França-1990: por um triz, vitória escapa das mãos de Capelli

Capelli caminhava para a vitória, mas a 3 voltas do fim um problema no motor Judd de seu Leyton House custou a vitória

Falha no motor Judd do Leyton House impediu a vitória de Ivan Capelli em Paul Ricard: sorte de Prost

8 de julho de 1990. Naquele domingo, a Itália recebia a final da Copa do Mundo de Futebol. No Estádio Olímpico de Roma, a seleção alemã derrotou a argentina por 1 a 0 e sagrou-se campeã mundial pela terceira vez. Horas antes do capitão germânico Lothar Matthaus erguer a Taça Fifa, os olhares italianos estavam voltados para o Autódromo de Paul Ricard, palco do GP da França. Os espectadores viviam um dilema: torciam pela 100ª vitória da Ferrari na Fórmula 1 ou por um inacreditável triunfo de um conterrâneo a bordo de um bólido nada confiável? Jogando em casa, Alain Prost (Ferrari) balançou as redes aos 45 minutos do segundo tempo. Porém, por muito pouco, o célebre piloto francês não viu Ivan Capelli (Leyton House) se tornar ‘zebra’ em solo gaulês.

O segundo lugar foi o melhor resultado da carreira do italiano, igualando a posição obtida no GP de Portugal de 1988, no Estoril. Entretanto, diferentemente do que ocorreu em solo português, Capelli tinha tudo para vencer em Paul Ricard. Após liderar com autoridade a etapa francesa por 45 voltas, viu seu Leyton House sucumbir ao calor a três voltas da bandeirada. Ainda assim, assegurou o segundo lugar. Foi o terceiro e derradeiro pódio na carreira de Ivan – além das duas segundas colocações, herdou o terceiro lugar no GP da Bélgica de 1988, em Spa-Francorchamps. Contudo, depois da ‘quase vitória’ na França, as glórias na categoria máxima do automobilismo se dissiparam.

O pódio em Paul Ricard-1990 foi o último grande momento de Capelli na F1

O pódio em Paul Ricard-1990 foi o último obtido por Ivan Capelli na categoria máxima do automobilismo

Ivan Franco Capelli nasceu em 24 de maio de 1963, em Milão. Ingressou no kart em 1978. Apesar de começar tardiamente – aos 15 anos -, garantiu diversas vitórias na categoria. Em 1983, partiu para os monopostos. Depois daí, sua ascensão foi meteórica. Primeiramente, na Fórmula 3 Italiana, conquistou o título. No ano seguinte, foi para a Fórmula 3 Europeia, também assegurando o campeonato. A sequência natural era a Fórmula 3000, categoria de acesso à Fórmula 1. Em 1985, ficou na sétima posição na disputa, conquistando uma vitória, em Osterreichring. Naquele mesmo ano, estreou na Fórmula 1 pela Tyrrell. Depois de se retirar na estreia, no GP da Europa, em Brands Hatch, obteve um destacado quarto lugar no GP da Austrália, em Adelaide.

Os três pontos obtidos em Adelaide não foram suficientes para abrir as portas da Fórmula 1 para Capelli, em 1986. Por isso, tratou de se dedicar à Fórmula 3000. A bordo da Coloni, obteve o título da categoria de acesso daquele ano. Ainda naquela temporada, disputou os GPs da Itália e de Portugal, a bordo de um AGS. Todavia, abandonou as duas provas. Para 1987, a situação de Ivan mudou de figura. Naquele ano, passou a fazer parte do projeto que marcava o retorno da March à categoria máxima do automobilismo. Foi sua primeira temporada completa na F1, tendo como ponto alto o sexto lugar no GP de Mônaco.

Apesar de ter corrido na Tyrrell e na AGS, foi na March que Ivan se consolidou na F1

Apesar de ter corrido na Tyrrell e na AGS, foi na March que Ivan se consolidou na F1

Em 1988, passou a contar com a companhia de Mauricio Gugelmin. A presença do brasileiro marcou a fase crescente da March. Com Capelli e Gugelmin, a escuderia anotou 22 pontos – 17 deles do italiano, que terminou o Mundial em sétimo lugar. Na temporada seguinte, entretanto, um verdadeiro fiasco. A March só pontuou com Mauricio no GP do Brasil de 1989, em Jacarepaguá, com o modelo de 1988. Depois disso, com o carro novo, o time não pontuou mais no ano.

