Mônaco-2014: Bianchi encerra jejum de pontos das nanicas

A bandeirada para consagração de Bianchi e da Marussia: nono lugar histórico no Principado

A bandeirada para consagração de Bianchi e da Marussia: nono lugar histórico no Principado

Jules Bianchi operou um verdadeiro milagre no último domingo, 25 de maio de 2014. Ao levar um problemático Marussia para o nono lugar do GP de Mônaco, o francês pontuou pela primeira vez na carreira. Não só isso. Graças ao gaulês, o time russo conquistou seus dois primeiros pontos na história da categoria. Um feito assombroso, que deu fim a um jejum que durava desde o surgimento da equipe, em 2010, quando ainda levava o nome Virgin. Para alcançar o primeiro top 10 de sua vida, Bianchi superou duas punições dadas pela direção de prova – que o fez perder o oitavo posto no Principado para Romain Grosjean (Lotus). Jules ultrapassou todos os obstáculos com personalidade, e foi recebido com muita festa pelos mecânicos de sua escuderia.

Para dimensionar o tamanho da façanha do francês, é necessário voltar no tempo. Mais precisamente para 12 de junho de 2009, quando a FIA anunciou o ingresso de três novas equipes à Fórmula 1: a espanhola Hispania, a malaia Team Lotus e a inglesa Virgin. Originárias do mesmo cordão umbilical, as escuderias co-irmãs estrearam no GP da Austrália de 2010, em Melbourne. Assim como seus partos, tiveram igual destino: andar no fim do pelotão. A consequência de estarem constantemente nas últimas posições veio após duas temporadas: a Hispania não resistiu aos seguidos fracassos e encerrou suas atividades ao fim de 2012.

Celebrado pelos mecânicos, Jules está na Marussia desde 2013, quando ocupou o lugar de Luiz Razia

Celebrado pelos mecânicos, Jules (à esq.) está na Marussia desde 2013, quando ocupou o lugar de Luiz Razia

Aquele ano também seria transformador para as outras duas nanicas. No início de 2012, o dono do Team Lotus, Tony Fernandes, foi impedido de usar o termo ‘Lotus’, e adotou o nome Caterham ao seu empreendimento, enquanto a Virgin foi definitivamente vendida ao conglomerado russo Marussia, alterando sua nomenclatura. A mudança nominal, porém, não alterou as posições dos times nas corridas, que disputavam entre si quem seria a melhor das piores equipe da categoria. No fim, a Caterham levou a melhor sobre a Marussia graças à ajuda de um russo: Vitaly Petrov obteve o 11º lugar no GP do Brasil de 2012, em Interlagos, e deu o 10º lugar no Mundial de Construtores à equipe malaia.

Para recuperar terreno, a Marussia mudou tudo para 2013. Para o lugar do experiente alemão Timo Glock e do francês Charles Pic, o time russo acertou com dois novatos: o inglês Max Chilton e o brasileiro Luiz Razia. Todavia, o dinheiro prometido por Razia não entrou na conta da escuderia, que partiu para uma segunda opção. Às vésperas do GP da Austrália, em Melbourne, a equipe anunciou Jules Bianchi. Assim como Chilton, um outro novato, mas que trazia bons resultados em sua trajetória em categorias de acesso.

Nascido em família de pilotos, o francês obteve bons resultados em categorias de base

Nascido em família de pilotos, o francês obteve bons resultados em categorias de base

Nascido em 3 de agosto de 1989, em Nice, na França, Bianchi trazia automobilismo no sangue. Seu avô, Marco Bianchi, foi vitorioso em competições de protótipos na Europa, na década de 1960, enquanto seu tio-avô, Lucien Bianchi, obteve o terceiro lugar no GP de Mônaco de 1968, a bordo de um Cooper. Com esse estímulo familiar, ingressar na velocidade acabou sendo consequência. Iniciou ainda garoto no kart, categoria na qual competiu até os 17 anos. Em 2007, passou a disputar a Fórmula Renault Francesa 2.0, sagrando-se campeão logo na estreia. No ano seguinte, migrou para a Fórmula 3 Europeia, ficando em terceiro na temporada. Em 2009, permaneceu na F3, para conquistar o título.

