México-1989: AGS celebra primeiro (e único) ponto de Tarquini

Ao não trocar pneus no Autódromo Hermanos Rodríguez, Gabriele Tarquini celebrou o sexto lugar no GP do México

Gabriele Tarquini (AGS) ignorou o desgaste de pneus, não foi aos boxes e comemorou o 6º lugar no México

Domingo, 28 de maio de 1989. Naquele dia, o Autódromo Hermanos Rodríguez, na Cidade do México, recebia o GP do México. Na etapa asteca, um italiano escreveria seu nome na história da Fórmula 1. Gabriele Tarquini foi o 238º piloto a pontuar na categoria máxima do automobilismo. A bordo de um AGS, o italiano obteve o sexto lugar na prova mexicana. Foi o primeiro top 6 da escuderia francesa desde o GP da Austrália de 1987, quando Roberto Moreno foi sexto em Adelaide. A celebração foi grande nos boxes. Entretanto, mal sabia Gabriele que aquele seria o único ponto dele na carreira. Tampouco os mecânicos imaginariam que aquela seria a última vez que um carro da equipe figuraria na zona de pontuação.

O sexto lugar foi um marco na trajetória de Tarquini. Nascido em 2 de março de 1962, em Giulianova, região central da Itália, Gabriele ingressou no automobilismo em 1976. O início ocorreu no kart, categoria na qual sagrou-se bicampeão nacional (1983 e 1984), campeão europeu (1983) e campeão mundial (1984). Após a consagração no kart, Gabriele resolveu partir para os monopostos. Porém, o salto foi gigantesco: dos carrinhos, Tarquini entrou na Fórmula 3000 Intercontinental. Disputou três temporadas, entre 1985 e 1987, mas não obteve grandes resultados – nesse período, conquistou três pódios. Ainda em 1987, teve sua primeira experiência na Fórmula 1 – no GP de San Marino, em Imola, alinhou com um Osella. Largou em 26º e último, mas abandonou com problemas no câmbio na volta 26.

Tarquini perambulou por times pequenos, como Osella, Coloni e FIRST: projetos fracassados

Antes da AGS, Tarquini perambulou por Osella, Coloni e FIRST: projetos fracassados

Em 1988, Gabriele ingressou no projeto da Coloni, escuderia que defendeu dois anos antes na F3000 e que tentava emplacar na Fórmula 1. Porém, foi um tremendo fiasco. Das 16 provas daquela temporada, Tarquini se classificou para oito etapas, completando apenas quatro GPs. Sua melhor participação ocorreu no Canadá, quando foi oitavo em Montreal. Sem bons resultados, o italiano partiu para outro empreendimento inusitado. A FIRST, uma equipe que também atuava na F3000, tinha a intenção de entrar na F1 com um chassis desenhado por Ricardo Divila, ex-Copersucar Fittipaldi, e impulsionado por um motor Judd. Todavia, o carro não passou pelo crash test, deixando Gabriele a pé para 1989.

A AGS surgiu na vida de Tarquini de forma trágica. O time ficou com um cockpit vago depois do terrível acidente de Philippe Streiff durante os testes de pré-temporada de 1989, no Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. O acidente deixou Streiff paraplégico, e abriu uma oportunidade na carreira do italiano. A escuderia francesa não correu no GP do Brasil, etapa de abertura do Mundial daquele ano. Na prova seguinte, em San Marino, Tarquini se juntou ao alemão Joachim Winkelhock para formar a dupla da equipe. Logo na estreia pela AGS, em Imola, obteve um bom oitavo lugar. Na corrida seguinte, em Mônaco, chegou a andar em quinto, mas abandonou com problemas elétricos.

Gabriele substituiu Philippe Streiff na AGS e viveu bons momentos em Imola e Mônaco

Gabriele substituiu Philippe Streiff na AGS e viveu bons momentos em Imola e Mônaco (foto)

Diante dos bons desempenhos nas etapas samarinesa e monegasca, Gabriele chegou confiante à Cidade do México, cenário do GP do México. Nos treinos de sexta, Tarquini obteve o 17º melhor tempo do dia, com 1m23s004. Para se ter uma ideia da boa marca do italiano, Winkelhock, seu companheiro na AGS, anotou 1m26s754, e sequer avançou para a pré-classificação. No sábado, Gabriele melhorou sua marca. Com 1m21s031, assegurou a 17ª posição no grid, 3s155 atrás de Ayrton Senna (McLaren), pole no Autódromo Hermanos Rodríguez com 1m17s876.