Para 1990, a coisa ia de mal a pior. Por conta dos problemas financeiros da March, a Leyton House, principal patrocinadora, assumiu o controle da equipe. Porém, na pista, nada se alterou: depois de seis etapas, nenhum ponto. Pior: nos GPs do Brasil e do México, os carros de Ivan e Mauricio não conseguiram se classificar. Todos colocaram a culpa no projetista da equipe, um certo Adrian Newey. O bólido era inguiável em pistas com ondulações – como Interlagos e Cidade do México. Diante dos pífios resultados, a escuderia resolveu demitir o designer.

Em 1990, Capelli sofria com o projeto de Adrian Newey: projetista foi demitido antes do GP da França

Em 1990, Capelli sofria com o CG901, um projeto de Newey: designer foi demitido antes do GP da França

Com o clima pesado, Capelli, Gugelmin e March chegaram à Paul Ricard, palco da sétima etapa do Mundial. Diferentemente dos circuitos brasileiro e mexicano, o traçado francês era liso. Antes de deixar a Leyton House, Newey entregou uma nova especificação do CG901 para a prova. Quando os bólidos foram para a pista, pareciam outros: da noite para o dia, Capelli e Gugelmin passaram a andar entre os 10 primeiros colocados. Na sexta, Mauricio anotou o 9º tempo, com 1m05s818, contra 1m06384 de Ivan, o 14º do dia. Na sessão classificatória, no sábado, o brasileiro não melhorou sua marca. Ele perdeu apenas uma posição no grid – justamente para o italiano, que, com um tempo de 1m05s369, ficou com o sétimo lugar. Capelli ficou a 0s967 de Nigel Mansell (Ferrari), o pole na etapa francesa.

De excluídos do grid no México ao top 10 na França. Diante do cenário inesperado, a dupla da Leyton House passou a ter a pretensão de alcançar os pontos em Paul Ricard. Para isso, largou com pneus duros, enquanto os demais no grid saíram com compostos macios. No início, porém, o sonho pareceu se tornar pesadelo.

Capelli e Gugelmin largaram mal, mas estratégia colocou a dupla da Leyton House entre os primeiros colocados

Capelli e Gugelmin largaram mal, mas estratégia colocou a dupla da Leyton House entre os primeiros

A corrida

Na largada, tanto Capelli quanto Gugelmin perderam posições – sobretudo pelo fato de os pneus duros demorarem a aquecer. Na volta 1, o italiano se viu em 10º, três colocações à frente do brasileiro. Na volta 8, Thierry Boutsen (Williams) abandonou com problemas de motor, fazendo com que Ivan alcançasse o nono posto. Mauricio, por sua vez, subiu para a 11ª posição, imediatamente atrás de Eric Bernard (Lola). Para não perder contato com Capelli, Gugelmin partiu para o ataque. Na volta 18, superou Bernard, alcançando o 10º lugar.

O ritmo dos bólidos da Leyton House era promissor. Os carros projetados por Newey tinham perfeito equilíbrio em Paul Ricard. Com o melhor arrasto aerodinâmico no liso circuito francês, o fraco motor Judd acabava não sendo um problema para a dupla italo-brasileira na extensa Reta Mistral, que tinha mais de 1 km. Além disso, a harmonia do CG901 culminava com um mínimo desgaste de pneus, o que foi crucial para a ascensão de Ivan e Mauricio no GP da França. Sobretudo a partir do início das paradas de boxes. Enquanto todas as equipes planejavam um pit stop, a Leyton House partiu para uma corrida sem troca de pneus.

Sem trocar pneus, Capelli ascendeu na classificação da corrida, assumindo o primeiro lugar na volta 33

Sem trocar pneus, Capelli ascendeu na classificação da corrida, assumindo o primeiro lugar na volta 33

Nelson Piquet (Benetton) foi o primeiro a entrar nos boxes, na volta 20. Com a parada do brasileiro, Capelli assumiu o oitavo lugar, e Gugelmin, o nono. Melhor: Ivan colou nos franceses Jean Alesi (Tyrrell) e Alain Prost (Ferrari). Naquele instante, o italiano da Leyton House era o mais veloz em Paul Ricard. Na 23, Alesi não resistiu à abrasiva pista francesa e realizou seu pit stop, perdendo a sétima posição para Capelli e a oitava para Gugelmin. Com a parada de Prost, na volta 27, Ivan e Mauricio passaram para a sexta e sétima posições, respectivamente. Na passagem seguinte, Gerhard Berger (McLaren) e Alessandro Nannini (Benetton) foram para os boxes, e a dupla da Leyton House passou a figurar na quarta e quinta colocações.