Em 2010, Jules se transferiu para a GP2, categoria de acesso à Fórmula 1. Em sua temporada de estreia, obteve um bom quarto lugar na classificação final. Ao fim daquele ano, assinou contrato com a Ferrari, para ser terceiro piloto da Scuderia em 2011. Ao mesmo tempo em que era reserva no time de Maranello, correu novamente na GP2. Desta vez, terminou o campeonato em terceiro. Para 2012, Bianchi foi emprestado para a Force India, para ser terceiro piloto do time de Vijay Mallya. Porém, a chance de ser piloto titular não surgia. Por isso, diante do impasse entre Razia e Marussia, o gaulês agarrou com unhas e dentes a oportunidade de correr no lugar do brasileiro em 2013.

Antes de Mônaco, o melhor resultado de Bianchi em 2014 havia sido um 16º lugar em Sepang

Antes de Mônaco, o melhor resultado de Bianchi em 2014 havia sido um 16º lugar em Sakhir

Em sua primeira temporada na escuderia russa, Jules roeu o osso: das 19 corridas no ano, completou 16 provas. Entretanto, a melhor posição do francês foi um 13º lugar no GP da Malásia, em Sepang. Graças a esse resultado, Bianchi colocou a Marussia na 10ª posição do Mundial de Construtores, à frente da Caterham. Para 2014, a equipe russa manteve Jules e Max, mas trouxe uma alteração significativa: passou a ser impulsionada com motores Ferrari. Apesar do propulsor italiano, a situação se manteve inalterada para a Marussia – nas cinco primeiras etapas, o melhor resultado de Jules com o MR03 foi o 16º lugar no GP do Bahrein, em Sakhir. Pior: Chilton conquistou dois 13º lugares – no GP da Austrália, em Melbourne, e também na etapa barenita.

Diante dos melhores resultados obtidos por Max, Bianchi partiu decidido a alterar esse cenário em Mônaco. Na pista localizada a cerca de 20 km de sua cidade natal, o francês queria fazer bonito. Na quinta-feira, dia das primeiras sessões de treinos livres no Principado, Jules acelerou e foi recompensado com o 18º melhor tempo – uma façanha em se tratando de uma Marussia -, com 1m21s937, 0s746 mais rápido que Chilton, 19º com 1m22s683. “Estou contente, afinal, depois dos testes realizados em Barcelona, conseguimos equilibrar o carro. Ele não saiu muito na pista, o que pode ser ótimo para sermos ainda mais rápidos. Não fomos capazes de coletar a quantidade de dados que gostaríamos, mas estou confiante com o que temos”, contou o gaulês.

Bianchi estava satisfeito com o equilíbrio do MR03, mas, para variar, não avançou no Q1 de Mônaco

Bianchi estava satisfeito com o equilíbrio do MR03, mas, para variar, não avançou no Q1 de Mônaco

No sábado, veio o treino oficial. Apesar de todas as evoluções do MR03, Bianchi não conseguiu avançar para o Q2. Com o tempo de 1m19s332, ficou com a 19ª posição, uma à frente de Chilton, 20º com 1m19s928. “Seria difícil chegar ao Q2, mas acho que era uma possibilidade. Minha primeira ida à pista foi ok, mas a segunda acabou comprometida pelas bandeiras amarelas e pelo trânsito, e acabei perdendo 0s5, sem chance de melhorar. Olhando o lado positivo, ficamos 0s6 atrás da dupla da Sauber (Adrian Sutil e Estéban Gutiérrez), então, levando em conta o tempo perdido me sinto encorajado pelo nosso ritmo. Podemos ter uma disputa amanhã (domingo), dando uma boa recompensa ao time”, disse, em tom premonitório.

