EUA-1990: Alesi perde duelo com Senna, mas encanta a F1

Jean Alesi foi valente, mas não foi capaz de segurar Ayrton Senna em Phoenix: 34 voltas na liderança e incrível 2º lugar

Jean Alesi travou acirrada disputa com Ayrton Senna em Phoenix: 34 voltas na ponta e incrível 2º lugar

A temporada de 1990 tinha tudo para ser especial para Jean Alesi. Após ingressar na Fórmula 1 no meio de 1989, quando substituiu Michele Alboreto e conquistou, logo na sua estreia, um quarto lugar no GP da França, em Paul Ricard, o francês iniciaria pela primeira vez um campeonato como titular. Depois das boas apresentações no ano anterior, a Tyrrell decidiu pela manutenção do novato em seu cockpit. E não se arrependeu. Logo na primeira etapa do Mundial, o francês teve um desempenho impressionante. Jean não só liderou o GP dos Estados Unidos de 1990, em Phoenix, como dificultou a vida de Ayrton Senna (McLaren) – um de seus ídolos na categoria. Alesi não resistiu ao melhor equipamento do brasileiro, mas encantou a todos ao conquistar o segundo lugar na etapa norte-americana.

Nascido em Avignon, em 11 de junho de 1964, Jean deu o primeiro pódio da Tyrrell desde o terceiro lugar de Michele Alboreto no GP do México de 1989, na Cidade do México. Mais: obteve o melhor resultado do time de Ken Tyrrell desde a vitória do próprio Alboreto no GP dos Estados Unidos-Leste de 1983, em Detroit. O resultado surpreendeu a Fórmula 1, ainda mais por Alesi contar com um carro calçado com pneus Pirelli, teoricamente menos resistentes que os Goodyear. Apesar da diferença dos compostos, os bólidos que utilizavam a borracha italiana conseguiram se adaptar rapidamente ao circuito de rua de Phoenix – o que foi determinante para o resultado da corrida.

Jean não havia tido contato com pneus Pirelli até os treinos de sexta, em Phoenix: surpresa

Jean não havia tido contato com pneus Pirelli até os treinos de sexta: surpresa

Explica-se: na sexta-feira, dia dos primeiros treinos oficiais para o GP dos Estados Unidos, os resultados espantaram o ‘circo’. Ayrton Senna (McLaren) e Alain Prost (Ferrari), os dois principais astros da Fórmula 1 à época, foram discretos na sessão – o brasileiro cravou o quinto tempo, com 1m29s431, enquanto o francês ficou em sétimo, com 1m29s910. Entre os quatro primeiros colocados, três usavam Pirelli: Pierluigi Martini (Minardi) marcou o segundo tempo, com 1m28s731, seguido por Andrea de Cesaris (Dallara), terceiro com 1m29s019, e por Alesi, quarto com 1m29s408. A exceção foi Gerhard Berger (McLaren), que achou uma volta mágica e anotou 1m28s664, a melhor da sexta.

Todos esperavam que Senna e Prost seriam os protagonistas dos treinos oficiais de sábado e assumiriam o topo da classificação. Todavia, algo inesperado aconteceu: em pleno deserto do Arizona, uma forte chuva alagou o circuito de Phoenix, impedindo que os pilotos melhorassem as marcas do dia anterior. Dessa forma, as marcas de sexta-feira definiram o grid para a etapa norte-americana. Alesi não demonstrou confiança com a quarta posição na largada, uma vez que tinha pouco conhecimento do comportamento dos pneus Pirelli em ritmo de prova – Ken Tyrrell firmou contrato com a fábrica italiana dois dias antes de Jean ir para a pista em Phoenix. Por isso, seu lema era: acelerar desde o início e ver no que dava.

Em bela largada, Alesi ignorou De Cesaris e Martini e superou Berger ainda na Curva 1

Em bela largada, Alesi ignorou De Cesaris e Martini e superou Berger ainda na Curva 1

A corrida

Em 11 de março de 1990, o clima seco voltou a imperar em Phoenix. O calor parecia favorecer McLaren e Ferrari para a disputa da etapa de abertura do Mundial de 1990. Entretanto, o que se viu após o sinal verde deixou o mundo da velocidade boquiaberto: saindo em quarto, Alesi ignorou De Cesaris e Martini e emparelhou com Berger. Impetuoso, o francês da Tyrrell colocou por dentro do austríaco da McLaren e, logo na Curva 1, assumiu a liderança. Pela primeira vez desde a vitória de Alboreto em Detroit-1983, um carro de Ken Tyrrell ponteava um Grande Prêmio.

