Alemanha-1985: a épica pole de Teo Fabi com a Toleman

Em Nurburgring, Fabi surpreendeu a Fórmula 1 ao colocar o Toleman TG185 na pole do GP da Alemanha

Em Nurburgring, Fabi surpreendeu a Fórmula 1 ao colocar o Toleman TG185 na pole do GP da Alemanha

O acaso sempre fez parte da Fórmula 1. Ao longo da história, façanhas inesperadas marcaram o folclore da categoria máxima do automobilismo. Mas uma delas foi tão surpreendente quanto efêmera. Em 4 de agosto de 1985, Teo Fabi alinhava seu Toleman na pole position do GP da Alemanha, disputado no célebre autódromo de Nurburgring. Era a primeira vez que o italiano conquistava a posição de honra do grid, e a primeira (e única) de um carro da escuderia inglesa. O feito de Fabi e da Toleman caiu do céu, já que seu melhor tempo foi anotado no treino oficial da sexta-feira – no sábado, uma chuva torrencial impediu que os pilotos alcançassem Teo. Porém, nem o milanês, tampouco a equipe, esperavam que o sonho fosse tão breve. Após o sinal verde, o piloto soltou a embreagem, mas o TG185 patinou. A liderança acabou ainda na largada da etapa alemã. A mesma embreagem que o tirou da ponta também o traiu na volta 29, forçando o italiano a abandonar a corrida quando era o sexto.

Apesar de todos os problemas enfrentados na prova germânica, Fabi deixou sua marca já numa época em que deveria ter desabrochado na categoria máxima do automobilismo – ao anotar a pole, estava com 30 anos. Também pudera: começou tarde no esporte a motor. Nascido em 9 de março de 1955, em Milão, Teodorico Fabi dedicou-se primeiramente ao esqui. Neto de brasileiros, chegou a disputar torneios internacionais da modalidade sob as cores do país sul-americano. Entretanto, não obteve sucesso. Depois de se aventurar no esqui, Teo partiu para o esporte a motor, sagrando-se campeão europeu de kart aos 20 anos, em 1975. Dois anos depois, veio a conquista do Campeonato Europeu de Fórmula Ford 1600. Em 1978, continuou sendo bem-sucedido – no Campeonato Europeu de Fórmula 3, venceu três das sete etapas que disputou.

Neto de brasileiros, Teo Fabi começou tarde no automobilismo: primeira paixão foi o esqui

Neto de brasileiros, Teo Fabi começou tarde no automobilismo: primeira paixão foi o esqui

Em 1979, quando tinha 24 anos, Fabi passou a disputar a Fórmula 2, categoria de acesso à Fórmula 1. Na estreia, conquistou um convincente 10º lugar na classificação geral. Mas foi no ano seguinte, em 1980, que Teo brilhou: com três vitórias, assegurou o terceiro lugar no campeonato. Apesar dos bons resultados, a idade pesava contra o italiano. As portas da F1 não se abriram em 1981, e o milanês mudou o rumo de sua carreira, partindo para o automobilismo norte-americano. Fabi participou da Can-Am, sagrando-se vice-campeão. Em 1982, enfim, a Fórmula 1 surgiu para Teo. Todavia, por uma porta não muito convidativa: a Toleman, uma equipe que estreou na categoria máxima do automobilismo em 1981, deu a chance para o italiano. Foi um fiasco: Fabi se classificou para 7 das 14 etapas em que esteve inscrito, não terminando nenhuma delas.

Sem sucesso, Teo retornou para os Estados Unidos em 1983. Desta vez, disputou a Fórmula Indy. Na principal categoria de monopostos norte-americana, deu show. Foi o melhor estreante do ano, obtendo quatro vitórias e cinco poles (uma delas nas 500 Milhas de Indianapolis). No fim, foi vice-campeão, 5 pontos atrás do experiente Al Unser Sr.. As exibições na Indy convenceram a Parmalat, principal patrocinadora da Brabham, a apoiar Fabi. O italiano ficou com a vaga do compatriota Riccardo Patrese para a disputa da temporada de 1984. Contudo, havia um impasse: Teo tinha um compromisso com a Forsythe, seu time na Indy. A solução encontrada? Competir simultaneamente nas duas categorias. No caso de haver corridas marcadas para a mesma data, seria substituído pelo seu irmão mais novo, Corrado Fabi.

Em 1984, Teo (à esq.) se dividiu entre a F1 e a Indy: aqui, ao lado de Corrado, seu irmão, e de Nelson Piquet

Em 1984, Teo (à esq.) se dividiu entre a F1 e a Indy: aqui, ao lado de Corrado, seu irmão, e de Nelson Piquet

Dividir-se entre a F1 e a Indy foi um tremendo erro. Inicialmente, Teo deixava o cockpit da Brabham nas mãos de Corrado e partia para os Estados Unidos, onde defendia a Forsythe. Os resultados não vieram nas duas categorias, e Teo passou a se dedicar exclusivamente ao time de Bernie Ecclestone, enquanto Corrado ficou na Indy. No fim, um saldo satisfatório na Fórmula 1: 12 pontos e o nono lugar do Mundial, com destaque para o terceiro lugar no GP dos Estados Unidos-Leste, em Detroit, após a desclassificação de Martin Brundle e da Tyrrell do campeonato. Apesar disso, a Brabham não renovou seu contrato para a temporada seguinte.