Quando Ayrton Senna (McLaren) fez seu pit stop, na volta 31, Capelli foi para terceiro, e Gugelmin, para quarto. Com a ida aos boxes de Nigel Mansell (Ferrari), na passagem seguinte, Ivan assumiu o segundo posto, e Mauricio, o terceiro. A estratégia do time azul-piscina atingiu o objetivo na volta 33, quando Capelli superou Riccardo Patrese (Williams) e tomou a liderança do GP da França. Depois de ser ultrapassado, Patrese realizou sua parada na passagem seguinte, o que colocou Gugelmin na segunda posição.

Após o abandono de Gugelmin, Capelli passou a ser pressionado por Alain Prost (Ferrari)

Após o abandono de Gugelmin, Capelli passou a ser pressionado por Alain Prost (Ferrari)

Uma dobradinha inesperada estava constituída em Paul Ricard. Inicialmente, as principais escuderias consideravam que a liderança da Leyton House era efêmera. Contudo, o que se viu era um acerto tático. Ivan e Mauricio comandavam as ações. A principal ameaça à dupla era Prost, que se viu em terceiro após a parada nos boxes. Em primeiro, o italiano passou a construir boa vantagem sobre o brasileiro. Na volta 37, Capelli tinha 7s7 de vantagem sobre Gugelmin, que, por sua vez, tinha Alain em sua cola. A partir daí, Mauricio passou a ser escudeiro para Ivan. Ao barrar o francês da Ferrari, o brasileiro da Leyton House permitia que Capelli se consolidasse na ponta.

Na volta 44, o italiano tinha 8s2 de vantagem para Gugelmin. O brasileiro, por sua vez, liderava um pelotão formado por ele, Prost e Nannini. A pressão de Alain se intensificou sobre Mauricio. Tanto que o brasileiro passou a tirar diferença com relação a Capelli. Após lutar com afinco, Gugelmin não resistiu ao francês. Na volta 54, Prost ultrapassou o brasileiro. Naquele momento, Ivan liderava com 5s3 de vantagem sobre Alain. Mauricio, por sua vez, passava a se preocupar com Nannini. Todavia, o sonho de pódio de Gugelmin terminou na volta 58, quando o motor Judd explodiu, deixando o brasileiro a pé.

Apesar da intensa pressão de Prost, Ivan se segurava com habilidade na ponta

Apesar da intensa pressão de Prost, Ivan se segurava com habilidade na ponta

No instante em que o brasileiro deixou a prova, Capelli já sofria com a aproximação de Prost. De repente, os 5 segundos se esvaíram. Na volta 62, Alain colou em Ivan, estando a menos de 1 segundo do líder. Apesar da pressão, o italiano da Leyton House se segurava na ponta graças ao equilíbrio do CG901 no trecho sinuoso de Paul Ricard. Ultrapassar Capelli seria uma missão das mais difíceis para o consagrado Prost. Ainda assim, Alain estava inquieto. Afinal, precisava vencer para continuar perseguindo Senna na luta pelo título de 1990. Na volta 71, porém, o francês da Ferrari se atrapalhou no instante de superar os retardatários Bernard e Stefano Modena (Brabham), e viu Ivan abrir 2s9 na ponta.

Faltavam 9 voltas para o fim. A incrível vitória parecia estar se desenhando para Capelli. Todavia, na volta 73, Prost voltou a alcançar o primeiro colocado. Na volta 76, Alain pegou o vácuo formado pelo Leyton House de Ivan e tentou superá-lo na freada da Mistral, mas o italiano segurou o francês com habilidade. Capelli lutava com todas as armas possíveis, mas seu bólido começava a deixá-lo na mão. Como Gugelmin, Ivan tinha problemas com o motor Judd. Na volta 78, Prost partiu com atitude, e aproveitou-se da falha do propulsor do carro do italiano para ultrapassá-lo, por dentro, na Curva Beausset.

Ivan celebrou muito a segunda colocação em Paul Ricard: terceiro e derradeiro pódio na F1

Ivan celebrou muito a segunda colocação em Paul Ricard: terceiro e derradeiro pódio na F1

Alain superou Ivan e abriu vantagem para conquistar a 42ª vitória na carreira, e a 100ª da Ferrari. Capelli se arrastava na pista, mas ainda assim assegurou o segundo lugar, à frente de Senna, o terceiro. Apesar de perder a corrida no fim, o italiano celebrou o pódio como se fosse um título mundial. O triunfo passou raspando, mas a festa não parecia de alguém decepcionado. Mal sabia o piloto da Leyton House que aquele seria seu último momento de glória na categoria máxima do automobilismo. Depois de Paul Ricard-1990, Ivan nunca mais figurou num top 3.

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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