Europa-2007: do nada, Markus Winkelhock faz história na F1

Em Nurburgring, Winkelhock ousou e parou nos boxes para colocar pneus de chuva. Resultado: liderou por 6 voltas em sua única corrida na F1

Em Nurburgring, Winkelhock liderou por 6 voltas em sua única corrida: foi o auge da Spyker na F1

Ele queria uma oportunidade na Fórmula 1. Não importava onde, nem como – o objetivo era correr na categoria máxima do automobilismo. A chance veio naquele 22 de julho de 2007. Poucos notavam-no, ainda mais por estar instalado no cockpit de um terrível Spyker. Faltava contato com o carro. O fruto da inexperiência: o 22º e último lugar no grid para o GP da Europa. Porém, bastaram duas voltas para Markus Winkelhock surpreender o ‘circo’. Em pleno quintal de casa, em Nurburgring (Alemanha), o estreante liderou com o pior equipamento do campeonato. Iluminado pelo seu pai Manfred, Markus registrou uma façanha inimaginável. Por seis voltas, comandou uma corrida. Uma, não: a corrida – depois daquela surpreendente performance, nunca mais o alemão figurou numa prova do Mundial.

Nascido em 13 de junho de 1980, em Stuttgart, o alemão veio ao mundo numa família de pilotos. Além de Manfred, o clã Winkelhock contava com Joachim, tio de Markus. Os dois irmãos passaram pela categoria máxima do automoiblismo. Porém, foi o pai de Markus que obteve maior destaque. Manfred correu entre 1982 e 1985, e teve como melhor resultado o quinto lugar no GP do Brasil de 1982, em Jacarepaguá. Foram os dois únicos pontos da carreira do alemão. Em 1985, morreu em um acidente em Mosport, no Canadá, durante prova do Mundial de Protótipos. Quatro anos depois, Joachim tentou a sorte na AGS. Todavia, não se classificou para nenhum GP.

Filho de Manfred e sobrinho de Joachim, Markus Winkelhock traz o automobilismo no sangue

Filho de Manfred e sobrinho de Joachim, Markus Winkelhock traz o automobilismo no sangue

Markus parecia seguir o destino do tio. Ingressou relativamente tarde no automobilismo. Com 18 anos, competiu em seu primeiro campeonato de monopostos. Na Fórmula Konig, em 1998, obteve o vice-campeonato. No ano seguinte, partiu para a Fórmula Renault Alemã, onde conquistou o quarto lugar na classificação. Em 2000, participou das versões europeia e italiana da Fórmula Renault. Porém, não fez sucesso. Entre 2001 e 2003, disputou campeonatos de Fórmula 3, com destaque para a conquista do quarto lugar na F3 Europeia, em 2003.

Os resultados não apareciam, e a carreira de Markus não deslanchava. Em 2004, decidiu correr na DTM, principal campeonato de carros-turismo do mundo. Todavia, ficou num discreto 19º lugar na classificação geral. Em 2005, retornou aos monopostos, competindo na World Series by Renault. Naquele ano, obteve três vitórias e conquistou o terceiro lugar do campeonato, vencido pelo polonês Robert Kubica. O bom desempenho levou-o a assinar contrato como piloto reserva da Midland, da Fórmula 1, em 2006. Depois de passar um ano como testador da escuderia, Winkelhock viu a equipe mudar de comando. Para 2007, a Spyker, que adquiriu a Midland, passou a ditar os rumos da equipe. Mas o alemão seguiu como piloto de testes.

Em 2006, Winkelhock se tornou terceiro piloto da Midland: função mantida pela Spyker

Em 2006, Winkelhock se tornou terceiro piloto da Midland: função mantida pela Spyker no ano seguinte

Naquela temporada, a Spyker manteve o nível da Midland – ou seja, sempre fechava o grid. Com 27 anos, Markus não via mais esperanças de guiar um Fórmula 1. Tanto que, em 2007, retornou à DTM. Enquanto isso, acompanhava a pífia performance da dupla de pilotos da escuderia, formada pelo alemão Adrian Sutil e pelo holandês Christijan Albers. Nas nove primeiras etapas do Mundial, a melhor posição de um Spyker havia sido a 13ª colocação de Sutil no GP da Espanha de 2007, em Montmeló. Além dos péssimos resultados, havia um outro problema: a equipe enfrentava grave crise financeira. Após o GP da Inglaterra, em Silverstone, a falta de patrocinadores fez com que Albers fosse desligado da Spyker.

Com uma vaga em aberto na Spyker para correr em Nurburgring, Markus se empenhou atrás de empresas interessadas em apoiarem seu sonho. O esforço deu certo, mas o alemão conseguiria apenas patrocinadores para a disputa do GP da Europa. Quando a escuderia fez o anúncio oficial, o nome Winkelhock voltou a estar vinculado à Fórmula 1 depois de 18 anos. Melhor ainda: era no local onde o clã obteve seus melhores momentos no automobilismo. Logo, havia um quê de nostalgia no ar quando Markus sentou no cockpit da Spyker. Porém, quando o piloto acelerou seu bólido, veio a decepção: além do carro não ser competitivo, não havia familiaridade entre o novato e o modelo F8-VII.