Apesar de ter se posicionado errado no grid, Bianchi largou bem no Principado

Apesar de ter se posicionado errado no grid, Bianchi largou bem no Principado

A corrida

A confiança exibida no sábado passou a ser preocupação no domingo. A Marussia decidiu trocar o câmbio do carro de Bianchi, obrigando o francês a largar na 21ª posição no grid. Além disso, Jules viu Pastor Maldonado (Lotus) ficar parado no grid, na volta de apresentação. O problema do venezuelano impediu-o de alinhar na 15ª colocação. Porém, nem Gutiérrez, o 17º, tampouco Chilton, o 19º, repararam na ausência de Pastor, e se colocaram na posição dele. Bianchi, em 21º, seguiu o mexicano e o inglês. O erro viria a interferir no resultado, mas, no momento da largada, o que o gaulês mais queria era aproveitar a oportunidade de fazer história.

Sob um calor de 29°C, Jules saltou bem e superou Chilton. Ainda durante a volta 1, Sergio Pérez (Force India) foi tocado por Jenson Button (McLaren) e bateu na Mirabeau, ocasionando a entrada do safety car. Com a bandeira amarela, Romain Grosjean (Lotus) e Adrian Sutil (Sauber) fizeram suas primeiras paradas. Dessa forma, Bianchi se viu em 16º. Na relargada, realizada na volta 4, Sebastian Vettel (Red Bull) despencou na classificação ao encarar problemas no ERS de seu bólido, fazendo o francês subir para 15º.

A Marussia chamou Bianchi para pagar um stop and go durante bandeira amarela: erro rendeu nova punição

Bianchi pagou um stop and go durante bandeira amarela: erro da Marussia rendeu nova punição

Na volta 10, a direção de prova divulgou que Bianchi, Gutiérrez e Chilton estavam sendo investigados por errarem ao alinhar seus carros no grid. Na mesma passagem, Daniil Kvyat (Toro Rosso) recolheu seu carro nos boxes, elevando o francês para a 14ª posição. Contudo, na volta 19, os comissários da corrida consideraram culpados os pilotos que infringiram a posição de largada. Jules, Esteban e Max seriam obrigados a fazer um stop and go de 5s. O gaulês se manteve na pista e aguardou o melhor momento para pagar a punição. Todavia, a Marussia o chamou para fazer o stop and go na volta 28 – quando o GP estava sob bandeira amarela.

Explica-se: na volta 24, Sutil estatelou seu Sauber no guard-rail da saída do túnel. Com a pista repleta de detritos, o safety car foi acionado na volta 26. A Marussia, então, tentou se aproveitar das circunstâncias. Todavia, mais uma vez, seria Bianchi quem pagaria o pato. Quando a nova relargada foi dada, na volta 31, Jules se manteve na 14ª posição. À sua frente, estavam Kamui Kobayashi (Caterham) e Kimi Raikkonen (Ferrari). O finlandês, em 13º, fazia feroz pressão sobre o japonês, o 12º. Na volta 35, Kimi ultrapassou Kamui. Jules se aproveitou da manobra do finlandês para colocar de lado sobre o nipônico. Na Rascasse, Bianchi tocou em Kobayashi e assumiu o 13º posto.

Mesmo com as punições, o francês da Marussia contou com a sorte para ingressar no top 10

Mesmo com as punições, o francês da Marussia contou com a sorte para ingressar no top 10

Na volta 37, o gaulês assumiu a 12ª posição graças à uma punição a Jean-Eric Vergne (Toro Rosso). A partir daí, Jules passou a ser pressionado pelo compatriota. Apesar da pressão, Bianchi foi combativo e não cedeu sua posição para Vergne, que abandonou na volta 50. O francês da Marussia se manteve em 12º até a volta 55. Naquela passagem, Valtteri Bottas (Williams) abandonou após seu motor Mercedes explodir. Sem o finlandês, Jules subiu para 11º. Naquele momento, mais uma péssima informação: a direção de prova estava investigando a forma com a qual Bianchi pagou seu stop and go de 5s.