Na largada do GP do México de 1989, Tarquini ganhou quatro posições, completando a volta 1 em 13º

Na largada do GP do México de 1989, Gabriele Tarquini pulou para a 13º posição

A corrida

Na quente capital mexicana, Tarquini só tinha um objetivo: ver a bandeira quadriculada. Antes das luzes verdes se acenderem para o início do GP do México, o italiano certamente não imaginava que alcançaria a zona de pontos, ainda mais por estar calçando pneus macios da Goodyear, teoricamente menos duráveis. Porém, tudo foi favorável. Na largada, o piloto da AGS superou Philippe Alliot (Lola), Satoru Nakajima (Lotus) e Jonathan Palmer (Tyrrell) – Ivan Capelli (March), 4º no grid, saiu dos boxes. No fim da volta 1, estava em 13º. Na passagem seguinte, ultrapassou Stefano Modena (Brabham), assumindo o 12º posto. A ascensão continuou na volta 4, quando tomou a 11ª posição de Andrea de Cesaris (Dallara). Três voltas depois, superou Olivier Grouillard (Ligier) para ingressar no top 10.

Gabriele seguiu em 10º até a volta 15. Com o abandono de Thierry Boutsen (Williams), na passagem seguinte, o italiano da AGS subiu para o nono lugar. Na volta 17, o câmbio semiautomático do carro de Gerhard Berger (Ferrari) quebrou, beneficiando Tarquini, que passou a ocupar a oitava colocação. Ali permaneceu até a volta 33. Na passagem seguinte, Alain Prost (McLaren), com pneus duros, enfrentou problemas de desgaste e parou pela segunda vez nos boxes. De repente, Gabriele se via em sétimo, à frente do célebre francês. Na volta 36, Derek Warwick (Arrows), com problemas elétricos, deixou a prova. Isso bastou para Tarquini ingressar na zona de pontuação.

Gabriele resistiu ao calor, apesar de estar com pneus macios da Goodyear: estratégia foi crucial para o resultado

Gabriele resistiu ao calor, apesar de estar com pneus macios da Goodyear: tática foi crucial para o resultado

Entretanto, o italiano tinha uma preocupação: atrás dele, estava Prost. Como segurar um McLaren, tendo um AGS nas mãos e com os pneus desgastados? Impossível. Na volta 42, Alain superou Gabriele, derrubando-o para o sétimo lugar. Seria o fim do sonho do ponto? A resposta foi dada duas voltas depois. Nigel Mansell (Ferrari) repetiu Berger e sucumbiu com o câmbio quebrado, o que reconduziu Tarquini para o sexto lugar.

A partir dali, seria controlar a diferença para Eddie Cheever (Arrows) para assegurar o primeiro ponto da carreira. Mas não sem passar por um susto: na volta 53, Pierluigi Martini (Minardi) abandonou após a explosão de seu motor Ford. O óleo deixado pelo carro de Martini fez com que Gabriele escapasse da pista. O AGS do italiano ficou desequilibrado, mas não impediu Tarquini de concretizar o sonho de pontuar na categoria máxima do automobilismo.

Tarquini foi o 238º piloto a pontuar na categoria máxima do automobilismo: primeiro e único ponto

Tarquini foi o 238º piloto a pontuar na categoria máxima do automobilismo: primeiro e único ponto

A vitória no México ficou com Ayrton Senna (McLaren), seguido pelos italianos Riccardo Patrese (Williams), Michele Alboreto (Tyrrell) – este último, obteve em solo mexicano seu derradeiro pódio – e Alessandro Nannini (Benetton), com Prost em quinto. À Gabriele, ficou o sabor de sentir, pela primeira vez, a conquista de um ponto. Curiosamente – e lamentavelmente, para o italiano -, seria a única vez que sentiria aquele gosto…

Anúncios

Sobre contosdaf1

Desde 1981, um amante de automobilismo. E veio desde o registro, quando no cartório seu pai foi questionado se queria colocar o nome "Willians" no garoto. "Esse é o nome de uma escuderia. Pode dar problema para ele no futuro", disse a escrivã. Hoje em dia, a equipe Williams voltou a se destacar, enquanto o menino segue o destino. Jornalista, nascido em Santos, cobriu os GPs do Brasil de 2005 a 2009 em Interlagos pelo jornal A Tribuna. Acompanha a Fórmula 1 religiosamente desde 1986. Pretende fazer isso até seus últimos dias. Afinal, o faz desde o primeiro.
Esta entrada foi publicada em AGS, Andrea de Cesaris, Arrows, Brabham, Cidade do México, Coloni, Dallara, Derek Warwick, Eddie Cheever, FIRST, Gabriele Tarquini, Ivan Capelli, Joachim Winkelhock, Jonathan Palmer, Ligier, Lola, March, México, Michele Alboreto, Minardi, Olivier Grouillard, Phillipe Alliot, Phillipe Streiff, Pierluigi Martini, Satoru Nakajima, Stefano Modena, Tyrrell. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s