Em Nurburgring, Markus não se entendia com o problemático F8-VII: última posição no grid para a estreia

Em Nurburgring, Markus não se entendia com o problemático F8-VII: última posição no grid para a estreia

No treino oficial do sábado, Winkelhock anotou 1m35s940 em sua melhor volta – a pior do dia. Seu tempo foi 1s440 mais lento que o de Sutil, que marcou 1m34s500 para ficar com a 21ª e penúltima posição do grid. A volta do estreante foi 4s490 inferior à de Kimi Raikkonen (Ferrari), o pole em Nurburgring. Consciente de que pouco – ou quase nada – teria a fazer na corrida, Markus tratou de tentar aproveitar cada instante da corrida. Afinal, se deparava com a grande oportunidade da carreira. Só não esperava que, no dia seguinte, seria capaz de escrever uma marcante história na Fórmula 1.

Winkelhock, à frente de Massa e Alonso: escolha de pneus foi fundamental para colocá-lo na liderança

Winkelhock, à frente de Massa e Alonso: escolha de pneus foi fundamental para colocá-lo na liderança

A corrida

Excetuando Nurburgring, tudo era novo para Winkelhock. Sabedor disso, fazia tudo que a Spyker pedia. Quando o estreante rumou para o grid, nuvens negras cercavam o autódromo alemão. Havia previsão de chuva para a corrida. Todavia, quando os pilotos partiram para a volta de aquecimento de pneus, a escuderia chamou Markus para um pit stop nada usual: antes das luzes vermelhas se apagarem, o novato trocava seus compostos de pista seca para intermediários. Winkelhock não tinha nada a perder. Em sua primeira (e única) etapa na categoria, o alemão largaria dos boxes.

A ousada estratégia se mostrou eficiente. Assim que a largada foi dada, a chuva começou a cair no circuito. Ao completar a volta 1, Markus, o único piloto com borracha para chuva, estava numa inacreditável 10ª posição (e isso largando dos boxes!). Enquanto todos os pilotos naufragavam numa pista alagada e se encaminhavam aos boxes, o alemão da Spyker superava um a um. Na volta 2, ultrapassou Raikkonen no hairpin para assumir uma improvável liderança. Além disso, as paradas beneficiaram Winkelhock, que abriu boa vantagem na primeira posição.

A entrada do safety car e a interrupção da prova minaram a surpresa alemã

A entrada do safety car e a interrupção da prova minaram a surpresa alemã

Depois de uma sequência de acidentes provocados pela pista molhada na Curva 1, o safety car acabou ingressando na pista, na volta 3. Para lamentação de Winkelhock, a liderança construída se esvaiu. Pilotos do quilate de Felipe Massa (Ferrari) e Fernando Alonso (McLaren) passavam a figurar em seus retrovisores. A chuva se tornou tempestade. Diante do aguaceiro sobre o circuito alemão, a direção de prova decidiu interromper a prova na passagem seguinte. Depois da chuva aliviar, os pilotos voltaram à pista, sob bandeira amarela. Por mais três voltas, Markus liderou em Nurburgring.

Na volta 7, com uma pista menos molhada, a relargada foi dada. Diante do poderio de Massa e Alonso, o alemão da Spyker nada pôde fazer, sendo facilmente superado. Winkelhock completou a volta 8 na oitava posição. Todavia, sem equipamento e notadamente assustado com os demais do grid, caiu para a 14ª colocação na passagem seguinte. Na 10, se viu em sua posição natural – o 16º lugar, à frente apenas de Lewis Hamilton (McLaren), que estava com voltas de atraso em relação a ele. A curtição de Markus, porém, acabaria três voltas depois: com problemas hidráulicos, abandonou a prova na volta 13.

Na relargada, Markus nada pôde fazer contra os adversários: abandono na volta 13 e fim de trajetória na F1

Na relargada, Markus nada pôde fazer contra os rivais: abandono na volta 13 e fim de trajetória na F1

A vitória no GP da Europa ficou com Alonso, seguido por Massa e Mark Webber (Red Bull). Mas quem escreveu história foi Winkelhock. É bem verdade que as circunstâncias ajudaram, mas, num curtíssimo tempo, Markus foi capaz de deixar incrédula a Fórmula 1. Com 13 voltas completadas em toda sua carreira, liderou seis delas. Graças a ele, a Spyker se viu na frente de uma corrida pela primeira e única vez na categoria. Porém, sem dinheiro, a escuderia optou por trazer o japonês Sakon Yamamoto, que correu o restante da temporada ao lado de Sutil. No fim de 2007, a Spyker vendeu seu espólio para Vijay Mallya, que criou a Force India.

E Markus Winkelhock? Do nada, deixou sua marca. E do nada, sumiu da categoria máxima do automobilismo.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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4 respostas a Europa-2007: do nada, Markus Winkelhock faz história na F1

  1. Fernando Passos diz:

    Além disso Markus é o recordista do antigo traçado de Nurburgring (22 kms) com um Audi R8 GT.

  2. Esse foi um cometa que passou pela F1 para deixar seu nome. Uma pena que ele não continuou na categoria… Markus Mito!

  3. Alexandre diz:

    Ele saiu com pneus de chuva enao intermediários!

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