motor Peugeot, a fim de que não soltasse fumaça

Barrichello superou o retumbante fracasso de Hungaroring-1995 e seguiu sua carreira. Mas jamais engoliu o que aconteceu naquele fim de semana.Treze anos depois, às vésperas de quebrar o recorde de corridas disputadas na Fórmula 1, no GP do Canadá de 2008, em Montreal, lembrou do quanto ficou irritado na ocasião. “Há muitas vezes em que você quer sumir, em que o erro não é seu, mas você paga o preço. O motor Peugeot tinha um dispositivo que desligava antes de quebrar, porque eles não queriam mostrar fumaça. Se ele tivesse estourado, eu teria cruzado a linha de chegada em terceiro. Aquilo foi de uma indelicadeza… Queria sumir”, contou Rubens, em entrevista publicada na edição de 8 de junho de 2008, da Folha de S. Paulo.

Advertisements

Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
Esta entrada foi publicada em Eddie Irvine, Eddie Jordan, Heinz-Harald Frentzen, Hungaroring, Hungria, Jordan, Ligier, Luca Badoer, Martin Brundle, Minardi, Olivier Panis, Rubens Barrichello, Sauber. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s