A princípio, pensava-se que seria uma situação efêmera. Todavia, Gerhard não conseguia acompanhar Jean. O francês acelerou o quanto podia. Afinal, sabia que, mais cedo ou mais tarde, seus pneus não resistiriam ao calor de Phoenix. Porém, o ritmo de Alesi era assombroso, abrindo uma média de 0s5 por volta. Tanto que desestabilizou o austríaco. Na volta 9, Berger perdeu o controle de seu McLaren e bateu na barreira de pneus, caindo para o fim do pelotão. Boa notícia para Jean? Pelo contrário: a partir dali, quem estaria atrás dele era Ayrton Senna. O brasileiro, que havia largado em quinto, superou Martini após a largada e De Cesaris na volta 4, e estava pressionando Berger quando o companheiro escapou da pista.

Na volta 34, Ayrton tentou ultrapassar Jean, mas foi surpreendido por Jean: troco rendeu aplausos para o francês

Na volta 34, Ayrton tentou ultrapassar Jean, mas foi surpreendido: troco rendeu aplausos para o francês

Naquele momento, Alesi tinha 8s2 de vantagem sobre Senna. Com o passar das voltas, o brasileiro passou a reduzir a diferença entre ele e o francês da Tyrrell. Porém, os pneus Pirelli resistiam ao quente piso do circuito norte-americano. Pacientemente, Ayrton tirou a vantagem que Jean sustentava. Na volta 30, o brasileiro estava com o francês na alça de mira. Contudo, Senna queria esperar o momento certo para superar Alesi. Apesar de ter o brasileiro da McLaren colado em sua caixa de câmbio, o Tyrrell do francês tracionava bem na saída das curvas. Ainda que o motor Honda V10 tivesse cerca de 80cv de potência a mais que seu Ford V8, Jean resistia bravamente na liderança.

Mas veio a volta 34, e Senna perdeu a paciência. Partiu para a luta direta com Alesi. Logo na Curva 1, Ayrton freou mais tarde que Jean. Por dentro, superou o novato. Entretanto, não conseguiu domar seu McLaren. O francês manteve sua linha e surpreendeu o brasileiro na curva seguinte, dando um troco digno de aplausos. O nó executado por enfureceu Senna. Tanto que, na passagem seguinte, repetiu a manobra. Desta vez, Ayrton se aproveitou da presença do retardatário Gregor Foitek (Brabham) para persuadir Jean. Novamente na Curva 1, o francês da Tyrrell foi ultrapassado. Só que, desta vez, o brasileiro da McLaren deu o lado de fora para o adversário. O troco não foi possível, e Senna, enfim, assumiu a ponta.

Andando no limite dos pneus Pirelli, Alesi assegurou seu primeiro pódio na categoria

Andando no limite dos pneus Pirelli, Alesi assegurou seu primeiro pódio na categoria

Por 34 voltas, Alesi liderou o GP dos Estados Unidos. Quase a metade de um GP. Depois do espetáculo do francês, nunca mais um carro da Tyrrell ponteou uma etapa de Fórmula 1. Com Senna fora de alcance, Jean tratou de administrar a boa diferença que tinha para Thierry Boutsen (Williams). Ainda assim, andou num ritmo respeitável, a ponto de receber a bandeirada quadriculada a 8s685 de Ayrton. Boutsen ficou em terceiro, seguido por Nelson Piquet (Benetton), Stefano Modena (Brabham) e Satoru Nakajima (Tyrrell).

Mas a verdadeira festa ficou nos boxes da Tyrrell, graças à incrível façanha de Alesi. “Ele tem ingredientes para se tornar um campeão mundial”, afirmou Senna, após o desempenho do francês. Jean retribuiu à gentileza do brasileiro. “Estou muito orgulhoso de ter lutado contra Ayrton. Ele é meu herói, e tem sido por muitos anos”, respondeu o piloto do time de Ken Tyrrell, que viu sua carreira se consolidar a partir daquele pódio – a ponto de ser escolhido como companheiro de Alain Prost na Ferrari na temporada de 1991.

Pódio do GP dos Estados Unidos de 1990: Senna celebra 21ª vitória; Alesi, o 1º pódio

Pódio do GP dos Estados Unidos de 1990: Senna celebra 21ª vitória; Alesi, o primeiro top 3

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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