Punições à parte, faltava uma posição para ingressar na zona de pontuação. Mais um abandono e Jules estava no top 10. E a sorte sorriu para o francês na volta 59. Pressionado por Raikkonen e Felipe Massa (Williams), Gutiérrez se afobou e tocou a traseira de seu Sauber no guard rail da Rascasse, rodando imediatamente. O abandono do mexicano colocou o piloto da Marussia em 10º. Porém, na volta 65, foi confirmada nova punição a Bianchi: seria acrescido 5s ao tempo total do francês na prova. Como era pressionado por Grosjean, estava virtualmente fora dos 10 primeiros colocados.

Choque entre Raikkonen e Magnussen determinou a nona posição para Bianchi

Choque entre Raikkonen e Magnussen determinou a nona posição para Bianchi

 

Entretanto, a sorte estava realmente ao lado de Jules. Na volta 72, a seis da bandeirada, Raikkonen e Kevin Magnussen (McLaren) se tocaram na Loews. Na briga, quem levou a melhor foi o francês da Marussia, que superou os escandinavos e assumiu o oitavo lugar na pista – mas o nono lugar com o tempo acrescido. No fim, Bianchi levou seu MR03 com todo cuidado e obteve uma façanha tão grande quanto à conquistava pelo seu tio-avô, o belga Lucien Bianchi, terceiro no GP de Mônaco de 1968.

A vitória no Principado foi de Nico Rosberg (Mercedes), seguido por Lewis Hamilton (Mercedes) e Daniel Ricciardo (Red Bull). Mas o grande vitorioso do domingo foi, sem dúvida, Jules Bianchi. “Uau! Que corrida e que resultado para o time”, disse, extasiado, após chegar aos boxes. “Eu estou incrivelmente feliz, mas, antes de mais nada, tenho que dar o crédito a todos na Marussia por tornarem isso possível. Ninguém sabe o quanto de trabalho e determinação que colocamos nas nossas corridas, então hoje (domingo) eu estou emocionado por ajudá-los a atingir essa meta de somar seus primeiros pontos”.

A Marussia fez muita festa para Bianchi: primeiros pontos para um time nascido em 2010

A Marussia fez muita festa para Bianchi: primeiros pontos para um time nascido em 2010

O francês seguiu agradecendo a todos da Marussia. “Meu obrigado a todos aqui em Mônaco, ao resto do time em Banbury, e também aos nossos parceiros de motor, a Ferrari, pois, juntos, nós fizemos um grande progresso, especialmente após o teste de Barcelona”, destacou Jules, ressaltando que a corrida não foi fácil para ele. “Tivemos alguns momentos bons ao longo da prova, mas alguns momentos preocupantes também. O que importa no fim é que nós chegamos lá e podemos guardar esses bons momentos por um longo tempo”, ressaltou Bianchi, que foi muito elogiado por Fernando Alonso (Ferrari), quarto no Principado.

“É fantástico, estou feliz por ele. Jules não é apenas um cara da Academia da Ferrari, ele também é um amigo. Passamos muito tempo juntos em Maranello, jogamos futebol, andamos de bicicleta, e viajamos juntos para algumas corridas. Estou extremamente feliz por ele, muito orgulhoso pelo que o resultado significa para a sua carreira”, contou o espanhol. “Não tenho dúvidas que ele terá uma boa carreira, mas espero que esse resultado faça com que ele tenha um carro mais competitivo ano que vem para mostrar mais os seus talentos”.

Se a previsão de Alonso se tornará realidade? Só o tempo dirá. Mas que Bianchi está trilhando um caminho positivo para ingressar num time grande no futuro, não resta dúvida…

Se o resultado no Principado renderá frutos para o futuro de Bianchi na F1? Só o tempo dirá

Se o resultado no Principado renderá frutos para o futuro de Bianchi na F1? Só o tempo dirá

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Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
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