Teo estava sem equipe e sem destino para 1985. A Toleman, por sua vez, estava sem pneus e sem piloto para o início daquela temporada. Explica-se: o time não aceitava mais ter a Pirelli como fornecedora. A opção recaiu sobre a Michelin. Todavia, a fabricante francesa se retirou da categoria, e a equipe britânica ficou literalmente ‘descalça’. Dessa forma, a Toleman demitiu Stefan Johansson e John Watson, encerrando suas atividades apesar de ter um modelo (o TG185) pronto. Porém, após o GP de San Marino, em Imola, a escuderia pagou à Spirit – que encerraria suas atividades – pelo contrato que ela tinha com uma fabricante de pneus: justamente a Pirelli.

Com pneus Pirelli e Teo Fabi no cockpit, a Toleman iniciou sua participação em 1985

Com pneus Pirelli e Teo Fabi no cockpit, a Toleman iniciou sua participação em 1985 no GP de Mônaco

Às pressas, a Toleman assinou contrato com a Benetton, marca que ingressava no automobilismo. A patrocinadora só fez uma exigência: que o único cockpit da equipe fosse destinado para um piloto italiano. Dessa forma, Fabi retornou ao time britânico depois de três anos. Todavia, a equipe em nada parecia à do ano anterior, em que Ayrton Senna obteve três pódios. Nas cinco primeiras provas disputadas em 1985, Teo não viu a bandeira quadriculada. O cenário era aterrorizante quando o italiano e o time desembarcaram em Nurburgring, palco do GP da Alemanha. Porém, havia uma esperança: a Toleman trazia um motor Hart com novo sistema de gerenciamento eletrônico de injeção de combustível, aumentando a potência do propulsor, bastante exigido no circuito alemão.

Assim que o TG185 entrou na pista de Nurburgring, parecia se sentir em casa. Com um chassis eficiente e um propulsor com novas especificações, a Toleman voava no traçado germânico. Teo anotou o melhor tempo dos primeiros treinos livres, na sexta-feira. Na sequência, na sessão oficial, o italiano fez o que parecia impossível. Com 1m17s429, Fabi assombrou o circo ao ficar em primeiro. Para se ter uma ideia, o segundo colocado, Stefan Johansson (Ferrari), anotou 1m18s616 – 1s187 atrás do italiano.

O ritmo imposto por Teo foi notável. Porém, dúvidas ainda pairavam sobre o potencial da Toleman no ‘circo’ – até porque ainda havia um dia de treinos. Pole? Só se chovesse em Nurburgring no sábado. Não se sabe se o italiano com sangue brasileiro fez uma dança da chuva, mas uma tempestade caiu no autódromo tedesco. Ninguém pôde bater o tempo de Fabi. A pole estava assegurada. Porém, a Toleman mandou Teo para a pista, com o intuito de se adaptar ao traçado molhado. A iniciativa foi catastrófica: o piloto sofreu um acidente que destruiu o TG185, deixando-o desacordado. Apesar do grande susto, o milanês se recuperou a tempo para a disputa do GP da Alemanha.

Na largada do GP da Alemanha, Fabi perdeu diversas posições após sair na pole

Na largada do GP da Alemanha, Fabi perdeu sete posições: da pole position para o oitavo lugar

A corrida

Diferentemente do sábado, o clima estava propício para uma disputada etapa. Com pista seca, a pressão sobre Fabi era grande. Afinal, o italiano teria condições de segurar os melhores do mundo atrás do TG185? A resposta, porém, nunca pôde ser vista. Quando a luz verde foi acionada, Teo engatou a primeira marcha. Entretanto, seu Toleman respondeu tardiamente ao comando. Nos primeiros segundos da prova germânica, Fabi perdeu a liderança da prova. Não só isso: despencou na classificação. Ao contornar a primeira curva, estava na oitava posição. A partir dali, o italiano não tinha muito mais a fazer. Sem condições de acompanhar Nelson Piquet (Brabham), Teo se preocupou primeiro em segurar Riccardo Patrese (Alfa Romeo). Com a quebra de seu compatriota, na volta 8, pela quebra na caixa de câmbio, passou a ser perseguido por Thierry Boutsen (Arrows).

Na volta 23, problemas de turbo tiraram Piquet da corrida. Com o abandono do brasileiro da Brabham, Fabi assumiu a sétima posição. Quatro voltas depois, Ayrton Senna (Lotus), o líder da prova, enfrentou problemas de suspensão e foi forçado a deixar a prova. Com isso, Teo alcançou a sexta colocação. A ascensão do italiano, todavia, acabaria na volta 29: a embreagem, que lhe fez perder a liderança ainda na largada, falhou definitivamente. O sonho de pontuar ficou pelo caminho. A vitória em Nurburgring ficou com Michele Alboreto (Ferrari), seguido por Alain Prost (McLaren) e Jacques Lafitte (Ligier).

Foi a primeira pole de Fabi, e a única da Toleman na F1

Foi a primeira pole de Fabi, e a única da Toleman na categoria máxima do automobilismo

À Fabi, restou a sensação de ocupar a posição de honra do grid pela primeira vez na carreira – o italiano faria outras duas poles em 1986, nos GPs da Áustria, em Zeltweg, e da Itália, em Monza. O primeiro lugar na largada, porém, nunca significou completar uma volta na liderança na F1 para Teo – assim como em Nurburgring-1985, o milanês não liderou as corridas em que saiu na ponta. Graças ao piloto, a Toleman saboreou sua única pole na categoria. Foi também seu último grande momento no ‘circo’ – justamente em Nurburgring-1985, foi acertada sua venda à Benetton, que assumiu seu controle a partir de 1986, alterando o nome da escuderia.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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